"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 14 de julho de 2025

“O QUINTO MANDAMENTO”


“O QUINTO MANDAMENTO”

“Honra a teu pai e a tua mãe, para que tenhas longa vida sobre a terra que o SENHOR, teu Deus, te x 20.12].

TEOR E APLICAÇÃO DO QUINTO MANDAMENTO

A finalidade deste mandamento é: uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que dispôs, importa que nos sejam invioláveis os graus de eminência por ele ordenados. A síntese, portanto, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os tenhamos em honra, em obediência e em grato reconhecimento. Donde se segue a proibição: que não denigremos nada de sua dignidade, quer por desdém, quer por contumácia, ou por ingratidão.

Ora, o termo honra assim se patenteia amplamente na Escritura. Por exemplo, quando o Apóstolo diz [1Tm 5.17] que os presbíteros que presidem bem sejam dignos de dobrada honra, entende que se lhes deve não somente reverência, mas ainda a remuneração que seu ministério merece. Mas, visto que este mandamento referente a nossa sujeição aos superiores se põe fortemente em conflito com a depravação do espírito humano, que por isso é ele intumescido do anseio de exaltação, a contragosto se deixa sujeitar, foi proposta por exemplo essa forma de superioridade a qual, por natureza, é mais para estimar-se e menos para invejar-se, porque assim podia mais facilmente abrandar e dobrar nosso ânimo ao hábito de submissão. Logo, o Senhor gradualmente nos acostuma a toda legítima sujeição mediante essa forma que é a mais fácil de tolerar-se, uma vez que, de todas, a razão é a mesma.

Com efeito, compartilha seu nome com aqueles a quem atribui eminência, até onde se faz necessário para que ela seja preservada. A ele tão-somente convém, segundo a Escritura, os títulos Pai, Deus e Senhor, de modo que, sempre que ouvirmos qualquer um deles, nosso entendimento seja tocado com o senso de sua majestade. Portanto, aqueles a quem faz participantres desses títulos ilumina-os como que com uma centelha de seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra em conformidade com sua posição de eminência. Desse modo, aquele que nos é pai, é próprio reconhecer nele algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem com Deus alguma comunhão de honra.

O PRINCÍPIO GERAL, ILUSTRADO NA REVERÊNCIA PARA COM OS PAIS

Em vista desse fato, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por sua ordenação, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento, e com quantas formas de servi-lo pudermos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto, não importa o que sejam, afinal não alcançaram esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis que fossem honrados.

Contudo, preceituou expressamente acerca da reverência de nossos pais, que nos trouxeram a esta vida, com o que nos deve ensinar, de certa maneira, a própria natureza. Pois são monstros, não seres humanos, os que infringirem o poder paterno por desrespeito ou insubordinação! Por isso, o Senhor ordena que sejam mortos todos os insubmissos aos pais, como indignos do benefício da luz, já que não reconhecem àqueles por cuja obra a têm alcançado.

E, de fato, de variadas complementações da lei se evidencia ser verdadeiro o que acabamos de assinalar, ou, seja: que há três expressões da honra de que aqui se fala, a saber: reverência, obediência e reconhecimento. A primeira dessas, a reverência, o Senhor a sanciona quando preceitua que seja entregue à morte aquele que maldisser ao pai ou à mãe [Ex 21.17; Lv 20.9; Pv 20.20], uma vez que aí castiga o menosprezo e a insolência. A segunda, a obediência, sanciona-a quando decreta a pena de morte contra os filhos contumazes e rebeldes [Dt 21.18-21]. Diz respeito à terceira a gratidão ou reconhecimento, o que Cristo diz: que é do mandamento de Deus que façamos o bem a nossos pais [Mt 15.4-6]. E quantas vezes Paulo faz menção deste mandamento, entende que nele se requerer obediência [Ef 6.1-3; Cl3.20].

A PROMESSA ANEXA AO QUINTO MANDAMENTO

Anexa-se a promessa, à guisa de recomendação, para que mais advirta quão agradável é a Deus a submissão que aqui se nos prescreve. Ora, Paulo aplica este aguilhão a espicaçar-nos o torpor, quando diz que este é o primeiro mandamento com promessa [Ef 6.2], se bem que a promessa que a precedeu na primeira tábua não foi especial e exclusiva de um mandamento único, mas, ao contrário, se estendia a toda a lei.

