"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 2 de janeiro de 2024

“PARA SERMOS SANTOS E IRREPREENSÍVEIS”


“PARA SERMOS SANTOS E IRREPREENSÍVEIS”

“Assim como nos elegeu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor” (Ef 1.4).

O apóstolo Paulo indica o propósito imediato da eleição, não, porém, o principal. Pois não existe qualquer absurdo em supor-se que uma coisa possua dois objetivos. O propósito em realizar uma construção é para que haja uma casa. Esse é o alvo imediato. Mas a conveniência de se habitar nela é o alvo último. Era necessário mencionar-se isso de passagem; pois Paulo de imediato menciona outro alvo - a glória de Deus. Todavia, não há nenhuma contradição aqui. A glória de Deus é a finalidade mais elevada, à qual a nossa santificação está subordinada.

Desse fato inferimos que a santidade, a irrepreensibilidade, e assim toda e qualquer virtude que porventura exista no homem, são frutos da eleição. E assim uma vez mais Paulo expressamente põe de lado toda e qualquer consideração de mérito [humano]. Se Deus houvera previsto em nós tudo o que porventura fosse digno de eleição, então se diria precisamente o contrário. Pois a intenção de Paulo é que toda a nossa santidade e irrepreensibilidade de vida emanam da eleição divina. Como explicar, pois, que alguns homens são piedosos e vivem no temor do Senhor, enquanto que outros se entregam sem reservas a toda espécie de perversidade? Se Paulo merece credibilidade, a única razão é que os últimos conservam sua disposição natural, enquanto que os primeiros foram eleitos para a santidade. Certamente que a causa não segue o efeito, e, portanto, a eleição não depende da justiça que vem das obras, a qual Paulo declara aqui ser a causa.

“Perante ele; e em amor”. Santidade aos olhos de Deus, tem a ver com consciência pura; pois Deus não é enganado, à semelhança dos homens, pela pretensão externa; ele, porém, olha para a fé, ou seja, para a veracidade do coração. Se você atribuir a Deus a palavra “amor”, então significa que a única razão pela qual ele nos elegeu foi o seu amor pela humanidade. Prefiro, porém, considerar o amor à luz da última parte do versículo, ou seja: que a perfeição dos crentes consiste no amor; não que Deus requeira somente amor, mas que ele é uma evidência do temor de Deus e da obediência a toda a lei.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba/PR.
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“ASSIM COMO NOS ELEGEU NELE”


“ASSIM COMO NOS ELEGEU, NELE”

“Assim como nos elegeu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor” (Ef 1.4).

Aqui, o apóstolo Paulo declara que a eterna eleição divina é o fundamento e causa primeira, tanto do nosso chamamento como de todos os benefícios que de Deus recebemos. Se se nos pede a razão por que Deus nos chamou a participar do evangelho, por que diariamente ele nos concede bênçãos em grande profusão, por que ele nos abre os portões celestiais, teremos sempre que retroceder a este princípio, ou seja: que Deus nos elegeu antes que o mundo viesse à existência. O próprio tempo da eleição revela que ela é gratuita; pois, o que poderíamos merecer, ou em que consistiria o nosso mérito, antes que o mundo fosse criado? Pois quão pueril é o raciocínio sofístico, o qual afirma que não fomos eleitos porque já éramos dignos, e, sim, porque Deus previra que seríamos dignos. Todos nós estamos perdidos em Adão; portanto, Deus não poderia ter-nos salvo de perecermos por meio de sua própria eleição, se não havia nada para ser previsto. O mesmo argumento é usado em Romanos 9.11, onde, ao falar de Jacó e Esaú, diz Paulo: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal”. Embora, porém, eles ainda não tivessem agido, algum sofista poderia replicar: “Deus previra o que eles poderiam fazer”. Tal objeção não possui força alguma à luz da natureza corrupta do homem, em quem nada pode ser visto senão matérias para destruição.

