"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 3 de setembro de 2024

“GUARDA-ME, Ó DEUS”


“GUARDA-ME, Ó DEUS”

“Guarda-me, ó Deus, porque em ti me confio” (Sl 16.1).

Eis aqui uma oração em que Davi se confia à proteção divina. Entretanto, aqui ele não implora o auxílio divino, em alguma emergência específica, como frequentemente faz em outros Salmos, mas simplesmente roga-lhe que se manifeste na qualidade de protetor durante todo o curso de sua vida. Na verdade nossa segurança toda, tanto na vida quanto na morte, depende inteiramente de estarmos sob a proteção divina. O que se segue concernente a confiar significa o mesmo que se o Espírito Santo nos assegurasse pelos lábios de Davi que Deus está pronto a socorrer a todos nós, contanto que confiemos nele com uma fé definida e estável; e que não toma sob sua proteção a ninguém senão aqueles que se confiam a ele de todo o seu coração. Ao mesmo tempo, devemos ter em mente que Davi, guarnecido por essa confiança, continuou firme e inamovível em meio a todas as tormentas de adversidades com que era ele atingido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
*Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

domingo, 1 de setembro de 2024

“NA TUA PRESENÇA HÁ PLENITUDE DE ALEGRIA”



“NA TUA PRESENÇA HÁ PLENITUDE DE ALEGRIA”

“Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

O salmista Davi confirma a afirmação feita no versículo 10, e explica o modo como Deus o isentará da escravidão da morte, ou seja, conduzindo-o e trazendo-o finalmente a salvo à posse da vida eterna. Desse fato uma vez mais aprendemos o que já observei, ou seja, que esta passagem toca na diferença que há entre os verdadeiros crentes e os forasteiros ou réprobos, com respeito ao seu estado eterno. É mero discurso enganoso dizer que, quando Davi, aqui, fala de a vereda da vida lhe sendo mostrada, significa o prolongamento de sua vida natural. Aliás, falar de Deus como guia de seu povo na vereda da vida apenas por uns poucos anos neste mundo é uma forma muito pobre de avaliar sua graça. Nesse caso, eles não difeririam em nada dos réprobos, os quais desfrutam da luz do sol da mesmíssima forma que eles [os santos], Se, pois, é a graça especial de Deus não comunicar o conhecimento da vereda da vida, da qual ele fala, a ninguém mais, senão a seus próprios filhos, a quem Davi aqui magnifica e exalta, então indubitavelmente ela deve ser vista como que se estendendo também à bendita imortalidade; e de fato só conhece a vereda da vida aquele que está unido a Deus e que vive em Deus, e não pode viver sem ele.

A seguir Davi acrescenta que, quando Deus se reconcilia conosco, temos todas as coisas que nos são necessárias para a perfeita felicidade. A frase, na tua presença, pode ser entendida ou de sermos vistos por Deus ou de ele ser visto por nós. Quanto a mim, porém, considero ambas as ideias como inclusas reciprocamente, pois seu favor paternal, o qual ele exibe olhando para nós com um semblante sereno, precede essa alegria, e é a causa primeira dela, e no entanto isso ainda não nos alegra, de nossa parte, até que o vejamos resplandecente sobre nós. Com essa cláusula Davi pretendia também distintamente expressar a quem tais delícias pertencem, dos quais Deus tem em sua mão uma plena e superabundante plenitude. Visto que com Deus há prazeres suficientes para reabastecer e satisfazer o mundo inteiro, donde procede toda a escuridão sinistra e mortal que envolve a maior parte da humanidade, senão porque Deus não olha para todos os homens igualmente com seu semblante amigo e paterno, nem abre os olhos de todos os homens para que busquem a essência de sua alegria nele, e em nenhum outro?

Plenitude de alegria é contrastada com fascinações e prazeres evanescentes deste mundo transitório, o qual, depois de ter divertido seus miseráveis adeptos por algum tempo, por fim os deixa insatisfeitos, famintos e decepcionados. Podem intoxicar-se e empanturrar-se de prazeres até à máxima saciedade, mas, em vez de se sentirem satisfeitos, ao contrário se tornam cansados deles com profunda repugnância. Além disso, os prazeres deste mundo se desvanecem como sonhos. Davi, pois, testifica que a verdadeira e sólida alegria, na qual as mentes dos homens podem repousar, jamais será encontrada em alguma outra parte senão em Deus. Portanto, ninguém mais além dos fiéis, que vivem contentes só com a graça divina, podem viver real e perfeitamente felizes.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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*Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

“INCLINA-ME OS OUVIDOS, LIVRA-ME DEPRESSA”


“INCLINA-ME OS OUVIDOS, LIVRA-ME DEPRESSA”

“Inclina-me os ouvidos, livra-me depressa; sê o meu castelo forte, cidadela fortíssima que me salve. Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás. Tirar-me-ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois tu és a minha fortaleza” (Sl 31.2-4).