Na verdade, esta promessa deve ser assim entendida: o Senhor estava falando privativamente aos israelitas a respeito da terra que lhes havia prometido em herança. Portanto, se a posse da terra era um penhor da benignidade divina, não nos admiremos se o Senhor quisesse atestar sua graça em prometendo longevidade devida, mediante a qual acontecia que se colhesse o fruto diário de seu benefício. Logo, o sentido é: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que, pela longa extensão da vida, te seja concedido fruir duradouramente desta posse da terra que te haverá de ser por testemunho de minha graça”.

Ademais, porque a terra toda foi abençoada para os fiéis, com razão contamos a presente vida entre as bênçãos de Deus. Por isso, esta promessa diz respeito, de igual modo, a nós, isto é, na medida em que a duração da presente vida nos é um atestado da divina benevolência. Pois, não é ela prometida a nós, ou foi prometida aos judeus, como se em si contivesse bem-aventurança, mas porque aos piedosos é costumeiramente um sinal da divina complacência.

Isto posto, se acontece, o que não é raro, que um filho obediente aos pais é arrebatado à vida antes da idade madura, a despeito disso está o Senhor a perseverar persistentemente no cumprimento de sua promessa, não menos que se contemplasse com cem geiras de terra aquele a quem havia prometido apenas uma. Tudo nisto se situa: que reflitamos ser prometida vida longa até onde ela é uma bênção de Deus, que é, de fato, uma bênção até onde é evidência da graça divina, que ele atesta a seus servos, e deveras o demonstra, infinitamente mais copiosa e substancialmente, pela morte.

A MALDIÇÃO IMPLÍCITA NA DESOBEDIÊNCIA AO QUINTO MANDAMENTO E QUALIFICAÇÃO DA OBEDIÊNCIA REQUERIDA

Ademais, enquanto o Senhor promete a bênção da presente vida aos filhos que tenham honrado aos pais com a consideração que convém, ao mesmo tempo acena que mui certa maldição defronta a todos os filhos contumazes e desobedientes. Para que isto não careça de execução, mediante sua lei pronuncia-os passíveis à sentença de morte e a respeito deles manda que se exerça punição. Se escapam ao juízo, ele próprio lhes provê o castigo, de qualquer modo que seja. Pois vemos quão grande número desta espécie de homens perece ou em combates ou em rixas; outros, porém, são afligidos de maneiras insólitas; quase todos são por prova de que esta ameaça não é vã. Se bem que há os que escapam até extrema velhice. Uma vez que, privados da bênção de Deus, nesta vida vegetam nada menos que miseravelmente e se reservam para maiores castigos no futuro, mui longe está de que se façam participantes da bênção prometida aos filhos piedosos.

Mas, isto deve ser também assinalado de passagem: que se nos ordena obedecer-lhes somente no Senhor [Ef 6.1]. Nem equivale isto obscurecer o fundamento previamente lançado, pois eles têm autoridade sobre nós enquanto Deus os tiver estabelecido nela, comunicando-lhes uma parte da honra que lhe é devida. Portanto, a sujeição que para com eles é exibida deve ser um passo para que o Pai Supremo seja contemplado com essa honra. Portanto, se nos instigam à transgressão da lei, então, com justiça, não devem ser por nós tidos por pais, mas por estranhos, que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores nossos. Pois seria coisa indigna e fora de razão que sua autoridade seja exercida para rebaixar a alteza e majestade de Deus; já que, dependendo da autoridade divina deve guiar-nos e encaminhar-nos a ela.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

sábado, 12 de julho de 2025

“O DÉCIMO MANDAMENTO”

 


“O DÉCIMO MANDAMENTO”

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo” (Êx 20.17).

