quinta-feira, 1 de agosto de 2024
quarta-feira, 31 de julho de 2024
"MANTÉM O PADRÃO DAS SÃS PALAVRAS"
"MANTÉM O PADRÃO DAS SÃS PALAVRAS"
”Mantém o padrão das
sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus” (2Tm 1.13).
Alguns tomam essa
expressão, “mantém o padrão”, no seguinte sentido: “Que a tua doutrina seja
um exemplo a que todos possam imitar”. Eu, porém, não a aceito nesse sentido.
Meu ponto de vista pessoal é que o apóstolo Paulo está dizendo a Timóteo que
guardasse firme a doutrina que havia aprendido, não só em sua substância, mas
também na própria forma de sua expressão. Pois o termo usado aqui, significa um
quadro vívido, como se o objeto envolvido estivesse realmente diante de seus
olhos. Paulo sabia quão inclinados são os homens à rebeldia e apostasia da sã
doutrina; por essa razão ele prudentemente exorta Timóteo a não se apartar da
forma de ensino que havia aprendido, e a ajustar seu método desse ensino à
regra estabelecida pelo apóstolo - não que ele fosse excessivamente escrupuloso
acerca de palavras, mas porque é terrivelmente danoso corromper a doutrina,
mesmo que em grau mínimo. À luz desse fato podemos entender o valor da teologia de várias igrejas, porquanto ela se degenerou tanto do padrão que Paulo aqui
recomenda, que se assemelha mais a enigmas de adivinhos e prognosticadores do
que com o ensino que tem por base a Palavra de Deus. Que indícios paulinos,
pergunto, há nos púlpitos? Essa libertina corrupção doutrinal revela quão sábio
fora Paulo em dizer a Timóteo que conservasse sua forma original.
Paulo acrescentou esse
elemento distintivo da sã doutrina, com fé e com o amor, com o propósito
de deixar-nos cientes de qual é o seu conteúdo e como ela pode se sumariada, e
inclui tudo isso, segundo seu hábito, sob a fé e o amor. Ele coloca a ambos em
Cristo como seu fundamento, visto que o conhecimento de Cristo consiste
primordialmente dessas duas partes, porque, ainda que a expressão, que há, está
no singular e concorda com a palavra amor, a mesma dever ser subentendida como
aplicável igualmente à fé. Ninguém pode perseverar na sã doutrina sem que seja
revestido de fé e amor sincero. Paulo usa essas duas palavras com o fim de
explicar mais claramente quais são as “sãs palavras” e do quê elas tratam. Ele
declara que toda a sua doutrina consiste de fé e amor, os quais têm sua fonte e
fundamento no conhecimento de Cristo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
terça-feira, 30 de julho de 2024
“PORQUE SEI EM QUEM TENHO CRIDO”
“PORQUE SEI EM QUEM TENHO CRIDO”
“E, por isso, estou
sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho
crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até
aquele Dia” (2Tm 1.12).
Eis aqui o único
refúgio para onde todos os crentes devem fugir quando o mundo os condena como
perdidos e infelizes, ou seja, que devem ter por suficiente o fato de poderem
contar com a aprovação divina; pois o que seria deles caso depositassem nos
homens sua confiança? Desse fato devemos inferir que há grande diferença entre
a fé e a mera opinião humana. A fé não depende da autoridade humana, tampouco é
uma confiança hesitante e dúbia em Deus; ela tem de estar associada ao
conhecimento, do contrário não será bastante forte contra os intermináveis
assaltos que Satanás lhe faz. O homem que, como Paulo, possui tal conhecimento
saberá de experiência própria que nossa fé é corretamente chamada “a vitória
que vence o mundo” [1Jo 5.4), e que Cristo tinha boas razões para dizer que “as portas do inferno
não prevalecerão contra ela” [Mt 16.18]. Tal homem será capaz de repousar
tranquilamente mesmo em meio às tormentas e tempestades deste mundo, visto que
alimenta uma confiança inabalável de que Deus, que não pode mentir ou enganar,
falou, e o que ele prometeu, certamente cumprirá. Por outro lado, o homem que
não tem essa verdade indelevelmente gravada em sua mente será sempre movido de
um lado a outro como um arbusto agitado pelo vento. Esta passagem merece nossa
detida atenção, pois ela explica de uma forma
muitíssimo excelente o poder da fé, quando demonstra que, mesmo em casos
extremos, devemos glorificar a Deus por não duvidarmos que ele se manterá
verdadeiro e fiel e por aceitarmos sua Palavra com a mesma certeza como se Deus
mesmo surgisse do céu diante de nós. O homem carente de tal convicção nada
entende. É preciso que tenhamos sempre em mente que Paulo não está a filosofar
no escuro, senão que, com a própria realidade diante dos olhos, está
solenemente declarando o grande valor daquela confiante certeza da vida eterna.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“DESIGNADO PREGADOR, APÓSTOLO E MESTRE”
“DESIGNADO PREGADOR, APÓSTOLO E MESTRE”
"Para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e e mestre" (2Tm 1.11).
