"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 13 de agosto de 2024

“OS QUAIS ENTREGUEI A SATANÁS”


OS QUAIS ENTREGUEI A SATANÁS 

E dentre esses se contam Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem” (1Tm 1.20).

O apóstolo Paulo fará novamente menção do primeiro desses dois homens na segunda epístola, e aí se faz evidente que gênero de naufrágio ocorreu, pois ele dizia que a ressurreição dos mortos era algo que pertencia ao passado. É possível que Alexandre também tenha se apaixonado por esse erro tão absurdo. Ao percebermos que nem mesmo um dos companheiros de Paulo escapou de perecer numa queda tão  medonha, porventura nos sentiremos surpresos se hoje Satanás, com seus multiformes encantamentos, seja capaz de iludir os homens? Ele menciona ambos esses homens a Timóteo como pessoas bem conhecidas dele. Não tenho dúvida de que esse é o mesmo Alexandre de quem Lucas faz menção em Atos 19.33, como sendo o homem que tentou, sem êxito, reprimir o tumulto em Éfeso. Ele era natural de Éfeso, e, como já dissemos, esta epístola foi escrita primordialmente em benefício dos efésios. Agora já sabemos qual foi o fim de Alexandre; e daqui devemos aprender a conservar a possessão de nossa fé através de uma boa consciência, para que a retenhamos até o fim.

Os quais entreguei a Satanás. Como realçamos em conexão com 1Coríntios 5.5, há quem considere esta frase como uma indicação da aplicação de algum castigo inusitado, e o conecta com os poderes, que Paulo menciona em 1Coríntios 12.28. Como os apóstolos foram dotados com o dom de cura em testemunho da graça e favor de Deus para com os santos, assim foram armados contra os ímpios e rebeldes com poder tanto para entregá-los ao diabo para que fossem atormentados como também para aplicar sobre eles algum outro castigo. Pedro nos deu um exemplo do exercício desse poder ao tratar com Ananias e Safira [At 5.11]; e Paulo, ao tratar com o mágico Barjesus [At 13.6].

Contudo prefiro interpretar esta frase no sentido de excomunhão, pois o ponto de vista que assevera que o homem incestuoso de Corinto recebeu algum outro gênero de castigo não é comprovado através de algum argumento consistente. E se foi por excomunhão que Paulo o entregou a Satanás, por que não deveria a mesma expressão ter o mesmo significado aqui? Visto que é na Igreja que Cristo mantém a sede de seu reino, do lado de fora da Igreja outra coisa não existe senão o domínio de Satanás. Portanto, aquele que é eliminado da Igreja, necessariamente cai, por algum tempo, sob a tirania de Satanás, até que se reconcilie com a Igreja e retorne a Cristo. Faço a seguinte exceção: em razão da enormidade da ofensa, é provável que Paulo tenha pronunciado perpétua excomunhão contra aqueles dois homens; todavia, sobre isso não me aventuro afazer uma asseveração específica.

Qual, porém, é o significado da última cláusula: para serem castigados, a fim de não mais blasfemarem? A pessoa que é expulsa da Igreja assume maior liberdade de ação para si, visto que ela não mais está sob a restrição de disciplina ordinária, e pode irromper-se com maior insolência. Minha resposta é que não importa o grau de perversidade a que se entreguem, as portas permanecerão fechadas para eles, a fim de que, por meio de seu exemplo, o rebanho não seja prejudicado. Porque o maior dano que os homens perversos podem causar é quando se infiltram no rebanho sob o pretexto de confessar a mesma fé. Portanto, o poder de fazer dano é tirado deles quando são marcados por infâmia pública, de sorte que ninguém seja tão simplório que ignore o fato de serem eles irreligiosos e detestáveis, e assim sejam banidos por todos de sua sociedade. Às vezes sucede que, sendo atingidos por tal estigma de infortúnio, eles mesmos se convertem de seus maus caminhos. Portanto, ainda que a excomunhão às vezes torna os homens ainda piores, nem sempre é de todo ineficaz para dominar sua impetuosidade.  

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“MANTENDO FÉ E BOA CONSCIÊNCIA”


“MANTENDO FÉ E BOA CONSCIÊNCIA” 

“Mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1Tm 1.19).

