"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sexta-feira, 9 de agosto de 2024

“SOU GRATO PARA COM AQUELE QUE ME FORTALECEU”


“SOU GRATO PARA COM AQUELE QUE ME FORTALECEU”

“Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12).

Sublime é a dignidade do apostolado que Paulo havia reivindicado para si, e, recordando de sua vida pregressa, não poderia de forma alguma considerar-se digno de tão sublime honra. Portanto, para evitar de ser acusado de presunção, ele tem que referir-se a si mesmo, confessando sua indignidade e ainda afirmando ser apóstolo pela graça de Deus. De fato, ele avança ainda mais e se volta para as circunstâncias que pareciam depor contra sua autoridade para o seu bem, declarando que a graça de Deus brilha nele ainda com mais fulgor. Ao render graças a Cristo, ele remove a objeção que poderia ser assacada contra ele, sem deixar-lhe qualquer chance de formular a pergunta se ele era ou não digno de um ofício tão honroso, pois ainda que em si mesmo não possuísse excelência de espécie alguma, era suficiente o fato de que fora escolhido por Cristo. Há muitos que usam a mesma forma de palavras para fazer uma exibição de sua humildade, mas que em nenhum existe a humildade de Paulo, pois que sua intenção era não só gloriar-se ardentemente no Senhor, mas também desviar de si toda e qualquer vanglória. Mas, pelo quê ele está dando graças? É pelo fato de lhe haver concedido um lugar no ministério, e desse fato ele deduz que fora considerado fiel. Cristo não recebe pessoas indiscriminadamente, antes, porém, faz seleção daqueles que são apropriados, e assim reconhecemos como dignos todos aqueles a quem ele honra. Não é incompatível com isso o fato de Judas, segundo a profecia do Salmo 109.8, ser levantado por pouco tempo para em seguida celeremente cair. Por outro lado, com Paulo foi diferente, pois que obteve seu ofício com um propósito distinto e sob condições distintas, pois Cristo declarou [At 9.15] que ele haveria de ser “um vaso escolhido para ele”.

Ao falar assim, o apóstolo Paulo parece estar fazendo da fidelidade que antecipadamente demonstrara a causa do seu chamamento. Se tal fosse o caso, então sua gratidão seria hipócrita e absurda, pois então deveria seu apostolado, não tanto a Deus, mas a seus próprios méritos. Não concordo que sua intenção fosse que ele fora escolhido para a obra apostólica em razão de sua fé ter sido conhecida de antemão por Deus, porquanto Cristo não poderia ter previsto nele nada de bom exceto aquilo que o próprio Pai lhe concedera. E assim permanece sempre verdadeiro que “Não fostes vós que me escolhestes a mim, pelo contrário, eu vos escolhi a vos outros e vos designei para que vades e deis fruto” [Jo 15.16]. Mas a intenção de Paulo é completamente diferente: para ele, o fato de Cristo fazer dele um apóstolo fornecia prova de sua fidelidade. Ele afirma: os que Cristo toma para ser apóstolo têm que confessar que foram declarados fiéis pelo decreto de Cristo. Este veredicto não repousa sobre a presciência, e, sim, sobre um testemunho dirigido aos homens, como se ele dissesse: “Dou graças a Cristo que me chamou para este ministério, e assim publicamente declarou que sancionava minha fidelidade”.

Paulo agora se volta para outras bênçãos de Cristo, e diz que ele o fortaleceu ou o capacitou. Com isso ele quer dizer não só que no princípio fora formado pela mão divina, de uma forma tal que ficou perfeitamente qualificado para o seu ofício, mas inclui também a concessão contínua de graças. Porquanto não teria sido suficiente que uma só ocasião houvera sido declarado fiel, caso Cristo não o fortalecesse com a constante comunicação de seu socorro. Portanto, ele diz que é pela graça de Cristo que fora inicialmente levantado para o apostolado e por que agora continua nele.

Deus nossa bençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

“FIEL É ESTA PALAVRA”


“FIEL É ESTA PALAVRA”

“Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele” (2 Tm 2.11).

