"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quarta-feira, 11 de setembro de 2024

“QUE DIREMOS, POIS, À VISTA DESTAS COISAS?”


“QUE DIREMOS, POIS, À VISTA DESTAS COISAS?”

“Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31).

Havendo provado suficientemente seu tema, o apóstolo Paulo agora se prorrompe numa série de exclamações por meio das quais expressa a grandeza de alma que os crentes devem possuir quando as adversidades insistem em fazê-los desesperar-se. Ele nos ensina, através dessas palavras, que a coragem inquebrantável que suplanta a todas as provações reside no paternal e divino favor. A única maneira pela qual nosso julgamento do amor ou da ira de Deus é comumente formado é, como sabemos, pela avaliação de nosso estado atual. É por isso que as coisas às vezes vão mal, a tristeza toma posse de nossas mentes e afasta-se de nós a confiança e consolação. Paulo, contudo, exclama que um princípio mais profundo deve ser buscado, e que, portanto, os que se limitam a fitar o triste espetáculo de nossa batalha laboram em erro. Admito que os açoites divinos devem ser corretamente considerados, em si mesmos, como sendo sinais da ira divina; mas visto que eles se acham sacralizados em Cristo, Paulo ordena aos santos que ponham o amor paternal de Deus acima de tudo mais, de modo que, ao buscar nele seu refúgio, venham confiantemente a triunfar sobre todo o mal. Constitui-se-nos numa muralha de bronze o fato de Deus nos ser favorável e nos fazer seguros contra todo perigo. Paulo, contudo, não pretende ensinar-nos que jamais enfrentaremos qualquer oposição, senão que nos promete vitória sobre toda classe de inimigo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
*Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 


quarta-feira, 4 de setembro de 2024

“ALEGRA-SE, POIS, O MEU CORAÇÃO”


ALEGRA-SE, POIS, O MEU CORAÇÃO”

“Alegra-se, pois, o meu coração, e o meu espírito exulta;  até o meu corpo repousará seguro” (Sl 16.9).

Neste versículo, o salmista Davi enaltece o inestimável fruto da fé, do qual a Escritura por toda parte faz menção, em que, ao colocar-nos sob a proteção de Deus, ela nos faz não só vivermos no desfruto da tranquilidade mental, mas, o que é melhor, a vivermos uma vida de paz e triunfante regozijo. A parte principal e essencial de uma vida feliz, como bem sabemos, consiste em possuirmos tranquilidade de consciência e de mente; enquanto que, ao contrário, não há maior infelicidade do que ser agitado em meio a uma infinidade de preocupações e temores.

Mas os ímpios, por mais intoxicados estejam com o espírito de precipitação e estupidez, jamais experimentam genuína alegria ou serena paz mental; ao contrário, sentem terrível agitação interior, que os surpreende e os atribula, tanto que os constrange a acordarem de sua letargia. Em suma, o sereno regozijo não é a porção de nenhum outro, senão daquele que aprendeu a pôr sua confiança unicamente em Deus, bem como a confiar sua vida e sua segurança à proteção dele. Quando, pois, nos virmos cercados de todos os lados por inumeráveis dificuldades, sintamo-nos persuadidos de que o único remédio é dirigirmos nossos olhos para Deus; e se agirmos assim, a fé não só tranquilizará nossas mentes, mas também as encherá da plenitude de alegria. E não é sem motivo, porque os verdadeiros crentes não só possuem essa alegria espiritual na afeição secreta de seu coração, mas também ela se manifesta através do espírito, visto que se gloriam em Deus como Aquele que os protege e lhes assegura a salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 3 de setembro de 2024

“QUANTO AOS SANTOS QUE ESTÃO NA TERRA”

 


“QUANTO AOS SANTOS QUE ESTÃO NA TERRA”

Quanto aos santos que estão na terra, e os excelentes, neles está todo o meu deleite” (Sl 16.3).