Teor e Aplicação do Mandamento

O propósito deste mandamento é: visto que Deus quer que a alma toda seja possuída do afeto do amor, de nossas disposições se deve alijar todo desejo contrário à caridade. Portanto, a síntese será que não se nos insinue qualquer pensamento que nos mova o espírito com uma concupiscência danosa e tendente ao detrimento de outrem. A que corresponde o preceito oposto, que tudo quanto concebemos, deliberamos, queremos, intentamos, seja isto associado com o bem e proveito do próximo. Aqui, porém, segundo parece, surge-nos grande e perplexiva dificuldade. Ora, se com verdade dissemos anteriormente que sob os termos fornicação furto se coibiam o desejo de fornicar e a intenção de prejudicar e enganar, pode parecer ter sido supérfluo que depois se nos proibisse, em separado, a cobiça dos bens alheios. No entanto, facilmente nos desatará este nó ante a distinção entre intenção cobiçaPorque, a intenção, como já falamos sobre os mandamentos anteriores, é o consenso deliberado da vontade, quando a concupiscência subjugou a mente; a cobiça pode existir aquém de tal deliberação e assentimento, quando a mente é apenas espicaçada e titilada de objetos vãos e pervertidos. Portanto, da mesma forma que até aqui o Senhor ordenou que a norma da caridade presida a nossas vontades, a nossos esforços, a nossas ações, assim agora ordena sejam conduzidos à mesma norma os pensamentos de nossa mente, para que não haja nenhum pensamento corrupto e pervertido, que incite a mente em outra direção. Da mesma forma que proibiu que a mente fosse inclinada e induzida à ira, ao ódio, à fornicação, à rapina, à mentira, assim proíbe agora que ela seja sequer incitada a essas transgressões. 

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

terça-feira, 1 de julho de 2025

GOD IK KIJK NAAR U

GOD IK KIJK NAAR U - DEUS, EU OLHO PARA TI

“Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra; porque eu sou Deus, e não há outro” (Is 45.22).

Deus, eu olho para Ti, pois então não desanimarei
Mostra-me, Senhor, como Tu vês as coisas
Deus, eu olho para Ti, meu auxílio, meu solo firme
Dá-me sabedoria, Tu sabes o que devo fazer.

Eu Te amo, ó Senhor, minha força
Eu Te amo, ó Senhor, meu escudo
Eu Te amo, ó Senhor, minha rocha
Para todo o sempre, Senhor, eu Te amo.

Aleluia, Deus reina
Aleluia, Deus reina
Aleluia, Deus reina
Para todo o sempre, Aleluia!


segunda-feira, 30 de junho de 2025

“O SEU TESTEMUNHO É VERDADEIRO”


“O SEU TESTEMUNHO É VERDADEIRO”

“Este é o discípulo que dá testemunho a respeito destas coisas e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro. Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez. Se todas elas fossem relatadas uma por uma, creio eu que nem no mundo inteiro caberiam os livros que seriam escritos” (Jo 21.24,25).

O significado da palavra evangelho é bem conhecido. Na Escritura, ela denota, a alegre e prazerosa mensagem da graça a nós exibida em Cristo, a fim de instruir-nos a desprezar o mundo com suas passageiras riquezas e prazeres, a desejar essa bênção de todo nosso coração e abraçá-la quando ela nos for oferecida. É natural em todos nós aquela conduta que percebemos em homens irreligiosos que cultivam extravagantes prazeres nos fúteis deleites do mundo, ainda que sejam poucos, de modo que alguns se deixam afetar pelos encantos das bênçãos espirituais. Com o propósito de corrigir esse erro, Deus expressamente dá o título de evangelho à mensagem que ele ordena seja concernente a Cristo. Desse modo, ele nos lembra que em nenhuma outra parte se pode obter a genuína e sólida felicidade, e que nele temos tudo que necessitamos para a perfeição de uma vida feliz.

Há quem considere a palavra evangelho como se estendendo a todas as preciosas promessas de Deus que se acham espalhadas inclusive na Lei e nos Profetas. Tampouco se pode negar que sempre que Deus declara que se deixará reconciliar com os homens e perdoará seus pecados, ao mesmo tempo exibe Cristo cujo peculiar ofício onde que se manifeste, é jorrar por toda parte os raios de sua alegria. Reconheço, pois, que os [antigos] pais foram participantes juntamente conosco do mesmo evangelho, no que diz respeito à fé na salvação gratuita. Visto, porém, que a declaração ordinária do Espírito Santo nas Escrituras é que o evangelho foi proclamado pela primeira vez quando Cristo veio, abracemos também essa forma de expressão, bem como conservemos a definição de evangelho que tenho formulado, a saber: é a solene publicação da graça revelada em Cristo. Por isso o evangelho é chamado de poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê [Rm 1.16], porque nele Deus exibe sua justiça. Ele é também chamado embaixada por meio do qual Deus reconcilia consigo os homens [2Co 5.20]; e, visto que Cristo é o penhor da misericórdia de Deus e de seu paternal amor para conosco, assim ele é, de uma maneira peculiar, o tema do evangelho.