"Fiel é esta palavra". O apóstolo Paulo usa esta frase como prefácio ao que vem a seguir, porquanto nada há mais estranho à sabedoria da carne do que crer que devemos morrer a fim de vivermos, e que a morte é o pórtico de entrada para a vida. Deduzimos de outras passagens que era o costume de Paulo usar este prefácio antes de algo especialmente importante ou difícil de se crer. O significado é que a única forma de participarmos da vida e glória de Cristo é antes participando de sua morte e humilhação, como diz em Romanos 8.29, todos os eleitos foram “predestinados para serem conformados à imagem de seu Filho”. Isso foi escrito tanto para exortar quanto para consolar os crentes. Quem poderia fracassar ao ser estimulado por esta exortação de que não devemos desesperar-nos por causa de nossas aflições, visto que teremos um feliz livramento delas? O mesmo pensamento abate e ameniza todas as amarguras geradas pela cruz, visto que nem dores, nem tormentos, nem reprovações, nem morte nos podem apavorar, uma vez que as compartilhamos com Cristo; e, especialmente, porque todas essas coisas são precursoras de nosso triunfo. Portanto, através desse exemplo pessoal, Paulo injeta ânimo em todos os crentes para que, com o coração iluminado, pudessem suportar as aflições nas quais já têm uma prelibação da glória futura. Mas, se porventura isso for demais para crermos movidos por nossa própria iniciativa, e se a cruz nos subjugar e toldar nossa visão, nos impedindo de discernir a Cristo, lembremo-nos de empunhar este escudo: “Fiel é esta palavra”. Onde Cristo se faz presente, também presente está a vida e a bem-aventurança. Devemos manter-nos firmes a esta comunhão que temos com Cristo, para que não morramos em nós mesmos, mas com ele, para que sejamos companheiros de sua glória [2Co 4.10].

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“FORTIFICA-TE NA GRAÇA QUE ESTÁ EM CRISTO JESUS”


“FORTIFICA-TE NA GRAÇA QUE ESTÁ EM CRISTO JESUS”

“Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus” (2Tm 2.1).

Como antes o apóstolo Paulo havia dito a Timóteo que guardasse o depósito que lhe fora confiado pelo Espírito, assim agora lhe ordena a tornar-se forte na graça. Com essa expressão, significa que Timóteo seria reanimado do desânimo e inatividade, pois a carne é tão morosa que mesmo os dotados de excelentes dons às vezes se entorpecem em meio à jornada, se não forem frequentemente despertados. Mas é possível que alguém pergunte: “De que serve exortar um homem a tornar-se forte na graça, a menos que o nosso livre-arbítrio exerça algum papel, cooperando com a graça?" Eis minha resposta: o que Deus requer de nós, em sua Palavra, ele também supre através de seu Espírito, de modo que somos fortalecidos naquela graça que ele mesmo proporciona. E, no entanto, as exortações não são supérfluas, porque o Espírito de Deus, nos ensinando interiormente, faz com que elas não soem infrutíferas em nossos ouvidos nem caiam no esquecimento. Portanto, o homem que reconhece que esta presente admoestação não podia ser frutífera senão pelo poder secreto do Espírito, jamais usará esta passagem em abono do livre-arbítrio.

Paulo acrescenta, que está em Cristo Jesus, por duas razões: para mostrar que é tão-somente de Cristo, e de nenhum outro, que a graça emana, e para que nenhum cristão se visse privado dela. Pois ainda que o único Cristo seja comum a todos, segue-se que todos participam de sua graça, e é por isso que se diz estar ela “em Cristo”, já que todos os que se encontram em Cristo devem possuí-la. O modo carinhoso com que o apóstolo fala, chamando Timóteo, meu filho, tende a cativar suas graças, ou seja, para que o seu ensino penetrasse mais profundamente o coração de Timóteo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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Aanbiddingsconcert & Opname Opwekking

"Concerto de Adoração e Reavivamento"


Deus nos abençoe!

quarta-feira, 31 de julho de 2024

"MANTÉM O PADRÃO DAS SÃS PALAVRAS"


"MANTÉM O PADRÃO DAS SÃS PALAVRAS"

”Mantém o padrão das sãs palavras que de mim ouviste com fé e com o amor que está em Cristo Jesus” (2Tm 1.13).

