"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 22 de abril de 2025

“A SUPREMA EVIDÊNCIA DO AMOR DE CRISTO”


“A SUPREMA EVIDÊNCIA DO AMOR DE CRISTO”

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”

4. Aqui vemos a suprema evidência do amor de Cristo por nós.

“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15.13). Mas a grandeza do amor de Cristo pode ser estimada somente quando estamos aptos a mensurar o que estava envolvido nesse “dar” a sua vida. Como vimos, significava muito mais do que a morte física, mesmo que essa fosse de indizível vergonha, e indescritível sofrimento. Significava que ele tinha de tomar o nosso lugar e ser feito “pecado” por nós, e o que isso envolvia só pode ser julgado à luz de sua pessoa.

Imagine uma mulher perfeitamente honrada e virtuosa forçada a suportar, por algum tempo, a associação com o que há de mais vil e impuro. Imagine-a encerrada num antro de iniquidade, rodeada pelos mais grosseiros dentre os homens e as mulheres, e sem nenhum meio de escape. Você pode avaliar sua repulsa às blasfêmias de suas bocas sujas, à farra de embriaguez, à obscenidade dos arredores? Você pode formar uma opinião do que uma mulher pura sofreria em sua alma em meio a tal impureza? Mas a ilustração é, de longe, falha, pois não há nenhuma mulher absolutamente pura. Honrada, virtuosa, moralmente pura, sim, porém, pura no sentido de ser sem pecado, espiritualmente pura, não. Mas Cristo era puro; absolutamente puro. Ele era o Santo. Ele tinha uma infinita aversão ao pecado. Ele o aborrecia. Sua alma santa se esquivava dele. Mas, na cruz, nossas iniquidades foram todas postas sobre ele, e o pecado — essa coisa vil — envolvia-se em torno dele como uma horrível serpente enrolada. E, contudo, ele de bom grado sofreu por nós! Por quê? Porque nos amou: “Como havia amado os seus, que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (Jo 13.1).

Mas, mais ainda: a grandeza do amor de Cristo por nós pode ser avaliada apenas quando somos capazes de medir a ira divina que foi derramada sobre ele. Era disso que sua alma se esquivava. O que isso significou para ele, o que custou a ele, pode se saber em parte por um minucioso exame dos salmos nos quais se nos permite ouvir algo de seus patéticos solilóquios e petições a Deus. Falando com antecipação, o próprio Senhor Jesus pelo Espírito clamou através de Davi:

“Livra-me, ó Deus, pois as águas entraram até à minha alma. Atolei-me em profundo lamaçal, onde se não pode estar em pé; entrei na profundeza das águas, onde a corrente me leva. Estou cansado de clamar; secou-se-me a garganta; os meus olhos desfalecem esperando o meu Deus”.

“Tira-me do lamaçal, e não me deixes atolar; seja eu livre dos que me aborrecem, e das profundezas das águas. Não me leve a corrente das águas e não me sorva o abismo, nem o poço cerre a sua boca sobre mim”.

“E não escondas o teu rosto do teu servo, porque estou angustiado; ouve-me depressa. Aproxima-te da minha alma, e resgata-a; livra-me por causa dos meus inimigos. Bem conheces a minha afronta, e a minha vergonha, e a minha confusão; diante de ti estão todos os meus adversários. Afrontas me quebrantaram o coração, e estou fraquíssimo. Esperei por alguém que tivesse compaixão, mas não houve nenhum; e por consoladores, mas não os achei” (Sl 69.1-3;14,15;17-20).

E outra vez: “Um abismo chama outro abismo, ao ruído das tuas catadupas; todas as tuas ondas e vagas têm passado sobre mim” (Sl 42.7). A aversão divina ao pecado sobreveio impetuosa e rebentou sobre o Portador do Pecado. Aguardando de modo expectante a terrível angústia da cruz, ele clamou através de Jeremias: “Não vos comove isto a todos vós que passais pelo caminho? Atendei, e vede, se há dor como a minha dor, que veio sobre mim, com que me entristeceu o Senhor, no dia do furor da sua ira” (Lm 1.12). Essas são algumas das passagens que nos sugerem e pelas quais podemos julgar o indizível horror com que o Santo contemplava aquelas três horas na cruz, horas nas quais estava condensado o equivalente a uma eternidade no inferno. O amado do Pai deve ter a luz da face de Deus ocultada dele; ele deve ser deixado sozinho nas trevas exteriores.

Aqui tinha amor incomparável e imensurável. “Se queres, passa de mim este cálice”, ele clamou. Mas não era possível que seu povo fosse salvo a menos que ele bebesse até a última gota daquele copo de desgraça e ira; e, porque não havia nenhum outro que podia bebê-lo, ele o fez. Bendito seja seu nome! Onde o pecado havia trazido o homem, o amor trouxe o Salvador.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

domingo, 20 de abril de 2025

“A BASE DA NOSSA SALVAÇÃO”


A BASE DA NOSSA SALVAÇÃO

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”

3. Aqui podemos ver a base da nossa salvação.

Deus é santo e, por conseguinte, não aceita ver pecado. Ele é justo e, portanto, julga o pecado em qualquer lugar onde seja encontrado. Mas Deus também é amor: Ele se deleita na misericórdia e, em consequência, a infinita sabedoria ideou um meio pelo qual a justiça pudesse ser satisfeita e a misericórdia liberada para fluir aos culpados pecadores. Esse meio foi o da substituição, o justo padecendo pelo injusto. O próprio Filho de Deus foi o selecionado para ser o substituto, pois nenhum outro satisfaria. Através de Naum, a questão fora feita: “Quem pode manter-se diante do seu furor? E quem pode subsistir diante do ardor da sua ira?” (1.6). Essa questão recebeu sua resposta na adorável pessoa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Só ele podia “manter-se”. Somente um podia levar a maldição e ainda ressurgir como um vitorioso sobre ela. Somente um podia suportar toda a ira vingativa e, todavia, glorificar a lei e torná-la digna de honra. Somente um podia suportar que seu calcanhar fosse ferido por Satanás e contudo naquela ferida destruir a ele, que tinha o poder da morte. Deus sustentou um que era “poderoso” (Sl 89.19). Um que era ninguém menos que o Companheiro de Deus, o resplendor da sua glória, a expressa imagem de sua pessoa Desse modo, vemos que o amor ilimitado, a justiça inflexível e o poder onipotente combinaram-se todos para tornar possível a salvação daqueles que creem.