Ao acrescentar: em Cristo, estamos diante da segunda confirmação da soberania da eleição. Porque, se somos eleitos em Cristo, tal fato se encontra fora de nós próprios. Isso não tem por base nosso merecimento, e, sim, porque nosso Pai celestial nos enxertou, através da bênção da adoção, no corpo de Cristo. Em suma, o nome de Cristo inclui todo mérito, bem como tudo quanto os homens possuem de si próprios; pois quando o apóstolo diz que somos eleitos em Cristo, segue-se que em nós mesmos não existe dignidade alguma.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

“ELE VOS DEU VIDA, ESTANDO VÓS MORTOS”

“ELE VOS DEU VIDA, ESTANDO VÓS MORTOS” 

"Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef  2.1).

Com o fim de aplicar com maior eficácia aos efésios, a declaração geral da graça, o apóstolo Paulo lhes lembra sua condição anterior. Esta aplicação contém duas partes: “Vós, uma vez, estivestes perdidos; agora, porém Deus, mediante sua graça, vos resgatou da destruição”. Mas ao envidar esforços para salientar cada uma dessas partes, o apóstolo interrompe seu argumento por meio de hipérbato. Existe certa dificuldade na linguagem, mas o significado é claro. Temos apenas que nos reportar a ambas as partas. Quanto à primeira, vemos que Paulo diz que os efésios estiveram mortos; e expõe, ao mesmo tempo, a causa da morte, a saber: os pecados. Sua intenção não é apenas dizer que viveram sob o risco de morte; senão que declara que ela era uma morte real e presente, pela qual foram subjugados. Como a morte espiritual não é outra coisa senão o estado de alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, já nascemos todos mortos, bem como vivemos mortos até que nos tornamos participantes da vida de Cristo; daí o nosso Senhor também dizer: “Em verdade, em verdade vos digo que vem a hora, e já chegou, em que os mortos ouvirão a vos do Filho de Deus, e os que a ouvirem viverão” (J0 5.25).

Os hereges, ávidos em agarrar-se a cada oportunidade que tenham para enfraquecer a graça de Deus, afirmam que fora de Cristo estamos meio mortos. Entretanto, não foi a troco de nada que o próprio Senhor, e bem assim o apóstolo Paulo, nos excluíram completamente da vida enquanto permanecermos, em Adão, e declaram que a regeneração é a nova vida da alma, e que é por meio daquela que esta ressuscita dos mortos. Reconheço que algum gênero de vida permanece em nós durante o tempo em que somos estranhos em relação a Cristo; porquanto nem os sentidos, nem a vontade, nem as faculdades da alma foram extintos dos incrédulos. O que isso, porém, tem a ver com o reino de Deus? O que isso tem a ver com a vida bem-aventurada, quando tudo o que pensamos e desejamos é morte? Que seja indestrutível, pois, o seguinte pensamento: que a união de nossa alma com Deus é a genuína e única vida; e que fora de Cristo estamos completamente mortos, visto que o pecado, a causa da morte, reina em nós.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 19 de dezembro de 2023

"JUÍZOS NÃO ANUNCIADOS"


"JUÍZOS NÃO ANUNCIADOS"

“Então, saiu fogo de diante do SENHOR e os consumiu; e morreram perante o SENHOR” (Lv 10.3).

Se você se aventurar nos caminhos do pecado, talvez se depare com juízos horríveis, que Deus nunca sequer mencionou. Juntamente com todos os juízos que aparecem anunciados no Livro de Deus, você pode dar de encontro com juízos jamais ouvidos, inesperados. Assim como Deus tem misericórdia muito além daquelas que claramente revelou em Sua Palavra – “Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que o amam” (1Co 2.9) – assim Deus tem juízos muito além dos que estão pronunciados. 

Às vezes, quando os ministros de Deus expõem as ameaças que se encontram na Escritura Sagrada, você pensa que são terríveis; mas fique sabendo que Deus, no tesouro dos seus juízos, tem coisas mais terríveis do que aquilo que ele jamais revelou em sua Palavra. Por isso, aprenda a tremer não apenas diante do que está revelado contra o seu pecado, mas diante do que ainda se pode descobrir, na infinita justiça, poder e sabedoria de Deus, para ser executado contra os pecadores. 