Alguns tomam essa expressão, “mantém o padrão”, no seguinte sentido: “Que a tua doutrina seja um exemplo a que todos possam imitar”. Eu, porém, não a aceito nesse sentido. Meu ponto de vista pessoal é que o apóstolo Paulo está dizendo a Timóteo que guardasse firme a doutrina que havia aprendido, não só em sua substância, mas também na própria forma de sua expressão. Pois o termo usado aqui, significa um quadro vívido, como se o objeto envolvido estivesse realmente diante de seus olhos. Paulo sabia quão inclinados são os homens à rebeldia e apostasia da sã doutrina; por essa razão ele prudentemente exorta Timóteo a não se apartar da forma de ensino que havia aprendido, e a ajustar seu método desse ensino à regra estabelecida pelo apóstolo - não que ele fosse excessivamente escrupuloso acerca de palavras, mas porque é terrivelmente danoso corromper a doutrina, mesmo que em grau mínimo. À luz desse fato podemos entender o valor da teologia de várias igrejas, porquanto ela se degenerou tanto do padrão que Paulo aqui recomenda, que se assemelha mais a enigmas de adivinhos e prognosticadores do que com o ensino que tem por base a Palavra de Deus. Que indícios paulinos, pergunto, há nos púlpitos? Essa libertina corrupção doutrinal revela quão sábio fora Paulo em dizer a Timóteo que conservasse sua forma original.

Paulo acrescentou esse elemento distintivo da sã doutrina, com fé e com o amor, com o propósito de deixar-nos cientes de qual é o seu conteúdo e como ela pode se sumariada, e inclui tudo isso, segundo seu hábito, sob a fé e o amor. Ele coloca a ambos em Cristo como seu fundamento, visto que o conhecimento de Cristo consiste primordialmente dessas duas partes, porque, ainda que a expressão, que há, está no singular e concorda com a palavra amor, a mesma dever ser subentendida como aplicável igualmente à fé. Ninguém pode perseverar na sã doutrina sem que seja revestido de fé e amor sincero. Paulo usa essas duas palavras com o fim de explicar mais claramente quais são as “sãs palavras” e do quê elas tratam. Ele declara que toda a sua doutrina consiste de fé e amor, os quais têm sua fonte e fundamento no conhecimento de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 30 de julho de 2024

“PORQUE SEI EM QUEM TENHO CRIDO”


“PORQUE SEI EM QUEM TENHO CRIDO”

“E, por isso, estou sofrendo estas coisas; todavia, não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele Dia” (2Tm 1.12).

Eis aqui o único refúgio para onde todos os crentes devem fugir quando o mundo os condena como perdidos e infelizes, ou seja, que devem ter por suficiente o fato de poderem contar com a aprovação divina; pois o que seria deles caso depositassem nos homens sua confiança? Desse fato devemos inferir que há grande diferença entre a fé e a mera opinião humana. A fé não depende da autoridade humana, tampouco é uma confiança hesitante e dúbia em Deus; ela tem de estar associada ao conhecimento, do contrário não será bastante forte contra os intermináveis assaltos que Satanás lhe faz. O homem que, como Paulo, possui tal conhecimento saberá de experiência própria que nossa fé é corretamente chamada “a vitória que vence o mundo” [1Jo 5.4), e que Cristo tinha boas  razões para dizer que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16.18]. Tal homem será capaz de repousar tranquilamente mesmo em meio às tormentas e tempestades deste mundo, visto que alimenta uma confiança inabalável de que Deus, que não pode mentir ou enganar, falou, e o que ele prometeu, certamente cumprirá. Por outro lado, o homem que não tem essa verdade indelevelmente gravada em sua mente será sempre movido de um lado a outro como um arbusto agitado pelo vento. Esta passagem merece nossa detida atenção, pois ela explica de uma forma muitíssimo excelente o poder da fé, quando demonstra que, mesmo em casos extremos, devemos glorificar a Deus por não duvidarmos que ele se manterá verdadeiro e fiel e por aceitarmos sua Palavra com a mesma certeza como se Deus mesmo surgisse do céu diante de nós. O homem carente de tal convicção nada entende. É preciso que tenhamos sempre em mente que Paulo não está a filosofar no escuro, senão que, com a própria realidade diante dos olhos, está solenemente declarando o grande valor daquela confiante certeza da vida eterna.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“DESIGNADO PREGADOR, APÓSTOLO E MESTRE”