Estas palavras expressam com quanto ardor a alma de Davi se animava a orar. Ele descreve com figuras próprias a veemência de seu desejo. Ao orar para que fosse libertado depressa, demonstrava a agudeza do perigo que o cercava, como se quisesse dizer: Logo todos se assenhorearão de minha vida, a não ser que Deus se apresse em socorrer-me. Com as palavras, castelo forte, fortaleza e rocha, ele notifica que, sendo-lhe impossível resistir a seus inimigos, sua esperança repousa unicamente na proteção divina.

Davi, ao exclamar esta reflexão, se anima não só a orar com intensidade, mas também a nutrir confiante esperança de obter o que solicita. Sabemos, em todos os casos, que é um hábito dele misturar tais elementos em suas orações, como se quisesse remover suas dúvidas e confirmar sua certeza. Havendo, pois, expresso sua necessidade, ele se assegura, com o fim de encorajar-se e animar-se, de que sua oração, com toda certeza, receberá uma resposta feliz. Ele havia dito: Sê tu minha forte rocha e minha fortaleza; e agora adiciona: Com toda certeza tu és minha rocha e minha fortaleza; notificando que não emitira estas palavras temerariamente, como fazem os incrédulos que, embora estejam acostumados a exigir muito de Deus, são mantidos em suspenso pelos eventos terríveis e incertos. Deste fato ele extrai outro encorajamento, a saber: que terá Deus por seu guia e líder durante todo o curso de sua vida. Ele usa dois termos: conduzir e guiar, para expressar a mesma coisa, e faz isso (pelo menos assim o explico) por conta dos vários acidentes e das vicissitudes desiguais pelas quais os homens vivem e são provados, como se quisesse dizer: Se tenho de subir às montanhas mais íngremes ou labutar por regiões ásperas ou andar entre os espinheiros, confio que serás o meu Guia constante. Além do mais, como os homens sempre encontram em si mesmos motivos para dúvida, caso olhem para seus próprios méritos, Davi expressamente pede a Deus que se convença a socorrê-lo por amor de seu próprio nome, ou em consideração à sua própria glória, visto que, propriamente falando, não existe nenhum outro motivo que o induza a socorrer-nos. É preciso, pois, ter em mente que o nome de Deus, que se opõe a todo e qualquer mérito [humano], é a única causa de nossa salvação.

No versículo quatro, sob a metáfora de um laço, tudo indica que Davi está a designar as ciladas e artifícios com que seus inimigos o enredavam. Sabemos que se engendravam frequentes inspirações contra sua vida, as quais não lhe deixavam lugar algum de escape; e como seus inimigos eram profundamente hábeis em matéria de sagacidade, e odiavam-no com inconcebível furor, e ardentemente buscavam sua destruição, era-lhe impossível desvencilhar-se deles por qualquer poder humano. Por essa razão ele chama Deus minha força; como se quisesse dizer: Unicamente ele é suficiente para desmantelar todas as ciladas nas quais ele vê seu aflito povo enleado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“EM TI, SENHOR, ME REFUGIO”


“EM TI, SENHOR, ME REFUGIO”

“Em ti SENHOR, me refugio; não seja eu jamais envergonhado; livra-me por tua justiça” (Sl 31.1).