Portanto, vocês que são pecadores, e especialmente se são pecadores ousados e arrogantes, podem esperar se deparar com qualquer mal que uma sabedoria infinita é capaz de criar e que um poder infinito é capaz de fazer desabar sobre vocês. Você comete este e aquele pecado. Talvez não saiba de nenhuma ameaça específica de juízo contra esse pecado, mas pensa da seguinte maneira: “Eu, que estou provocando a Deus com meus pecados, o que é que posso esperar que me aconteça? Por mais que eu pense que não, a infinita sabedoria de Deus vai descobrir o que estou fazendo e trará sobre mim o juízo que me cabe”.

Deus nos abençoe!

Jeremiah Burroughs (1599-1646).

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“EM TODAS AS COISAS, SE TORNASSE SEMELHANTE AOS IRMÃOS”


“EM TODAS AS COISAS, SE TORNASSE SEMELHANTE AOS IRMÃOS”

“Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo. Pois, naquilo que ele mesmo sofreu, tendo sido tentado, é poderoso para socorrer os que são tentados” (Hb 2.17,18).

Na natureza humana de Cristo há duas coisas a serem consideradas, ou seja: a essência da carne e as afeições. O apóstolo, pois, ensina que ele se vestiu não só da própria carne humana, mas também de todas as afeições que são inerentes ao homem. Ele mostra também os frutos que nos advêm daí e qual o legítimo ensino de fé, quando sentimos em nós próprios por que o Filho de Deus tomou sobre si nossas enfermidades. Sem tais frutos, todo o nosso conhecimento seria frio e morto. Ele prossegue ensinado que Cristo se fez sujeito às paixões humanas “para que pudesse ser misericordioso e fiel sumo sacerdote”. Tomo essas palavras no seguinte sentido: “para que pudesse ser misericordioso e, portanto, fiel”. Para um sacerdote, cuja função era apaziguar a ira de Deus, socorrer os desventurados, restaurar os caídos, libertar os oprimidos, seu primordial e extremo requisito era demonstrar misericórdia e criar em nós tal senso de comunhão. Pois é muito raro que aqueles que vivem sempre afortunadamente simpatizem com os sofrimentos alheios.

O Filho de Deus não tinha necessidade de passar por alguma experiência a fim de conhecer pessoalmente a emoção da misericórdia. Entretanto, ele jamais nos teria persuadido de sua bondade e prontidão em socorrer-nos, não fosse ele provado pelos nossos próprios infortúnios. E tudo isso ele nos concedeu como favor. Portanto, quando toda sorte de males nos sobrevém, que isso nos sirva de imediata consolação, a saber: que nada nos sobrevém sem que o Filho de Deus já não o tenha experimentado em si próprio, para que pudesse ser-nos solidário. Nem duvidemos de que ele está conosco como se ele mesmo sofresse a nossa mesma dor.

“Fiel” significa verdadeiro e justo. É o oposto de um impostor ou alguém que não cumpre o seu dever. A experiência de nosso infortúnio faz de Cristo Alguém tão pleno de compaixão que o move a implorar o auxílio divino em nosso favor. Que mais podemos desejar? Para fazer expiação por nossos pecados, ele se vestiu de nossa natureza, para que pudéssemos ter em nossa própria carne o preço de nossa reconciliação. Em uma palavra, para que pudesse nos levar consigo para dentro dos santos dos santos de Deus em virtude de nossa comum natureza. Pela frase, as coisas pertencentes a Deus, o autor quer dizer as coisas que têm o propósito de reconciliar os homens com Deus. Visto que a liberdade que emana da fé é a primeira via de acesso a Deus, carecemos de um Mediador que remova todas as incertezas.