“DESIGNADO PREGADOR, APÓSTOLO E MESTRE”

"Para o qual eu fui designado pregador, apóstolo e e mestre" (2Tm 1.11).

O apóstolo Paulo tem boas razões para recomendar o evangelho de uma forma tão sublime juntamente com o seu próprio apostolado. Satanás trabalha muito mais do que imaginamos para banir de nossas mentes, por todos os meios possíveis, a fé na sã doutrina; e visto que nem sempre é fácil fazer isso através de um franco ataque à nossa fé, ele se arma contra nós secretamente e pelo uso de métodos indiretos; e a fim de destruir a credibilidade do correto ensino, ele desperta suspeitas acerca da vocação dos santos e mestres. Por isso Paulo, tendo a visão da morte ante seus olhos, e conhecendo bem as tramas bem articuladas de Satanás, determinou asseverar tanto o ensino do evangelho em geral quanto a necessidade de sua própria vocação. Ambas as coisas eram necessárias, pois ainda que apresentemos longos discursos acerca da dignidade do evangelho, os mesmo não nos seriam de muito valor, a menos que compreendamos o que o evangelho significa. Muitos darão seu assentimento ao princípio geral da autoridade indiscutível do evangelho, e não obstante ainda não terão nenhuma ideia definida do que se comprometeram seguir. Eis a razão por que Paulo deseja ser explicitamente reconhecido como fiel e legítimo ministro dessa doutrina vivificante, da qual ele estava justamente trazendo-lhes à memória; eis por que ele descreve a si próprio com os títulos de pregador, apóstolo e mestre. Ele se denomina de pregador [arauto], cujo dever é fazer públicos os decretos dos príncipes e magistrados. O título, apóstolo, lhe pertence de forma restrita; e visto que há uma relação especial entre um mestre e seus alunos, ele se descreve lançando mão desse terceiro título, para que os que aprendem dele saibam que têm um mestre designado por Deus mesmo.

E para quem Paulo diz que fora designado? Para os gentios - pois o cerne da controvérsia eram eles, visto que os judeus negavam que as promessas de vida se aplicassem a alguém mais além dos filhos de Abraão segundo a carne. Portanto, a fim de que a salvação dos gentios não fosse posta em dúvida, o apóstolo declara que fora enviado especificamente por Deus para ministrar a eles.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“PELO APARECIMENTO DE NOSSO SALVADOR CRISTO JESUS”


"PELO APARECIMENTO DE NOSSO SALVADOR CRISTO JESUS"

“E manifestada, agora, pelo aparecimento de nosso Salvador Cristo Jesus, o qual não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho” (2Tm 1.10).

Devemos notar quão apropriadamente o apóstolo Paulo conecta a fé que recebemos do evangelho com a eleição secreta de Deus e designa a cada uma o seu próprio lugar. Deus nos chamou pela proclamação do evangelho, não porque repentinamente tivesse consciência da nossa salvação, mas porque ele assim o determinou desde toda a eternidade. Cristo agora se manifestou para essa salvação; não porque o poder de salvar lhe tenha sido recentemente conferido, mas porque essa graça nos foi guardada nele antes da criação do mundo. O conhecimento dessas coisas nos foi revelado pela fé. E assim, o apóstolo sabiamente conecta o evangelho com as mais antigas promessas de Deus, para que sua suposta novidade não o expusesse ao desprezo.

