“E O VERBO SE FEZ CARNE”
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).
O Evangelista ensina a natureza da vinda de Cristo de que havia falado, a saber: que, vestido de nossa carne, ele se manifestou publicamente ao mundo. Embora ele toque apenas de leve no inefável mistério de o Filho de Deus assumir a natureza humana, tal brevidade é maravilhosamente clara. Aqui, alguns dementes se divertem de forma pueril, fazendo alguns sofismas desprezíveis, tais como: diz-se que a palavra se fez carne no sentido em que Deus enviou seu Filho ao mundo para tornar-se homem como um conceito mental – como se a Palavra fosse alguma espécie de ideia fantasmagórica. Mas já demonstramos que isso expressa uma genuína hypostasis ou existência pessoal na essência de Deus.
O termo carne expressa a ideia com mais eficácia
do que se o Egangelista houvesse dito que ele se fez homem. Ele queria mostrar a que estado vil e abjeto o Filho de Deus
desceu, deixando a amplitude de sua glória celestial por nossa causa. Quando a
Escritura fala do homem em seu caráter deprimente, ela o chama de “carne”. Quão imensurável é a distância
entre a glória espiritual da Palavra
de Deus e a abominável vileza da nossa carne. Não obstante, o Filho de Deus se
humilhou de forma tão extrema que tomou para si essa carne permeada de profunda
miséria. Carne aqui não é usada para
a natureza depravada (como em Paulo), mas para o homem mortal. Denota
desdenhosamente sua natureza frágil e transitória: “toda carne é erva” [Is
40.6] e textos semelhantes [Sl 78.39].
Ao mesmo tempo, porém, é
preciso observar que aqui temos uma sinédoque retórica – a vileza abrange o
homem inteiro. Portanto, Apolinário procedeu nesciamente ao imaginar que Cristo
se vestiu com um corpo destituído de alma. Pois não é fácil deduzir, à luz de
inumeráveis afirmações que ele foi igualmente dotado com um corpo e uma alma. E
as Escrituras, ao qualificar os homens de carne,
nem por isso os apresentam destituídos de alma.
O sentido pleno, portanto,
é para que a Palavra, gerada por Deus
antes de todas as eras e habitando eternamente com o Pai, se fez homem. Temos
aqui dois importantes artigos de fé. Primeiro: em Cristo as duas naturezas
foram unidas numa só pessoa, de tal forma que um e o mesmo Cristo é verdadeiro Deus
e verdadeiro homem. Segundo: a unidade de sua pessoa não impede suas naturezas
de permanecerem distintas de tal modo que a divindade retém o que lhe é
inerente, e a humanidade, de igual modo, mantém separadamente o que lhe pertence.
E assim, quando Satanás usa os hereges para subverterem a sã teologia por meio
desta ou daquela sandice, ele sempre introduz um ou outro destes dois erros: ou
que Cristo foi o Filho de Deus e do homem de forma confusa, de modo que nem sua
divindade permaneceu intacta nem foi ele circuncidado pela verdadeira natureza
humana, ou que ele foi revestido de carne ao ponto de tornar-se um ser duplo,
convertendo-se em duas pessoas distintas. Dessa forma, os nestorianos
reconheciam expressamente cada natureza, porém imaginavam um Cristo que era
Deus e outro que era homem. Êutico, por outro lado, reconhecia que um só Cristo
é o Filho de Deus e do homem, porém o destituiu de ambas as naturezas, crendo
que foram fundidas. Serveto e os anabatistas inventaram um Cristo que é a
confusa combinação das duas naturezas, como se ele fosse um homem divino.
Certamente que ele declara verbalmente que Cristo é Deus, mas quando se lhe
permite expressar suas insanas imaginações, descobre-se que a divindade foi
temporariamente mudada em natureza humana, e agora a natureza foi uma vez mais
absorvida na Deidade.
As palavras do Evangelista
foram expressas de forma a refutar ambas as blasfêmias. Ao dizer que a Palavra se fez carne, podemos deduzir
claramente a unidade de sua pessoa. Pois não faz sentido dizer que o que agora
é homem seja outro diferente do que sempre foi Deus, uma vez que se diz que foi
Deus quem se fez carne. Além disso, visto que ele atribui distintamente ao
homem Cristo o título a Palavra,
segue-se que, quando se fez homem, Cristo não cessou de ser o que sempre fora
antes, e que nada foi mudado naquela eterna essência do Deus que assumiu a
carne. Em suma, o Filho de Deus começou a ser homem de tal forma que é ainda
aquela eterna Palavra que jamais teve
princípio temporal.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).