Tomo a palavra “fé” num sentido geral, ou seja, de ensino sadio. É nesse sentido que o apóstolo Paulo usa o termo mais adiante, quando fala de “o mistério da fé” [3.9]. Essas são deveras as principais coisas requeridas de um mestre, ou seja, que seja um ministro de consciência íntegra e zelo equilibrado. Onde esses dois elementos se fazem presentes, o resto se sguirá dos mesmos.

O apóstolo mostra quão necessário se faz que uma consciência íntegra acompanhe a fé, pois o castigo de uma má consciência consiste no desvio da senda do dever. Aqueles que não servem a Deus com uma mente pura e honesta, mas se entregam às más disposições, ainda que tenham começado com uma mente equilibrada, no fim perdem-na completamente. Esta passagem deve receber cuidadosa ponderação. Sabemos que o tesouro da sã doutrina é inestimável, e nada há para se temer mais do que o risco de perdê-lo. Aqui, porém, Paulo nos diz que a única forma de conservá-lo é conservando-o com uma boa consciência. Por que é que tantos rejeitam o evangelho e se precipitam no seio das seitas ímpias ou se envolvem em erros monstruosos? É porque Deus pune os hipócritas com esse gênero de cegueira, justamente como, em contrapartida, um sincero temor de Deus nos injeta vigor para perseverarmos. Desse fato podemos aprender duas lições. Primeiramente, os mestres e ministros do evangelho, e através deles toda a Igreja, são advertidos sobre como muitos deles devem sentir repulsa por uma falsa e hipócrita profissão da verdadeira doutrina, visto ser a mesma castigada com extrema severidade. Em segundo lugar, esta passagem remove aquela debilidade que perturba a tantos, quando eles se deparam com alguns que uma vez professaram a Cristo e seu evangelho, não só retornando à suas superstições anteriores, mas, pior ainda, se deixam fascinar por erros monstruosos. Como por exemplo, Deus está publicamente vindicando a honra do evangelho e publicamente declarando que não pode suportar que o mesmo seja profanado. Isso é algo que se pode aprender da experiência da própria época, todos os erros que têm surgido na Igreja Cristã, desde seus primórdios, emanam dessa fonte: a cobiça e o egoísmo às vezes têm extinguido o genuíno temor de Deus. Daí a má consciência ser a mãe de todas as heresias, e hoje nos deparamos com um vasto número de pessoas que jamais abraçaram a fé com honestidade e sinceridade. E não só isso, mas também que o menosprezo por Deus se espalha por toda parte e as vidas licenciosas e depravadas de quase todas as classes humanas revelam que não resta no mundo senão uma minguada porção de integridade, de modo que há boas razões para temer-se que a luz que ficou acesa tão pronto se apague, e que Deus conserve num limitadíssimo número de pessoas o sadio entendimento do evangelho.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

“O PRINCIPAL DOS PECADORES”


O PRINCIPAL DOS PECADORES

Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal. Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna” (1Tm 1.15,16).

O vocábulo, “pecadores”, é enfático. Mesmo aqueles que reconhecem que a obra de Cristo é salvar, admitem que é muito difícil crer que essa salvação pertença a pecadores. Nossa mente sempre se inclina a fixar-se em nossa própria dignidade; e assim que essa dignidade se concretiza, nossa confiança fracassa. Por isso, quanto mais uma pessoa sente o peso de seus pecados, mais deve, com maior coragem, recorrer a Cristo, confiando no que aqui é ensinado, ou seja, que ele veio trazer salvação, não aos justos, e, sim, aos pecadores. Também merece atenção que neste versículo Paulo baseia o que disse acerca de si próprio nesta verdade geral sobre a obra de Cristo, de modo que, o que acaba de dizer sobre si próprio, não pareça absurdo por ser algo inusitado.

