"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sábado, 28 de dezembro de 2024

“TENDO O DESEJO DE PARTIR E ESTAR COM CRISTO”


“TENDO O DESEJO DE PARTIR E ESTAR COM CRISTO”

“Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23).

Ora, de um e outro lado, estou constrangido. O apóstolo Paulo não deseja viver com nenhum outro objetivo em vista senão a promoção da glória de Cristo, e fazer o bem aos irmãos. Daí ele enxergar nenhuma outra vantagem em viver senão o bem-estar dos irmãos. Mas, no que diz respeito a si mesmo, ele reconhece que lhe seria preferível morrer logo, visto que [nesse caso] passaria a estar com Cristo. Apesar disso, por sua escolha ele revela que ardente amor havia em seu coração. Aqui nada se diz sobre vantagens terrenas, mas sobre benefício espiritual, o qual é um motivo supremamente desejável aos olhos dos santos. Entretanto, como se esquecesse de si mesmo, ele não só se mantém indeciso, para que não levasse em conta seu próprio benefício, e sim o dos filipenses, mas, por fim, conclui que em sua mente devia vencer o interesse deles. E, com toda certeza, isto é na verdade viver ou morrer para Cristo, quando, sendo indiferente em relação a nós mesmos, nos deixemos ser levados aonde quer que Cristo nos chame e, ali, usados.

Tendo o desejo de partir e [de] estar com Cristo. Estas duas coisas têm de ser lidas em conexão. Pois a morte, por si só, nunca será desejável, uma vez que tal desejo se opõe ao sentimento natural, porém, é desejável por alguma razão particular, ou com vistas a algum outro fim. Pessoas em desespero têm recorrido a ela por se sentirem cansadas da vida; os crentes, por sua vez, espontaneamente se apressam para ela, pois [isso] representa um livramento da servidão do pecado e [também] o ingresso no reino celestial. Ora, o que Paulo diz é o seguinte: “Desejo morrer, porque quero, por esse meio, entrar imediatamente na comunhão com Cristo.” Entrementes, os crentes não deixam de encarar a morte com horror, mas quando volvem seus olhos para aquela vida que segue a morte, vencem com facilidade todo medo em virtude dessa consolação. Inquestionavelmente, todo aquele que crê em Cristo deve ser de tal modo corajoso que erga sua cabeça ante a menção da morte, com o coração cheio de alegria só de tomar consciência de sua redenção [Lc 21.28]. A partir deste fato notamos quantos são os cristãos nominais, visto que a maioria, ao ouvir fazer-se menção da morte, fica não só alarmada, mas se sente quase que desfalecida de medo, como se nunca tivesse ouvido sequer uma palavra sobre Cristo. Quão preciosa e valiosa é uma boa consciência! Ora, a fé é o fundamento de uma boa consciência; não só isso, ela é a própria bondade da consciência.

Partir. É preciso notar bem esta forma de expressão. As pessoas profanas falam da morte como sendo a destruição do homem, como se este perecesse completamente. Aqui, Paulo nos lembra que a morte é a separação entre a alma e o corpo. E ele expressa isso mais plenamente logo a seguir, explicando que condição aguarda os crentes após a morte - habitação com Cristo. Estamos com Cristo mesmo nesta vida, visto que o reino de Deus está dentro de nós [Lc 17.21], e Cristo habita em nós pela fé [Ef 3.17], e prometeu que estará conosco até o fim do mundo [Mt 28.20], mas desfrutamos dessa presença só em esperança. Daí, quanto ao nosso sentimento, é-nos informado que, no tocante à presença, estamos longe dele [cf. 2C0 5.6]. Esta passagem é muito útil para afastar a fantasia tola daqueles que sonham que as almas dormem assim que se separam do corpo, pois o apóstolo declara francamente que desfrutamos da presença de Cristo assim que nos livramos do corpo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“PARA MIM, O VIVER É CRISTO, E O MORRER É LUCRO”


“PARA MIM, O VIVER É CRISTO, E O MORRER É LUCRO”

“Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher” (Fp 1.21,22).

Porquanto, para mim o viver. Os intérpretes têm feito até agora, em minha opinião, uma tradução e exposição errôneas desta passagem; pois fazem esta distinção: que Cristo era a vida para Paulo, e a morte era lucro. Em contrapartida, eu faço Cristo ser o sujeito da frase em ambas as partes, de modo que ele é declarado como sendo lucro para ele, quer na vida, quer na morte. Além disso, este significado é menos forçado, e também corresponde melhor com a afirmação precedente e contém a doutrina mais completa. O apóstolo declara ser-lhe indiferente, e é a mesma coisa, se ele vive ou morre, porque, possuindo Cristo, ele tem ambas as coisas como lucro. E, com toda certeza, é somente Cristo que nos faz felizes, quer na morte, quer na vida; de outro modo, se a morte for miserável, a vida de modo algum é mais feliz; de modo a ser difícil determinar se é mais vantajoso viver ou morrer fora de Cristo. Em contrapartida, se Cristo está conosco, e abençoar nossa vida, tanto quanto nossa morte, então ambas nos serão felizes e desejáveis.

Entretanto, se o viver na carne. Como as pessoas em desespero se sentem em perplexidade sobre se devem prolongar sua vida e viver um pouco mais em misérias, ou terminar suas tribulações com a morte, assim Paulo, em contrapartida, diz que se acha, no espírito de contentamento, bem preparado para a morte ou para a vida, porque a condição dos crentes, seja num caso ou no outro, é bem-aventurada, de modo que ele se sente em dificuldade com a escolha. Já não sei o que hei de escolher; isto é, “se tenho razão de crer que haverá maior vantagem viver do que morrer, não percebo qual delas devo preferir”. Viver na carne é uma expressão que ele usa com menosprezo quando ela é comparada com uma vida melhor.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“CHEIOS DO FRUTO DE JUSTIÇA”


“CHEIOS DO FRUTO DE JUSTIÇA”

“Cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1.11).

Cheios do fruto de justiça. Isto pertence agora à vida exterior, pois uma boa consciência produz seus frutos por meio de obras. Daí Paulo desejar que fossem frutíferos em boas obras para a glória de Deus. Tais frutos, diz ele, provêm de Cristo, porque emanam da graça de Cristo. Pois o princípio de nossas boas obras está na santificação oriunda de seu Espírito, porquanto ele repousou sobre [Cristo], para que todos recebamos de sua plenitude [Jo 1.16]. E, como Paulo aqui deriva das árvores uma similitude, somos oliveiras silvestres [Rm 11.24], e improdutivas, até que sejamos enxertados em Cristo, o qual, por sua raiz viva, nos faz árvores produtivas, em conformidade com aquele dito: “Eu sou a videira, vós os ramos” [Jo 15.1]. Ao mesmo tempo, ele mostra o propósito: para que promovamos a glória de Deus. Pois nenhuma vida é tão excelente em aparência que não seja corrompida e ofensiva aos olhos de Deus, se não for direcionada para este objetivo.