Na cruz, todas as nossas iniquidades foram postas sobre Cristo e, portanto, o julgamento divino recaiu sobre ele. Não havia nenhum meio de transferência de pecado sem também transferir sua pena. Tanto o pecado quanto sua punição foram transferidos para o Senhor Jesus. Na cruz ele estava fazendo propiciação, e propiciação é apenas para com Deus. Era uma questão de ir de encontro aos reclames divinos de santidade; era uma questão de satisfazer as exigências de sua justiça. Não só foi o sangue de Cristo vertido por nós, mas também vertido para Deus: ele “se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Ef 5.2). Dessa forma, isso foi prefigurado na memorável noite da Páscoa no Egito: o sangue do cordeiro deve estar onde o olho de Deus o possa ver — “Vendo eu sangue, passarei por cima de vós”.

A morte de Cristo na cruz foi uma morte maldita: “Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro” (Gl 3.13). A “maldição” é alienação de Deus. Isso fica evidente pelas palavras que Cristo ainda dirá àqueles que estarão à sua esquerda no dia de seu poder — “Apartai-vos de mim, malditos”, ele dirá (Mt 25.41). A maldição é desterro da presença e glória divinas.

Isso explica o sentido de vários tipos do Antigo Testamento. O boi que era morto anualmente no Dia da Expiação, após seu sangue ter sido espargido sobre e diante do propiciatório, era removido para um lugar “fora (exterior) do arraial” (Lv 16.27) e ali seu cadáver era queimado por inteiro. Era no centro do acampamento que Deus tinha sua residência, e a exclusão do acampamento significava banimento de sua presença. Assim também com o leproso. “Todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial” (Lv 13.46) — isso porque aquele era o tipo encarnado do pecador. Aqui, ainda, está o antítipo da “serpente de bronze”. Por que Deus instruiu Moisés a colocar uma “serpente” sobre uma haste, e ordenou aos israelitas mordidos para olhar para ela? Imagine uma serpente como tipo de Cristo, o Santo de Deus! Sim, mas ela representava-o como “[feito] maldição por nós”, pois a serpente era a lembrança da maldição. Na cruz, então, Cristo estava cumprindo esses símbolos do Antigo Testamento. Ele estava “fora do arraial” (compare Hebreus 13.12) — separado da presença de Deus. Ele era o “leproso” — feito pecado por nós. Ele era como a “serpente de bronze” — feito maldição por nós. Daí, também, o profundo significado da coroa de espinhos — o símbolo da maldição! Levantado, coroado de espinhos, para mostrar que estava levando a maldição em nosso lugar.

Aqui, também, está a significação das três horas de trevas que cobriram a terra como uma mortalha de morte. Era uma escuridão sobrenatural. Não era noite, pois o sol estava em seu zênite. Como bem o disse o Sr. Spurgeon, “Fez-se meia-noite ao meio-dia”. Não foi eclipse algum. Os astrônomos competentes nos dizem que ao tempo da crucificação a lua estava à sua maior distância do sol. Mas esse brado de Cristo dá o sentido das trevas, enquanto que essas nos dão o significado daquele amargo brado. Somente uma coisa pode explicar tal escuridão, visto que uma coisa apenas pode interpretar tal clamor — que Cristo havia tomado o lugar dos culpados e perdidos, que ele se pôs no lugar para levar os pecados, que ele estava sofrendo o julgamento devido por seu povo, que ele que não conheceu pecado “[Deus] o fez pecado” por nós. Aquele brado foi proferido para que a nós fosse concedido saber do que se passava ali. Era a manifestação da expiação, por assim dizer, pois três (três horas) é sempre o número de manifestação. Deus é luz e as “trevas” é o sinal natural de sua repulsa. O Redentor foi deixado sozinho com o pecado do pecador: tal era a explicação das três horas de escuridão. Assim como repousará sobre o condenado eternamente uma dupla miséria no lago de fogo, a saber, a dor do sentido e a dor da perda; do mesmo modo, Cristo, em correspondência, sofreu a ira de Deus derramada sobre si e também o afastamento de sua presença e comunhão.

Para o crente a cruz é interpretada em Gálatas 2.20: “Estou crucificado com Cristo”. Ele foi o meu substituto; Deus considera-me um com o Salvador. Sua morte foi a minha. Ele foi ferido por minhas transgressões e ferido por minhas iniquidades. O pecado não foi afastado, mas descartado. Como disse alguém: “Porque Deus julgou o pecado sobre o Filho, ele agora aceita o pecador crente no Filho”. Nossa vida está escondida com Cristo em Deus (Cl 3.3). Eu estou encerrado em Cristo porque Cristo foi excluído de Deus.

Ele sofreu em nosso lugar, ele salvou seu povo assim; A maldição que caiu sobre sua cabeça, era por direito devida por nós. A tempestade que curvou sua bendita cabeça, é apaziguada para sempre agora E o descanso divino é meu no lugar, enquanto ele está coroado de glória.

Aqui então está a base da nossa salvação. Nossos pecados foram levados. As reivindicações divinas contra nós foram plenamente satisfeitas. Cristo foi desamparado por Deus por um tempo para que pudéssemos desfrutar da sua presença para sempre. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Que toda alma crente dê a resposta: ele adentrou as terríveis trevas para que eu pudesse andar na luz; ele bebeu o cálice de angústia para que eu pudesse beber o cálice de gozo; ele foi abandonado para que eu pudesse ser perdoado!

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“A ABSOLUTA SANTIDADE E A INFLEXÍVEL JUSTIÇA DE DEUS”


A ABSOLUTA SANTIDADE E A INFLEXÍVEL JUSTIÇA DE DEUS

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?"

2. Aqui vemos a absoluta santidade e a inflexível justiça de Deus.

A tragédia do Calvário deve ser vista de pelo menos quatro pontos de vista. Na cruz o homem fez uma obra: ele mostrou sua depravação ao pegar o Perfeito e com “mãos iníquas” pregando-o no madeiro. Na cruz Satanás fez uma obra: ele manifestou sua insaciável inimizade contra a semente da mulher ferindo o calcanhar dele. Na cruz o Senhor Jesus fez uma obra: morreu o Justo pelos injustos para que pudesse nos trazer a Deus. Na cruz Deus fez uma obra: ele exibiu sua santidade e satisfez sua justiça derramando sua ira sobre aquele que foi feito pecado por nós.