Dos quais eu sou o principal. Não devemos imaginar que o apóstolo Paulo esteja, aqui, expressando uma falsa modéstia. Sua intenção era fazer confissão de que ele era não apenas humilde, mas expressar também uma verdade que fluísse do âmago de seu ser. Mas é possível que alguém pergunte por que ele se considera o principal dos pecadores, sendo que seu mal foi unicamente em relação à sua ignorância da sã doutrina, e quanto aos demais aspectos do viver era ele irrepreensível aos olhos humanos. Nestas palavras, porém, somos advertidos sobre quão grave e sério é o pecado da incredulidade aos olhos de Deus, especialmente quando seguido de obstinação e desenfreada crueldade. É fácil para os homens dissimularem o que Paulo confessou acerca de si próprio em decorrência de zelo irrefletido; mas Deus dá um valor tão elevado à obediência proveniente da fé, que não o deixa considerar como pecado de pouca monta a incredulidade obstinadamente renitente. Observemos com muita atenção o ensino desta passagem, ou seja, que um homem, que aos olhos do mundo poder ser não só irrepreensível, mas também extraordinariamente de excelentes virtudes e de uma vida merecedora de elogios, pode, não obstante, ser considerado um dos maiores pecadores por causa de sua oposição à doutrina do evangelho e à obstinação de sua incredulidade. Daqui podemos facilmente entender o valor que aos olhos de Deus têm todas as exibições de grande impacto dos hipócritas, enquanto, obstinadamente, resistem a Cristo.

Para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade. Ao dizer, "o principal", aqui, Paulo está uma vez mais dizendo que ele é o principal dos pecadores, de modo que o termo tem o mesmo sentido de principalmente, ou acima de todos. Ele quer dizer que desde o início Deus exibiu este exemplo de sua graça para que a mesma fosse contemplada clara e amplamente, de modo tal que ninguém alimentasse dúvida de que o único modo de se obter o perdão é indo a Cristo pela fé. Toda a nossa falta de confiança é removida quando vemos em Paulo um tipo visível daquela graça que buscamos. 

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 11 de agosto de 2024

“FIEL É A PALAVRA E DIGNA DE TODA ACEITAÇÃO”


FIEL É A PALAVRA E DIGNA DE TODA ACEITAÇÃO

Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15).

Não satisfeito em haver defendido seu ministério da infâmia e das acusações, o apóstolo Paulo agora se volta para suas vantagens pessoais, as quais seus inimigos poderiam assacar contra ele ao modo de repressão. Demonstra ainda que foi proveitoso para a Igreja que ele tivesse sido o gênero de homem que fora antes de ser chamado para o apostolado, porque, ao conferir-lhe um penhor de sua graça, Cristo chamou a todos os pecadores a uma maravilhosa expectativa de obterem  eles [também] o perdão divino. Ao ser Paulo transformado de um animal feroz e selvagem em ministro e pastor, Cristo exibiu nele um extraordinário exemplo de sua graça, a qual transmitira a todos os homens uma segura confiança de que o acesso à salvação a ninguém é vetado, por mais graves e ultrajante sejam seus pecados.

Primeiramente, Paulo faz uma afirmação geral de que Cristo veio para salvar os pecadores, introduzindo-a à guisa de prefácio, segundo seu costume ao tratar de assuntos de suprema importância. Na doutrina de nossa religião, este é deveras o ponto primordial, ou seja: visto que por nós mesmos estamos perdidos, devemos ir a Cristo a fim de receber de suas mãos a nossa salvação. Pois ainda que Deus o Pai, mil vezes, nos ofereça a salvação em Cristo, e Cristo mesmo nos proclame sua própria obra salvífica, todavia não nos desvencilhamos da incerteza, ou, de algum modo, não cessamos de perguntar em nosso íntimo se realmente é verdade. Portanto, quando em nossa mente surge alguma dúvida sobre o perdão dos pecados, devemos aprender a repeli-la, usando como nosso escudo o fato de que ela é verdadeira e segura, e portanto deve ser recebida sem qualquer contestação ou hesitação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E A GRAÇA DE NOSSO SENHOR TRANSBORDOU”


“E A GRAÇA DE NOSSO SENHOR TRANSBORDOU”

“E a graça de nosso Senhor transbordou excessivamente com fé e amor que há em Cristo Jesus” (1Tm 1.14).

Uma vez mais o apóstolo Paulo magnifica a graça divina em seu favor, não só com o intuito de testificar de sua própria gratidão, mas também para defender-se contra as calúnias de seus inimigos maliciosos, cujo propósito era denegrir seu apostolado. Pois quando diz que a graça “transbordou”, aliás, “transbordou excessivamente”, sua intenção é que a lembrança do passado foi apagada e tão completamente absorvida, que praticamente não lhe resultava de forma alguma desvantajoso que os demais homens, em favor de quem se manifestara a graça, fossem homens bons.

