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sábado, 18 de abril de 2026

“NÃO TE LEMBRES DOS MEUS PECADOS DA MOCIDADE”


“NÃO TE LEMBRES DOS MEUS PECADOS DA MOCIDADE”

“Não te lembres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. Lembra-te de mim, segundo a tua misericórdia, por causa da tua bondade, ó SENHOR” (Sl 25:7).

Visto que nossos pecados são como um muro entre nós e Deus, o qual o impede de ouvir nossas orações, ou de estender sua mão em nosso auxílio, Davi agora remove tal obstrução. É deveras verdade, de modo geral, que os homens orariam de uma forma errônea e em vão, a menos que comecem a buscar o perdão de seus pecados. Não há esperança alguma de se obter algum favor de Deus a menos que ele nos reconcilie consigo. Como poderá nos amar a não ser que primeiro graciosamente nos reconcilie consigo mesmo? Portanto, a ordem própria e correta de orar é, como eu já disse, pedindo, logo de início, que Deus perdoe nossos pecados. Aqui Davi reconhece, em termos explícitos, que ele não pode de alguma outra forma tornar-se partícipe da graça de Deus a não ser que seus pecados sejam apagados. Por isso, para que Deus se mantenha acordado em relação à sua misericórdia para conosco, é indispensável que ele não lembre dos nossos pecados, porquanto a simples visão deles desvia de nós seu favor. Entrementes, com isso o salmista confirma mais claramente o que já havia dito, ou seja, que embora os perversos agissem em relação a ele com crueldade, e o perseguissem injustamente, no entanto atribuía a seus próprios pecados toda a miséria que suportava. Por que, pois, ele implora o perdão de seus pecados, recorrendo à misericórdia divina, senão porque reconhecia que, mediante o cruel tratamento que recebia de seus inimigos, simplesmente enfrentava a punição que justamente merecia? Ele, pois, agia sabiamente em volver seus pensamentos à causa primeira de sua miséria, com o intuito de encontrar o genuíno antídoto; e assim ele nos ensina, através de seu exemplo, que quando alguma aflição externa nos deprimir, não apenas roguemos a Deus que nos liberte dela, mas também que ele apague os nossos pecados, com os quais provocamos seu desprazer e nos colocamos sob a vara de seu castigo. E se porventura agirmos de outro modo, estaremos seguindo o exemplo dos médicos inexperientes que, ao diagnosticar a causa da doença, apenas buscam aliviar a dor, aplicando meramente remédios preventivos para a cura. Além do mais, Davi faz confissão não só de algumas ofensas leves, como os hipócritas costumam fazer, ou seja, confessando sua culpa de maneira geral e superficial, ou buscando algum subterfúgio, ou buscando atenuar a enormidade de seu pecado. Ele, porém, faz uma retrospecção de seus pecados, indo até sua infância e pondera de quantas formas ele havia provocado a ira divina contra si. Ao fazer menção dos pecados que cometera em sua juventude, ele não pretende com isso dizer que não guardava na memória alguns dos pecados que cometera em seus últimos anos; senão que desejava mostrar que se considerava digno da mais severa condenação. Em primeiro lugar, considerando que não havia começado a cometer pecado apenas agora, senão que desde outrora amontoara pecado sobre pecado, ele se curva, se podemos expressá-lo assim, debaixo de um peso acumulado. E, em segundo lugar, ele notifica que, se Deus o tratasse segundo o rigor da lei, não só os pecados de ontem, nem os de uns poucos dias, viriam a juízo contra ele, mas todas as instâncias em que havia ofendido, mesmo em sua infância, poderiam agora, com justiça, ser lançadas em sua acusação. Portanto, quando Deus nos terrificar com seus juízos e com os sinais de sua ira, avivemos nossa memória, não só em relação aos pecados que recentemente cometemos, mas também em relação a todas as transgressões de nossa vida pregressa, experimentando a renovação mediante sincera humilhação e lamentação.

Além do mais, com o fim de expressar mais plenamente que sua súplica é pelo gracioso perdão, ele pleiteia diante de Deus unicamente com base em seu beneplácito; e por isso ele diz: Lembra-te de mim, segundo a tua misericórdia, por causa da tua bondade, ó SENHOR. Quando Deus lança nossos pecados no esquecimento, isso o leva a olhar para nós com paternidade. Davi não podia descobrir nenhuma outra causa pela qual pudesse valer-se da paternidade divina, senão que Deus é bom, e desse fato segue-se que não há nada que induza a Deus a receber-nos em seu favor senão seu próprio beneplácito. Ao afirmar-se que Deus se lembra de nós com base em sua misericórdia, somos tacitamente levados a entender que há duas formas de lembrança que são totalmente antagônicas: uma é aquela em que ele visita os pecadores em sua ira; e a outra quando novamente manifesta seu favor àqueles de quem parecia por algum tempo ter-se esquecido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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