O apóstolo Paulo aqui fala de obras sob o termo justiça, a qual de modo algum é inconsistente com a justiça gratuita da fé. Pois imediatamente se segue que há justiça onde quer que haja os frutos da justiça, visto não haver justiça aos olhos de Deus, a menos que haja uma plena e completa obediência à lei, a qual não é encontrada em nenhum dos santos, ainda que, não obstante, produzam, em conformidade com sua medida, os bons e deleitosos frutos da justiça; e é por esta razão que, quando Deus começa a justiça em nós, mediante a regeneração do Espírito, o que fica faltando é amplamente suprido pela remissão dos pecados, de maneira tal que toda a justiça, não obstante, dependa da fé.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“AQUELE QUE COMEÇOU BOA OBRA EM VÓS”


“AQUELE QUE COMEÇOU BOA OBRA EM VÓS”

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Estou plenamente certo. Um motivo adicional de alegria do apóstolo Paulo é fornecido na confiança [depositada nos irmãos] para o futuro. Mas é possível que alguém diga: por que os homens ousariam a garantir-se para amanhã em meio a tão grande enfermidade da natureza, em meio a tantos impedimentos, asperezas, precipícios? Por certo que Paulo não derivava esta confiança da firmeza e da excelência dos homens, mas simplesmente do fato de que Deus manifestara seu amor para com os filipenses. E, indubitavelmente, esta é a genuína maneira de reconhecer os benefícios divinos - quando derivamos deles ocasião de nutrir boas esperanças quanto ao futuro. Porque, como são tomados imediatamente por sua bondade, e por sua paternal benevolência para conosco, que ingratidão seria não derivar disto nenhuma confirmação de esperança e bom ânimo! Além disto, Deus não é como os homens a ponto de se cansar ou sentir-se exausto em conferir bondade. Portanto, que os crentes se exercitem em constante meditação sobre os favores que Deus confere, para que se animem e confirmem a esperança quanto ao futuro, e tenham sempre em sua mente este silogismo: Deus não se esquece da obra que suas próprias mãos começaram, como o profeta testifica [SI 138.8]; nós somos a obra de suas mãos; portanto, ele completará o que já começou a fazer em nós. Quando digo que somos a obra de suas mãos, não me refiro à mera criação, mas à vocação pela qual somos adotados como seus filhos. Pois o fato de que o Senhor nos chamou eficazmente para si, pela operação de seu Espírito, é sinal da nossa eleição.

Não obstante, pergunta-se se alguém pode estar certo quanto à salvação de outra pessoa, porquanto aqui Paulo não está falando de si mesmo, e sim dos filipenses. Respondo que a certeza que um indivíduo tem com respeito à sua salvação pessoal é muito diferente da que ele tem em relação à das outras pessoas. Pois o Espírito de Deus é minha testemunha de que fui chamado, como o é também de cada um dos eleitos. Quanto aos outros, não temos nenhum testemunho, exceto o da eficácia externa do Espírito; ou, seja, até onde a graça de Deus se exibe neles, e até onde a percebemos. Portanto, há uma grande diferença porque a certeza de fé permanece encerrada no interior de cada um, e não se exterioriza aos demais. Não obstante, onde quer que notemos quaisquer das marcas da eleição divina, que porventura sejam notadas por nós, devemos imediatamente estimular-nos a nutrir boa esperança, seja para que não sejamos invejosos em relação aos nossos semelhantes, seja subtraindo deles um juízo equitativo de caridade; e, ainda, para que sejamos gratos a Deus. Não obstante, esta é uma regra geral, seja quanto a nós mesmos, seja quanto aos demais - que, desconfiando de nossa própria força, dependamos inteiramente só de Deus.

Até ao Dia de Jesus Cristo. De fato, a principal coisa a ser entendida aqui é esta: até o término do conflito. Ora, o conflito termina com a morte. Não obstante, como o Espírito costuma falar desta maneira em referência à última vinda de Cristo, seria melhor estender o avanço da graça de Cristo até a ressurreição da carne. Pois embora aqueles que já foram libertados do corpo mortal não mais contendam com as concupiscências da carne, e estão, por assim dizer, além do alcance de um único dardo, contudo não haverá absurdo algum em falar deles como estando ainda no caminho de avanço, visto que ainda não alcançaram o ponto que desejam - ainda não desfrutando da felicidade e glória que tanto esperam; e, por fim, o dia ainda não chegou para que se descubram os tesouros que jazem na esperança. E, na verdade, quando se trata da esperança, nossos olhos devem estar sempre direcionados para a bem-aventurada ressurreição, como sendo o grande objeto em vista.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 22 de dezembro de 2024

“AO NOME DE JESUS SE DOBRE TODO JOELHO”


AO NOME DE JESUS SE DOBRE TODO JOELHO”

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10).

Para que se dobre todo joelho. Ainda que se deva mostrar respeito também pelos homens, por meio deste rito, não pode haver dúvida que o que aqui está implícito é aquela adoração que pertence exclusivamente a Deus, da qual o curvar-se é um emblema. Quanto a isto, é oportuno observar que Deus deve ser adorado não meramente com o afeto íntimo do coração, mas também pela profissão externa, se quisermos render-lhe o que lhe é devido. Daí, em contrapartida, ao descrever seus genuínos adoradores, ele diz: “todos os joelhos que não se dobraram a Baal” [1Rs 19.18].

Aqui, porém, surge uma pergunta: isto se relaciona com a divindade de Cristo, ou com sua humanidade, porquanto qualquer das duas contém alguma inconsistência, visto que não se poderia outorgar nada novo à sua divindade; e à sua humanidade, em si mesma, vista separadamente, de modo algum possui alguma exaltação que pudesse ser adorada como Deus? Respondo que isto, como muitas outras coisas, é afirmado em referência à pessoa inteira de Cristo, vista como “Deus manifestado na carne” [1Tm 3.16]. Pois ele não se aviltou, seja quanto à humanidade sozinha, ou quanto à divindade sozinha, senão que, uma vez que ele se vestiu de nossa carne, ele se ocultou sob sua fragilidade. De modo que Deus exaltou seu próprio Filho na mesma carne na qual vivera no mundo abjeto e desprezível, a mais elevada posição de honra, para que se assentasse à sua destra.