Com fé e amor. É possível tomar ambas as palavras como uma referência a Deus, de modo que o sentido seria que Deus se revelou fiel e deu demonstração de seu amor em Cristo, ao conceder ao apóstolo sua graça. Prefiro, porém, uma interpretação mais simples, à luz do qual a fé e o amor são sinais ou testemunho da graça que ele já mencionara, para que não imaginassem que ele se vangloriasse desnecessariamente ou sem justa razão. A fé é o oposto da incredulidade na qual anteriormente vivera e o amor em Cristo é o oposto da crueldade que uma vez demostrara para com os crentes, como se Paulo quisesse dizer que Deus o havia transformado de tal maneira que agora era um homem diferente e novo. E assim, por meio de seus sinais e efeitos, ele enaltece a excelência da graça a ele conferida, a qual haveria de fazer desaparecer todas as lembranças de sua vida pregressa.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 9 de agosto de 2024

“ERA BLASFEMO, E PERSEGUIDOR, E INSOLENTE”


“ERA BLASFEMO, E PERSEGUIDOR, E INSOLENTE”

“A mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade” (1Tm 1.13).

Blasfemo contra Deus e perseguidor e injuriador contra a Igreja. Vemos quão candidamente Paulo confessa o que poderia ter sido assacado contra ele em forma de censura, e quão longe estava de atenuar seus pecados. Mas, ao reconhecer espontaneamente sua indignidade em denominar-se de perseguidor, ele expressa sua fúria e indignação ainda mais profundamente, reconhecendo quão injurioso havia sido contra a Igreja.

Pois o fiz na ignorância, na incredulidade. “Obtive perdão para minha incredulidade”, diz Paulo, “a qual procedia de minha ignorância”, pois a perseguição e a violência outra coisa não eram senão fruto da incredulidade. Mas ele parece pressupor que só pode haver perdão quando há um contundente pretexto de ignorância, o que nos leva a perguntar: se uma pessoa peca conscientemente, Deus jamais a perdoará? Minha resposta é que devemos atentar para a palavra incredulidade, pois que ela restringe a afirmação de Paulo à primeira tábua da lei. As transgressões da segunda tábua, ainda que deliberadamente, são perdoadas, mas aquele que, conscientemente, viola a primeira tábua peca contra o Espírito Santo, pois se põe diretamente em oposição a Deus. Tal pessoa não comete erro por fraqueza, mas por erguer-se em rebelião contra Deus, que revela um seguro sinal de sua reprovação. Daqui se pode deduzir uma definição do pecado contra o Espírito Santo. Em primeiro lugar, é uma direta rebelião contra Deus, em [franca] transgressão da primeira tábua; em segundo lugar, é uma maliciosa rejeição da verdade; pois quando a verdade de Deus é rejeitada, sem malícia deliberada, o Espírito Santo não é propriamente resistido. Finalmente, incredulidade é aqui empregada como um termo geral; e a intenção maliciosa, que é o oposto de ignorância, é a condição qualificativa.

Daí, estão equivocados os que sustentam que o pecado contra o Espírito Santo consiste na transgressão da segunda tábua, e estão igualmente equivocados os que fazem de um crime tão hediondo uma mera violência irrefletida. O pecado contra o Espírito Santo só é cometido quando os homens mortais deflagram deliberada guerra contra Deus, de tal sorte que extingue-se a luz que o Espírito lhes oferecera. Essa é uma espantosa perversidade e uma monstruosa temeridade. Não há dúvida de que aqui há uma ameaça implícita com o propósito de atemorizar todos quantos uma vez foram iluminados, para que não se voltassem contra a verdade que já haviam confessado, pois semelhante queda seria fatal. Se foi devido à ignorância que Deus perdoara a Paulo suas blasfêmias, os que blasfemam consciente e deliberadamente não devem esperar perdão.