Logo de início Davi nos diz que tipo de oração ofereceu em sua agonia e aperto; e sua linguagem transmite afeto da mais ardente natureza. Ele a usa como base da esperança que depositava no Senhor ou que continuava a confiar nele. Ele mantém como um princípio, o fato de que a esperança que depende de Deus não é possível ser frustrada. Entrementes, vemos como ele nada apresenta que não seja unicamente pela fé, profetizando seu livramento só porque está persuadido de que seria salvo pelo socorro e favor de Deus. Como, porém, esta doutrina já foi explanada, e ainda ocorrerá com alguma frequência, presentemente será suficiente um relanceio sobre ela. Oh! se todos nós, na prática, ao aproximarmo-nos de Deus, fôssemos capazes de declarar como Davi de que nossas orações procedem desta fonte, ou seja, da inabalável persuasão de que nossa segurança depende do poder de Deus. A partícula indicativa, jamais ou para sempre, pode ser explicada de duas formas. Como Deus às vezes subtrai seu favor, o significado não pode impropriamente ser: Embora no momento me veja privado de teu socorro, todavia não me expulsaste definitivamente, ou para sempre. E assim Davi, desejando munir-se de paciência contra suas provações, traça um contraste entre dois fatos: viver em aflição por algum tempo e permanecer nesse estado de confusão. Mas se alguém preferir entender as palavras de Davi neste sentido: “Sejam quais forem as aflições que me sobrevenham, esteja Deus disposto a socorrer-me e de vez em quando estender-me sua mão, segundo a situação o requeira”, eu não rejeitaria tal significado como inferior ao outro. Davi deseja ser entregue à justiça divina, visto que Deus manifesta sua justiça, pondo em ação sua promessa feita a seus servos. É um raciocínio por demais refinado asseverar que Davi, aqui, recorre à justiça que Deus graciosamente comunica a seu povo, visto que sua justiça pessoal, com base nas obras, é de nenhum valor. Ainda mais fora de propósito é a opinião daqueles que concluem que Deus preserva os santos de conformidade com a justiça deles; equivale dizer, uma vez tendo eles agido de forma tão meritória, a justiça requer que recebam seu galardão. É fácil de se perceber, à luz do frequente uso do termo nos Salmos, que a justiça de Deus significa sua fidelidade, no exercício da qual ele defende todo aquele que se entrega à sua guarda e proteção. Davi, pois, confirma sua esperança com base na natureza de Deus, que não pode negar-se a si mesmo e que perenemente continua sendo ele mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

“CERTAMENTE RETRIBUIRÁS A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”


“CERTAMENTE RETRIBUIRÁS A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”

“A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras” (Sl 62.12).

O salmista adiciona: Certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras. E aqui Davi apresenta o que disse para ter ainda mais perto o ponto que estabeleceria, declarando que o Deus que governa o mundo por sua providência o julgará com justiça. A expectativa disto, devidamente apreciada, terá um feliz efeito na disposição de nossa mente, acalmando a impaciência e restringindo qualquer disposição ao ressentimento e retaliação em face de nossas injúrias. Ao colocar a si e aos outros diante do tribunal de Deus, ele anima seu coração na esperança daquele livramento que era iminente e se convence a desprezar a insolente perseguição de seus inimigos, ao considerar que toda obra humana terá que entrar em juízo diante daquele que, para cessar de ser Juiz, teria que negar-se a si mesmo. Podemos, pois, descansar seguros, por mais graves sejam nossos erros, ainda que os ímpios nos considerem o lixo e o refugo de todas as coisas, que o Deus que é testemunha do que sofremos se interporá no devido tempo e não frustrará nossa paciente expectativa. A luz desta passagem e de outras semelhantes, os hereges tiram argumento em defesa de sua doutrina de que a justificação e a salvação dependem das boas obras. Já expus, porém, a falácia de seu raciocínio. Aqui não se faz menção por mais que lancem mão desta expressão como equivalente a uma afirmação de que Deus galardoa os homens com base nos méritos. É com um desígnio muito diferente, e não para encorajar tal opinião, que o Espírito promete galardoar nossas obras, ou seja: para animar-nos nas veredas da obediência, e não para inflamar aquela ímpia autoconfiança que corta a salvação pelas próprias raízes.

Segundo o juízo que Deus forma das obras do crente, sua dignidade e valor dependem primeiro do perdão gratuito a ele estendido como pecador, e mediante o qual ele é reconciliado com Deus; seus préstimos, não obstante todas as suas imperfeições. Sabemos não haver nenhuma de nossas obras que, à vista de Deus, seja considerada perfeita ou pura e sem qualquer mácula de pecado. Qualquer recompensa que porventura recebam, deve, pois, ser atribuída à benevolência divina. Visto que as Escrituras prometem um galardão aos santos, com a única intenção de estimular suas mentes e encorajá-los no divino combate, e não com o mais remoto desígnio de detrair algo da misericórdia divina, é absurdo que os hereges aleguem que eles, em algum sentido, merecem o que lhes é concedido. No que respeita aos ímpios, ninguém disputará que o castigo que lhes é retribuído, como violadores da lei, é estritamente merecido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“A TI TAMBÉM, SENHOR, PERTENCE A MISERICÓRDIA”


“A TI TAMBÉM, SENHOR, PERTENCE A MISERICÓRDIA”

“A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras” (Sl 62.12).