Que pena humana é capaz ou apropriada para escrever acerca da imaculada santidade divina! Tão santo é Deus que o mortal não pode vê-lo em seu ser essencial, e viver. Tão santo é Deus que os próprios céus não são puros aos seus olhos. Tão santo é Deus que até os serafins cobriam suas faces com véus diante dele. Tão santo é Deus que, quando Abraão ficou de pé perante ele, clamou, “Sou pó e cinza” (Gn 18.27). Tão santo é Deus que, quando Jó entrou em sua presença, disse: “Por isso me abomino” (Jó 42.6). Tão santo é Deus que, quando Isaías teve uma visão de sua glória, exclamou: “Ai de mim, que vou perecendo porque... os meus olhos viram o rei, o Senhor dos Exércitos” (Is 6.5). Tão santo é Deus que, quando Daniel o contemplou numa manifestação teofânica, declarou: “Não ficou força em mim; desfigurou-se a feição do meu rosto” (Dn 10.8). Tão santo é Deus que nos é dito: “Tu és tão puro de olhos que não podes ver o mal, e que não podes contemplar a perversidade” (Hc 1.13). E foi porque o Salvador estava levando nossos pecados que o trinamente santo Deus não o contemplou, virou sua face dele, abandonou-o. O Senhor fez que se encontrasse em Jesus as iniquidades de nós todos: e nossos pecados estando sobre ele como nosso substituto, a ira divina contra as nossas ofensas devesse passar sobre nossa oferta de pecado.

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Essa era uma questão que nenhum daqueles ao redor da cruz podia ter respondido; era uma questão que, ao mesmo tempo, nenhum dos apóstolos podia ter respondido; sim, era uma questão que havia confundido os anjos no céu, deixando-os sem resposta. Mas o Senhor Jesus havia respondido sua própria questão, e sua resposta é achada no Salmo 22. Esse salmo fornecia a mais maravilhosa predição profética de seus sofrimentos. Ele abre com as próprias palavras da quarta elocução de nosso Salvador sobre a cruz, e é seguido por mais soluços de agonia no mesmo tom até que, no versículo 3, achamo-lo dizendo — “Tu és Santo”. Ele se queixa, não da injustiça, antes reconhece a retidão de Deus — tu és santo e justo em cobrar de minhas mãos toda a dívida para a qual me fiz fiador; tenho de responder pela totalidade dos pecados de todo meu povo e, por conseguinte, ó Deus, és parte legítima em me golpear com tua espada desperta. Tu és santo; tu és puro quando julgas.

Na cruz, então, como em nenhum outro lugar, vemos a infinita malignidade do pecado e da justiça divina na punição desse. Não foi o mundo antigo coberto pelas águas? Não foram Sodoma e Gomorra destruídas por uma tempestade de fogo e enxofre? Não foram as pragas enviadas sobre o Egito e Faraó e seus exércitos afogados no Mar Vermelho? Nesses casos, o demérito do pecado e o ódio de Deus por ele puderam ser vistos; mas muito mais o é aqui, em que Cristo é desamparado por ele. Vá ao Gólgota e veja o Homem que é Companheiro de Deus bebendo do copo da indignação do Pai, castigado pela espada da justiça divina, ferido pelo próprio Senhor, sofrendo até a morte, pois Deus “não poupou seu próprio Filho” quando o pendurou no lugar do pecador.

Eis como a própria natureza antecipara a terrível tragédia — o próprio contorno do chão se assemelha a um crânio. Eis a terra tremendo sob a poderosa carga da ira despejada. Eis os céus e o sol fugirem de uma tal cena, e a terra ser coberta de trevas. Aqui podemos ver a pavorosa cólera de um Deus que vinga o pecado. Nem todos os relâmpagos do julgamento divino que foram liberados nos tempos do Antigo Testamento, nem todas as taças da ira que serão despejadas sobre uma Cristandade apóstata durante os tempos sem paralelos da Grande Tribulação, nem todo choro e lamento e ranger de dentes dos condenados para sempre no Lago de Fogo jamais deram ou mesmo darão uma tal demonstração da inflexível justiça de Deus e de sua inefável santidade, de seu infinito ódio ao pecado, como o fez a ira divina que ardeu contra seu próprio Filho na cruz. Porque estava sofrendo o horripilante julgamento do pecado, foi desamparado por Deus. Aquele que era o Santo, cuja própria repulsa ao pecado era infinita, que era a pureza encarnada (1Jo 3.3), [Deus] “o fez pecado por nós” (2Co 5.21); portanto, ele se curvou mesmo perante a tempestade de ira, na qual foi mostrado o desprazer divino contra os incontáveis pecados de uma grande multidão que homem algum pode numerar. Essa, então, é a verdadeira explicação do Calvário. O santo caráter de Deus não podia fazer nada senão julgar o pecado, mesmo que fosse achado no próprio Cristo. Na cruz, pois, a justiça divina foi satisfeita e sua santidade reivindicada.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”


“DEUS MEU, DEUS MEU, POR QUE ME DESAMPARASTE?”

“E perto da hora nona exclamou Jesus em alta voz, dizendo: Eli, Eli, lama sabactani; isto é, Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27.46).

1. Aqui vemos a enormidade do pecado e o caráter de seu salário.

O Senhor Jesus foi crucificado ao meio-dia, e na luz do Calvário tudo foi revelado em seu verdadeiro caráter. Ali, a própria natureza das coisas foi plena e finalmente exibida. A depravação do coração humano — seu ódio por Deus, sua ingratidão abjeta, seu amor às trevas no lugar da luz, sua preferência por um assassino no lugar do Príncipe da vida — foi horrivelmente mostrada. O terrível caráter do diabo — sua hostilidade contra Deus, sua insaciável inimizade contra Cristo, seu poder de pôr no coração do homem a traição ao Salvador — foi plenamente exposta. Assim, também, as perfeições da natureza divina — a inefável santidade de Deus, sua justiça inflexível, sua ira terrível, sua graça sem par — foi de todo conhecida. E ali também foi que o pecado — sua vileza, sua torpeza, sua não sujeição a leis — foi claramente exibido. Aqui nós vemos a horrenda extensão a que o pecado chegará. Em sua primeira manifestação ele tomou a forma de suicídio, pois Adão destruiu sua própria vida espiritual; em seguida o vemos atingido, com o deicídio — o homem crucificando o Filho de Deus.