Contudo, o apóstolo Paulo parece ser inconsistente consigo mesmo; pois, em Romanos 14.11, ele cita esta mesma passagem, quando ele tem em vista provar que Cristo um dia será o Juiz de vivos e de mortos. Ora, não seria aplicável àquele tema se já houvesse concretizado o que ele declara aqui. Respondo que o reino de Cristo possui uma base tal que a todo dia vai crescendo e avançando em perfeição, enquanto que, ao mesmo tempo, ainda não atingiu a perfeição, nem será reconhecido assim até o dia final. Assim, ambas as coisas se mantêm verdadeiras - que todas as coisas ora estão sujeitas a Cristo, e que esta sujeição, não obstante, não se completará até o dia da ressurreição, porque aquilo que agora apenas começou então se completará. Daí não ser sem razão que esta profecia se aplica de diferentes maneiras e em diferentes tempos, como também todas as demais profecias que falam do reinado de Cristo não se restringem a um só tempo particular, mas o descreve em todo seu curso. Não obstante, disto inferimos que Cristo é aquele Deus eterno que falou pelos lábios de Isaías.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“DEUS O EXALTOU SOBREMANEIRA”


“DEUS O EXALTOU SOBREMANEIRA”

“Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Fp 2.9).

Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira. Não se achará ninguém, é verdade, que reconheça ser algo racional o que nos é requerido, quando somos exortados a imitar a Cristo. Esta consideração, contudo, nos estimula a imitá-lo com todo entusiasmo, quando aprendemos que nada nos é mais vantajoso do que nos conformarmos à sua imagem. Ora, é feliz todo aquele que, juntamente com Cristo, voluntariamente se humilha; e ele mesmo o demonstra com seu exemplo; porque, da condição mui desprezível ele foi exaltado a uma elevação suprema. Portanto, todo aquele que se humilha será de modo semelhante exaltado. Ora, quem se sentirá relutante em exercer humildade, por meio da qual se obtém a glória do reino celestial?

Esta passagem tem propiciado ocasião aos sofistas, ou, melhor, eles têm se assenhoreado dela, para alegarem que Cristo veio para granjear mérito, primeiramente para si mesmo, e depois para outros. Ora, em primeiro lugar, mesmo que nada houvesse de falso nesta alegação, não obstante seria oportuno evitar tais especulações profanas que obscurecem a graça de Cristo - imaginar que ele veio por qualquer outra razão e não com vistas à nossa salvação. Quem não percebe ser esta uma sugestão de Satanás - que Cristo sofreu no madeiro com o fim de adquirir para si, pelo mérito de sua obra, o que ainda não possuía? Pois o desígnio do Espírito Santo é que nós, na morte de Cristo, nada vemos, provamos, ponderamos, sentimos e reconhecemos senão a pura bondade de Deus, e o amor de Cristo para conosco, o qual era tão imenso e inestimável, que, desconsiderando a si próprio, devotou a si e a sua vida para nosso bem. Em todo transe em que as Escrituras falam da morte de Cristo, elas nos assinalam sua vantagem e preço: que, por meio dela, somos redimidos; reconciliados com Deus; restaurados à justiça; purificados de nossas poluições; a vida nos é conquistada e os portões da vida, abertos. Quem, pois, negaria ser por instigação de Satanás que as pessoas referidas mantêm, em contrapartida, que a parte principal da vantagem está em Cristo mesmo - que em consideração a si próprio ele manteve a precedência daquilo que tinha para nós; que ele mereceu para si glória antes de merecer-nos salvação?

Ademais, nego a veracidade do que alegam, e mantenho que as palavras de Paulo são impiamente pervertidas para alegar sua falsidade; porquanto a expressão, por esta causa, denota, aqui, uma consequência, antes que uma razão, e se manifesta disto: que de outro modo se seguiria que um homem poderia merecer honras divinas e adquirir o próprio trono de Deus - o que é não meramente absurdo, mas inclusive medonho até mesmo de mencionar. Pois, de que exaltação de Cristo o apóstolo fala aqui? É que tudo quanto fosse realizado nele, Deus, pelo profeta Isaías, reivindica exclusivamente para si. Daí a glória de Deus, e a majestade, que lhe é tão peculiar, que não podem ser transferidas a nenhum outro, serão recompensa de esforço humano!

Uma vez mais, se insistem no modo de expressão, sem qualquer consideração ao absurdo que seguirá, a resposta será fácil - que ele nos foi dado pelo Pai de maneira tal que toda sua vida é como um espelho que é posto diante de nós. Como, pois, um espelho, ainda que tenha esplendor, não o tem de si próprio, mas com vistas a ser vantajoso e proveitoso a outros; assim Cristo não buscou nem recebeu nada para si mesmo, mas tudo para nós. Pois que necessidade, pergunto, tinha ele, que era igual ao Pai, de uma nova exaltação? Então, que os leitores piedosos aprendam a detestar os sofistas de Sorbonne com suas especulações pervertidas.

E lhe deu um nome. Aqui, emprega-se nome no sentido de dignidade. Portanto, o significado é que foi dado a Cristo o poder supremo, e que ele foi posto na mais elevada posição de honra, de modo que não se acha dignidade, seja no céu, seja na terra, que seja igual à dele. Daí se segue que o mesmo é um nome divino. Ele explica isto também citando as palavras de Isaías, onde o profeta, ao tratar da propagação do culto divino por todo o orbe, apresenta Deus falando assim: “Diante de mim se dobrará todo joelho, e jurará toda língua” [Is 45.23].

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ANTES, A SI MESMO SE ESVAZIOU”


“ANTES, A SI MESMO SE ESVAZIOU”    

“Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, achado na forma de homem, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.7,8).

A si mesmo se esvaziou.  Este esvaziamento é o mesmo que aviltamento, sobre o qual veremos mais adiante. Não obstante, esta expressão é usada (mais enfaticamente) para significar: sendo reduzido a nada. De fato Cristo não podia despir-se da Deidade; mas ele a manteve escondida por algum tempo, para que não fosse vista, sob a fragilidade da carne. Daí ele abrir mão da sua glória, pelo prisma humano, não a fim de diminuí-la, e sim para a ocultar.

Indaga-se se ele fez isso como homem. Erasmo responde na afirmativa. Todavia, onde estava a forma de Deus antes de se tornar homem? Daí, devemos responder que Paulo fala de Cristo em sua totalidade, como Deus manifestado na carne [1Tm 3.16]; mas, não obstante, este esvaziamento é aplicável exclusivamente à sua humanidade, como se eu dissesse do homem: “O homem, sendo mortal, seria excessivamente sem sentido se ele em nada mais pensasse senão no mundo”; de fato me refiro ao homem em sua totalidade; mas, ao mesmo tempo, atribuo mortalidade só a uma parte dele, a saber, ao corpo. Como, pois, Cristo tem uma só pessoa, consistindo de duas naturezas, é com propriedade que Paulo diga que ele, que era o Filho de Deus - na realidade igual a Deus -, não obstante abriu mão da sua glória, quando na carne se manifestou na aparência de um servo.