Poder-se-ia conjecturar, porém, que o que Paulo diz está fora de propósito, visto que não pode haver incredulidade que não envolva também ignorância, porquanto a incredulidade é sempre cega. Minha resposta é que entre os incrédulos há aqueles que são tão cegos que se extraviam do que é certo, movidos por suas falsas concepções, enquanto que outros, ainda que sejam demasiadamente cegos, a malícia é um fator decisivo. Embora Paulo também possuísse má disposição, em alguma medida, em seu caso houve certo zelo irrefletido que o arrebatara de tal modo, que chegou a acreditar estar agindo corretamente. Por isso ele não se constituía em deliberado inimigo de Cristo, senão que foi meramente movido por equívoco e ignorância. Em contrapartida, os fariseus que falsamente acusavam a Cristo, e que, movidos por má consciência, não estavam totalmente isentos de erro e ignorância, senão que seus motivos eram a ambição e uma perversa indisposição contra a sã doutrina; em suma, uma furiosa rebelião contra Deus, de sorte que, maliciosa e deliberadamente, e não por ignorância, se voltaram contra Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SOU GRATO PARA COM AQUELE QUE ME FORTALECEU”


“SOU GRATO PARA COM AQUELE QUE ME FORTALECEU”

“Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério” (1Tm 1.12).

Sublime é a dignidade do apostolado que Paulo havia reivindicado para si, e, recordando de sua vida pregressa, não poderia de forma alguma considerar-se digno de tão sublime honra. Portanto, para evitar de ser acusado de presunção, ele tem que referir-se a si mesmo, confessando sua indignidade e ainda afirmando ser apóstolo pela graça de Deus. De fato, ele avança ainda mais e se volta para as circunstâncias que pareciam depor contra sua autoridade para o seu bem, declarando que a graça de Deus brilha nele ainda com mais fulgor. Ao render graças a Cristo, ele remove a objeção que poderia ser assacada contra ele, sem deixar-lhe qualquer chance de formular a pergunta se ele era ou não digno de um ofício tão honroso, pois ainda que em si mesmo não possuísse excelência de espécie alguma, era suficiente o fato de que fora escolhido por Cristo. Há muitos que usam a mesma forma de palavras para fazer uma exibição de sua humildade, mas que em nenhum existe a humildade de Paulo, pois que sua intenção era não só gloriar-se ardentemente no Senhor, mas também desviar de si toda e qualquer vanglória. Mas, pelo quê ele está dando graças? É pelo fato de lhe haver concedido um lugar no ministério, e desse fato ele deduz que fora considerado fiel. Cristo não recebe pessoas indiscriminadamente, antes, porém, faz seleção daqueles que são apropriados, e assim reconhecemos como dignos todos aqueles a quem ele honra. Não é incompatível com isso o fato de Judas, segundo a profecia do Salmo 109.8, ser levantado por pouco tempo para em seguida celeremente cair. Por outro lado, com Paulo foi diferente, pois que obteve seu ofício com um propósito distinto e sob condições distintas, pois Cristo declarou [At 9.15] que ele haveria de ser “um vaso escolhido para ele”.

Ao falar assim, o apóstolo Paulo parece estar fazendo da fidelidade que antecipadamente demonstrara a causa do seu chamamento. Se tal fosse o caso, então sua gratidão seria hipócrita e absurda, pois então deveria seu apostolado, não tanto a Deus, mas a seus próprios méritos. Não concordo que sua intenção fosse que ele fora escolhido para a obra apostólica em razão de sua fé ter sido conhecida de antemão por Deus, porquanto Cristo não poderia ter previsto nele nada de bom exceto aquilo que o próprio Pai lhe concedera. E assim permanece sempre verdadeiro que “Não fostes vós que me escolhestes a mim, pelo contrário, eu vos escolhi a vos outros e vos designei para que vades e deis fruto” [Jo 15.16]. Mas a intenção de Paulo é completamente diferente: para ele, o fato de Cristo fazer dele um apóstolo fornecia prova de sua fidelidade. Ele afirma: os que Cristo toma para ser apóstolo têm que confessar que foram declarados fiéis pelo decreto de Cristo. Este veredicto não repousa sobre a presciência, e, sim, sobre um testemunho dirigido aos homens, como se ele dissesse: “Dou graças a Cristo que me chamou para este ministério, e assim publicamente declarou que sancionava minha fidelidade”.

Paulo agora se volta para outras bênçãos de Cristo, e diz que ele o fortaleceu ou o capacitou. Com isso ele quer dizer não só que no princípio fora formado pela mão divina, de uma forma tal que ficou perfeitamente qualificado para o seu ofício, mas inclui também a concessão contínua de graças. Porquanto não teria sido suficiente que uma só ocasião houvera sido declarado fiel, caso Cristo não o fortalecesse com a constante comunicação de seu socorro. Portanto, ele diz que é pela graça de Cristo que fora inicialmente levantado para o apostolado e por que agora continua nele.