Naquilo que Ele mesmo sofreu. Havendo Cristo experimentado nossos males, está, portanto, a prover-nos de seu auxílio. Tentação, aqui, significa simplesmente experiência ou provação; e poderoso significa ser apto, ou inclinado, ou idôneo, ou preparado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MAS SOCORRE A DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO”


“MAS SOCORRE A DESCENDÊNCIA DE ABRAÃO”

“Pois ele, evidentemente, não socorre anjos, mas socorre a descendência de Abraão” (Hb 2.16).

Ao traçar esta comparação, o apóstolo estende os benefícios e a honra que Cristo nos comunicou, revestindo-se de nossa carne, já que ele jamais fez algo semelhante em favor dos anjos. Visto que se fazia necessário encontrar um antídoto infalível para a terrível ruína humana, o Filho de Deus se propôs oferecer-nos uma incomparável demonstração de seu amor para conosco, tal que nem mesmo os anjos participaram. O fato de nos preferir aos anjos não teve por base nossa excelência, e sim, nossa miséria. Não há razão para vangloriarmo-nos de que somos superiores aos anjos, exceto de que o Pai celestial nos concedeu maior benevolência em razão de sermos carentes dela, para que os próprios anjos, lá do alto, contemplassem tão sublime generosidade derramada sobre a terra.

Só esta passagem seria suficiente para confundir os que negaram que Cristo verdadeiramente nasceu de geração humana. Se ele apenas assumisse a aparência de homem, tendo anteriormente aparecido repetidas vezes na forma de um anjo, então não teria havido distinção alguma. Uma vez, porém, que não se pode dizer que Cristo se convertera realmente em anjo, vestido com a natureza angélica, assim diz-se que ele assumira a natureza humana, e não a natureza angélica. O apóstolo está falando de natureza, e mostra que, quando Cristo se vestiu de nossa carne, se fez homem genuíno, para que houvesse unidade de pessoa em duas naturezas. Além do mais, esta passagem não oferece apoio aos que inventaram um duplo Cristo, como se o Filho de Deus não fosse genuinamente homem, senão que apenas viveu na carne humana. Descobrimos que tal conceito é muitíssimo diferente daquela posição do apóstolo. Seu alvo é ensinar-nos que na pessoa do Filho de Deus encontramos um Irmão em virtude da comunhão de nossa comum natureza. Ele, portanto, não se contenta em apenas chamá-lo Homem, mas afirma que ele nasceu de descendência humana. Ele expressamente chama de “descendência de Abraão”, para que tivéssemos mais fé no que ele diz, visto que o extraiu da própria Escritura.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

“DEUS CONOSCO”


DEUS CONOSCO

Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)” (Mt 1.23).

As comemorações no período natalino têm o seu legítimo valor quando direciona a nossa atenção para o Senhor Jesus Cristo. A data exata em que ocorreu o nascimento de Jesus é irrelevante. O que importa é o próprio acontecimento que mudou todo o curso da história da humanidade.

Como em nenhum outro ensino, a Pessoa em questão não é somente central, mas absolutamente essencial. Sabemos que na história da humanidade existem muitos ensinamentos ligados a uma variedade de religiões, muitos dos quais associados a nomes de homens, em particular. Mas esses homens não são essenciais aos seus seguidores, pois seus ensinos poderiam ser transmitidos com igual eficácia por outras pessoas. Afirmar isso não é diminuir a importância desses personagens, mas significa que eles não são vitais, pois o ensino é o que importa. No entanto, na religião cristã é a Pessoa em si que importa.

A visão que temos de Jesus Cristo determinará a visão que temos do Natal, da fé cristã, da salvação e do próprio mundo. Nada é mais importante do que conhecer exatamente o que a Bíblia diz a respeito do Ungido de Deus. A questão fundamental relacionada à vida que está diante de todos nós foi proposta pelo próprio Senhor: “Que pensais vós do Cristo?” (Mt 22.42). 

Não são poucos os que que dizem ser Jesus apenas um homem especial, e nada mais. Mas, pela graça de Deus, iluminados pelo Espírito Santo, há muitos que compreendem e proclamam que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, a Imagem do Deus invisível, a segunda Pessoa da Trindade Santa, o Primogênito de toda a criação, o Príncipe da Paz, o Senhor e Salvador. Ele é Deus conosco!

