"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 10 de março de 2023

“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte II


“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte II

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

A segunda cláusula consiste nisto: que devemos estar plenamente persuadidos de que não se pode buscar a Deus em vão, convicção esta que inclui a esperança da salvação e a vida eterna. Ninguém terá seu coração preparado para buscar a Deus, a menos que perceba profundamente uma manifestação da divina munificência compelindo-o a esperar dele a salvação. Onde nenhuma salvação se evidencia, ou fugiremos de Deus, ou não o levaremos em consideração. Devemos ter sempre em mente que tal coisa tem de ser crida e não meramente imaginada, porquanto até mesmo os incrédulos podem às vezes alimentar tal noção; todavia, não se aproximam de Deus, visto que não podem contar com aquela fé genuína e sólida. Eis a segunda parte da fé, pela qual obtemos graça diante de Deus: quando nos sentimos seguros de que nossa salvação repousa nele.

Muitos são aqueles que pervertem insidiosamente esta cláusula, deduzindo dela os méritos das obras e a doutrina da salvação que delas provém. Eis o seu raciocínio: “Se agradamos a Deus pela fé, porque cremos que ele é o Galardoador, então segue-se que a fé leva em conta o mérito das obras”. Tal erro não poderia ser melhor refutado do que encarando a maneira de o buscar; pois todo aquele que se desvia desse caminho não pode ser considerado como que a buscar a Deus. A Escritura estipula que o caminho certo de se buscar a Deus consiste em que a pessoa que se vê prostrada, ferida, com a acusação de morte eterna e totalmente desesperada, deve fugir para Cristo como o único refúgio de salvação. Em parte alguma encontraremos que os méritos das obras devam nos conduzir a Deus com o fim de granjearmos seu favor. Aqueles que honestamente defendem esse princípio de se buscar a Deus não encontrarão nenhuma dificuldade, visto que o galardão refere-se não à dignidade ou ao prêmio das obras, mas à fé.

Isso liquida os frios arrazoados dos sofistas que dizem que agradamos a Deus através da fé por que merecemos quando nossa intenção é agradá-lo. A intenção do apóstolo é conduzir-nos muito mais alto, para que a própria consciência humana se convença de forma inabalável de que buscar a Deus não é um propósito fútil. Isso certamente sobrepuja muitíssimo a tudo quando podemos apreender para nós mesmos, especialmente quando alguém o aplica em termos pessoais. Que Deus é o Galardoador dos que o buscam é algo que não deve ser considerado em termos abstratos, mas cada um de nós, individualmente, deve aplicar a si mesmo as vantagens e os benefícios desta doutrina, para que saibamos que Deus tem cuidado de nós; que ele se preocupa tanto com nossa salvação que jamais se afastará de nós; que nossas orações são ouvidas por ele e que ele será sempre o nosso infalível Libertador. Visto que nenhuma dessas coisas nos vem senão por meio de Cristo, necessário se faz que nossa fé o tenha sempre em consideração e que repouse unicamente nele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte I


“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte I

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

A razão por que ninguém pode agradar a Deus sem o exercício da fé consiste nisto: ninguém jamais se aproxima de Deus se não crer que ele existe e estiver  convencido de que é o Galardoador dos que o buscam. Se o caminho para Deus só é aberto para a fé, segue-se que todos quantos se encontram fora da fé não podem agradar a Deus. A partir desse fato, o apóstolo mostra, em primeiro lugar, como a fé obtém o favor [divino] para nós, visto que ela é nossa mestra que nos orienta na adoração ao verdadeiro Deus; e, em segundo lugar, porque ela nos faz mais seguros da munificência divina, para que não nos pareça que o buscamos em vão.

A primeira vista, a exigência do apóstolo para crermos na existência de Deus não se nos afigura como uma questão de primeira grandeza. Se você, porém, fizer uma observação mais minuciosa, descobrirá que ela contém uma rica, profunda e sublime doutrina. Ainda que a existência de Deus seja uma doutrina que desfruta do consenso quase que universal e sem disputa, não obstante, a menos que o Senhor nos dê um sólido conhecimento de si mesmo, toda sorte de dúvidas nos assaltará para extinguir toda a nossa percepção do Ser divino. O intelecto humano é particularmente inclinado a esse gênero de vacuidade, de tal modo que se torna fácil esquecer-se de Deus. O apóstolo não está dizendo simplesmente que os homens devam ser persuadidos de que é possível a existência de algum gênero de deus, senão que ele está fazendo referência direta ao verdadeiro Deus. Repito, não será bastante que formulemos uma vaga ideia de Deus, senão que temos que discernir quem é o Deus verdadeiro.