Indaga-se ainda, em segundo lugar, como é possível dizer que ele se esvaziou, enquanto que, não obstante, demonstrava, mediante milagres e excelências, ser o Filho de Deus, e em quem, como João testifica, sempre se contemplou uma glória digna do Filho de Deus [Jo 1.14]? Respondo que o aviltamento da carne era, apesar de tudo, como que um véu a esconder sua majestade divina. Foi por isso mesmo que ele não queria que sua transfiguração viesse a público, mesmo depois da sua ressurreição; e, quando ele percebe que a hora de sua morte se avizinhava, então diz: “Pai, glorifica a teu Filho” [Jo 17.1]. Daí também Paulo ensinar em outro lugar que ele “foi declarado Filho de Deus segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos” [Rm 1.4]. E, em outro lugar, também declara que “ele sofreu pela fraqueza da carne” [2C0 13.4].  Enfim, a imagem de Deus resplandeceu em Cristo de tal maneira que ele foi,  ao mesmo tempo,  aviltado  em sua aparência externa, nada valendo na estima dos homens; pois ele portava a forma de servo e assumiu nossa natureza, com vistas expressamente a ser servo do Pai;  pior ainda,  inclusive dos homens.  Paulo o chama ainda de “Ministro da Circuncisão” [Rm  15.8]; e ele mesmo testifica de si que veio ministrar [Mt 20.28]; e que a mesma coisa fora há muito tempo predita por Isaías: “Eis que meu servo” [Is 52.13].

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 21 de dezembro de 2024

“TENDE EM VÓS O MESMO SENTIMENTO”

 


“TENDE EM VÓS O MESMO SENTIMENTO”

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus” (Fp 2.5,6).

O apóstolo Paulo agora recomenda, com base no exemplo de Cristo, o exercício da humildade, à qual ele os exortou em palavras. Entretanto, há duas etapas: na primeira, ele nos convida a imitarmos a Cristo, porque esta é a norma da vida; na segunda, ele nos atrai para essa norma, porque esta é a estrada pela qual tomamos posse da verdadeira glória. Daí ele exortar a cada pessoa a cultivar a mesma disposição que houve em Cristo. Em seguida, ele mostra qual é o padrão da humildade exibido em Cristo à nossa vista.

Ele, subsistindo em forma de Deus. Esta não é uma comparação entre coisas semelhantes, mas sim algo como “maior e menor”. A humildade de Cristo consistiu em ele descer, do pináculo mais elevado de glória à ignomínia mais baixa; nossa humildade consiste em refrear-nos de uma exaltação egoísta por uma falsa estima. Ele renunciou ao seu direito; tudo o que se requer de nós é que não assumamos para nós mesmos mais do que devemos. Daí ele especificar isto: que, “Ele, subsistindo na forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus como coisa a que se devia apegar; mas a si mesmo se esvaziou”. Visto, pois, que o Filho de  Deus  desceu  de  uma  altitude tão  imensa, quão irracional seria que nós, que nada somos, tentássemos nos exaltar tão orgulhosamente!

Aqui, a forma de Deus representa sua majestade.  Pois como um homem é conhecido pela aparência de sua forma, assim a majestade, que resplandece em Deus, é sua figura. Ou, se você preferir uma figura mais apropriada, a forma de um rei é sua equipagem e magnificência, o que o exibe como rei - seu cetro, sua coroa, sua vestimenta, seus assistentes, seu tribunal e outros emblemas de realeza; a forma de um cônsul era sua longa túnica, bordada de púrpura, seu trono de marfim, seus litores com bordões e machadinhas. Cristo, pois, antes da criação do mundo, subsistia na forma  de  Deus,  porque  desde  o princípio ele possuía sua glória junto com o Pai, como ele diz em João 17.5. Porque, na sabedoria de Deus, antes de assumir nossa carne, não havia nada que fosse humilde ou desprezível; mas, ao contrário, havia uma magnificência digna de Deus. Subsistindo tal como era, ele pôde, sem fazer injustiça a ninguém, exibir-se como igual a Deus; mas ele não se manifestou como sendo o que realmente era, nem assumiu publicamente à vista dos homens o que lhe pertencia por direito.

Não considerou como usurpação. Não teria havido erro algum caso tivesse exibido sua igualdade com Deus. Pois quando diz: ele não considerou, é como se dissesse: “De fato ele sabia que isso lhe era legítimo e um direito”, para que saibamos que seu aviltamento foi voluntário, não por necessidade. Até aqui a tradução foi feita no indicativo - ele considerou -, mas a conexão requer o subjuntivo. É também algo bem costumeiro Paulo empregar o pretérito do indicativo no lugar do subjuntivo - como, por exemplo, em Romanos 9.3, “pois eu teria desejado”; e em 1Coríntios 2.8, “se tivessem conhecido”. Não obstante, cada um deve perceber que Paulo até aqui tratou da glória de Cristo, a qual tende a reforçar seu aviltamento. Consequentemente, ele menciona não o que o Cristo fez, mas o que lhe era lícito fazer.

Mais do que isso: aquele que não perceber que a eterna divindade [de Cristo] se expressa com clareza nessas palavras está completamente cego! Tão pouco Erasmo age com a modéstia que deveria ao tentar, por meio de suas picuinhas, modificar esta passagem, bem como outras passagens semelhantes. De fato ele reconhece, por toda parte, que Cristo é Deus; mas de que me aproveita tal confissão ortodoxa se minha fé não for sustentada por alguma autoridade bíblica? Por certo que reconheço que Paulo não faz menção, aqui, da essência divina de Cristo; mas disto não se segue que a passagem não seja suficiente para repelir a impiedade dos arianos, que pretendiam que Cristo fosse um Deus criado e inferior ao Pai, e que negavam que ele era consubstancial. Ora, será que pode haver igualdade com Deus sem usurpação, se não houver necessariamente também a essência de Deus?  É Isaías quem afirma que Deus sempre permanece o mesmo: “Minha glória não a darei a outrem” [Is 48.11]. Forma significa figura ou aparência, como comumente se fala. Prontamente admito isso também; mas é possível encontrar, senão em Deus, tal forma, sem que seja ou falsa ou forjada? Assim, do mesmo jeito que Deus é conhecido por meio de suas excelências e que suas obras evidenciam sua eterna Deidade [Rm 1.20], a essência divina de Cristo é demonstrada claramente na majestade de Cristo, a qual ele possuía igualmente com o Pai, antes mesmo de se humilhar. No que me diz respeito, pelo menos, nem ainda todos os demônios adulterariam esta  passagem,    que    em  Deus um argumento bem sólido, a partir de sua glória para sua essência, as quais são duas coisas inseparáveis.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

“CONFORMES À IMAGEM DE CRISTO”


CONFORMES À IMAGEM DE CRISTO

“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29).