Porém, não apenas vemos a hediondez do pecado na cruz, mas ali também descobrimos o caráter de seu horrível pecado. “O salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). A morte é a herança do pecado. “Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por isso que todos pecaram” (Rm 5.12). Não houvesse pecado nenhum, não haveria morte alguma. Mas o que é “morte”? É aquele pavoroso silêncio que reina supremo após se dar o último fôlego e o corpo ficar sem movimentos? É aquela cadavérica palidez que vem sobre a face quando o sangue cessa de circular e os olhos ficam sem expressão? Sim, é isso, mas muito mais. Algo de longe mais patético e trágico do que a dissolução física está contido no termo.

O salário do pecado é a morte espiritual. O pecado separa de Deus, que é a fonte de toda vida. Isso foi manifestado no Éden. Antes da Queda, Adão desfrutava de bendita companhia com seu Criador, mas na própria véspera daquele dia que marcou a entrada do pecado em nosso mundo, enquanto o Senhor Deus entrava no Jardim e sua voz era ouvida por nossos primeiros pais, o par culpado escondeu-se entre as árvores do lugar. Não mais poderiam eles gozar de comunhão com ele que é sempre Luz, antes, ficaram alienados dele. Assim, também, se deu com Caim: quando interrogado pelo Senhor ele disse: “Da tua face me esconderei” (Gn 4.14). O pecado exclui da presença de Deus. Essa foi a grande lição ensinada a Israel. O trono de Deus estava no meio deles, todavia não era mais acessível. Ele habitava entre os querubins no santo dos santos e a esse ninguém poderia chegar, com exceção do sumo sacerdote, e ele, apenas um dia por ano, levando sangue consigo. O véu pendurado tanto no tabernáculo quanto no templo, vedando o acesso ao trono divino, testemunhava o solene fato de que o pecado separa dele.

O salário do pecado é a morte, não somente física, mas espiritual; não meramente natural mas, essencialmente, morte penal. O que é morte física? É a separação da alma e do espírito do corpo. Assim, a morte penal é a separação da alma e do espírito de Deus. A palavra da verdade fala daquela que vive em prazer como “embora viva, está morta” (1Tm 5.6). Repare, ainda, como a maravilhosa parábola do filho pródigo ilustra a força do termo “morte”. Após o retorno do pródigo o pai disse: “Este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado” (Lc 15.24). Enquanto ele estava na “terra longínqua”, não havia cessado de existir; não, ele não estava morto fisicamente, mas espiritualmente — estava alienado e separado de seu pai!

Agora, na cruz, o Senhor Jesus estava recebendo o salário que era devido por seu povo. Ele não tinha pecado algum que fosse seu, pois era o Santo de Deus. Mas estava levando nossos pecados em seu próprio corpo no madeiro (1Pd 2.24). Ele tinha tomado o nosso lugar e estava padecendo o Justo pelo injusto. Ele estava carregando o castigo que nos traz a paz; e o salário de nossos pecados, o sofrimento e castigo que era devido a nós, era “morte”. Não meramente física, mas penal; e, como dissemos, isso significava separação de Deus, e daí o Salvador ter clamado: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Assim, também, será com aquele que for impenitente até o fim. O pavoroso destino que aguarda o perdido é, dessa forma, exposto: “os quais sofrerão, como castigo, a perdição eterna, banidos da face do senhor e da glória do seu poder” (2Ts 1.9). Separação eterna daquele que é a fonte de todo bem e a origem de toda bênção. Ao ímpio, Cristo dirá: “Apartai-vos de mim, malditos” — banimento de sua presença, um eterno exílio de Deus, é o que espera o condenado eternamente. Essa é a razão por que o Lago de Fogo — a eterna morada daqueles cujos nomes não estão escritos no livro da vida — é designada “A Segunda Morte” (Ap 20.14). Não que haverá extinção do ser, mas separação eterna do Senhor da Vida, uma separação a qual Cristo sofreu por três horas enquanto estava pendurado no lugar do pecador. Na cruz, então, Cristo recebeu o salário do pecado.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

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sexta-feira, 18 de abril de 2025

“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 7


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 7

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

7. Aqui vemos o anelo do Salvador por comunhão.

Na comunhão alcançamos o clímax da graça e a essência do privilégio cristão. Mais alto que essa comunhão não podemos chegar. Deus nos chamou “para a comunhão de seu Filho” (1Co 1.9). Frequentemente se nos diz que somos “salvos para servir”, e isso é verdade, mas é somente parte dessa, e de modo nenhum a mais maravilhosa e abençoada. Somos salvos para a comunhão. Deus tinha inumeráveis “servos” antes que Cristo viesse aqui para morrer — os anjos sempre cumpriram suas ordens. Ele veio primeiramente, não para se assegurar de servos, mas daqueles que deveriam entrar em comunhão com ele.

O que torna o céu superlativamente atraente ao coração do santo não é o fato de ser um lugar onde seremos libertos de toda tristeza e sofrimento, de ser onde encontraremos outra vez aqueles que amamos no Senhor, nem por suas ruas de ouro, portas de pérolas e muros de jaspe — não, benditas coisas são essas, mas o céu sem Cristo não seria céu. É Cristo que o coração do crente anseia e almeja — “Quem tenho eu no céu senão a ti? e na terra não há quem eu deseje além de ti” (Sl 73.25). E a mais surpreendente coisa é que o céu não será céu para Cristo no sentido mais elevado até que seus remidos estejam reunidos em torno dele. É por seus santos que seu coração deseja ardentemente. Vir outra vez e “receber-nos para si mesmo” é a jubilosa expectativa posta perante ele. Não até que veja o trabalho de sua alma e fique totalmente satisfeito.

