"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 14 de março de 2023

“APÓSTOLO PELA VONTADE DE DEUS”


“APÓSTOLO PELA VONTADE DE DEUS”

“Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo” (1Co 1.1).

Apóstolo – Ainda que essa palavra contenha um significado geral por meio de sua derivação, e além disso é às vezes tomada num sentido amplo, referindo-se a todos os ministros, indistintamente, não obstante pertencem a ela, como uma designação particular, os que foram separados pela comissão do Senhor com o fim de publicar o evangelho ao mundo inteiro. Mas era importante que Paulo fosse incluído em seu número, e isto por duas razões: primeiro, porque muito mais deferência era atribuída a eles do que aos demais ministros do evangelho; e, segundo, porque unicamente eles, estritamente falando, possuíam a autoridade de instruir todas as igrejas.

Pela vontade de Deus – Visto que o apóstolo está acostumado a reconhecer alegremente sua dívida para com Deus em virtude das muitas coisas boas que dele tem recebido, ele procede assim particularmente com referência ao seu apostolado, de modo que ele pode remover de si toda sombra de arrogância. E não há dúvida de que, como o chamado para salvação é de graça, o chamado para ofício de apóstolo é igualmente de graça, como Cristo ensina nestas palavras: “Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vos outros” (Jo 15.16). Ao mesmo tempo, contudo, Paulo deixa implícito que todos quantos tentam subverter o seu apostolado, ou de alguma forma opor-se a ele, se opõem à ordenação divina. Pois Paulo não se gloria futilmente, aqui, de seus títulos honoríficos, mas propositalmente defende seu apostolado de ser desacreditado de forma maliciosa. Porquanto, visto que sua autoridade teria sido suficientemente clara para os coríntios, não havia necessidade de se fazer menção da vontade de Deus especificamente, caso os homens injustos não estivessem tentando, por meios indiretos, impingir sua posição de honra outorgada por Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“CHAMADO PARA SER APÓSTOLO”


“CHAMADO PARA SER APÓSTOLO”

“Paulo, chamado pela vontade de Deus para ser apóstolo de Jesus Cristo” (1Co 1.1).

Paulo inicia quase todas as suas cartas desta forma, com vista a granjear autoridade e aceitação de seu doutrinamento. Ele obtém autoridade para si mesmo na função, a ele imposta por Deus, de ser apóstolo de Cristo, enviado por Deus; [alcança] aceitação por meio do testemunho de seu próprio amor dedicado a todos aqueles para quem escreveu. Porque nos é mais fácil depositar fé em alguém que consideramos estar genuinamente bem disposto para conosco e fielmente cuidando de nossos interesses. Portanto, nesta saudação Paulo reivindica autoridade para si mesmo ao descrever-se como apóstolo de Cristo, verdadeiramente chamado por Deus, ou seja, separado pela vontade de Deus.

Duas coisas, porém, são requeridas daquele que será ouvido na igreja e que ocupará a posição de mestre: deve ser chamado por Deus para esse ofício, e deve ser fiel no cumprimento de seus deveres. Paulo alega, aqui, que ambas se aplicam a ele. Pelo título apóstolo, significa que ele cumpre os deveres de embaixador de Cristo, conscientemente, e proclama a genuína doutrina do evangelho. Mas para que ninguém assuma para si esta honra, de moto próprio, a menos que seja chamado para a mesma, ele acrescenta que não se lançou precipitadamente a ela, senão que fora por Deus designado a tomar posse dela.

Aprendamos, pois, a levar em consideração a ambos estes fatores quando quisermos saber a quem devemos ter como ministro de Cristo, ou seja: que seja ele chamado, e que seja fiel no cumprimento deste ofício. Visto que ninguém pode, por direito, arrogar para si a condição e ofício de ministro a não ser que seja chamado, assim não é bastante que uma pessoa seja chamada, caso não dê ela, também a satisfação de levar a bom termo o seu trabalho. O Senhor não escolhe ministros para serem ídolos mudos, nem para agirem ditatorialmente sob o pretexto de sua vocação, nem para fazerem de seus próprios caprichos sua lei. Ao contrário, a um só tempo Deus estabelece que tipo de homens devem ser, e os põe sob suas leis. Resumindo, ele os escolhe para o ministério a fim de que, em primeiro lugar, não sejam indolentes; e, em segundo lugar, que se mantenham dentro dos limites de seu ofício. Portanto, visto que o apostolado depende da vocação [divina], se alguém deseja ser considerado apóstolo, então deve provar que de fato o é, e fazer todo empenho para que os homens confiem nele e prestem atenção ao seu ensino. Pois já que Paulo conta com estas bases para reivindicar sua autoridade, seria insolência da parte de qualquer homem querer assumir tal posição sem elas!