Por isso, ele veio para que as histórias que narram que Cristo se manifestou em carne, morreu, ressuscitou dentre os mortos e, por fim, foi assunto ao céu tivessem peculiarmente o mérito do título evangelho. Pois ainda que, por razões já expressas, esta palavra signifique o Novo Testamento, contudo o título que denota a totalidade, pela prática geral, representa aquela parte dele que declara que Cristo se nos manifestou na carne, morrendo e ressuscitando dentre os mortos. Mas, como a mera história não seria suficiente, e de fato ela seria de nenhuma valia para a salvação, o evangelista não relata simplesmente que Cristo nasceu, morreu e venceu a morte, mas também explica com que propósito ele nasceu, morreu e ressuscitou, bem como qual o benefício que recebemos desses fatos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quarta-feira, 25 de junho de 2025

“AMARAM MAIS A GLÓRIA DOS HOMENS”


“AMARAM MAIS A GLÓRIA DOS HOMENS”

“Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus” (Jo 12.43).

O Evangelista João declara expressivamente que aqueles homens não eram guiados por alguma superstição, mas apenas diligenciavam em evitar a desgraça entre os homens; pois se a ambição tinha maior influência sobre eles do que o temor de Deus, segue-se que não era um fútil escrúpulo da consciência que os fazia inquietos. Ora, que possamos observar quão grande ignomínia se contrai diante de Deus, mediante a covardia dos que, movidos pelo medo de serem odiados, dissimulam sua fé diante dos homens. Pode alguma coisa ser mais tola, ou, melhor, pode algo ser mais bestial do que preferir o fútil aplauso dos homens ao juízo de Deus? Mas ele declara que todos quantos se esquivam do ódio dos homens, quando a fé pura deve ser confessada, se deixam dominar por esse tipo de demência. E com razão, pois o apóstolo, ao aplicar a inabalável firmeza de Moisés, diz ele que permaneceu firme, como se visse aquele que é invisível [Hb 11.27]. Com estas palavras ele tem em vista que, quando alguma pessoa fixa seus olhos em Deus, seu coração se torna invencível e totalmente incapaz de ser movido. Donde, pois, provém a fraqueza que nos leva a ceder à insidiosa hipocrisia, senão porque, aos olhos do mundo, todos os nossos sentidos se embrutecem? Pois uma genuína visão de Deus dissiparia instantaneamente toda névoa da riqueza e honras. Longe, pois, com aqueles que consideram uma negação indireta de Cristo como sendo um escândalo trivial, ou, como costumam chamá-lo, uma leve transgressão! [Mt 10.33].

Amar mais a glória dos homens significa, nesta passagem, o anseio pelo desfrute de reputação entre os homens. O apóstolo João, pois, tem em vista que aqueles homens eram tão devotados ao mundo, que aspiravam mais o aplauso dos homens do que o agrado de Deus. Além disso, ao acusar deste crime os que negavam a Cristo, ao mesmo tempo ele mostra que a excomunhão, da qual os sacerdotes usavam e abusavam, contraria a tudo o que era direito e lícito e era destituída de qualquer valor ou eficácia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“POR CAUSA DOS FARISEUS, NÃO O CONFESSAVAM”


“POR CAUSA DOS FARISEUS, NÃO O CONFESSAVAM”  

“Contudo, muitos dentre as próprias autoridades creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos da sinagoga” (Jo 12.42).

Pode-se imaginar que o Evangelista João fala incorretamente, ao separar a fé da confissão; pois é com o coração que cremos para a justiça, e é com a boca que fazemos confissão para a salvação [Rm 10.10), e é impossível que a fé, que uma vez tenha sido acesa no coração, não arroje suas chamas. Minha resposta é que ele realça aqui quão fraca era a fé dos que eram tão mornos, ou melhor, frios. Em suma, João tem em vista que abraçaram a doutrina de Cristo, porque bem sabiam que ela provinha de Deus, mas que não possuíam uma fé vívida, ou uma fé tão vigorosa como deveriam ter; pois Cristo não concede aos seus seguidores um espírito de medo, e sim de firmeza, para que ousada e destemidamente confessem o que têm aprendido dele. Entretanto, não creio que ficaram em total silêncio, mas como sua confissão não era suficientemente pública, o Evangelista, em minha opinião, simplesmente declara que não faziam uma confissão de sua fé, pois o tipo próprio de confissão era a declaração pública de que eram discípulos de Cristo. Que ninguém, pois, se gabe, se em algum aspecto oculta ou dissimula sua fé por medo de incorrer no ódio dos homens; porque, por mais odioso que seja o Nome de Cristo, aquela covardia que nos impele a nos esquivarmos, um mínimo sequer, da confissão dele, não admite escusa.