O apóstolo Paulo tem boas razões para recomendar o evangelho de uma forma tão sublime juntamente com o seu próprio apostolado. Satanás trabalha muito mais do que imaginamos para banir de nossas mentes, por todos os meios possíveis, a fé na sã doutrina; e visto que nem sempre é fácil fazer isso através de um franco ataque à nossa fé, ele se arma contra nós secretamente e pelo uso de métodos indiretos; e a fim de destruir a credibilidade do correto ensino, ele desperta suspeitas acerca da vocação dos santos e mestres. Por isso Paulo, tendo a visão da morte ante seus olhos, e conhecendo bem as tramas bem articuladas de Satanás, determinou asseverar tanto o ensino do evangelho em geral quanto a necessidade de sua própria vocação. Ambas as coisas eram necessárias, pois ainda que apresentemos longos discursos acerca da dignidade do evangelho, os mesmo não nos seriam de muito valor, a menos que compreendamos o que o evangelho significa. Muitos darão seu assentimento ao princípio geral da autoridade indiscutível do evangelho, e não obstante ainda não terão nenhuma ideia definida do que se comprometeram seguir. Eis a razão por que Paulo deseja ser explicitamente reconhecido como fiel e legítimo ministro dessa doutrina vivificante, da qual ele estava justamente trazendo-lhes à memória; eis por que ele descreve a si próprio com os títulos de pregador, apóstolo e mestre. Ele se denomina de pregador [arauto], cujo dever é fazer públicos os decretos dos príncipes e magistrados. O título, apóstolo, lhe pertence de forma restrita; e visto que há uma relação especial entre um mestre e seus alunos, ele se descreve lançando mão desse terceiro título, para que os que aprendem dele saibam que têm um mestre designado por Deus mesmo.
E para quem Paulo diz
que fora designado? Para os gentios - pois o cerne da controvérsia eram eles,
visto que os judeus negavam que as promessas de vida se aplicassem a alguém
mais além dos filhos de Abraão segundo a carne. Portanto, a fim de que a
salvação dos gentios não fosse posta em dúvida, o apóstolo declara que fora
enviado especificamente por Deus para ministrar a eles.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“PELO APARECIMENTO DE NOSSO SALVADOR CRISTO JESUS”
"PELO APARECIMENTO DE NOSSO SALVADOR CRISTO JESUS"
“E manifestada, agora,
pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a
morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm
1.10).
Devemos notar quão
apropriadamente o apóstolo Paulo conecta a fé que recebemos do evangelho com a
eleição secreta de Deus e designa a cada uma o seu próprio lugar. Deus nos
chamou pela proclamação do evangelho, não porque repentinamente tivesse consciência
da nossa salvação, mas porque ele assim o determinou desde toda a eternidade.
Cristo agora se manifestou para essa salvação; não porque o poder de salvar lhe
tenha sido recentemente conferido, mas porque essa graça nos foi guardada nele
antes da criação do mundo. O conhecimento dessas coisas nos foi revelado pela
fé. E assim, o apóstolo sabiamente conecta o evangelho com as mais antigas
promessas de Deus, para que sua suposta novidade não o expusesse ao desprezo.