O apóstolo Paulo mostra, pela própria ordem da eleição, que todas as aflições dos crentes são simplesmente os meios pelos quais são identificados com Cristo. Ele previamente declara a necessidade disto. As aflições, portanto, não devem ser um motivo para nos sentirmos entristecidos, amargurados ou sobrecarregados, a menos que também reprovemos a eleição do Senhor, pela qual fomos predestinados para a vida, e vivamos relutantes em levar em nosso ser a imagem do Filho de Deus, por meio da qual somos preparados para a gloria celestial. O conhecimento antecipado de Deus mencionado aqui pelo apóstolo, não significa mera presciência, como alguns neófitos totalmente imaginam, mas significa, sim, a adoção, pela qual o Senhor sempre distingue seus filhos dos réprobos. Neste sentido, o apóstolo Pedro diz que os crentes foram eleitos para a santificação do Espírito segundo a presciência divina [1Pe 1.2]. Aqueles, pois, a quem me refiro aqui, tolamente concluem que Deus não elegeu a ninguém senão àqueles a quem previu seriam dignos de sua graça. Pedro não elogia os crentes como se fossem todos eles eleitos segundo seus méritos pessoais, senão que, ao remetê-los ao eterno conselho de Deus, declara que estão todos inteiramente privados de qualquer dignidade. Segue-se disto que este conhecimento depende do beneplácito divino, visto que, ao adotar aqueles a quem ele quis, Deus não teve qualquer conhecimento antecipado das coisas fora de si mesmo, senão que destacou aqueles a quem propôs eleger.

O verbo traduzido por predestinar aponta para as circunstâncias desta passagem em pauta. O apóstolo quer dizer simplesmente que Deus determinara que todos quantos adotasse levariam a imagem de Cristo. Não diz simplesmente que deveriam ser conformados a Cristo, e, sim, à imagem de Cristo, com o fim de ensinar-nos que em Cristo há um vivo e nítido exemplo que é posto diante dos filhos de Deus para que imitem. A súmula da passagem consiste em que a graciosa adoção, na qual nossa salvação consiste, é inseparável deste outro decreto, a saber: que ele nos designou para que levemos a cruz. Ninguém pode ser herdeiro do reino celestial sem que antes seja conformado à imagem do Filho Unigênito de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
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“CRIOU DEUS, POIS, O HOMEM À SUA IMAGEM”


“CRIOU DEUS, POIS, O HOMEM À SUA IMAGEM”

“Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.27).

Não sei se há algo sólido na opinião de alguns que sustentam que isso é dito porque a imagem de Deus apenas se insinuou no homem, até que atingisse sua perfeição. De fato isso procede, porém não creio que algo do gênero passou pela mente de Moisés. É verdade também que Cristo é a única imagem do Pai; no entanto, as palavras de Moisés não comportam a interpretação que “à imagem” significa “em Cristo”. Pode-se acrescentar também que mesmo o homem, ainda que num aspecto diferente, é chamado a imagem de Deus. Nisto alguns Pais da igreja se enganaram, ao insinuarem que poderiam vencer os arianos com essa arma, a saber, que Cristo é a única imagem de Deus. É preciso levar em conta uma dificuldade ainda maior, a saber, por que Paulo negaria à mulher a imagem de Deus, quando Moises honra a ambos, indiscriminadamente, com esse título? A solução é simples: a referência de Paulo, ali, é somente à relação doméstica. E, portanto, restringe a imagem de Deus ao governo do lar, no qual o homem, como cabeça, é superior à mulher, e certamente Moisés tem em vista nada mais que o fato de que o homem é superior no grau de honra. Aqui, porém, a questão é acerca daquela glória de Deus que resplandece particularmente na natureza humana, onde a mente, a vontade, e todos os sentidos representam a ordem divina.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“DISSE DEUS: FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM”


“DISSE DEUS: FAÇAMOS O HOMEM À NOSSA IMAGEM”

“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra” (Gn 1.26).

Os intérpretes não unânimes no que se refere ao significado dessas palavras. A grande maioria acredita que a palavra imagem deva ser distinguida de semelhança. E a distinção comum é que imagem existe na substância; semelhança, nos acidentes de alguma coisa. Os que preferem definir o tema de modo breve, dizem que na imagem estão contidos aqueles dotes que Deus conferiu à natureza humana em geral, enquanto explicam semelhança no sentido dos dons gratuitos. Agostinho, porém, além de todos os outros, especula com excessivo refinamento, com o propósito de projetar uma trindade no homem. Pois, ao valer-se das três faculdades da alma enumeradas por Aristóteles: o intelecto, a memória e a vontade, ele deriva delas muitas outras. De fato, reconheço que há algo no homem que se reporta ao Pai, ao Filho e ao Espírito; e não tenho dificuldade em admitir a distinção das faculdades da alma feita acima; embora a divisão mais simples em duas partes, que é usada na Escritura, seja mais adaptada à sã doutrina da piedade; mas uma definição de imagem de Deus deve repousar sobre uma base mais sólida do que em tais sutilezas.

No que diz respeito, antes de definir a imagem de Deus, negaria que ela difira de sua semelhança. Pois quando Moisés, mais adiante, repete a mesma coisa, ele ignora a semelhança e se contenta em mencionar apenas a imagem. Alguém poderia replicar dizendo que ele estava meramente buscando brevidade; a isso eu respondo que, onde ele usa duas vezes a palavra imagem, não faz menção da semelhança. Sabemos ainda que era comum entre os hebreus repetirem a mesma coisa em diferentes palavras. Além disso, a frase em si mostra que o segundo termo foi acrescido como explicação. “Façamos”, diz ele, “o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”, isto é, para que ele seja semelhante a Deus, ou possa representar a imagem de Deus.