Deve-se observar ainda que os líderes (principais) têm menos rigor e firmeza, porque a ambição quase sempre reina neles, a qual é a mais escravizadora de todas as disposições e, para expressá-lo numa só palavra, pode-se dizer que as honras terrenas são cadeias de ouro que prendem um homem para que o mesmo não consiga cumprir seu dever com liberdade. Por esta conta, as pessoas que são postas numa condição inferior e humilde devem suportar sua sorte com maior paciência, porquanto estão, ao menos, isentas de muitas redes nocivas. Não obstante, os grandes e nobres devem lutar contra sua elevada posição para que esta não os embarace de se submeterem a Cristo. João afirma que eles tinham medo dos fariseus, não que os demais escribas e sacerdotes permitissem livremente que algum homem se denominasse discípulo de Cristo, mas porque, sob a semelhança de zelo, cruelmente ardiam no íntimo com mais intensa ferocidade. O zelo, na defesa da religião, é uma excelente virtude, mas se adicionar-lhe a hipocrisia, não pode haver praga mais danosa. Tanto mais solícitos devemos ser em rogar ao Senhor que nos guie pela regra inerrante de seu Espírito.

Para não serem expulsos da sinagoga. Isto era o que os impelia ao medo da desgraça; pois teriam sido expulsos da sinagoga. Daí vemos quão grande é a perversidade dos homens, a qual não só corrompe e avilta a melhor das ordenanças de Deus, mas as convertem em destrutiva tirania. A excomunhão deveria ter sido o tendão da santa disciplina, para que a punição fosse prontamente infligida, se alguma pessoa menosprezasse a Igreja. Mas os problemas atingiram um ponto tal, que todo aquele que confessasse pertencer a Cristo era banido da sociedade dos crentes. De igual modo, nos dias atuais, líderes eclesiásticos, a fim de exercer o mesmo tipo de tirania, falsamente pretendem o direito de exercer a excomunhão, e não só trovejam com cega fúria contra todos os santos, mas tudo faz para descer Cristo de seu trono celestial; e, no entanto não hesitam manter com impudência o direito da sacra jurisdição com a qual Cristo adornou a Igreja.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“MUITOS DENTRE AS PRÓPRIAS AUTORIDADES CRERAM NELE”


“MUITOS DENTRE AS PRÓPRIAS AUTORIDADES CRERAM NELE”

“Contudo, muitos dentre as próprias autoridades creram nele, mas, por causa dos fariseus, não o confessavam, para não serem expulsos da sinagoga” (Jo 12.42).

O murmúrio e ferocidade dos judeus, ao rejeitarem a Cristo, elevou-se a tal nível de insolência que era possível que se concluísse que todo o povo, sem exceção, havia conspirado contra ele. Mas o apóstolo João diz que, em meio à demência geral da nação, havia muitos que eram de uma mente sã. Aliás, esse era um notável exemplo da graça de Deus; porque, quando a impiedade uma vez chega a prevalecer, ela se torna uma sorte de praga universal, afetando com seu contágio cada parte do corpo. Portanto, é um dom notável e uma graça especial de Deus quando, em meio a um povo tão corrupto, encontram-se alguns que permanecem impolutos. E mesmo agora percebemos no mundo a mesma graça de Deus, pois ainda que a impiedade e menosprezo por Deus se proliferem por toda parte, e ainda que uma vasta multidão de seres humanos promova furiosas tentativas com o intuito de exterminar completamente a doutrina do evangelho, contudo esse encontra alguns lugares de abrigo; e assim a fé tem o que se pode chamar seus portos ou lugares de refúgio, para que ela não seja inteiramente banida do mundo.