Esses são os pensamentos sugeridos e confirmados pelas palavras do Senhor Jesus ao ladrão agonizante. “Senhor, lembra-te de mim” fora seu clamor. E qual foi a resposta? Repare cuidadosamente nela. Houvesse Cristo simplesmente dito, “Em verdade te digo que hoje estarás no Paraíso”, isso teria cessado os temores do ladrão. Sim, mas isso não satisfez ao Salvador. Aquilo sobre o qual seu coração estava firmado era o fato de que naquele mesmo dia uma alma salva por seu precioso sangue deveria estar com ele no Paraíso! Dizemos outra vez, esse é o clímax da graça e a essência da bênção cristã. Disse o apóstolo que tinha o “desejo de partir, e estar com Cristo” (Fp 1.23). E novamente ele escreveu: “Ausentes deste corpo” — livres de toda dor e cuidado? Não. “Ausentes do corpo” — trasladados à glória? Não. “Ausentes deste corpo... presentes com o Senhor” (2Co 5.8). Assim também com Cristo. Disse ele: “Na casa de meu Pai há muitas moradas; se não fosse assim, eu vo-lo teria dito; vou preparar-vos lugar”; todavia, ao acrescentar “virei outra vez”, não diz “E conduzir-vos-ei à casa do Pai”, ou “levar-vos-ei ao lugar que tenho preparado a vós”, mas “virei outra vez, e vos tomarei para mim mesmo” (Jo 14.2,3). Estar “para sempre com o Senhor” (1Ts 4.17) é a meta de todas as nossas esperanças; ter-nos para sempre consigo é o que ele anseia com ardente e alegre expectativa. Estarás comigo no Paraíso!

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
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“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 6


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 6

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

6. Aqui vemos o destino dos salvos na morte.

Ao meditarmos nestas palavras, descobrimos a ênfase correta. “Hoje” é a palavra enfática. Na graciosa resposta de nosso Senhor ao pedido do ladrão temos uma ilustração contundente de como a graça divina excede as expectativas humanas. O ladrão rogou para que o Senhor se lembrasse dele em seu reino vindouro, mas Cristo lhe assegura que antes que aquele dia mesmo tivesse passado ele estaria com o Salvador. O ladrão pede para ser lembrado em um reino terreno, mas Cristo assegura a ele um lugar no Paraíso. O ladrão simplesmente pede para ser lembrado, mas o Salvador declarou que deveria estar com ele. Assim Deus faz abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos.

Não somente a resposta de Cristo significa a sobrevivência da alma após a morte do corpo, mas nos diz que o crente está com ele durante o intervalo que faz a divisão entre a morte e a ressurreição. Para tornar isso mais enfático, Cristo precedeu sua promessa com as solenes mas seguras palavras “Em verdade te digo”. Foi essa perspectiva de ir para Cristo depois da morte que animou o mártir Estevão em sua última hora e, em consequência, ele de fato bradou, “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.59). Foi essa bendita expectativa que levou o apóstolo Paulo a dizer, tenho o “desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor” (Fp 1.23). Não em um estado de ausência de consciência no túmulo, mas com Cristo no Paraíso é o que aguarda todo crente após a morte. Digo, todo “crente”, pois as almas dos incrédulos, ao invés de irem para lá, vão para o lugar de tormentos, como está claro no ensino de nosso Senhor em Lucas 16. Leitor, para onde irá a sua alma, se estiver morrendo nesse momento?

Quão arduamente Satanás luta para ocultar essa abençoada esperança dos santos de Deus! Por um lado ele propaga o infeliz dogma do sono da alma, o ensino de que os crentes ficam em um estado de inconsciência entre a morte e a ressurreição; e, por outro, ele inventa um horrível purgatório, para aterrorizá-los com o pensamento de que, ao morrerem, passam pelo fogo, necessário para purificá-los e adequá-los para o céu.

Quão inteiramente a palavra de Cristo ao ladrão liquida essas ilusões que desonram a Deus! O ladrão foi da cruz direto para o Paraíso! O momento em que um pecador crê, é o momento em que ele é tornado idôneo “para participar da herança dos santos na luz” (Cl 1.12). “Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados” (Hb 10.14). Nossa aptidão para a presença de Cristo, tanto quanto nosso título, repousa unicamente em seu sangue derramado.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

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“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 5


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 5

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

5. Aqui vemos a condição de Cristo como Salvador.

As cruzes estavam separadas por apenas uns poucos decímetros e não demorou a que o Salvador ouvisse o clamor do ladrão penitente. Qual foi sua resposta a isso? Ele poderia ter dito, você merece esse destino: é um assaltante malvado e é digno de morte. Ou, poderia ter replicado, você deixou isso tarde mais; você deveria ter me procurado antes. Ah! mas não prometera ele que “o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora”? Isso ele provou aqui.

Aos vitupérios que foram lançados sobre ele pela multidão, o Senhor Jesus não prestou atenção. Ao desafio insolente dos sacerdotes para que descesse da cruz, ele não deu resposta alguma. Mas à oração desse ladrão contrito e confiante atentou. Nessa hora ele estava em luta contra os poderes das trevas e suportando a terrível carga da culpa de seu povo, e deveríamos ter pensado que ele poderia se escusar a atender a petições individuais. Ah! mas um pecador nunca virá a Cristo em tempo não aceitável. Ele sem demora lhe dá uma resposta de paz.

A salvação do ladrão penitente e crente ilustra não somente a prontidão de Cristo, mas também seu poder para salvar pecadores. O Senhor Jesus não é um Salvador débil. Bendito seja Deus que é capaz de “salvar perfeitamente” aqueles que vem a ele através daquele. E nunca isso foi tão destacadamente mostrado como na cruz. Essa foi a hora da “fraqueza” do Redentor (2Co 13.4). Quando o ladrão clamou, “Senhor, lembra-te de mim”, o Salvador estava em agonia no madeiro maldito. Todavia, mesmo então, mesmo ali, ele teve poder para redimir essa alma da morte e lhe abrir os portais do Paraíso! Nunca duvide, portanto, ou questione a suficiência infinita do Salvador. Se um Salvador agonizante pôde salvar, muito mais depois que ressurgiu em triunfo da sepultura, para nunca mais morrer! Ao salvar esse ladrão, Cristo deu uma mostra de seu poder na hora mesma em que esse estava quase obscurecido.

A salvação do ladrão agonizante demonstra que o Senhor tem o desejo e é apto para salvar todos os que vêm até ele. Se Cristo recebeu esse ladrão penitente e crente, então ninguém precisa se desesperar de não ser bem recebido se tão-somente vier a ele. Se esse assaltante em agonia não estava além do alcance da misericórdia divina, então ninguém que solicite a graça divina ficará sem resposta. O Filho do Homem veio “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10), e ninguém pode estar numa condição pior do que essa. O evangelho de Cristo é o poder de Deus “para todo aquele que crê” (Rm 1.16). Ó, não limite a graça divina! Um Salvador é fornecido até para o “principal” dos pecadores (1Tm 1.15), se tão-somente ele crer. Mesmo aqueles que chegam à hora da morte ainda em seus pecados não ficam sem esperança.