Finalmente, no quinto capítulo, sem fazer qualquer menção de imagem, ele põe semelhança em seu lugar [Gn 5.1]. Mesmo que tenhamos descartado toda e qualquer diferença entre as duas palavras, ainda não averiguamos o que é essa imagem e semelhança. Os antropomorfistas foram demasiadamente grosseiros em buscar essa semelhança no corpo humano; que tal desvario, portanto, permaneça sepultado. Outros procedem um pouco mais sutilmente, a saber, ainda que não imaginem Deus como sendo corpóreo, contudo sustentam que a imagem de Deus está no corpo do homem, porque sua admirável estrutura brilha aí fulgurantemente. Essa opinião, porém, como veremos, não está de forma alguma em concordância com a Escritura. A exposição de Crisóstomo é mais correta, o qual se reporta ao domínio que ao homem foi dado a fim de poder, em certo sentido, agir como vice-regente de Deus no governo do mundo. Essa, realmente, é alguma parte, ainda que muito pequena, da imagem de Deus.

Posto que a imagem de Deus foi em nós destruída pela queda, podemos julgar, a partir de sua restauração, o que ela fora originalmente. Paulo diz que, pelo evangelho, somos transformados na imagem de Deus. E, segundo ele, a regeneração espiritual nada mais é do que a restauração da mesma imagem [Cl 3.10; Ef 4.23]. É mediante a figura de sinédoque que ele fez essa imagem consistir em “justiça e verdadeira santidade”; pois ainda que essa seja a parte principal, não é o todo da imagem de Deus. Portanto, por essa palavra se designa a perfeição de toda nossa natureza, como apareceu quando Adão foi dotado com um reto juízo, quando tinha os afetos em harmonia com a razão, tinha todos os seus sentidos íntegros e bem regulados, e realmente se sobressaia em tudo o que é bom. Assim, a principal sede da imagem divina esta em sua mente e coração, onde ela era eminente; contudo, não havia parte dele em que não refulgissem algumas cintilações dela. Pois havia um equilíbrio nas diversas partes da alma que correspondia aos seus vários ofícios. Na mente florescia e reinava perfeita inteligência, a retidão estava presente como sua companheira, e todos os sentidos estavam preparados e moldados para devida obediência à razão; e no corpo havia uma correspondência própria a essa ordem interior. Agora, porém, embora alguns obscuros delineamentos dessa imagem se encontram permanentes em nós, contudo, se encontram tão viciados e mutilados, que se pode dizer com razão que estão destruídos. Pois além da deformidade que por toda parte parece repugnante, acrescenta-se também este mal: que nenhuma parte está isenta da infecção do pecado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 14 de dezembro de 2024

“PERMANECE NAQUILO QUE APRENDESTE”


“PERMANECE NAQUILO QUE APRENDESTE”

“Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste e que te foi confiado, sabendo de quem o aprendeste” (2Tm 3.14).

Ainda que a impiedade estivesse crescendo e prevalecendo, não obstante o apóstolo Paulo diz a Timóteo que se mantivesse firme. Certamente que este é um teste real para nossa fé, quando com zelo infatigável resistimos a todos os inventos do diabo recusando-nos a alterar o curso frente a todos os ventos que sopram, e assim permanecermos inamovíveis na verdade de Deus como âncora segura.

“Sabendo de quem aprendeste”. A intenção de Paulo, aqui, é enaltecer a certeza de sua doutrina, porquanto não devemos perseverar em coisas nas quais temos sido erroneamente instruídos. Se desejamos ser discípulos de Cristo, então devemos desaprender tudo quanto aprendemos à parte dele. Por exemplo, nossa instrução pessoal na fé pura começou quando rejeitamos e esquecemos tudo o que aprendemos sob o jugo do papado. O apóstolo não está dizendo a Timóteo que retivesse, indiscriminadamente, todo e qualquer ensino a ele transmitido, mas somente o que soubesse ser a verdade; o que ele quer dizer é que devemos fazer seleção. Sua alegação de que o que ele ensina deve ser recebido como revelação divina não é feita por sua própria causa como um indivíduo em particular. Ao contrário, ousadamente assevera a Timóteo sua autoridade apostólica, sabendo que sua fidelidade era notória e sua vocação aprovada, até onde lhe era possível saber. Estando seguramente persuadido de que havia sido instruído pelo apóstolo de Cristo, Timóteo poderia deduzir disto que a doutrina tinha por fonte não o homem, mas Cristo mesmo.

Esta passagem nos ensina que devemos exercer a mesma preocupação, tanto para evitar-se a falsa segurança em questões que são indefinidas, ou seja, todas as coisas que os homens ensinam, quanto sustentar a verdade de Deus com inabalável firmeza. Também aprendemos que devemos acrescentar à nossa fé o discernimento que nos possibilita distinguir a Palavra de Deus da palavra do homem, de modo que não aceitemos sem mais nem menos tudo o que nos é oferecido. Nada é mais estranho à fé do que uma credibilidade simplória que nos convida a aceitar tudo indiscriminadamente, não importando qual seja sua natureza ou fonte, pois o principal fundamento da fé é sabermos que ela tem origem na autoridade de Deus.

E ao acrescentar que a Timóteo foi confiado seu ensino, Paulo adiciona força à sua exortação. Confiar uma coisa a alguém é mais do que simplesmente entregá-la. Timóteo não havia sido instruído como se faz a uma pessoa comum, mas como alguém que pudesse fielmente passar às mãos de outros o que havia recebido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“HOMENS PERVERSOS E IMPOSTORES”

 


“HOMENS PERVERSOS E IMPOSTORES”

“Mas os homens perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados (2Tm 3.13).

É a mais amarga das perseguições vermos pessoas más com sua sacrílega ousadia, suas blasfêmias e seus erros acumulando força. O apóstolo Paulo diz em outro lugar que Ismael perseguiu Isaque, não empunhando uma espada, mas vomitando motejos [Gl 4.29]. Portanto, podemos inferir que no versículo anterior Paulo estava descrevendo não só um tipo de perseguição, mas estava falando em termos gerais de todas as angústias que os filhos de Deus têm que suportar quando contendem pela glória de seu Pai. Já falei como as pessoas perversas vão se tornando cada vez mais piores; o apóstolo está predizendo que serão obstinadas em sua resistência e bem sucedidas em causar dano e outras corrupções. Uma só pessoa indigna será sempre mais eficiente em destruir do que dez mestres fiéis em edificar, ainda quando labutem com todas as suas forças. Jamais faltará discórdia para Satanás semear junto à boa semente, e ainda quando pensarmos que os falsos profetas já se foram, outros tantos imediatamente surgirão de todos os lados. Têm este poder de fazer o mal, não porque a falsidade seja por sua própria natureza mais forte que a verdade, ou porque os ardis do diabo sejam mais resistentes que o Espírito de Deus, mas porque os homens são naturalmente inclinados à vaidade e aos vícios, e abraçam mais prontamente as coisas que concordam com sua natural disposição, e também porque são cegados pelos atos da justa vingança divina, e assim são levados, como escravos em cativeiro, ao bel-prazer de Satanás. A principal razão por que a praga das doutrinas ímpias é tão bem sucedida, é que a ingratidão dos homens merece ser remunerada. É de grande importância que os mestres piedosos sejam lembrados desse fato, para que estejam preparados a manter uma guerra constante e não se deixem desencorajar ante a delonga nem se compactuem com o orgulho e insolência de seus adversários.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