Agora percebemos o que o apóstolo tencionava nesta cláusula. Ele afirma que não teremos acesso à presença de Deus, a menos que estejamos convencidos, nos mais profundos recessos de nossa alma, que Deus de fato existe, para que não sejamos levados de um lado para outro por toda sorte de opiniões. É evidente, à luz desse fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se porventura não observarem o modo correto; e que todas as religiões que não contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também perniciosas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos estão sendo impedidas de se aproximarem dele. Não pode haver religião alguma onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a temê-lo. Não é possível ter um genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”


“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Os homens já nascem com uma tendência tão acentuada que parecem fugir da paz, pois que todos correm atrás de seus próprios interesses, pretendendo seguir seus próprios caminhos e não se preocupam em adequar-se à linha de conduta dos outros. A menos que energicamente sigamos a paz, jamais a reteremos, pois a cada dia tantas coisas sucedem, que infindáveis discórdias se suscitam. Eis a razão por que o apóstolo nos convoca a seguirmos a paz, como se quisesse dizer que não só devemos cultivá-la porque isso nos convenha, mas também que devemos esforçar-nos com todo empenho por conservá-la em nosso meio. Tal coisa não poderá suceder, a menos que esqueçamos as muitas injúrias e mostremos uns aos outros o mútuo perdão, em muitas coisas.

Visto que a paz não pode ser mantida com os ímpios, a não ser sob a condição de aprovarmos suas transgressões, o apóstolo imediatamente adiciona que a santificação deve ser juntamente seguida com a paz, como se nos recomendasse a paz com essa exceção, ou seja: que não permitamos que a amizade dos perversos também nos contamine ou corrompa. A santificação é o vínculo especial que nos une a Deus. Mesmo que o mundo todos se abrase com guerra, não devemos permitir que a santificação se extinga, porquanto ela é o vínculo que nos mantém em união com Deus. Em suma, fomentemos tranquilamente a paz com os homens, mas somente até onde a consciência o permita. O apóstolo afirma que ninguém pode ver a Deus fora do âmbito da santificação, uma vez que só veremos a Deus com aqueles olhos que já passaram pela renovação em consonância com a imagem divina.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”

“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”

“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.27,28).

Visto que após a morte de alguém aguardamos pacientemente o dia do juízo, já que essa é a lei comum da natureza contra a qual não há que lutar, por que deveria haver menos paciência em aguardar a segunda vinda de Cristo? Se um longo intervalo de tempo não subtrai nada, em relação aos homens, da esperança de uma ditosa ressurreição, quão desditoso seria conceder a Cristo uma honra menor! E essa honra seria ainda menor, se lhe solicitássemos que suportasse a morte segunda vez, depois de tê-la suportado uma vez para sempre.

Aqui, portanto, o apóstolo recomenda que não nos perturbemos por desejos irracionais equivocados, esperando novas modalidades de expiação, uma vez que a morte única de Cristo nos é plenamente suficiente. Diz ainda que Cristo apareceu uma vez por todas e ofereceu sacrifício para tirar os pecados de muitos, e aparecerá segunda vez, ou seja: que Cristo, em sua segunda vinda, dará a conhecer plenamente quão realmente destruiu os pecados, não havendo necessidade de outro sacrifício para satisfazer a Deus. É como se ele estivesse dizendo que quando nos aproximarmos do tribunal de Cristo, descobriremos que em sua morte nada foi deficitário. No dia do juízo, Cristo Jesus manifestará de forma gloriosa a eficácia de sua morte, a fim de que o pecado não mais tenha o poder de ferir aqueles que o aguardam para a salvação. A Escritura tem atribuído aos crentes uma expectativa comum em relação à volta do Senhor, com o fim de distingui-los dos incrédulos, para quem a simples menção desse Dia é algo terrível (1Ts 1.10).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”


“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”

“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11.13).