Suscita-se, porém, a indagação, se tudo isso foi ocultado dos pais que viveram sob o regime da lei, pois se a graça só foi revelada no advento de Cristo, então conclui-se que antes ela estava oculta. Respondo que Paulo está falando da plena manifestação da realidade propriamente dita, sobre a qual os pais também edificaram sua fé, de modo que isso não os priva da realidade. Eis a razão por que Abel, Noé, Abraão, Moisés, Davi e todos os santos obtiveram a mesma salvação que obtivemos, pois também eles depositaram sua fé na manifestação [futura] de Cristo. Ao dizer que a graça nos foi revelada mediante a manifestação de Cristo, o apóstolo não exclui os pais da participação nela, pois a mesma fé os fez partícipes conosco nessa manifestação. O Cristo de ontem é o mesmo de hoje [Hb 13.8], mas que não se manifestara mediante sua morte e ressurreição antes do tempo prefixado pelo Pai. Nossa fé e a de nossos pais sempre olham para o mesmo ponto, porque neste fato jaz a única garantia e consumação de nossa salvação.

O qual não só destruiu a morte. Pelo fato de atribuir ao evangelho a manifestação da vida, Paulo não quer dizer que ela tenha sua origem na Palavra sem referência alguma à morte e ressurreição de Cristo, posto que o poder da Palavra repousa no assunto que ela contém; ao contrário, ele quer dizer que a única maneira pela qual o fruto dessa graça pode chegar até aos homens é através do evangelho, como expressou em 2Coríntios 5.19: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo mesmo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação”. É uma notável e memorável recomendação do evangelho, que seja ele denominado o meio pelo qual a vida se manifesta.

À vida Paulo adiciona imortalidade, querendo dizer: “uma vida genuína e imortal”, a menos que você prefira considerar vida no sentido de regeneração, à qual segue a bem-aventurada imortalidade que é ainda objeto da esperança. Pois nossa vida não consiste do que temos em comum com as bestas brutas, ao contrário, consiste de nossa participação na imagem de Deus. Visto, porém, que a natureza e valor genuínos dessa vida não aparecem neste mundo [1Jo 3.2], para explicá-la ele acrescentou oportunamente a imortalidade, a qual é a revelação dessa vida que ora está oculta.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE NOS SALVOU E NOS CHAMOU COM SANTA VOCAÇÃO”


“QUE NOS SALVOU E NOS CHAMOU COM SANTA VOCAÇÃO”

“Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2Tm 1.9).

Pela visão da grandeza da bênção, o apóstolo Paulo demonstra o quanto devemos a Deus, porque a salvação que ele nos outorgou facilmente absorve todos os males que suportamos neste mundo. O termo “salvou”, ainda que seu significado seja de caráter geral, aqui, neste contexto, refere-se somente à salvação eterna. Seu significado consiste em que não haviam recebido através de Cristo nenhum livramento passageiro e transitório, e, sim, uma salvação eterna, e desse modo se revelariam extremamente ingratos, caso valorizassem sua vida fugaz, ou sua reputação, em vez de reconhecê-lo como seu Redentor.

Paulo diz que fomos chamados com “santa vocação”. Ele faz de nossa vocação o selo infalível de nossa salvação. Pois como a salvação foi consumada na morte de Cristo, assim Deus nos faz partícipes dela através de Cristo. Para magnificar essa vocação ainda mais, ele a qualifica de santa. Tal fato deve ser cuidadosamente observado, pois assim como temos de buscar a salvação exclusivamente em Cristo, ele também teria morrido em vão e a troco de nada caso não nos chamasse para participarmos desta graça. Portanto, mesmo depois de haver, com sua morte, nos conquitado a salvação, uma segunda bênção resta ser outorgada, a saber, que ele nos uniria em seu Corpo e nos comunicaria seus benefícios a fim de desfrutarmo-los.