Deus nos abençoe! 

Pr. José Rodrigues Filho

*Grandes Doutrinas Bíblicas - D.Martyn Lloyd-Jones, PES

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

“NAS TUAS MÃOS, ESTÃO OS MEUS DIAS”


“NAS TUAS MÃOS, ESTÃO OS MEUS DIAS”

“Nas tuas mãos, estão os meus dias; livra-me das mãos dos meus inimigos e dos meus perseguidores” (Sl 31.15).

Para que Davi pudesse mais jubilosamente confiar a preservação de sua pessoa a Deus, ele nos assegura que, confiando em sua guarda divina, não se preocupava com aqueles eventos casuais e imprevisíveis que comumente apavoram os homens. A significação de sua linguagem é: Senhor, tua é a prerrogativa, e somente teu é o poder de dispor tanto de minha vida quanto de minha morte. Tampouco usa ele o plural, em minha opinião, sem razão plausível; antes, ele destaca a variedade de casualidades pelas quais a vida de uma pessoa é geralmente molestada. É uma exposição insípida restringir a frase, meus dias, ao tempo em que ele vivesse, como se Davi quisesse dizer não mais que estando seu tempo ou seus dias terrenos na mão de Deus. Ao contrário, minha opinião é que, enquanto meditava nas diversas revoluções e nos multiformes perigos que casualmente pendem sobre nós, e nos multiformes eventos imprevistos que de tempo em tempo sucedem, ele, não obstante, confiadamente repousava na providência de Deus, a qual ele cria ser, segundo o dito popular, o árbitro tanto da boa quanto da má sorte. Na primeira cláusula vemos que ele não só denomina Deus de o governante do mundo em geral, mas também afirma que sua vida está em sua mão; e não só isso, mas que, quaisquer que fossem as agitações a que estivesse sujeito, e quaisquer que fossem as tribulações e vicissitudes que lhe sobreviessem, ele estaria seguro debaixo da proteção divina. Nisto está fundamentada sua oração, a saber: Deus o preservará e me livrará da mão de meus inimigos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NÃO SEJA EU ENVERGONHADO”


“NÃO SEJA EU ENVERGONHADO”

“Não seja eu envergonhado, SENHOR, pois te invoquei; envergonhados sejam os perversos, emudecidos na morte” (Sl 31.17).

Não seja eu envergonhado, SENHOR. Com estas palavras, Davi dá seguimento à sua oração, e para fortalecer suas esperanças ele se contrasta com seus inimigos; pois teria sido mais que absurdo permitir aos que, com sua intensa perversidade, provocavam a ira de Deus escapassem com impunidade, e aquele que era inocente e descansava em Deus fosse desapontado e se tornasse alvo de zombaria. Consequentemente, aqui percebemos qual a implicação da comparação que o salmista faz. Além do mais, em vez de falar de sua esperança ou confiança, ele agora fala de sua invocação a Deus, dizendo: pois te invoquei. E faz isso por boas razões, pois aquele que confia na providência divina deve fugir para Deus com orações e forte clamor. Que eles sejan emudecidos na morte, subentende quando ela sobrevém aos ímpios, restringindo-os e impedindo-os de darem curso às suas injúrias. Este emudecer se opõe tanto às suas maquinações enganosas e traiçoeiras quanto aos seus insolentes insultos. No próximo versículo, pois, ele adiciona: Que os lábios mentirosos emudeçam, o quê, em minha opinião, inclui tanto suas astúcias quanto as falsas pretensões e calúnias pelas quais diligenciavam em concretizar seus desígnios, bem como a vã ostentação a quê se entregavam. Pois ele nos diz que falam coisas injuriosas [ou graves] contra o justo, com soberba e escárnio. Porque o conceito intransigente deles, o qual quase sempre gera desdém, era o que fazia que esses inimigos de Davi fossem tão ousados em mentir. Quem quer que soberbamente arrogue para si mais do que lhe é devido, quase que necessariamente tratará os outros com desdém.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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