Podemos então juntar numa forma bem conectada as doutrinas particulares que Davi selecionou para uma atenção especial. É essencialmente necessário, se porventura temos de fortificar nossas mentes contra a tentação, cultivar conceitos adequadamente elevados do poder e misericórdia de Deus, visto que nada nos preservará mais eficientemente numa trajetória reta e sem desvios do que a firme convicção de que todos os eventos se acham nas mãos de Deus, e que ele é misericordioso e poderoso. Consequentemente, Davi dá seguimento ao que havia dito sobre o tema da diferença de se render em obediência à palavra, declarando que fora instruído por ela no poder e bondade de Deus. Alguns [intérpretes] o entendem como a dizer que está no poder de Deus livrar seu povo e que sua clemência o convence a exercê-lo. Ele, porém, parece mais tencionado a dizer que Deus é poderoso para impor restrição aos ímpios e esmagar sua soberba e seus nefastos desígnios, mas que a disposição de sua bondade é sempre proteger e defender seus próprios filhos. O homem que se disciplina à contemplação destes dois atributos, os quais nunca devem estar em nossa mente dissociados da ideia de Deus, está certo de permanecer ereto e inamovível ante os furiosos assaltos da tentação; enquanto que, por outro lado, ao perdermos de vista a infinita suficiência de Deus (o que nos dispomos demasiadamente a fazer), nos tornamos vulneráveis ao massacre do primeiro encontro [no campo de batalha]. A opinião que o mundo tem de Deus é que ele está sentado no céu como indolente e despreocupado espectador dos eventos que se desenrolam. Carece que fiquemos surpresos diante do fato de que os homens estremecem ante a própria casualidade, ao crerem que são objetos do cego acaso? Não podemos sentir segurança a menos que fiquemos satisfeitos com a verdade de que há uma divina superintendência, e portanto podemos entregar nossas vidas e tudo o que temos nas mãos de Deus. A primeira coisa que devemos observar é seu poder, a fim de podermos nutrir plena convicção de ser ele um seguro refugio para todos quantos se entregam ao seu cuidado. A isso devemos juntar a confiança em sua misericórdia, a fim de impedir os ansiosos pensamentos que de outra forma brotariam em nossa mente. Esta poderia sugerir a dúvida: Ora, se Deus governa o mundo, segue-se, então, que ele se preocupará com objetos tão sem valor como nós somos?

Há uma óbvia razão, pois, para o salmista associar estas duas coisas: seu poder e sua clemência. Estas são as duas asas com as quais voamos para o céu; as duas colunas entre as quais descansamos e podemos desafiar as procelosas vagas da tentação. Os perigos, em suma, surgem de qualquer canto, e por isso temos de nos lembrar que o divino poder que pode coibir todos os males, e enquanto tal sentimento prevalecer em nossa mente, nossos problemas não podem deixar de cair prostrados diante do divino poder. Por que temeríamos? Como é possível temermos quando o Deus que nos cobre com a sombra de suas asas é o mesmo que governa o universo com um gesto seu, mantém secretas as cadeias do diabo e de todos os ímpios, e eficazmente administra os desígnios e intrigas deles?

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“UMA VEZ FALOU DEUS; DUAS VEZES OUVI ISTO”


“UMA VEZ FALOU DEUS; DUAS VEZES OUVI ISTO”

“Uma vez falou Deus; duas vezes ouvi isto: que o poder pertence a Deus” (Sl 62.11).