Suscita-se, porém, a
indagação, se tudo isso foi ocultado dos pais que viveram sob o regime da lei,
pois se a graça só foi revelada no advento de Cristo, então conclui-se que
antes ela estava oculta. Respondo que Paulo está falando da plena manifestação
da realidade propriamente dita, sobre a qual os pais também edificaram sua fé,
de modo que isso não os priva da realidade. Eis a razão por que Abel, Noé,
Abraão, Moisés, Davi e todos os santos obtiveram a mesma salvação que
obtivemos, pois também eles depositaram sua fé na manifestação [futura] de
Cristo. Ao dizer que a graça nos foi revelada mediante a manifestação de
Cristo, o apóstolo não exclui os pais da participação nela, pois a mesma fé os
fez partícipes conosco nessa manifestação. O Cristo de ontem é o mesmo de hoje
[Hb 13.8], mas que não se manifestara mediante sua morte e ressurreição antes
do tempo prefixado pelo Pai. Nossa fé e a de nossos pais sempre olham para o
mesmo ponto, porque neste fato jaz a única garantia e consumação de nossa
salvação.
O qual não só destruiu a morte. Pelo fato de atribuir
ao evangelho a manifestação da vida, Paulo não quer dizer que ela tenha sua
origem na Palavra sem referência alguma à morte e ressurreição de Cristo, posto
que o poder da Palavra repousa no assunto que ela contém; ao contrário, ele
quer dizer que a única maneira pela qual o fruto dessa graça pode chegar até
aos homens é através do evangelho, como expressou em 2Coríntios 5.19: “Deus
estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens
as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. É uma notável
e memorável recomendação do evangelho, que seja ele denominado o meio pelo qual
a vida se manifesta.
À vida Paulo adiciona imortalidade, querendo dizer: “uma vida
genuína e imortal”, a menos que você prefira considerar vida no sentido de regeneração, à qual segue a bem-aventurada
imortalidade que é ainda objeto da esperança. Pois nossa vida não consiste do
que temos em comum com as bestas brutas, ao contrário, consiste de nossa
participação na imagem de Deus. Visto, porém, que a natureza e valor genuínos
dessa vida não aparecem neste mundo [1Jo 3.2], para explicá-la ele acrescentou oportunamente
a imortalidade, a qual é a revelação dessa vida que ora está oculta.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“QUE NOS SALVOU E NOS CHAMOU COM SANTA VOCAÇÃO”
“QUE NOS SALVOU E NOS CHAMOU COM SANTA VOCAÇÃO”
“Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas
obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em
Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).
Pela visão da grandeza da bênção, o apóstolo Paulo demonstra o quanto
devemos a Deus, porque a salvação que ele nos outorgou facilmente absorve todos
os males que suportamos neste mundo. O termo “salvou”, ainda que seu significado seja de
caráter geral, aqui, neste contexto, refere-se somente à salvação eterna. Seu
significado consiste em que não haviam recebido através de Cristo nenhum livramento
passageiro e transitório, e, sim, uma salvação eterna, e desse modo se
revelariam extremamente ingratos, caso valorizassem sua vida fugaz, ou sua
reputação, em vez de reconhecê-lo como seu Redentor.
Paulo diz que fomos chamados com “santa vocação”. Ele faz de nossa
vocação o selo infalível de nossa salvação. Pois como a salvação foi consumada
na morte de Cristo, assim Deus nos faz partícipes dela através de Cristo. Para
magnificar essa vocação ainda mais, ele a qualifica de santa. Tal fato deve ser
cuidadosamente observado, pois assim como temos de buscar a salvação
exclusivamente em Cristo, ele também teria morrido em vão e a troco de nada
caso não nos chamasse para participarmos desta graça. Portanto, mesmo depois de
haver, com sua morte, nos conquitado a salvação, uma segunda bênção resta ser outorgada,
a saber, que ele nos uniria em seu Corpo e nos comunicaria seus benefícios a
fim de desfrutarmo-los.
