“E O ABENÇOEI, E ELE SERÁ ABENÇOADO”
“Então,
estremeceu Isaque de violenta comoção e disse: Quem é, pois, aquele que apanhou
a caça e ma trouxe? Eu comi de tudo, antes que viesses, e o abençoei, e ele
será abençoado” (Gn 27:33).
Aqui, uma vez
mais, a fé que estivera sufocada no peito do santo homem se renova e emite
novas fagulhas; pois não há dúvida de que seu temor emana da fé. Além disso, o
que Moisés descreve não é um temor comum, mas aquele que fez estremecer
totalmente o santo homem; porque, enquanto estava perfeitamente consciente de
sua própria vocação, e por isso estava persuadido de que o dever de nomear o
herdeiro em quem depositaria a aliança de vida eterna lhe fora divinamente
ordenado, no mesmo instante em que descobriu seu erro, se encheu de temor, que
numa questão tão grande e séria Deus deixou que ele errasse; porque, a menos
que concluísse que Deus era quem controlava esse ato, o que teria impedido de
ignorar sua ignorância como desculpa, e de enfurecer-se contra Jacó, que lhe
enganava por meio de fraude e astúcia? Mas, embora se cobrisse de vergonha por
causa do erro cometido, contudo, com uma mente renovada, ele confirma a bênção
que havia pronunciado; não tenho dúvida de que, como alguém que acorda, ele
começou a recordar o oráculo para o qual não atentara suficientemente.
Portanto, o santo homem não foi impelido pela ambição a ser assim tão firme em
seu propósito, como os homens obstinados costumam ser, os quais levam até as
últimas consequências o que uma vez começaram, ainda que nesciamente; mas a
declaração: “e o abençoei, e ele será
abençoado” era fruto de uma rara e preciosa fé; pois ele, renunciando os
afetos da carne, agora se rende inteiramente a Deus, e, reconhecendo-o como o
autor da bênção que havia impetrado, lhe atribui a devida glória, e não ousa revogá-la.
O benefício dessa doutrina pertence à Igreja, a fim de que saibamos com certeza
que tudo que os arautos do evangelho nos prometem pela ordenação de Deus será
eficaz e inabalável, porque não falam na qualidade de meros homens, e sim pela
ordenação do próprio Deus; e a debilidade do ministro não destrói a fidelidade,
poder e eficácia da palavra de Deus. Aquele que se nos apresenta com a missão
de oferecer a felicidade e vida eternas está sujeito às mesmas misérias e à
própria morte até; entretanto, a despeito de tudo isso, a promessa é eficaz.
Aquele que nos absolve dos pecados se fez a si mesmo pecado; visto, porém, que
seu ofício lhe foi divinamente designado, a firmeza dessa graça, tendo seu
fundamento em Deus, jamais falhará.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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