“LEMBRA-TE, SENHOR”
“Lembra-te, SENHOR,
das tuas misericórdias e das tuas bondades, que são desde a eternidade” (Sl
25:6).
Lembra-te, Senhor. Essa, pois, é
a queixa de um homem que sofre extrema angústia e se acha mergulhado em
profunda tristeza. Podemos aprender disso que, embora Deus, por algum tempo,
venha a subtrair de nós todo sinal de sua misericórdia e benevolência, e
aparentemente não leve em conta as misérias que nos afligem, nos esquecendo
como se lhe fôssemos estranhos e não seu próprio povo, devemos lutar
corajosamente até que, livres dessa tentação, cordialmente apresentemos a
oração que é aqui registrada, rogando a Deus que, retornando à sua maneira anterior
de nos tratar, ele uma vez mais comece a manifestar sua bondade para conosco e
a tratar-nos de uma forma mais graciosa. Essa forma de oração não pode ser usada
com propriedade, a menos que Deus esteja ocultando de nós sua face e pareça não
demonstrar nenhum interesse por nós. Ademais Davi, havendo recorrido à
misericórdia ou compaixão e benevolência de Deus, testifica que não confia em
seu próprio mérito como se este fosse a base de sua esperança. Aquele que
deriva cada coisa tão-somente da fonte da divina mercê nada encontra em si
mesmo digno de recompensa aos olhos de Deus. Mas como a intermissão que Davi
havia experimentado se tornara um obstáculo a impedir seu livre acesso à
presença de Deus, ele se eleva acima dela através de um antídoto muito melhor,
ou seja, a consideração de que, embora Deus, que de sua própria natureza é
misericordioso, se retraia e cesse por algum tempo de manifestar seu poder, todavia
não pode negar a si próprio; ou seja, não pode despir-se do sentimento de misericórdia
que lhe é inerente e que poderia cessar se porventura sua existência não fosse
eterna. Mas devemos manter firmemente esta doutrina, a saber: que Deus tem
sido misericordioso desde o princípio, de modo que, se alguma vez ele parece
agir com severidade em relação a nós e rejeitar nossas orações, não devemos
imaginar que ele age em oposição a seu próprio caráter, ou que mudasse de
propósito. Donde aprendemos com que objetivo as Escrituras por toda parte nos
informam que em todos os tempos Deus sempre considerou seus servos com olhos de
benignidade e exercitou sua compaixão para conosco. Devemos pelo menos
considerar como um ponto fixo e estabelecido que, embora a bondade divina às
vezes se mantenha oculta e, por assim dizer, sepultada da vista humana, ela
jamais poderá ser extinta.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

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