O apóstolo também nos chama a atenção para a fonte, quer de nossa vocação,
quer de nossa salvação total. Não possuímos obras que sejam capazes de tomar a
iniciativa em lugar de Deus, de modo que a nossa salvação depende absolutamente
de seu gracioso propósito e eleição. Ainda que Paulo geralmente use o temo “determinação”
no sentido de “o decreto secreto de Deus”, o qual depende exclusivamente dele, o
apóstolo, aqui, decide adicionar “graça” com o fim de tornar sua tese
ainda mais explícita e poder excluir completamente toda e qualquer referência
as obras. A antítese, neste versículo, por si só é suficiente para deixar
completamente claro que não há espaço algum para as obras onde reina a graça de
Deus, especialmente quando somos lembrados da eleição divina, através da qual
ele antecipou eleger-nos antes que viéssemos à existência.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
segunda-feira, 29 de julho de 2024
“NÃO TE ENVERGONHES DO TESTEMUNHO DE NOSSO SENHOR”
“NÃO TE ENVERGONHES DO TESTEMUNHO DE NOSSO SENHOR”
“Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do
seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos,
a favor do evangelho, segundo o poder de Deus” (2Tm 1.8).
O apóstolo Paulo diz isso porque, pensava-se que confessar o evangelho
era uma grande desventura; por isso ele diz a Timóteo a não permitir que a ambição
ou o medo de infâmia obstruísse sua confiante pregação. Declara isso como uma
inferência do que esteve justamente afirmando. O homem que se ama com o poder
de Deus não se sentirá frustrado pelo tumulto do mundo, mas considerará uma
honra que os homens ímpios o cubram de vitupério. O evangelho é aqui denominado
com justiça, “o testemunho de nosso Senhor”, pois ainda que ele não
necessite de nosso auxílio, não obstante nos impõe o dever de dar testemunho a
seu respeito, bem como de sustentar sua glória. Essa é uma grande e especial
honra concedida por ele a todos nós, de tal modo que não há cristão que não se
considere uma testemunha de Cristo, mas é especialmente concedido aos pastores
e mestres, como Cristo mesmo disse a seus apóstolos: “Sereis minhas testemunhas”
[At 1.8]. Pois quanto mais o mundo demonstra seu ódio pelo ensino do evangelho,
mais coragem devem os pastores demonstrar em seus labores em confessá-lo
publicamente.
Ao acrescentar, “nem do seu encarcerado, que sou eu”,
o apóstolo admoesta Timóteo a não recusar ser seu companheiro numa causa comum.
Ao começarmos a nos esquivar da companhia daqueles que estão sofrendo
perseguição, nosso intuito é fazer que o evangelho fique isento de toda e
qualquer perseguição. Ainda que não faltassem pessoas perversas para dirigir a Timóteo
motejos e dizer: “Tu não vês o que tem acontecido a teu mestre? Por que, pois,
nos impões uma doutrina que vês ser desdenhada pelo mundo inteiro?” Não
obstante, ele deve ter se sentido feliz com essa admoestação. Paulo lhe diz: “Não
precisas sentir-se envergonhado a meu respeito, pois de nada tenho que me
envergonhar, porque sou o prisioneiro de Cristo; não estou em cadeias por algum
crime ou malfeito, e, sim, por seu nome”. Ele diz a Timóteo como fazer o que
lhe pede, ou seja, preparando-se para sofrer as aflições que estão relacionadas
com o evangelho, pois esquivar-se da cruz ou tentar evitá-la significa sempre
envergonhar-se do evangelho. E assim Paulo tem duas razões para encorajar
Timóteo a ser ousado em sua confissão, e ao falar sobre levar a cruz, que ele
não o fizesse em vão.
E acrescenta “segundo o poder de Deus”, porque imediatamente
sucumbimos caso ele não nos sustentasse. A frase contém tanto de admoestação
quando de consolação. A admoestação é para volvermos nossos olhos de nossas
presentes fraquezas e, confiando no socorro divino, aventurarmo-nos e
esforçarmo-nos em relação às coisas que se encontram além de nossas próprias
forças; o conforto é para que, caso soframos algo por conta do evangelho, Deus
virá e nos livrará e em seu poder nos dará vitória.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
domingo, 28 de julho de 2024
“DEUS NÃO NOS TEM DADO ESPÍRITO DE COVARDIA”
"DEUS NÃO NOS TEM DADO ESPÍRITO DE COVARDIA"
"Porque Deus não nos tem
dado espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação" (2Tm 1.7).