Deus nossa abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 13 de março de 2023

“PAASMORGEN VIERING”

“Celebração da manhã de Páscoa”

“Estando elas possuídas de temor, baixando os olhos para o chão, eles lhes falaram: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos preveniu, estando ainda na Galileia” (Lc 24.5,6).


Deus nos abençoe!

domingo, 12 de março de 2023

sexta-feira, 10 de março de 2023

“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte III


“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte III

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

De ambas essas cláusulas podemos agora concluir como e por que é impossível a alguém agradar a Deus sem o exercício da fé. Já que por natureza vivemos debaixo de sua maldição. Deus, com justa razão, nos trata com ira, e o antídoto não se encontra em nosso poder. Portanto, necessário se faz que Deus nos antecipe com sua graça, o que acontece quando descobrimos que Deus existe, de tal forma que nenhuma superstição corrupta nos desvie para outra direção; e, além disso quando somos assegurados da salvação que nos provém dele.

Se porventura alguém desejar um desenvolvimento mais completo desse argumento, então que leve em conta o seguinte ponto de partida: Que inútil será toda a nossa tentativa e experiência, a menos que olhemos para Deus. O único propósito de uma vida genuína é servir à glória divina, e tal coisa jamais sucederá a menos que o conhecimento dele nos abra o caminho. Tal coisa, porém, seria só uma parte da fé, o que nos seria de pouco proveito, a menos que a confiança lhe seja adicionada. A fé só será completa em todas as suas partes, para assegurar-nos o favor divino, quando sentimos inabalável confiança de que não o buscamos em vão, e assim nos assegurarmos de que dele nos vem a salvação. Nenhuma pessoa alimentará qualquer confiança de que Deus será o Galardoador de seus méritos, a menos que o orgulho a tenha embrutecido e se sinta cativada pelo seu pervertido amor-próprio. Portanto, essa confiança de que falamos não se apoia nas obras, nem na dignidade do próprio ser humano, mas tão-somente no favor divino. Visto que a graça de Deus se encontra fundamentada somente em Cristo, ele é o único a quem nossa fé deve contemplar.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte II


“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte II

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

A segunda cláusula consiste nisto: que devemos estar plenamente persuadidos de que não se pode buscar a Deus em vão, convicção esta que inclui a esperança da salvação e a vida eterna. Ninguém terá seu coração preparado para buscar a Deus, a menos que perceba profundamente uma manifestação da divina munificência compelindo-o a esperar dele a salvação. Onde nenhuma salvação se evidencia, ou fugiremos de Deus, ou não o levaremos em consideração. Devemos ter sempre em mente que tal coisa tem de ser crida e não meramente imaginada, porquanto até mesmo os incrédulos podem às vezes alimentar tal noção; todavia, não se aproximam de Deus, visto que não podem contar com aquela fé genuína e sólida. Eis a segunda parte da fé, pela qual obtemos graça diante de Deus: quando nos sentimos seguros de que nossa salvação repousa nele.

Muitos são aqueles que pervertem insidiosamente esta cláusula, deduzindo dela os méritos das obras e a doutrina da salvação que delas provém. Eis o seu raciocínio: “Se agradamos a Deus pela fé, porque cremos que ele é o Galardoador, então segue-se que a fé leva em conta o mérito das obras”. Tal erro não poderia ser melhor refutado do que encarando a maneira de o buscar; pois todo aquele que se desvia desse caminho não pode ser considerado como que a buscar a Deus. A Escritura estipula que o caminho certo de se buscar a Deus consiste em que a pessoa que se vê prostrada, ferida, com a acusação de morte eterna e totalmente desesperada, deve fugir para Cristo como o único refúgio de salvação. Em parte alguma encontraremos que os méritos das obras devam nos conduzir a Deus com o fim de granjearmos seu favor. Aqueles que honestamente defendem esse princípio de se buscar a Deus não encontrarão nenhuma dificuldade, visto que o galardão refere-se não à dignidade ou ao prêmio das obras, mas à fé.