Vemos neste versículo o apóstolo magnificando a fé dos patriarcas ao modo de comparação; porque, embora tivessem apenas saboreado as promessas de Deus, sentiram-se felizes com sua doçura e rejeitaram com desdém tudo que havia no mundo; nem ainda esqueceram do sabor delas, por muito escasso que fosse, seja na vida seja morte.

A frase, “morreram na fé”, se explica de duas formas. Há quem simplesmente a entenda como significando que morreram na fé em razão de que nesta vida jamais obtiveram as bênçãos prometidas, assim como hoje, nossa salvação se encontra oculta de nós na esperança. Em contrapartida, concordo com aqueles que creem que se deve observar aqui uma certa diferença entre os pais e nós, o que exponho assim: Ainda que Deus haja dado aos pais apenas um antegozo de seu favor, o qual é derramado generosamente sobre nós; e ainda que ele lhes haja mostrado apenas uma vaga imagem de Cristo, como que à distância, o qual é agora posto diante de nossos olhos para que o vejamos, todavia ficaram satisfeitos e nunca decaíram de sua fé. Quão maior e mais justificável razão temos nós, hoje, para perseverarmos! Se porventura fracassarmos, nos veremos duplamente sem escusa. Isso é ainda mais enfatizado pelas circunstâncias, ou seja: que os pais viram o reino espiritual de Cristo de longe, enquanto que essa visão se encontra tão próxima de nós hoje. Eles saudaram de longe as promessas que hoje nos são tão familiares. Se eles, apesar de tudo, perseveraram até à morte, quão imperdoável será nossa indolência, caso nos cansemos de crer quando o Senhor nos socorre com tantos recursos! Se alguém objetar, dizendo que não podiam ter crido sem ter obtido as promessas, sobre as quais a fé se acha necessariamente fundamentada, respondo que a expressão tem de ser tomada em termos de comparativos. Eles se encontraram longe desse elevado estado no qual Deus nos estabeleceu. Ainda que a mesma salvação lhes fora prometida, todavia as promessas não lhes foram reveladas com a mesma clareza que desfrutamos no reino de Cristo, senão que se contentaram em contemplá-las de longe.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

“RAABE, A MERETRIZ, JUSTIFICADA MEDIANTE A FÉ”

 


“RAABE, A MERETRIZ, JUSTIFICADA MEDIANTE A FÉ”

“Pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias” (Hb 11.31).

Pela fé, Raabe não pereceu. Ainda que à primeira vista esse exemplo pareça inadequado em razão do vil caráter da pessoa, e quase até indigno de ser incluso neste catálogo [de heróis da fé], não obstante foi citado pelo apóstolo como mui adequado e relevante. Até aqui, ele demonstrou que os patriarcas a quem os judeus atribuíam a maior honra e respeito nada fizeram digno de enaltecimento que não fosse pela fé, e que todos os benefícios divinos para conosco, os quais são dignos de memória, são os frutos da mesma fé. Agora nos diz que uma mulher estrangeira, a qual era não só dentre a classe mais humilde de seu povo, mas também uma meretriz, foi, pela fé introduzida no corpo da Igreja. Segue-se desse fato que aqueles a quem pertence a mais elevada excelência são de nenhum valor aos olhos de Deus, a não ser quando avaliados pelo prisma da fé; e que, em contrapartida, aqueles que dificilmente teriam um lugar entre os incrédulos e os pagãos são adotados na companhia dos anjos.

Tiago também testifica da fé de Raabe (Tg 2.25), e é fácil de se perceber à luz da sacra história, que essa mulher fora dotada com uma fé genuína. Ela professou que se sentira plenamente persuadida pelo que Deus prometera aos israelitas; e daqueles a quem o medo impedira de entrar na terra, e que agora eram os conquistadores, ela pediu perdão para si mesma e para seu povo. E ao proceder assim, ela não olhava para o homem, mas para Deus mesmo. A evidência dessa fé consiste em que ela recebeu os espias com aquela hospitalidade que punha em risco sua própria vida. Portanto, foi graças à fé que Raabe escapou incólume da ruína geral de sua cidade. O designativo meretriz é adicionado visando a engrandecer a graça de Deus. Naturalmente que isso também se refere à sua vida pregressa, porquanto sua fé é a evidência de seu arrependimento.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MOISÉS, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”


“MOISÉS, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”

“Pela fé, Moisés abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27).