Este versículo confirma a afirmação anterior de Paulo, pela qual ele
prossegue insistindo com Timóteo a apresentar evidência do poder dos dons que
recebera. Ele apela para o fato de que Deus governa seus ministros pelo
espírito de poder que é o oposto do espírito de covardia. Daqui se conclui que
eles não devem cair na indolência, mas que devem animar-se com profunda segurança
e ardorosa atividade, e que exibam com visíveis resultados o poder do Espírito.
Há uma passagem em Romanos 8.15 que, à primeira vista, se assemelha muito a
esta; o contexto, porém, revela que o sentido é diferente. Ali, ele está
tratando da confiança na adoção possuída por todos os crentes; aqui, porém, sua
preocupação é especificamente com os ministros e os exorta na pessoa de Timóteo
a animar-se para dinâmicos feitos de bravura, pois o Senhor não quer que
exerçam seu ofício pastoral com apatia, senão que avancem com todo vigor,
confiando na eficácia do Espírito.
“Mas de poder, de amor e de moderação”. Daqui aprendemos que nenhum de nós possui
em si mesmo a excelência de espírito e a inabalável confiança necessária no
exercício de nosso ministério; devemos ser revestidos com o novo poder do alto.
Os obstáculos são tantos e tão imensuráveis, que nenhuma coragem humana é
suficiente para transpô-los. Portanto, é Deus quem nos equipa com o Espírito de
poder. Pois aqueles que, por outro lado, revelam grande força, caem quando não
são sustentados pelo poder do Espírito de Deus.
Em segundo lugar, inferimos que os que são tímidos e servis como
escravos, de modo que, quando precisam soerguer-se não ousam tomar qualquer
iniciativa em defesa da verdade, esses não são governados pelo Espírito que age
sobre os servos de Cristo. Daí se conclui que mui poucos daqueles que se
denominam ministros de Cristo, hoje,
dão mostras de ser genuínos. Pois dificilmente se encontrará entre eles um que,
confiando no poder do Espírito, destemidamente desdenhe de toda altivez que se exalta
contra Cristo! Acaso a grande maioria não se preocupa mais com seu próprio interesse?
Não se prostram mudos assim que estala algum problema? Como resultado, em seu
ministério não resplandece nada da majestade de Deus.
Mas, por que depois de poder ele acrescenta amor e moderação? Em minha
opinião, é para distinguir o poder do Espírito do excessivo zelo dos fanáticos
que se precipitam numa desenfreada pressa e se gabam de possuir o Espírito de
Deus. Portanto, o apóstolo Paulo explicitamente declara que a poderosa energia
do Espírito é temperada pelo amor e sobriedade, ou seja, por uma serena
solicitude pela edificação. Paulo não está negando que o mesmo Espírito fosse
comunicado aos profetas e mestres antes da publicação do evangelho, mas insinua
que essas duas graças seriam especialmente evidentes e poderosas sob o reino de
Cristo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
“QUE REAVIVES O DOM DE DEUS QUE HÁ EM TI”
“QUE REAVIVES O DOM DE DEUS QUE HÁ EM TI”
“Pela recordação que guardo de tua fé sem fingimento, a mesma que,
primeiramente, habitou em tua avó Lóide e em tua mãe Eunice, e estou certo de
que também, em ti. Por esta
razão, pois, te admoesto que reavives o dom de Deus que há em ti pela imposição
das minhas mãos” (2Tm 1.5,6).
O apóstolo Paulo enaltece a fé tanto de Timóteo quanto de sua vó e sua
mãe, mais para encorajá-lo do que para elogiá-lo. Pois quando alguém sente que
fez bom e corajoso começo, seu progresso deve injetar-lhe ânimo para avançar
mais, e os exemplos de seu próprio círculo familiar são o mais forte incentivo
a impulsioná-lo para frente. Essa é a razão por que ele pôs sua avó, Lóide, e
sua mãe, Eunice, por cuja instrumentalidade fora educado em sua infância, de
uma forma tal que ele pôde nutrir-se da piedade.
“Por esta razão, pois,
te admoesto que reavives o dom de Deus”. O que Paulo quer dizer é que, quanto
mais abundante for a participação que Timóteo tiver na graça que recebera, mais
intenso deve ser o seu desejo de progredir diariamente. É preciso que atentemos
bem como as palavras, por esta razão, conectam
esta passagem com o que vem antes. Porque esta exortação é sumamente
necessária, pois sucede com frequência, e deveras é muito natural, que a
excelência dos dons produz descuido e frouxidão, sendo essa a maneira na qual
Satanás age continuamente a fim de extinguir em nós tudo quando provém de Deus.