Quase todos concordam em tomar esse lugar como se Davi, depois da frase que estivemos justamente considerando, acrescentasse: A única forma de servir a Deus corretamente é sem demora fazendo o bem a seus santos servos. E a verdade é que Deus, já que nossas boas ações não chegam a ele, coloca os santos em seu lugar, em favor de quem devemos exercer nossa caridade. Quando os homens, pois, mutuamente se esforçam em fazer o bem uns aos outros, isso equivale a dedicar a Deus um serviço justo e aceitável. Sem dúvida, devemos estender nossa caridade mesmo aos que dela são indignos, precisamente como nosso Pai celestial “faz seu sol nascer sobre os maus e os bons” [Mt 5.45]. Davi, porém, com razão prefere os santos a quaisquer outros, e os coloca numa categoria mais proeminente. Essa, pois, como me expressei no início, é a opinião comum de quase todos os intérpretes. Mas ainda que eu não negue que esta doutrina esta compreendida nas palavras de Davi, creio que eu avanço um tanto mais, e afirmo que ele se unirá com os devotos adoradores de Deus, os quais são seus associados e companheiros, ainda quando todos os filhos de Deus devam estar unidos pelos laços da união fraternal, a fim de que todos sejam qualificados a servir e a invocar a seu Pai comum com a mesma afeição e zelo. E assim vemos que Davi, depois de ter confessado que não podia encontrar nada em si para oferecer a Deus, visto estar endividado para com ele por tudo quanto possuía, deposita sua afeição nos santos, porquanto é a vontade de Deus que, neste mundo, seja ele magnificado e exaltado na assembleia dos justos, aos quais ele adotou em sua família com esse propósito, ou seja, para que vivam unidos em comum acordo sob sua autoridade e sob as diretrizes do Espírito Santo.

Esta passagem, pois, nos ensina que não há sacrifício mais aceitável a Deus do que quando sincera e honestamente nos unimos à sociedade dos justos e nos entrelaçamos pelos sagrados laços da piedade, cultivando e mantendo com eles a boa vontade fraternal. Nisso consiste a comunhão dos santos, a qual os separa das degradantes poluições do mundo, a fim de que sejam o povo santo e peculiar de Deus. Ele expressamente fala de os santos que estão na terra, visto que é a vontade de Deus que, mesmo neste mundo, haja aquelas claras marcas - como se fossem brasões visíveis - de sua glória, as quais sirvam para conduzir-nos a ele. Os fiéis, pois, levam sua imagem para que, mediante seu exemplo, sejam incitados à meditação sobre a vida celestial. Pela mesma razão, o salmista os chama, excelentes, ou nobres, porquanto não deve haver nada mais precioso para nós do que a justiça e a santidade, nas quais resplandece a glória do Espírito de Deus; precisamente como somos concitados no Salmo anterior a dar valor e prestigiar aos que temem a Deus.

Devemos, pois, valorizar e apreciar de forma sublime os genuínos e devotados servos de Deus, e não considerar nada mais importante do que nossa participação de sua sociedade. E isso realmente faremos se sabiamente refletirmos sobre em que consiste a genuína excelência e dignidade e não permitir que o vão esplendor do mundo e suas pompas ilusórias ofusquem nossos olhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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*Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“MINHA BENEFICÊNCIA NÃO TE ALCANÇA”


“MINHA BENEFICÊNCIA NÃO TE ALCANÇA”

“Dirás ao SENHOR: Tu és o meu SENHOR; minha beneficência não te alcança” (Sl 16.2).

Davi começa afirmando que ele não pode dar nada a Deus, não só porque Deus não tem necessidade de coisa alguma, mas também porque o homem mortal não pode merecer o favor divino por algum serviço que porventura venha a realizar para Deus. Ao mesmo tempo, contudo, ele toma alento e, visto que Deus aceita nossa devoção e o serviço que a ele dedicamos, Davi declara que será um de seus servos. A fim de reanimar-se o mais eficazmente possível para o exercício desse dever, ele fala à sua própria alma; pois a palavra hebraica que se traduz por dirás é do gênero feminino, a qual pode referir-se somente à alma. Talvez alguns prefiram ler a palavra no pretérito: Tu disseste, o que acho perfeito, pois o salmista está falando de um sentimento que tinha sido acalentado continuamente em sua alma. Estou deveras convencido em meu coração de que a substância de sua linguagem é que Deus não pode extrair proveito ou tirar vantagem de mim; não obstante isso, unir-me-ei em comunhão com os santos, para que de comum acordo adoremos a Deus por meio de sacrifícios de louvor.

Duas coisas são distintamente estabelecidas neste versículo. A primeira é que Deus tem o direito de requerer de nós o que lhe apraz, visto que estamos totalmente ligados a ele como nosso legítimo Proprietário e Senhor. Davi, ao atribuir-lhe o poder e o domínio de Senhor, declara que tanto ele mesmo quanto tudo o que ele possuía são propriedades de Deus. O outro particular contido neste versículo é o reconhecimento que o salmista tinha de sua própria indigência.