“O ANTICRISTO”


O ANTICRISTO”

“Filhinhos, esta já é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora” (1João 2.18)

Ao chegarmos à análise da questão do anticristo, permitam-me começar indicando-lhes determinadas afirmações específicas das Escrituras. Em primeiro lugar, temos a passagem de 1 João capítulo 2, especialmente o versículo 18: “Filhinhos, esta já é a última hora; e, conforme ouvistes que vem o anticristo, já muitos anticristos se têm levantado; por onde conhecemos que é a última hora”. Na verdade, o “anticristo” é um termo usando somente pelo apóstolo João. Então temos também a grande passagem em 2 Tessalonicenses 2.1-12, a qual, também, é claramente uma descrição da mesma pessoa. Além do mais, é igualmente claro que em Daniel 7.8 e 7.15-28, bem como na clássica passagem de Apocalipse 13.1-18, com seu relato da besta que emerge do mar e a besta que emerge da terra, há referências do mesmo poder. E, finalmente, há também referências incidentais em 1 Timóteo, capítulo 4, e em 2 Timóteo, capítulos 2 e 3.

Agora deixem-me apresentar-lhes meu argumento de que Daniel, capítulo 7, 2 Tessalonicenses, capítulo 2, e Apocalipse, capítulo 13, todos eles, se referem ao anticristo. Antes de tudo, em cada passagem, a fonte, a origem, é a mesma. Em Daniel 7.8, o pequeno chifre procede da quarta besta; no Apocalipse, o governo do anticristo é a última fase da besta que emerge do mar; enquanto que o homem do pecado, em 2 Tessalonicenses, capítulo 2, é visível depois da remoção do Império Romano.

Em segundo lugar, o tempo da origem é o mesmo. O pequeno chifre está entre os sucessores divididos do Império Romano; a besta recebe do dragão (que é Satanás) seu poder e sua grande autoridade marchando pela Roma pagã; e o homem do pecado é revelado depois que o poder restringente for removido.

Em terceiro lugar, seu fim é o mesmo. Todos os três são destruídos na segunda vinda de Cristo no juízo final.

Em quarto lugar, em cada relato, a figura exerce poder político-religioso. O pequeno chifre de Daniel, capítulo 7, é semelhante aos outros, embora “divirja” deles, no sentido em que ele é um poder religioso, distinto dos outros “reis” (Dn 8.24). No Apocalipse, capítulo 13, a besta usa uma coroa, todavia exige e recebe culto, e o “homem do pecado”, em Tessalonicenses, capítulo 2, exibe ambos os aspectos.

Em quinto lugar, as figuras nos três relatos revelam pretensão blasfema. O pequeno chifre possui uma “boca que fala grandes coisas” (Dn 7.20), e “Proferirá palavras contra o Altíssimo” (Dn 7.25). Somos informados que a besta do Apocalipse tem “uma boca que proferirá arrogâncias e blasfêmias” (Ap 13.5), enquanto o homem do pecado se exalta contra Deus (2Ts 2.4).

Em sexto lugar, tanto em Daniel como no Apocalipse, o tempo de seu domínio é o mesmo: três anos e meio. Em Daniel ele é descrito como “um tempo, dois tempos e metade de um tempo” (Dn 7.25), e no que diz respeito à besta do Apocalipse, “deu-se-lhe autoridade para atuar por quarente e dois meses” (Ap 13.5). Paulo, porém, em 2 Tessalonicenses, não apresenta tempo exato.

Em sétimo lugar, todos os três declaram guerra contra o povo de Deus.

Em oitavo lugar, possuem grande poder. Somos informados acerca do pequeno chifre em Daniel: “e parecia ser mais robusto do que os seus companheiros” (Dn 7.20), enquanto se pergunta acerca da besta: “quem poderá batalhar contra ela” (Ap 13.4). E somos informados que o homem do pecado em 2 Tessalonicenses opera “segundo a eficácia de Satanás com todo o poder, sinais e prodígios da mentira (2Ts 2.9).

Finalmente, em cada passagem é exigida homenagem como se fosse Deus: o pequeno chifre se estabelece sobre os santos e tempos e leis do Altíssimo (Dn 7.21,25); a besta obriga as multidões a adorá-la (Ap 13.12), e o homem do pecado se exalta como Deus (2Ts 2.4).

Portanto, havendo focalizado a relação entre as três passagens, pergunto: o que todas significariam e o que Paulo estaria ensinando em 2 Tessalonicenses, capítulo 2? Bem, ele começa dizendo que o “dia de Cristo” não está próximo como algumas pessoas têm dito, e então prossegue explicando que certas coisas devem acontecer antes.

Primeiro, haverá apostasia - “um abandono”. Isso deverá acontecer na Igreja, e será a apostasia. Então “esse homem do pecado”, “o filho da perdição”, o ímpio e iníquo será revelado. Notem bem que não nos diz que ele virá, pois ele já está presente e operando, senão que nesse ponto ele se revelará.

Paulo então prossegue dizendo certas coisas acerca dele. Somos informados que ele é iníquo. Isso não é pecado passivo, mas resistência positiva contra Deus. É desobediência deliberada na qual a obstinação se exalta ao nível mais elevado.

Segundo, ele se opõe a Deus e a Cristo e ao Seu reino e obra. Ele é o anticristo, que se põe no lugar de Cristo e se intitula cristão, todavia é contra o reino da verdade que o nome de cristão implica. Terceiro, ele se assenta no santuário de Deus, e sua quarta característica é a autodeificação - “apresentando-se como Deus” (2Ts 2.4).

Quinto, Paulo diz que este é um mistério que, como sempre no Novo Testamento, só é revelado aos que têm discernimento espiritual.

Sexto, sua presença é marcada por mentirosas pretensões e falsos milagres, como Paulo enumera nos versículos 9 a 11 - “com todo o poder e sinais e prodígios da mentira”, levando o povo a crer numa mentira, a qual é a operação de Satanás, e arrogando para si todo o domínio da fé.