A palavra é ainda enfática; porque, na ordem dos governantes existia tão profundo e inveterado ódio pelo evangelho, que raramente se poderia crer que se pudesse encontrar em seu meio um único crente. Tão mais profunda admiração se deve ao Espírito de Deus que penetra onde não havia nenhuma abertura, ainda que não fosse um vício, peculiar a uma única geração, que os governantes fossem rebeldes e desobedientes a Cristo; porquanto honra, riqueza e alto escalão geralmente são acompanhados por orgulho. A consequência é que aqueles que, inchados de arrogância, raramente se reconhecem como sendo homens, por isso não se deixam subjugar com facilidade e com humildade voluntária. Todos quantos, pois, que mantém uma elevada posição no mundo, se porventura são sábios, olharão com suspeita para sua posição, não permitindo que ela seja um entrave em seu caminho. Quando João diz que havia muitos, isto não deve ser entendido como se constituíssem a maioria ou mesmo a metade; porque, quando comparados com os outros que constituíam um número mui vasto, eram poucos, mas, mesmo assim, eram muitos, quando vistos separadamente.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sábado, 21 de junho de 2025

“SACIÁ-LO-EI COM LONGEVIDADE”


“SACIÁ-LO-EI COM LONGEVIDADE”

Saciá-lo-ei com longevidade e lhe mostrarei a minha salvação” (Sl 91.16).

Pode parecer estranho que longevidade seja mencionada no último versículo como a eles prometida, visto que muitos dentre o povo do Senhor são cedo arrebatados do mundo. Mas eu poderia reiterar uma observação que já foi feita em outros lugares, a saber, que aquelas bênçãos divinas que estão prometidas em relação ao presente mundo perecível, não devem ser consideradas como bons feitos num sentido universal e absoluto, ou cumpridas em total concordância com uma regra estabelecida e igual. Riquezas e outros confortos mundanos devem ser vistos como que propiciando alguma experiência do favor e benevolência divinos, mas não se deduz daí que os pobres sejam objetos do desprazer divino; ter um corpo saudável e boa saúde são bênçãos de Deus, porém não devemos conceber que isso constitua prova de que a fraqueza e a enfermidade devam ser consideradas com desaprovação. Longa vida deve ser classificada entre os benefícios desse gênero, e seriam concedidos por Deus a todos seus filhos não fosse para seu benefício serem eles levados tão cedo deste mundo. Eles se satisfazem mais com um curto período durante o qual vivem melhor que os ímpios, ainda que sua vida se estenda por mil anos. A expressão não pode aplicar-se aos ímpios, de que estão satisfeitos com longevidade, pois por mais longa seja sua vida, a sede de seus desejos continua a ser inextinguível. É a vida, e nada mais, que eles esbanjam com tal ansiedade; tampouco se pode dizer ter eles um desfruto momentâneo daquele favor e bondade divinos que só podem comunicar a real satisfação. O salmista poderia, pois, com propriedade declarar, como um privilégio pertencente peculiarmente ao povo do Senhor, que vivem satisfeitos com a vida. A trajetória breve que lhes é designada é reconhecida por eles como sendo sobejamente suficiente. Além disso, longevidade não se deve jamais comparar com eternidade. A salvação divina se estende para além das estreitas fronteiras da existência terrena; e se vivermos ou morrermos, é para isso que devemos primordialmente olhar. É com essa visão que o salmista, depois de declarar todos os demais benefícios que Deus concede, acrescenta esta como uma frase final que, quando ele os tiver seguido com sua paternal bondade por toda sua vida, por fim lhes mostrará sua salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“NA SUA ANGÚSTIA EU ESTAREI COM ELE”


“NA SUA ANGÚSTIA EU ESTAREI COM ELE”

“Ele me invocará, e eu lhe responderei; na sua angústia eu estarei com ele, livrá-lo-ei e o glorificarei” (Sl 91.15).

O salmista agora mostra mais claramente o que tencionava com a expressão confiar em Deus ou depositar nele nosso amor e deleite. Pois aquele afeto e desejo que são produzidos pela fé nos impelem a invocar seu nome. Esta é outra prova em apoio da verdade, ou, seja: que a oração está propriamente fundamentada na Palavra de Deus. Não temos a liberdade, nesta matéria, de seguir as sugestões de nossa própria mente e arbítrio, mas devemos buscar a Deus somente até onde ele nos convidou a aproximar-nos dele. O contexto pode também ensinar-nos que a fé não é ociosa nem inoperante, e que um teste, pelo qual devemos testar os que buscam o livramento de Deus, é se eles têm recorrido a Deus da forma prescrita. Aqui temos uma lição adicional, a saber: que os crentes jamais serão isentos de angústias e constrangimentos. Deus não lhes promete vida ociosa e prazeres mundanos, mas o livramento de suas tribulações. Faz-se menção que ele os glorificará, insinuando que o livramento que Deus oferece, e o qual já foi mencionado neste Salmo, não é de uma natureza meramente temporária, mas que por fim resultará que eles chegarão a uma perfeita felicidade. Ele lhes confere muita honra neste mundo e se glorifica neles de forma muito clara, porém ainda não é a completação de sua trajetória com que ele lhes oferece base para o triunfo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 20 de junho de 2025