O salmista Davi considerava que o único método eficaz de abstrair as mentes dos homens das vãs ilusões, em que se dispõem a confiar, era levá-los a se conscientizarem implícita e firmemente do juízo divino. Geralmente se agitam em diferentes direções, ou, pelo menos, se dispõem à oscilação assim que observam as coisas mutáveis deste mundo. Mas ele mantém sob observação um princípio mais acurado para a regulamentação de sua conduta, quando recomenda um respeito diferenciado pela Palavra de Deus. Deus, propriamente dito, “habita em luz inacessível” [lTm 6.16]; e já que ninguém pode chegar a ele sem que esteja munido de fé, o salmista chama nossa atenção para sua Palavra, na qual testifica a veracidade de seu divino e justo governo do mundo. É de grande importância que sejamos estabelecidos na fé proveniente da Palavra de Deus; e aqui somos conduzidos à infalível inerrância que lhe é inerente. A passagem admite duas interpretações; o escopo dela, porém, é claramente este: que Deus age consistentemente consigo mesmo, e jamais poderá desviar-se do que ele disser. Muitos entendem Davi como a dizer que Deus falou uma vez e uma segunda vez; e que por esta afirmação explícita e reiterada de seu poder e misericórdia, ele confirmou a verdade além de toda e qualquer possibilidade de contradição. Há uma passagem que contém o mesmo efeito no capítulo trinta e três, versículo quatorze, do livro de Jó, onde as mesmas palavras são empregadas, tendo apenas a conjunção como interposição. Se alguém o preferir, contudo, não faço objeções a outro significado - Deus falou uma vez; duas vezes ouvi isto. Isso concorda com o contexto e pressupõe uma lição prática de grande importância; pois quando Deus tiver uma vez emitido sua palavra, jamais se retratará. De um lado, é nosso dever ponderar sobre o que ele disse, demorada e deliberadamente; e a intenção de Davi então será que ele considerou a Palavra de Deus à luz de um decreto, fixo e irreversível, mas que, como considerava seu exercício em referência a ele, então meditava sobre o mesmo vezes e mais vezes, a fim de que o lapso de tempo não o obliterasse de sua memória. Mas a redação mais simples e preferível parece ser esta: Deus falou uma vez e outra vez. Não há consistência na engenhosa conjectura de que a alusão poderia ser que Deus uma vez falou na Lei, e a segunda vez nos Profetas. Nada mais está embutido além do fato de que a verdade referida fora simplesmente confirmada, sendo comumente reputado como certo e fixo aquilo que tem sido reiteradamente anunciado. Aqui, contudo, deve-se lembrar que toda palavra que foi pronunciada por Deus deve ser recebida com autoridade implícita, e não a aprovação dada à abominável prática da recusa de receber uma doutrina, a menos que ela seja apoiada por dois ou três textos da Escritura. Isto tem sido defendido por um herege sem princípios [que vive] entre nós, o qual tem tentado subverter a doutrina da soberana eleição e da secreta providência. Não era a intenção de Davi dizer que Deus estava preso à necessidade de repetir o que tencionasse anunciar, mas simplesmente afirma a infalibilidade de uma verdade que havia declarado em termos claros e sem ambiguidade. No texto que se segue [v.12], ele toma a si como exemplo daquela reverência e daquele respeito diferenciados que nutria pela Palavra de Deus que se estendia a todos, mas que tão poucos realmente a atendiam.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 25 de agosto de 2024

“DEUS É NOSSA ESPERANÇA”


DEUS É NOSSA ESPERANÇA

“Esperai nele em todo tempo; derramai, ó povo, vosso coração diante dele; Deus é nossa esperança.” (Sl 62.8).

A expressão, em todo tempo, significa tanto prosperidade quanto adversidade, notificando a culpabilidade daqueles que vacilavam e sucumbiam sob a própria variação em suas circunstâncias externas. Deus prova seus filhos com aflições; aqui, porém, são ensinados por Davi a resisti-las com perseverança e coragem. Os hipócritas, que são espalhafatosos em seus louvores a Deus enquanto a prosperidade brilha sobre suas cabeças, ainda que seus corações desmaiem ante a primeira aparição de provas, desonram seu nome pondo injuriosa limitação a seu poder. Somos obrigados a dar honra a seu nome, lembrando, em nossas mais extremas aflições, que a ele pertencem as consequências da morte. E visto que todos nós somos por demais dispostos, em tais ocasiões, a ordenar silêncio às nossas aflições em nosso próprio peito - circunstância esta que só pode agravar ainda mais a angústia e amargura mental contra Deus -, Davi não poderia sugerir melhor expediente do que o de depor diante dele nossas preocupações, e assim derramar nossos corações diante dele. É sempre experimentado que, enquanto o coração sentir-se premido pelo fardo da angústia, não haverá liberdade na oração. Sob as circunstâncias penosas, devemos buscar conforto na ponderação de que Deus nos proverá lenitivo, contanto que espontaneamente deponhamos tudo diante dele. A advertência do salmista é em extremo necessária, considerando a prejudicial tendência que inerentemente nutrimos em manter nossas dificuldades encerradas em nosso íntimo até que nos levem ao desespero. Comumente, o fato é que os homens se mostram ansiosos e engenhosos em buscar a via de escape para os problemas quando estes passam a pressioná-los; mas enquanto evitarem chegar à presença de Deus, outra coisa não farão senão envolver-se cada vez mais num labirinto de dificuldades. Para não insistir mais sobre palavras, Davi precisa ser aqui entendido como a expor esse princípio mórbido, porém profundamente arraigado em nossa natureza, o qual nos leva a ocultar e a ruminar nossas tristezas, em vez de aliviarmo-nos de vez derramando nossas queixosas orações diante de Deus. A consequência é que somos perturbados mais e mais com nossos infortúnios e nos imergimos num estado de angustiante desesperança. No término do versículo, Davi diz, em referência ao povo em geral, o que havia dito de si mesmo como indivíduo, que sua segurança só poderia ser encontrada na divina proteção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“EM DEUS ESTÁ MINHA SALVAÇÃO”