Pela fé, Moises abandonou o Egito, bravamente desconsiderou a violenta ira do rei, e de tal maneira armou-se com o poder do Espírito de Deus, que persistentemente afrontou a esse furor bestial.

Moisés havia visto Deus no meio da sarça ardente, “como quem vê aquele que é invisível”. Indubitavelmente, admito que Moisés se encontrava fortalecido com essa visão de Deus antes de iniciar sua extraordinária tarefa de libertar o povo, todavia não creio que foi tal visão que o deixara fora de si e transportado para além dos perigos deste mundo. Naquela ocasião, Deus lhe mostrara apenas um tênue sinal de sua presença, e esteve longe de vê-lo como ele é.

Em síntese, Deus apareceu a Moisés de uma forma tal, como para deixar ainda lugar para a fé, e Moisés, sendo assediado de todos os lados por numerosos terrores, volveu a Deus toda a sua atenção. Certamente que foi auxiliado a agir assim pela visão que teve, mas ele viu em Deus mais do que o sinal visível continha. Ele compreendera o poder divino, fato esse que dissipou todos os seus temores e todos os riscos. E ao descansar na promessa divina, ele se assegurou de que o povo, embora ainda oprimido pela tirania dos egípcios, era já senhor da terra prometida. Desse fato concluímos que, primeiro, a verdadeira natureza da fé consiste em ter Deus sempre diante dos olhos; segundo, que a fé vê coisas mais elevadas e ocultas em Deus do que os nossos sentidos podem perceber; e terceiro, que nos é suficiente apenas uma visão de Deus para que nossas debilidades sejam corrigidas, e assim nos tornemos mais fortes que as rochas contra todas as investidas de Satanás.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

“ABRAÃO, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”


“ABRAÃO, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”

“Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia. Pela fé, peregrinou na terra da promessa como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque aguardava a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hb 11.8-10).

O escritor da epístola aos Hebreus agora traz a lume o próprio Abraão, o principal pai da Igreja de Deus sobre a terra, e em cujo nome os judeus se gloriavam, como se fossem desmembrados da ordem comum dos homens, só pela distinção de serem eles a santa semente de Abraão. O apóstolo demonstra que eles deviam levar em consideração a principal razão de serem eles considerados os filhos de Abraão. Por isso ele chama a atenção para a fé, visto que Abraão, em si e por si mesmo, não possuía qualquer excelência que não fosse oriunda da fé. Ele começa dizendo que essa fé foi a razão por que Abraão imediatamente obedeceu a Deus, assim que recebeu a ordem de emigrar-se de sua terra; e então, em virtude desta mesma fé, seguiu em frente para a realização de seu chamamento, até ao fim. A fé que Abraão tinha foi claramente confirmada por esta dupla evidência: sua prontidão em obedecer e sua perseverança em agir.

Quando chamado, Abraão deixou a sua pátria, submeteu-se a esse exílio voluntário de sua espontânea vontade, porquanto sentiu que não podia fazer outra coisa que não fosse em obediência ao mandamento de Deus. Eis aqui, seguramente, um dos princípios de fé, a saber: que não devemos dar sequer um passo, a menos que a Palavra de Deus nos indique o caminho, e alumie adiante de nós como uma lâmpada. Temos que aprender que isso é precisamente o que devemos observar ao longo de toda a nossa vida, a saber: não intentar nada, a não ser que Deus nos chame.

Vemos que ao chamado acrescentou-se a promessa de que Deus daria a Abraão uma terra por herança. Ele prontamente aceitou essa promessa, e se apressou como alguém que foi enviado a tomar posse. É uma prova rara de fé deixar alguém o que tinha em mãos para sair em busca do longínquo e desconhecido. Quando lhe ordena sair, Deus não lhe mostra o lugar para onde que Abraão vá, senão que o mantém em suspenso e em perplexidade de espírito. Diz Deus: “Vai para o lugar que mostrarei” (Gn 12.1). Com que propósito Deus demorou dizer-lhe o lugar, senão para que paulatinamente lhe fosse testando a fé? O amor por sua terra natal poderia não só retardar a presteza de Abraão, mas também poderia manter seu espírito tão fortemente ligado ao seu país, que lhe dificultasse deixar o seu lar. Sua fé, pois, não era algo de caráter ordinário, de tal modo que o ajudou a vencer todos os obstáculos e o conduziu ao lugar para onde Deus o chamou.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

“NOÉ, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”

 

“NOÉ, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”

“Pela fé, Noé, divinamente instruído acerca de acontecimentos que ainda não se viam e sendo temente a Deus, aparelhou uma arca para a salvação de sua casa; pela qual condenou o mundo e se tornou herdeiro da justiça que vem da fé” (Hb 11.7).