Deus nossa bençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 1 de agosto de 2024

“FIEL É ESTA PALAVRA”


“FIEL É ESTA PALAVRA”

“Fiel é esta palavra: Se já morremos com ele, também viveremos com ele” (2 Tm 2.11).

"Fiel é esta palavra". O apóstolo Paulo usa esta frase como prefácio ao que vem a seguir, porquanto nada há mais estranho à sabedoria da carne do que crer que devemos morrer a fim de vivermos, e que a morte é o pórtico de entrada para a vida. Deduzimos de outras passagens que era o costume de Paulo usar este prefácio antes de algo especialmente importante ou difícil de se crer. O significado é que a única forma de participarmos da vida e glória de Cristo é antes participando de sua morte e humilhação, como diz em Romanos 8.29, todos os eleitos foram “predestinados para serem conformados à imagem de seu Filho”. Isso foi escrito tanto para exortar quanto para consolar os crentes. Quem poderia fracassar ao ser estimulado por esta exortação de que não devemos desesperar-nos por causa de nossas aflições, visto que teremos um feliz livramento delas? O mesmo pensamento abate e ameniza todas as amarguras geradas pela cruz, visto que nem dores, nem tormentos, nem reprovações, nem morte nos podem apavorar, uma vez que as compartilhamos com Cristo; e, especialmente, porque todas essas coisas são precursoras de nosso triunfo. Portanto, através desse exemplo pessoal, Paulo injeta ânimo em todos os crentes para que, com o coração iluminado, pudessem suportar as aflições nas quais já têm uma prelibação da glória futura. Mas, se porventura isso for demais para crermos movidos por nossa própria iniciativa, e se a cruz nos subjugar e toldar nossa visão, nos impedindo de discernir a Cristo, lembremo-nos de empunhar este escudo: “Fiel é esta palavra”. Onde Cristo se faz presente, também presente está a vida e a bem-aventurança. Devemos manter-nos firmes a esta comunhão que temos com Cristo, para que não morramos em nós mesmos, mas com ele, para que sejamos companheiros de sua glória [2Co 4.10].

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“FORTIFICA-TE NA GRAÇA QUE ESTÁ EM CRISTO JESUS”


“FORTIFICA-TE NA GRAÇA QUE ESTÁ EM CRISTO JESUS”

“Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus” (2Tm 2.1).

Como antes o apóstolo Paulo havia dito a Timóteo que guardasse o depósito que lhe fora confiado pelo Espírito, assim agora lhe ordena a tornar-se forte na graça. Com essa expressão, significa que Timóteo seria reanimado do desânimo e inatividade, pois a carne é tão morosa que mesmo os dotados de excelentes dons às vezes se entorpecem em meio à jornada, se não forem frequentemente despertados. Mas é possível que alguém pergunte: “De que serve exortar um homem a tornar-se forte na graça, a menos que o nosso livre-arbítrio exerça algum papel, cooperando com a graça?" Eis minha resposta: o que Deus requer de nós, em sua Palavra, ele também supre através de seu Espírito, de modo que somos fortalecidos naquela graça que ele mesmo proporciona. E, no entanto, as exortações não são supérfluas, porque o Espírito de Deus, nos ensinando interiormente, faz com que elas não soem infrutíferas em nossos ouvidos nem caiam no esquecimento. Portanto, o homem que reconhece que esta presente admoestação não podia ser frutífera senão pelo poder secreto do Espírito, jamais usará esta passagem em abono do livre-arbítrio.

Paulo acrescenta, que está em Cristo Jesus, por duas razões: para mostrar que é tão-somente de Cristo, e de nenhum outro, que a graça emana, e para que nenhum cristão se visse privado dela. Pois ainda que o único Cristo seja comum a todos, segue-se que todos participam de sua graça, e é por isso que se diz estar ela “em Cristo”, já que todos os que se encontram em Cristo devem possuí-la. O modo carinhoso com que o apóstolo fala, chamando Timóteo, meu filho, tende a cativar suas graças, ou seja, para que o seu ensino penetrasse mais profundamente o coração de Timóteo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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Aanbiddingsconcert & Opname Opwekking

"Concerto de Adoração e Reavivamento"


Deus nos abençoe!