Pessoalmente creio que muito, muito poucos sejam salvos num leito de morte, e são as raias da loucura qualquer homem postergar sua salvação até lá, pois não há garantia nenhuma de que terá ele um leito de morte. Muitos são cortados subitamente, sem qualquer oportunidade de deitar e morrer. Todavia, mesmo alguém naquele lugar não está além do alcance da misericórdia divina. Como disse um puritano, “há um caso tal registrado para que ninguém precise se desesperar, mas apenas um, na escritura, para que ninguém possa abusar”.

Sim, aqui vemos a condição de Cristo como Salvador. Ele veio a este mundo para salvar pecadores, e o deixou e foi ao Paraíso acompanhado por um criminoso salvo — o primeiro troféu de seu sangue redentor!

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 4


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 4

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

4. Vemos aqui um maravilhoso caso de iluminação espiritual.

É perfeitamente maravilhoso o progresso feito por esse homem naquelas poucas horas de agonia. Seu crescimento na graça e no conhecimento de seu Senhor foi espetacular. Do breve registro das palavras que saíram de seus lábios podemos descobrir sete coisas as quais ele havia aprendido sob a instrução do Espírito Santo.

Primeiro, ele expressa sua crença em uma vida futura onde a retribuição seria dada por um Deus justo e que vinga o pecado. Prova-o a frase “Tu nem ainda temes a Deus”. Ele passa uma severa reprimenda em seu companheiro, como quem diz, Como ousa você ter a temeridade de insultar a esse homem inocente? Lembre-se de que brevemente você terá de aparecer diante de Deus e encarar um tribunal infinitamente mais solene do que aquele que o sentenciou para ser crucificado. Deus é para ser temido, portanto, fique quieto.

Segundo, como tenho visto, ele viu sua própria pecaminosidade — “Tu... [não estás] na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam” (Lc 23.40,41). Ele reconheceu que era um transgressor. Ele viu que o pecado merecia punição, que a “condenação” era justa. Ele admitiu que a morte era o que ele merecia. Isso foi algo que seu companheiro não confessou nem reconheceu.

Terceiro, ele testemunhou da impecabilidade de Cristo — “este nenhum mal fez” (Lc 23.41). E aqui podemos observar que Deus se deu ao trabalho de preservar o caráter imaculado de seu Filho. Isso é especialmente visto perto do fim. Judas foi levado a dizer, “[Traí] o sangue inocente”. Pilatos testificou, “nenhum crime acho nele”. A esposa desse disse: “Não entres na questão desse justo”. E agora que ele pendia na cruz, Deus abre os olhos desse assaltante para ver a perfeição de seu Filho amado, e abre seus lábios para que ele testemunhe de sua excelência.

Quarto, ele não apenas testemunhou da humanidade impecável de Cristo, mas também confessou sua Divindade — “Senhor, lembra-te de mim”, disse. Maravilhosa palavra, essa. O Salvador pregado ao madeiro, o objeto da aversão dos judeus e alvo de zombaria do populacho ordinário. Esse ladrão ouvira o insolente desafio dos sacerdotes: “Se és Filho de Deus, desce da cruz”, e resposta alguma fora dada. Mas, movido por fé e não por vista, 40 reconhece e confessa a deidade do sofredor que estava ao centro.

Quinto, ele creu na condição de salvador do Senhor Jesus. Tinha ouvido a oração de Cristo por seus inimigos, “Pai, perdoa-lhes...” e àquele cujo coração o Senhor tinha aberto, essa curta frase tornou-se um sermão de salvação. Seu próprio clamor, “Senhor, lembra-te de mim”, trazia dentro de si seu escopo, “Senhor, salva-me”, o que, por conseguinte, faz supor sua fé no Senhor Jesus como Salvador. Na verdade, ele deve ter crido que Jesus era um Salvador para o principal dos pecadores ou então, como poderia ter crido que Cristo lembrar-se-ia de alguém tal como ele!

Sexto, ele demonstrou sua fé no reinado de Cristo — “quando entrares no teu reino”. Isso também foi uma palavra maravilhosa. As circunstâncias externas todas pareciam desmentir seu reinado. Em vez de estar sentado num trono, ele estava pendurado numa cruz. Em vez de estar usando um diadema real, sua fronte estava rodeada de espinhos. Em vez de estar acompanhado por um séqüito de servos, ele estava contado com os transgressores. Entretanto, ele era rei — Rei dos Judeus (Mt 2.2).

Finalmente, ele ansiou pela segunda vinda de Cristo “quando entrares”. Ele olhou para longe do presente e para o futuro. Ele viu além dos “sofrimentos”, a “glória”. Sobre a cruz o olho da fé detectou a coroa. E nisso ele se antecipou aos apóstolos, pois a incredulidade fechara os olhos deles. Sim, ele olhou para além do primeiro advento em vergonha para o segundo, em poder e majestade.

E como podemos explicar a inteligência espiritual desse ladrão agonizante? Onde ele recebeu tal insight das coisas de Cristo? Como foi que esse bebê em Cristo fez tão estupendo progresso na escola de Deus? Somente pode ser explicado pela influência divina. O Espírito Santo foi seu professor! A carne e o sangue não lhe haviam revelado tais coisas mas o Pai no céu. Que ilustração de que as coisas divinas estão escondidas “dos sábios e entendidos” e reveladas aos “pequeninos”!

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

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“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 3


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 3

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

3. Aqui vemos o sentido do arrependimento e da fé.

O arrependimento pode ser considerado sob vários aspectos. Ele inclui em seu significado e escopo uma mudança da mente acerca de, um desgosto por e um abandono do pecado. Todavia, há mais do que isso. Realmente, o arrependimento é a percepção de nossa condição perdida, é a descoberta de nossa ruína, é o julgamento de nós mesmos, é a confissão de nossa situação perdida. Não é tanto um processo intelectual, mas a consciência ativa na presença de Deus. E isso é exatamente o que achamos aqui no caso do ladrão. Primeiro ele diz ao seu companheiro: “Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação?” (Lucas 23.40). Pouco tempo antes sua voz estivera confundida com a daqueles que estavam vilipendiando o Salvador. Mas o Espírito Santo estivera em ação sobre ele e, agora, sua consciência fica ativa na presença de Deus. Não disse ele: “Tu nem ainda temes o castigo”, mas: “Tu nem ainda temes a Deus?” Ele compreende Deus como sendo juiz.