Noé foi um exemplo tão extraordinário de virtude que, quando o mundo inteiro se entregou aos prazeres sem recato e sem freio, crendo poder viver impunimente, unicamente Noé levou em conta a vingança divina. Sendo temente a Deus, em obediência, fatigou-se ao longo de cento e vinte anos na construção de uma arca; permanecendo firme no meio da zombaria de uma multidão incrédula; e no seio de um mundo inteiro em ruína, ele não duvidou que seria salvo.

Eis a história de Noé. Noé era homem justo e íntegro entre os seus contemporâneos; Noé andava com Deus” (Gn 6.9).

Como seria possível que Noé obedecesse a Deus de forma tão consistente senão pelo fato de que já encontrava descanso na promessa que lhe imprimira esperança de salvação, e que nessa confiança perseverou até o fim? Poderia não ter tido em si mesmo coragem de enfrentar tantos problemas, nem poderia ter tido força para vencer tantos obstáculos, nem permanecer firme em seu propósito por tanto tempo, a não ser por meio de uma fé preveniente.

Em todas as épocas os homens jamais foram aprovados por Deus, nem tampouco fizeram algo digno de louvor que não fosse pelo exercício da fé. Noé foi herdeiro da justiça que provém da fé, fé que é mestra da obediência; em contrapartida, podemos chegar a conclusão de que é a ausência de fé que nos impede de obedecer a Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ABEL, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”


“ABEL, JUSTIFICADO MEDIANTE A FÉ”

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas” (Hb 11.4).

O escritor da epístola aos Hebreus irá mostrar agora que, por mais excelentes fossem as obras dos santos, elas derivam da fé seu valor, sua dignidade e tudo quanto de excelência porventura possuíssem. Desse fato segue-se, como ele mesmo já disse, que os pais só agradaram a Deus porque tinham fé. Ele, aqui, está falando de fé num duplo sentido. Primeiramente, por causa de sua obediência, visto que ela não intenta nem empreende nada exceto pela expressa Palavra de Deus; e então, porque ela descansa nas promessas de Deus, e assim granjeia mérito e dignidade para suas obras pela absoluta graça de Deus.

O apóstolo diz, antes de tudo, que o sacrifício de Abel foi mais aceitável do que o de seu irmão tão-somente porque foi santificado pela fé. A Escritura mostra nitidamente por que Deus se agradara de seu sacrifício. Eis as palavras de Moisés: “Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta” (Gn 4.4), à luz das quais podemos prontamente concluir que seu sacrifício agradou a Deus em virtude de ele mesmo ser agradável a Deus. De que outra fonte veio seu agradável caráter senão do fato de que possuía um coração purificado pela fé?

“Testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas”, confirma o que já foi dito, ou seja, que de nós não procede nenhuma obra agradável a Deus, enquanto nós mesmos não formos recebidos em seu favor, ou (falando mais sucintamente) nenhuma obra é considerada justa diante de Deus, a não ser aquelas que procedem de um homem justo. Deus deu testemunho acerca das ofertas de Abel, porque ele recebeu a honra de ser considerado justo diante de Deus.

Esta doutrina deve ser cuidadosamente observada em virtude de não sermos facilmente persuadidos dela. Sempre que se nota alguma coisa gloriosa numa obra, imediatamente somos arrebatados pela admiração, e então concluímos que ela não pode ser desaprovada por Deus sem que ele cometa injustiça. Deus, porém, que olha só para a pureza interior do coração, não leva em conta os disfarces externos das obras. Devemos apreender, portanto: nenhuma obra boa pode proceder de nós, sem que antes sejamos justificados diante de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.