Isso liquida os frios arrazoados dos sofistas que dizem que agradamos a Deus através da fé por que merecemos quando nossa intenção é agradá-lo. A intenção do apóstolo é conduzir-nos muito mais alto, para que a própria consciência humana se convença de forma inabalável de que buscar a Deus não é um propósito fútil. Isso certamente sobrepuja muitíssimo a tudo quando podemos apreender para nós mesmos, especialmente quando alguém o aplica em termos pessoais. Que Deus é o Galardoador dos que o buscam é algo que não deve ser considerado em termos abstratos, mas cada um de nós, individualmente, deve aplicar a si mesmo as vantagens e os benefícios desta doutrina, para que saibamos que Deus tem cuidado de nós; que ele se preocupa tanto com nossa salvação que jamais se afastará de nós; que nossas orações são ouvidas por ele e que ele será sempre o nosso infalível Libertador. Visto que nenhuma dessas coisas nos vem senão por meio de Cristo, necessário se faz que nossa fé o tenha sempre em consideração e que repouse unicamente nele.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte I


“SEM FÉ É IMPOSSÍVEL AGRADAR A DEUS” – Parte I

“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6).

A razão por que ninguém pode agradar a Deus sem o exercício da fé consiste nisto: ninguém jamais se aproxima de Deus se não crer que ele existe e estiver  convencido de que é o Galardoador dos que o buscam. Se o caminho para Deus só é aberto para a fé, segue-se que todos quantos se encontram fora da fé não podem agradar a Deus. A partir desse fato, o apóstolo mostra, em primeiro lugar, como a fé obtém o favor [divino] para nós, visto que ela é nossa mestra que nos orienta na adoração ao verdadeiro Deus; e, em segundo lugar, porque ela nos faz mais seguros da munificência divina, para que não nos pareça que o buscamos em vão.

A primeira vista, a exigência do apóstolo para crermos na existência de Deus não se nos afigura como uma questão de primeira grandeza. Se você, porém, fizer uma observação mais minuciosa, descobrirá que ela contém uma rica, profunda e sublime doutrina. Ainda que a existência de Deus seja uma doutrina que desfruta do consenso quase que universal e sem disputa, não obstante, a menos que o Senhor nos dê um sólido conhecimento de si mesmo, toda sorte de dúvidas nos assaltará para extinguir toda a nossa percepção do Ser divino. O intelecto humano é particularmente inclinado a esse gênero de vacuidade, de tal modo que se torna fácil esquecer-se de Deus. O apóstolo não está dizendo simplesmente que os homens devam ser persuadidos de que é possível a existência de algum gênero de deus, senão que ele está fazendo referência direta ao verdadeiro Deus. Repito, não será bastante que formulemos uma vaga ideia de Deus, senão que temos que discernir quem é o Deus verdadeiro.

Agora percebemos o que o apóstolo tencionava nesta cláusula. Ele afirma que não teremos acesso à presença de Deus, a menos que estejamos convencidos, nos mais profundos recessos de nossa alma, que Deus de fato existe, para que não sejamos levados de um lado para outro por toda sorte de opiniões. É evidente, à luz desse fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se porventura não observarem o modo correto; e que todas as religiões que não contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também perniciosas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos estão sendo impedidas de se aproximarem dele. Não pode haver religião alguma onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a temê-lo. Não é possível ter um genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”


“SEGUI A PAZ COM TODOS E A SANTIFICAÇÃO”

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor” (Hb 12.14).

Os homens já nascem com uma tendência tão acentuada que parecem fugir da paz, pois que todos correm atrás de seus próprios interesses, pretendendo seguir seus próprios caminhos e não se preocupam em adequar-se à linha de conduta dos outros. A menos que energicamente sigamos a paz, jamais a reteremos, pois a cada dia tantas coisas sucedem, que infindáveis discórdias se suscitam. Eis a razão por que o apóstolo nos convoca a seguirmos a paz, como se quisesse dizer que não só devemos cultivá-la porque isso nos convenha, mas também que devemos esforçar-nos com todo empenho por conservá-la em nosso meio. Tal coisa não poderá suceder, a menos que esqueçamos as muitas injúrias e mostremos uns aos outros o mútuo perdão, em muitas coisas.