E então, em segundo lugar, ele acrescenta: “E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam” (Lc 23.41). Aqui vemo-lo reconhecendo sua culpa e a justiça de sua condenação. Ele pronuncia sentença contra si mesmo. Ele não se desculpa e não tenta atenuar nada. Ele reconheceu que era um transgressor, e que, enquanto tal, ele merecia plenamente a punição por seus pecados, sim, que a morte lhe era devida. Você teve essa posição diante de Deus, meu leitor? Confessou abertamente a ele seus pecados? Já sentenciou a si mesmo e a seus caminhos? Está pronto para reconhecer que a morte é o que você merece? Suavize você o seu pecado ou prevarique acerca dele, estará impedindo a sua própria entrada a Cristo. Ele veio ao mundo para salvar pecadores — pecadores confessos, pecadores que realmente tomaram o lugar de pecadores diante de Deus, pecadores que estão cônscios de que estão perdidos e arruinados.

O “arrependimento para com Deus” do ladrão foi acompanhado da “fé em nosso Senhor Jesus”. 34 Ao contemplar sua fé notamos primeiro que ela foi uma fé de cabeça inteligente. Nos parágrafos iniciais do presente capítulo chamamos a atenção para a soberania de Deus e sua graça irresistível e vitoriosa que foram exibidas na conversão desse ladrão. Agora nos voltaremos a um outro lado da verdade, igualmente necessário de nele se insistir, um lado que não é contraditório com o que dissemos anteriormente, mas antes complementar e suplementar. A Escritura não ensina que, se Deus elegeu uma certa alma para ser salva, tal pessoa será salva independente dela vir a crer ou não. Essa é uma conclusão falsa tirada por aqueles que rejeitam a verdade. Não, a escritura ensina que o mesmo Deus que predestinou o fim também predestinou os meios. O Deus que decretou a salvação do ladrão agonizante cumpriu seu decreto dando a ele fé com a qual crer. Isso é o claro ensinamento de 2Tessalonincenses 2.13: “Deus vos escolheu desde o princípio para a santificação do espírito e a fé na verdade”.

É justamente isso que vemos aqui em conexão com esse ladrão. Ele teve “fé na verdade”. Sua fé se apossou da palavra de Deus. Sobre a cruz estava a inscrição: “Este é Jesus, o Rei dos Judeus”. Pilatos a havia colocado ali por mofa. Porém, ainda assim era a verdade, e após ele tê-la escrito, Deus não permitiria a ele que a alterasse. A tabuleta que portava essa inscrição havia sido carregada na frente de Cristo pelas ruas de Jerusalém e no lugar da crucificação, e o ladrão a lera, e a graça e o poder divinos tinham abertos os olhos de seu entendimento para ver que ela era verdadeira. Sua fé apanhou o sentido do reinado de Cristo, daí mencionar “quando entrares no teu reino”. A fé repousa sempre na palavra escrita de Deus.

Antes que um homem creia que Jesus é o Cristo, deve ter o testemunho diante dele de que ele é o Cristo. A distinção é frequentemente feita entre a fé da cabeça e a fé do coração, e isso com propriedade, pois a distinção é real, e vital. Algumas vezes a fé da cabeça é desvalorizada, mas isso é tolice. Deve haver essa antes que possa haver aquela. Temos de crer intelectualmente antes que possamos crer salvificamente no Senhor Jesus. Prova disso é vista em conexão com os pagãos: eles não têm fé alguma de cabeça e, por conseguinte, não têm fé nenhuma de coração. Prontamente admitimos que a fé de cabeça não salvará a menos que seja acompanhada pela fé do coração, mas insistimos que não há nada da segunda a menos que antes tenha havido a primeira. Como podem crer naquele a respeito de quem não ouviram? Verdade, pode-se crer acerca dele sem crer nele, mas não se pode crer nele sem primeiro crer acerca dele. Assim o foi com o ladrão agonizante. Com toda probabilidade ele nunca vira Cristo antes do dia da sua morte, mas vira a inscrição testificando o seu reinado e o Espírito Santo usou isso como a base de sua fé. Dizemos então que essa foi uma fé inteligente: primeiro, uma de tipo intelectual, o crer no testemunho escrito apresentado a ele; segundo, uma fé de coração, o descansar confiadamente em Cristo mesmo como o Salvador dos pecadores.

Sim, esse ladrão que agonizava exerceu uma fé de coração que descansou salvificamente em Cristo. Tentaremos ser muito simples aqui. Um homem pode ter fé de cabeça no Senhor Jesus e estar perdido. Um homem pode crer acerca do Cristo histórico e não estar nada melhor por causa disso, tal como não o está por crer acerca do Napoleão histórico. Leitor, você pode crer tudo acerca do Salvador — sua vida perfeita, sua morte sacrifical, sua ressurreição vitoriosa, sua ascensão gloriosa, seu retorno prometido — mas deve fazer mais do que isso. A fé evangélica é uma fé confiante. A fé salvífica é mais que uma opinião correta ou uma linha de raciocínio. A fé salvífica transcende a toda razão. Veja o ladrão agonizante! Era razoável que Cristo o notasse? Um assaltante crucificado, um criminoso confesso, alguém que há poucos minutos atrás o estivera insultando! Era razoável que o Salvador devesse reparar de qualquer forma nele? Era razoável esperar que ele fosse ser transportado da beira do inferno mesmo para o Paraíso? Ah, meu leitor, a cabeça raciocina, mas o coração não. E a petição desse homem veio do coração. Ele não tinha como usar suas mãos e pés (e não eram eles necessários à salvação: antes, a impediam), mas tinha o uso de seu coração e língua. Esses estavam livres para crer e confessar: “Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação” (Rm 10.10).