“Que há em ti pela
imposição das minhas mãos”. Não há dúvida que Timóteo fora
solicitado a ser ministro pelo sufrágio comum da Igreja, e que não fora
escolhido pela seleção pessoal da iniciativa de Paulo, mas é mui compreensível
que Paulo atribua a eleição a ele pessoalmente, visto ter sido seu principal
incentivador. Mas aqui ele está tratando de sua ordenação, e não de sua
eleição, ou seja, do solene ato de instituição ao ofício de pastor: “Não
negligencies o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com
a imposição das mãos do presbitério [1Tm 4.14].
A imposição de
mãos era um fiel emblema da graça que eles recebiam da própria mão de Deus.
Essa cerimônia não era um ato profano, engendrado só com o intuito de obter
autoridade aos olhos dos homens, mas era um legítimo ato de consagração diante
de Deus, algo que só poderia ser efetuado pelo poder do Espírito Santo. É
verdade que Timóteo se distinguia tanto em doutrina quanto em outros dons antes
que Paulo o designasse para o ministério. Mas não há incongruência alguma em ele
sustentar que quando Deus propôs usar Timóteo em sua obra, e convocá-lo para a
sua realização, ele então o capacitou e o enriqueceu ainda mais com novos dons,
ou conferiu-lhes uma dupla porção daqueles que já havia recebido. Portanto, não
significa que Timóteo não possuísse nenhum dom antes de sua ordenação, senão
que esses dons se manifestaram mais gloriosamente quando a função docente lhe
foi conferida.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
sexta-feira, 26 de julho de 2024
“TORNAM-SE-LHE MANIFESTOS OS SEGREDOS DO CORAÇÃO”
“TORNAM-SE-LHE MANIFESTOS OS SEGREDOS DO CORAÇÃO”
“Tornam-se-lhe
manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra,
adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós” (1Co 14.25).
Quando o apóstolo Paulo
diz no versículo 24 que o incrédulo é por
todos convencido e por todos julgado, devemos entendê-lo como a falar por
todos os que profetizam, pois havia dito no início do versículo: “se todos
profetizarem”. Ele fez uso proposital do termo “todos” a fim de demovê-los de seu
menosprezo em relação à profecia. O incrédulo é convencido, afirmo, não porque
a profecia pronuncia juízo sobre ele, seja em sua opinião secreta, não
expressa, ou no que ele realmente diz em termos explícitos, mas porque, ao ouvir
sua consciência aceita seu próprio julgamento através do que é ensinado. Ele é
julgado porque desce às profundezas do seu próprio ser e, após examinar-se,
chega a uma avaliação do que ele realmente é, este conhecimento que lhe fora
negado antes. Há uma palavra de Cristo que constitui a mesma ideia: “Quando ele
[o Espírito Santo] vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”
(Jo.16.8). Logo a seguir Paulo adiciona: “Os segredos de seu coração se farão
manifestos”. Pois, em minha opinião, Paulo não quer dizer que não é evidente a
alguém que tipo de pessoa ele é, senão que sua consciência é despertada para
que ele conheça seus pecados, os quais lhe estiveram ocultos até então.
Pois é o conhecimento
de Deus, e nada mais, o que pode reduzir o orgulho da carne. A profecia leva
isso a suceder-nos. Por sua própria natureza, ela é peculiarmente eficaz para
derribar os homens de seus pináculos e fazê-los prostrar-se em adoração diante
de Deus. Todavia, mesmo a profecia é de nenhum valor para muitos; na verdade,
ao ouvi-la, se tornam piores ainda. Demais, ao atribuir este poder à profecia,
Paulo não pretendia inferir que ela é invariavelmente operante. Queria
simplesmente realçar que dela advém grande benefício e qual a natureza de sua
função. Portanto, deixa-se entrever que ela força os incrédulos a confessar que
Deus está presente com o seu povo, e sua majestade é refletida em sua reunião.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).