Visto que a paz não pode ser mantida com os ímpios, a não ser sob a condição de aprovarmos suas transgressões, o apóstolo imediatamente adiciona que a santificação deve ser juntamente seguida com a paz, como se nos recomendasse a paz com essa exceção, ou seja: que não permitamos que a amizade dos perversos também nos contamine ou corrompa. A santificação é o vínculo especial que nos une a Deus. Mesmo que o mundo todos se abrase com guerra, não devemos permitir que a santificação se extinga, porquanto ela é o vínculo que nos mantém em união com Deus. Em suma, fomentemos tranquilamente a paz com os homens, mas somente até onde a consciência o permita. O apóstolo afirma que ninguém pode ver a Deus fora do âmbito da santificação, uma vez que só veremos a Deus com aqueles olhos que já passaram pela renovação em consonância com a imagem divina.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”

“DEPOIS DA MORTE, O JUÍZO”

“E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.27,28).

Visto que após a morte de alguém aguardamos pacientemente o dia do juízo, já que essa é a lei comum da natureza contra a qual não há que lutar, por que deveria haver menos paciência em aguardar a segunda vinda de Cristo? Se um longo intervalo de tempo não subtrai nada, em relação aos homens, da esperança de uma ditosa ressurreição, quão desditoso seria conceder a Cristo uma honra menor! E essa honra seria ainda menor, se lhe solicitássemos que suportasse a morte segunda vez, depois de tê-la suportado uma vez para sempre.

Aqui, portanto, o apóstolo recomenda que não nos perturbemos por desejos irracionais equivocados, esperando novas modalidades de expiação, uma vez que a morte única de Cristo nos é plenamente suficiente. Diz ainda que Cristo apareceu uma vez por todas e ofereceu sacrifício para tirar os pecados de muitos, e aparecerá segunda vez, ou seja: que Cristo, em sua segunda vinda, dará a conhecer plenamente quão realmente destruiu os pecados, não havendo necessidade de outro sacrifício para satisfazer a Deus. É como se ele estivesse dizendo que quando nos aproximarmos do tribunal de Cristo, descobriremos que em sua morte nada foi deficitário. No dia do juízo, Cristo Jesus manifestará de forma gloriosa a eficácia de sua morte, a fim de que o pecado não mais tenha o poder de ferir aqueles que o aguardam para a salvação. A Escritura tem atribuído aos crentes uma expectativa comum em relação à volta do Senhor, com o fim de distingui-los dos incrédulos, para quem a simples menção desse Dia é algo terrível (1Ts 1.10).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”


“TODOS ESTES MORRERAM NA FÉ”

“Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11.13).

Vemos neste versículo o apóstolo magnificando a fé dos patriarcas ao modo de comparação; porque, embora tivessem apenas saboreado as promessas de Deus, sentiram-se felizes com sua doçura e rejeitaram com desdém tudo que havia no mundo; nem ainda esqueceram do sabor delas, por muito escasso que fosse, seja na vida seja morte.

A frase, “morreram na fé”, se explica de duas formas. Há quem simplesmente a entenda como significando que morreram na fé em razão de que nesta vida jamais obtiveram as bênçãos prometidas, assim como hoje, nossa salvação se encontra oculta de nós na esperança. Em contrapartida, concordo com aqueles que creem que se deve observar aqui uma certa diferença entre os pais e nós, o que exponho assim: Ainda que Deus haja dado aos pais apenas um antegozo de seu favor, o qual é derramado generosamente sobre nós; e ainda que ele lhes haja mostrado apenas uma vaga imagem de Cristo, como que à distância, o qual é agora posto diante de nossos olhos para que o vejamos, todavia ficaram satisfeitos e nunca decaíram de sua fé. Quão maior e mais justificável razão temos nós, hoje, para perseverarmos! Se porventura fracassarmos, nos veremos duplamente sem escusa. Isso é ainda mais enfatizado pelas circunstâncias, ou seja: que os pais viram o reino espiritual de Cristo de longe, enquanto que essa visão se encontra tão próxima de nós hoje. Eles saudaram de longe as promessas que hoje nos são tão familiares. Se eles, apesar de tudo, perseveraram até à morte, quão imperdoável será nossa indolência, caso nos cansemos de crer quando o Senhor nos socorre com tantos recursos! Se alguém objetar, dizendo que não podiam ter crido sem ter obtido as promessas, sobre as quais a fé se acha necessariamente fundamentada, respondo que a expressão tem de ser tomada em termos de comparativos. Eles se encontraram longe desse elevado estado no qual Deus nos estabeleceu. Ainda que a mesma salvação lhes fora prometida, todavia as promessas não lhes foram reveladas com a mesma clareza que desfrutamos no reino de Cristo, senão que se contentaram em contemplá-las de longe.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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