Paulo também diz que a revelação do homem do pecado é detido por um poder restringente (v.7), e que ele está condenado à destruição na vinda de Cristo: “a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca” (v.8). Mas Paulo também deixa claro que “O mistério da iniquidade” já começou - “já opera” (v.7). Entretanto, como já vimos, diferente de Daniel, Paulo não fixa tempos exatos.

Então, a que essas descrições do anticristo se referem? Três explicações principais se têm apresentado. Uma é que isso já ocorreu: refere-se à apostasia e rejeição judaicas de Cristo. Outros dizem que se dará inteiramente no futuro, e se refere a uma pessoa judaica ou gentia que se exaltará no templo restaurado em Jerusalém e fará guerra contra os santos.

A terceira explicação é que as passagens referentes ao anticristo indicam o papado. Esse foi o ponto de vista dos reformadores protestantes. Em defesa de seus argumentos, apontavam para as palavras: ”se assenta no santuário de Deus, apresentando-se como Deus” (2Ts 2.4), as quais, diziam eles, se referem ao trono do papa na igreja entre o povo de Deus. Realçavam que o poder papal começou depois da queda do Império Romano, o qual corresponde ao relato bíblico da origem do anticristo. O elemento político-religioso, dizem, está igualmente presente no papado, como também a exigência de culto; e além disso, mantinham que existe certa oposição ao evangelho que é vista mais sutilmente na negação da doutrina da justificação unicamente pela fé em Cristo e na exaltação da igreja católica. Esse ponto de vista também compara os “prodígios da mentira” com o grande número de supostos milagres mantidos pela igreja católica romana, e no que diz respeito a “crer na mentira”, apontavam para a fé em milagres, por exemplo, e para o fato de que o Concílio de Trento anatematizou a fé genuína.

Os reformadores sugeriram também que o “restringente” se refere aos imperadores romanos, cujo poder foi então removido; o “espírito (sopro) de sua (do Senhor) ”boca”, em 2 Tessalonicenses 2.8 era a Reforma Protestante; e assim a “décima parte da cidade” que caiu, conforme Apocalipse 11.12, é uma referência à Revolução Francesa.

Eis aí, portanto, as interpretações possíveis deste tremendo tema do anticristo. Tanta coisa permanece incerta, e objeções podem surgir contra todos os três pontos de vista. De algumas coisas, contudo, podemos estar certos. Como já demostramos, o anticristo já estava em ação nos dias dos apóstolos Paulo e João, mas é muito claro que, ainda que haja muitas imitações dele, ele atingirá seu mais pleno poder imediatamente antes do fim desta época. Além do mais, enquanto Daniel mostra o aspecto político, Paulo enfatiza o aspecto religioso de seu governo, e encontramos ambos no Apocalipse, capítulo 13, como a besta que emerge do mar simbolizando o poder político, e a besta que emerge da terra, o poder religioso. Possivelmente, a esse dois aspectos pode seguir-se outro, com um terrível poder religioso vindo após um poder político igualmente terrível.

Finalmente, podemos, creio eu, estar certos de que o anticristo por fim se concentrará numa pessoa, a qual deterá um terrível poder, e será capaz de operar milagres e realizar prodígios de tal forma que quase enganará os próprios eleitos.

Ora, a meu ver esse é o sentido de sua doutrina, e devemos compreender que nós mesmos somos confrontados por tal poder. Não devemos ser culpados de demasiada simplificação, mas podemos estar certos de que, desde o início da Igreja até o fim, um poder maligno está em ação dentro da Igreja. Como Paulo escreveu aos Efésios: “Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12).

Deus nos abençoe!

Dr. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981).

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

“O CONHECIMENTO DA VERDADE”


“O CONHECIMENTO DA VERDADE

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, segundo a fé que é dos eleitos de Deus e o conhecimento da verdade que é segundo a piedade” (Tt 1.1).

Vemos aqui, o apóstolo Paulo explicando a natureza da fé que ele já mencionara, embora essa seja, não uma definição completa dela, mas a descrição adequada do presente contexto. A fim de apoiar sua alegação de que seu apostolado está livre de toda e qualquer impostura e equívoco, ele declara que sua mensagem nada contém senão aquela notória e averiguada verdade, a qual pode instruir os homens no perfeito culto divino. Visto, porém, que cada palavra tem sua própria importância, nos será de muito proveito examiná-las uma a uma.

Em primeiro lugar, ao chamar a fé de “conhecimento”, ele não está meramente distinguindo-a de opinião, mas daquela fé forjada e implícita inventada pelos hereges. Pois por fé implícita eles querem dizer algo destituído de toda luz da razão. Ao dizer que conhecer a verdade pertence à essência da fé, ele claramente demonstra que sem o conhecimento não há certeza na fé.

Com o termo, “verdade”, ele explica ainda mais claramente a certeza que a natureza da fé requer; pois a fé não se satisfaz com probabilidades, mas com a plena verdade. Além do mais, ele não está falando, aqui, de qualquer gênero de verdade, mas daquela que é contrastada com a vaidade do entendimento humano. Pois como Deus se nos tem revelado através dessa verdade, ela é a única que merece o título de “a verdade” - título este a ela dado em muitos passos bíblicos. “O Espírito da verdade vos guiará a toda a verdade” [Jo 16.13]. “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” [Jo 17.17]. “Quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade?” [Gl 3.1]. “Por causa da esperança que vos está preservada nos céus, da qual antes ouvistes pela palavra da verdade do evangelho” [Cl 1.5]. “O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” [1Tm 2.4]. “A igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade” [1Tm 3.15]. Em suma, a verdade é aquele puro e perfeito conhecimento de Deus, o qual nos livra de todo e qualquer erro e falsidade. Devemos considerar que não há nada mais miserável do que vagar ao longo de toda a nossa vida como ovelhas perdidas.

A próxima frase, que é segundo a piedade, qualifica a verdade de uma forma específica, da qual ele esteve falando, e ao mesmo tempo recomenda sua doutrina a partir de seu fruto e propósito, visto que seu alvo único é promover o culto divino correto, e manter a religião genuína entre os homens. E assim ele livra sua doutrina de toda e qualquer suspeita de vã curiosidade, como ele fez diante de Félix [At 24.10] e igualmente diante de Agripa [At 26.1]. Visto que todos os questionamentos supérfluos que não se inclinam para a edificação devem ser com toda razão suspeitos e mesmo detestados pelos cristãos piedosos, a única recomendação legítima da doutrina é que ela nos instrui na reverência e temor de Deus. E assim aprendemos que o homem que mais progride na piedade é também o melhor discípulo de Cristo, e o único homem que deve ser tido na conta de genuíno teólogo é aquele que pode edificar a consciência humana no temor de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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