O apóstolo também nos chama a atenção para a fonte, quer de nossa vocação, quer de nossa salvação total. Não possuímos obras que sejam capazes de tomar a iniciativa em lugar de Deus, de modo que a nossa salvação depende absolutamente de seu gracioso propósito e eleição. Ainda que Paulo geralmente use o temo “determinação” no sentido de “o decreto secreto de Deus”, o qual depende exclusivamente dele, o apóstolo, aqui, decide adicionar “graça” com o fim de tornar sua tese ainda mais explícita e poder excluir completamente toda e qualquer referência as obras. A antítese, neste versículo, por si só é suficiente para deixar completamente claro que não há espaço algum para as obras onde reina a graça de Deus, especialmente quando somos lembrados da eleição divina, através da qual ele antecipou eleger-nos antes que viéssemos à existência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 29 de julho de 2024

“NÃO TE ENVERGONHES DO TESTEMUNHO DE NOSSO SENHOR”


“NÃO TE ENVERGONHES DO TESTEMUNHO DE NOSSO SENHOR”

“Não te envergonhes, portanto, do testemunho de nosso Senhor, nem do seu encarcerado, que sou eu; pelo contrário, participa comigo dos sofrimentos, a favor do evangelho, segundo o poder de Deus” (2Tm 1.8).

O apóstolo Paulo diz isso porque, pensava-se que confessar o evangelho era uma grande desventura; por isso ele diz a Timóteo a não permitir que a ambição ou o medo de infâmia obstruísse sua confiante pregação. Declara isso como uma inferência do que esteve justamente afirmando. O homem que se ama com o poder de Deus não se sentirá frustrado pelo tumulto do mundo, mas considerará uma honra que os homens ímpios o cubram de vitupério. O evangelho é aqui denominado com justiça, “o testemunho de nosso Senhor”, pois ainda que ele não necessite de nosso auxílio, não obstante nos impõe o dever de dar testemunho a seu respeito, bem como de sustentar sua glória. Essa é uma grande e especial honra concedida por ele a todos nós, de tal modo que não há cristão que não se considere uma testemunha de Cristo, mas é especialmente concedido aos pastores e mestres, como Cristo mesmo disse a seus apóstolos: “Sereis minhas testemunhas” [At 1.8]. Pois quanto mais o mundo demonstra seu ódio pelo ensino do evangelho, mais coragem devem os pastores demonstrar em seus labores em confessá-lo publicamente.

Ao acrescentar, nem do seu encarcerado, que sou eu”, o apóstolo admoesta Timóteo a não recusar ser seu companheiro numa causa comum. Ao começarmos a nos esquivar da companhia daqueles que estão sofrendo perseguição, nosso intuito é fazer que o evangelho fique isento de toda e qualquer perseguição. Ainda que não faltassem pessoas perversas para dirigir a Timóteo motejos e dizer: “Tu não vês o que tem acontecido a teu mestre? Por que, pois, nos impões uma doutrina que vês ser desdenhada pelo mundo inteiro?” Não obstante, ele deve ter se sentido feliz com essa admoestação. Paulo lhe diz: “Não precisas sentir-se envergonhado a meu respeito, pois de nada tenho que me envergonhar, porque sou o prisioneiro de Cristo; não estou em cadeias por algum crime ou malfeito, e, sim, por seu nome”. Ele diz a Timóteo como fazer o que lhe pede, ou seja, preparando-se para sofrer as aflições que estão relacionadas com o evangelho, pois esquivar-se da cruz ou tentar evitá-la significa sempre envergonhar-se do evangelho. E assim Paulo tem duas razões para encorajar Timóteo a ser ousado em sua confissão, e ao falar sobre levar a cruz, que ele não o fizesse em vão.

E acrescenta “segundo o poder de Deus”, porque imediatamente sucumbimos caso ele não nos sustentasse. A frase contém tanto de admoestação quando de consolação. A admoestação é para volvermos nossos olhos de nossas presentes fraquezas e, confiando no socorro divino, aventurarmo-nos e esforçarmo-nos em relação às coisas que se encontram além de nossas próprias forças; o conforto é para que, caso soframos algo por conta do evangelho, Deus virá e nos livrará e em seu poder nos dará vitória.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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