“E DISSE-LHES: RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”


“E DISSE-LHES: RECEBEI O ESPÍRITO SANTO”

“Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio. E, havendo dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.21,22).

Nenhum dos filhos dos homens é qualificado para desempenhar um ofício tão difícil, e por isso Cristo prepara os apóstolos para o mesmo pela graça de seu Espírito. E de fato governar a Igreja de Deus, levar a embaixada da salvação eterna, erigir o reino de Deus na terra e elevar seres humanos até o céu é uma tarefa que está além da capacidade humana. Portanto, não devemos ficar surpresos se jamais se achou um homem qualificado, se o mesmo não for equipado pelo Espírito Santo; pois ninguém pode falar sequer uma palavra concernente a Cristo, a menos que o Espírito guie sua língua [1Co 12.3]; o fato é que não existe ninguém que seja competente para desempenhar fiel e honestamente todos os deveres de tão excelente ofício. Além do mais, é tão-somente a glória de Cristo que forma aqueles a quem ele designa para serem mestres de sua igreja; pois a razão pela qual a plenitude do Espírito foi derramada sobre ele é para que pudesse outorgá-la a cada um segundo determinada medida.

Recebei o Espírito Santo. Ainda que continue sendo o Pastor de sua Igreja, Cristo necessariamente deve demonstrar o poder de seu Espírito nos ministros cuja agência ele emprega; e isso também ele testificou pelo símbolo externo, quando soprou sobre os apóstolos; pois isso não seria aplicável se o Espírito não procedesse dele. Cristo não só comunica a seus discípulos o Espírito que ele mesmo recebera, porém outorga o que é propriamente seu, como o Espírito que ele tinha em comum com o Pai.

Deve-se lembrar que, aqueles a quem Cristo chama para o ofício pastoral ele igualmente adorna com os dons necessários para que sejam qualificados para o desempenho de seu oficio, ou, pelo menos, não venha a ser algo vazio e impreciso. E se isso é verdade, não há dificuldade alguma em refutar a tola vanglória dos falsos pastores e mestres que, enquanto empregam termos sublimes de louvor em enaltecimento de sua posição, não podem demonstrar uma única fagulha do Espirito Santo. Querem que creiamos que são os legítimos pastores da Igreja, e igualmente que são os apóstolos de Cristo, embora seja evidente que são totalmente destituídos da graça do Espírito Santo. Um critério infalível é aqui determinado para julgar a vocação dos que governam a Igreja de Deus; e esse critério é se percebemos que de fato têm recebido o Espírito Santo.

Entretanto, o que Cristo primordialmente pretendia com isso era sustentar a dignidade da posição dos apóstolos; pois era sem sentido que aqueles que tinham sido escolhidos para serem os primeiros e os mais eminentes arautos do evangelho possuíssem autoridade incomum. Mas se Cristo, naquele tempo, outorgou o Espírito aos apóstolos através do sopro, pode-se concluir que era supérfluo enviar o Espírito Santo mais tarde. Minha resposta é que o Espírito foi dado aos apóstolos nesta ocasião de uma maneira tal que só foram aspergidos por sua graça, porém não foram cheios com a plenitude de poder, pois quando o Espírito apareceu sobre eles em línguas de fogo [At 2.3], eles foram totalmente renovados. E de fato ele não os designou para serem os arautos do seu evangelho, ao ponto de enviá-los imediatamente à obra, mas lhes ordenou que repousassem, como lemos em outro lugar: Permanecei na cidade de Jerusalém até que do alto sejais revestidos de poder [Lc 24.49]. E se levarmos tudo devidamente em consideração, concluiremos não que ele lhes mune com os dons necessários para o presente uso, mas que os designa para que fossem os órgãos de seu Espírito para o futuro; e por isso esse sopro deve ser entendido como uma referência principalmente àquele magnificente ato de enviar o Espírito, o qual tinha com frequência prometido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).