Podemos reparar também que a sua fé era uma fé humilde. Ele orou com conveniente modéstia. Não foi “Senhor, honra-me”, nem “Senhor, exalta-me”, mas Senhor, se tu quiseres, pense em mim! Se tu somente contemplasses a mim — “Senhor, lembra-te de mim”. E, todavia, aquela palavra “lembra-te” era maravilhosamente perfeita e apropriada. Ele poderia ter dito: Perdoa-me, Salva-me, Abençoa-me; mas “lembra-te” incluía todas essas. Um interesse no coração de Cristo incluirá um interesse em todos os seus benefícios! Além disso, tal palavra era bem adequada à condição de quem a expressou. Ele foi um proscrito da sociedade — quem se lembraria dele! O público não pensaria mais nada a respeito dele. Seus amigos ficariam contentes por esquecer dele por haver desgraçado sua família. Mas há um a quem ele ousa confiar essa petição — “Senhor, lembra-te de mim”.

Finalmente, podemos notar que a sua fé era uma fé corajosa. Talvez não pareça à primeira vista, mas uma pequena consideração tornará isso claro. Aquele que estava pendurado na cruz do centro era um de quem todos viravam a cara para não olhar e para quem toda a vil zombaria de uma turba vulgar era direcionada. Toda facção daquele povo se juntou para escarnecer do Salvador. Mateus nos diz que “os que passavam blasfemavam dele” e que “da mesma maneira também os príncipes dos sacerdotes, com os escribas, e anciãos”. Enquanto Lucas nos informa que “também os soldados o escarneciam” (Lc 23.36). Portanto, é fácil entender por que os ladrões também se juntaram ao alarido de sarcasmos. Não há dúvidas de que os sacerdotes e escribas sorrissem benignamente sobre eles enquanto assim agiam. Mas, subitamente, houve uma mudança. O ladrão penitente, em vez de continuar a troçar e ridicularizar Cristo, volta-se para o seu companheiro e abertamente o censura, nos ouvidos dos espectadores ajuntados em redor das cruzes, clamando: “este nenhum mal fez”. Desse modo, ele condenou toda a nação judaica! Mais ainda; não somente testemunhou da inocência de Cristo, mas também confessou o reinado dele. E assim, de um só golpe, ele se retira do favor de seu companheiro e da multidão também! Falamos hoje da coragem necessária para abertamente testemunhar de Cristo, mas tal coragem nesses dias se desbota em expressa insignificância perante àquela mostrada naquele dia pelo ladrão agonizante.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

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Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 2


“A PALAVRA DE SALVAÇÃO” - Parte 2

“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino. E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23.42,43).

2. Aqui nós vemos que o homem tem que ir ao fim de si próprio antes que possa ser salvo.

Contemplamos na primeira parte esse ladrão agonizante como um pecador representativo, um espécime que é amostra do que todos os homens são por natureza e prática — por natureza, em inimizade contra Deus e seu Cristo; por prática, ladrões de Deus, utilizando mal o que ele nos deu e não conseguindo retribuir-lhe o que é devido.

Devemos ver agora que esse ladrão crucificado foi também um caso representativo em sua conversão. E nesse ponto deter-nos-emos unicamente em sua situação de desamparo. Ver a nós mesmos como pecadores perdidos não basta. Aprender que somos corruptos e depravados por natureza e transgressores pecaminosos pelas nossas práticas é a primeira lição importante. A próxima é aprender que estamos totalmente arruinados, e que não podemos fazer nada que seja para ajudar a nós mesmos. Descobrir que nossa condição é tão desesperadora que está inteiramente além da possibilidade de conserto humano, é o segundo passo rumo a salvação — olhando-a pelo lado humano. Porém, se o homem é lento para aprender que é um pecador perdido e inapto para estar na presença de um Deus santo, ele o é ainda mais para reconhecer que nada pode fazer para sua salvação, e que é incapaz de operar qualquer melhoria em si próprio para se adequar para Deus.

Todavia, não é senão até que nos demos conta de que estamos “fracos” (Rm 5.6), que somos “impotentes” (Jo 5.3), que não é pelas obras de justiça que façamos, mas pela misericórdia divina que somos salvos (Tt 3.5), que não é senão até que nos desesperemos de nós mesmos, e olhemos para fora de nós mesmos para um que pode nos salvar. O grande tipo escriturístico do pecado é a lepra, e para a lepra o homem não pode inventar cura alguma. Somente Deus pode lidar com essa pavorosa doença. Assim o é com o pecado. Mas, como dissemos, o homem é lento para aprender essa lição. É como o filho pródigo, o qual, quando dissipara sua fazenda na terra longínqua, vivendo dissolutamente, e começou “a padecer necessidades”, em vez de imediatamente retornar ao seu pai, “foi, e chegou-se a um dos cidadãos daquela terra”, e foi para os campos a apascentar porcos; em outras palavras, ele foi ao trabalho. Igualmente, o pecador que é despertado para a sua necessidade, em vez de ir imediatamente a Cristo, tenta trabalhar por si mesmo para obter o favor divino. Mas ele não conseguirá coisa melhor que o pródigo — as bolotas dos porcos serão sua única porção. Ou então, como a mulher prostrada pela enfermidade por muitos anos. Ela tentou muitos médicos antes de procurar o grande médico: assim o pecador despertado procura alívio e paz primeiro numa coisa e depois em outra, até completar o fatigante ciclo das ações religiosas, e terminar “sem nenhum resultado, mas cada vez piorando mais” (Mc 5.26). Não, não é senão quando já tinha “gasto tudo o que possuía” que ela procurou Cristo; e não é senão quando o pecador chega ao fim de seus próprios recursos que recorrerá ao Salvador.

Antes que qualquer pecador possa ser salvo, deve ele ir ao lugar da fraqueza reconhecida. Isso é o que a conversão do ladrão agonizante nos mostra. O que ele podia fazer? Não podia caminhar pelas sendas da justiça, pois havia um prego atravessando cada um dos seus pés. Não podia executar nenhuma boa obra, pois havia um prego atravessando cada uma das mãos. Não podia começar vida nova e viver melhor, pois que estava morrendo. E, meu leitor, aquelas suas mãos que tão prontamente agem para justiça própria, e aqueles seus pés que tão rapidamente correm no caminho da obediência legal, devem ser pregados na cruz. O pecador teve de ser interrompido em suas próprias obras e feito desejoso de ser salvo por Cristo. Uma percepção de sua própria condição pecaminosa, de sua condição perdida, de sua condição de desamparo, não é nada mais, nada menos, do que o velho ensino da convicção de pecado, e tal é o único pré-requisito para vir a Cristo para salvação, pois Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores.

Deus nos abençoe!

Arthur W. Pink (1886-1952).

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