“EM DEUS ESTÁ MINHA SALVAÇÃO”

“Em Deus está minha salvação e minha glória; a rocha de minha força e minha esperança estão em Deus” (Sl 62.7).

Vemos aqui, Davi ajuntando uma expressão sobre a outra; e isso, aparentemente, se deve ao fato de que ele desejava refrear aquela enfermidade da disposição que nos faz por demais propensos a deslizar-nos para o exercício do erro. Podemos rejeitar o reconhecimento passageiro e ocasional de que nosso auxílio só se encontra em Deus, e ainda abruptamente exibir nossa falta de confiança nele, ocupando-nos, em todas as direções, em suplementar o que consideramos defectivo no auxílio divino. Os diversos termos que ele emprega para expressar a suficiência de Deus como libertador podem, neste caso, considerar-se como tantos argumentos para a constância ou os muitos freios que ele aplicaria aos caprichos do coração carnal, sempre disposto a depender do apoio de outros, e não de Deus. Tal é a forma que ele usa para animar seu próprio espírito; e em seguida o encontramos dirigindo-se a outros [v.8], convocando-os a enfrentar os mesmos conflitos e a cumular a mesma vitória e triunfo. Pelo termo povo parece não haver dúvida que ele tem em mente os judeus. Os gentios, não havendo sido ainda visitados pela verdadeira religião e pela divina revelação, Deus só poderia ser o objeto de confiança e invocação religiosa na Judéia; e tudo indica que, ao distinguir o povo escolhido do Senhor dos pagãos circunvizinhos, ele insinua quão desditoso seria se não se devotassem inteiramente a Deus, sendo eles, como de fato eram, os filhos de Abraão, favorecidos com a experiência de sua graça, especialmente tomados sob sua divina proteção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 19 de agosto de 2024

“SOMENTE EM DEUS, Ó MINHA ALMA, ESPERA SILENCIOSA”


“SOMENTE EM DEUS, Ó MINHA ALMA, ESPERA SILENCIOSA”

Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança” (Sl 62.5).

Davi estava em silêncio diante de Deus; que necessidade, pois, haveria de um novo silêncio, como se ele ainda estivesse dominado pela agitação de espírito? É preciso ter em mente que não podemos jamais esperar que nossas mentes alcancem uma perfeita postura, quando eclodir aquele sentimento íntimo de inquietude, senão que, na melhor das hipóteses, são como o mar sob o impulso da mais leve brisa, flutuando suavemente, quando não engolfado por vagalhões. Não é sem luta que os santos recompõem sua mente; e podemos muito bem entender como Davi associava a mais perfeita submissão a um espírito que já era submisso, instando consigo mesmo a aprofundar-se ainda mais nesta graça do silêncio, até que mortificasse toda inclinação carnal e se sujeitasse totalmente à vontade de Deus. Além disso, com quanta frequência Satanás renovará as inquietudes que pareciam estar eficientemente repelidas! Repito que não há motivo de nos sentirmos surpresos que aqui Davi apele a si mesmo segunda vez a preservar o mesmo silêncio diante de Deus, o qual já parecia ter obtido; porque, em meio às confusas comoções da carne, nunca alcançamos a perfeita postura mental. O perigo é que, ao surgir novos ventos de dificuldades, podemos perder aquela tranquilidade íntima de que desfrutávamos, e daí a necessidade de cultivarmos o exemplo de Davi, nos firmando nele mais e mais. Ele adiciona a razão de seu silêncio. Não obtivera ainda a imediata resposta de Deus, mas confiadamente esperava nele. Minha esperança, diz ele, está em Deus. É como se dissesse: A paciente espera de seus santos jamais será frustrada; sem dúvida, meu silêncio se deparará com sua recompensa; restringir-me-ei, e não deixarei que a falsa pressa faça parecer que meu livramento se tornou por demais demorado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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