Minha beneficência não te alcança. Os intérpretes explicam essa última cláusula de duas maneiras. Alguns extraem dela este sentido, a saber: que Deus sob nenhuma obrigação, ou, no mínimo grau, não nos deve algo pelos feitos bons que praticamos para ele; e entendem o termo beneficência num sentido passivo, como se Davi afirmasse que toda bondade que ele recebia de Deus não procedia de alguma obrigação que ele impusesse a Deus, nem de algum mérito que porventura possuísse. Creio, porém, que a frase tem um significado mais extenso, ou seja, por mais que os homens se esforcem por sempre depender de Deus, não obstante isso não lhe proporciona nenhuma vantagem. Nossa beneficência não chega a ele, não só porque, possuindo toda auto-suficiência, ele não necessita de coisa alguma, mas também porque somos vazios e destituídos de todo bem e nada temos como demonstrar-lhe nossa liberalidade para com ele. À luz dessa doutrina, contudo, o outro ponto sobre o qual toquei antes se seguirá, ou seja, que é impossível para os homens, por quaisquer méritos propriamente seus, fazerem Deus obrigar-se em relação a eles, de modo a torná-lo seu devedor. A suma do discurso é que, quando chegamos diante de Deus, devemos desvencilhar-nos de toda e qualquer presunção. Quando imaginamos haver algum bem em nós, não carecemos de ficar surpresos se ele nos rejeitar, como se, com isso, estivéssemos despojando-o da parte principal da honra que lhe é devida. Mas, ao contrário, se reconhecermos que todos os serviços que podemos prestar-lhe em si mesmos nada são, e são indignos de qualquer recompensa, essa humildade é como um aroma de suave cheiro, que alcança para si aceitação diante de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“GUARDA-ME, Ó DEUS”


“GUARDA-ME, Ó DEUS”

“Guarda-me, ó Deus, porque em ti me confio” (Sl 16.1).

Eis aqui uma oração em que Davi se confia à proteção divina. Entretanto, aqui ele não implora o auxílio divino, em alguma emergência específica, como frequentemente faz em outros Salmos, mas simplesmente roga-lhe que se manifeste na qualidade de protetor durante todo o curso de sua vida. Na verdade nossa segurança toda, tanto na vida quanto na morte, depende inteiramente de estarmos sob a proteção divina. O que se segue concernente a confiar significa o mesmo que se o Espírito Santo nos assegurasse pelos lábios de Davi que Deus está pronto a socorrer a todos nós, contanto que confiemos nele com uma fé definida e estável; e que não toma sob sua proteção a ninguém senão aqueles que se confiam a ele de todo o seu coração. Ao mesmo tempo, devemos ter em mente que Davi, guarnecido por essa confiança, continuou firme e inamovível em meio a todas as tormentas de adversidades com que era ele atingido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 1 de setembro de 2024

“NA TUA PRESENÇA HÁ PLENITUDE DE ALEGRIA”



“NA TUA PRESENÇA HÁ PLENITUDE DE ALEGRIA”

“Tu me farás ver os caminhos da vida; na tua presença há plenitude de alegria, na tua destra, delícias perpetuamente” (Sl 16.11).

O salmista Davi confirma a afirmação feita no versículo 10, e explica o modo como Deus o isentará da escravidão da morte, ou seja, conduzindo-o e trazendo-o finalmente a salvo à posse da vida eterna. Desse fato uma vez mais aprendemos o que já observei, ou seja, que esta passagem toca na diferença que há entre os verdadeiros crentes e os forasteiros ou réprobos, com respeito ao seu estado eterno. É mero discurso enganoso dizer que, quando Davi, aqui, fala de a vereda da vida lhe sendo mostrada, significa o prolongamento de sua vida natural. Aliás, falar de Deus como guia de seu povo na vereda da vida apenas por uns poucos anos neste mundo é uma forma muito pobre de avaliar sua graça. Nesse caso, eles não difeririam em nada dos réprobos, os quais desfrutam da luz do sol da mesmíssima forma que eles [os santos], Se, pois, é a graça especial de Deus não comunicar o conhecimento da vereda da vida, da qual ele fala, a ninguém mais, senão a seus próprios filhos, a quem Davi aqui magnifica e exalta, então indubitavelmente ela deve ser vista como que se estendendo também à bendita imortalidade; e de fato só conhece a vereda da vida aquele que está unido a Deus e que vive em Deus, e não pode viver sem ele.

A seguir Davi acrescenta que, quando Deus se reconcilia conosco, temos todas as coisas que nos são necessárias para a perfeita felicidade. A frase, na tua presença, pode ser entendida ou de sermos vistos por Deus ou de ele ser visto por nós. Quanto a mim, porém, considero ambas as ideias como inclusas reciprocamente, pois seu favor paternal, o qual ele exibe olhando para nós com um semblante sereno, precede essa alegria, e é a causa primeira dela, e no entanto isso ainda não nos alegra, de nossa parte, até que o vejamos resplandecente sobre nós. Com essa cláusula Davi pretendia também distintamente expressar a quem tais delícias pertencem, dos quais Deus tem em sua mão uma plena e superabundante plenitude. Visto que com Deus há prazeres suficientes para reabastecer e satisfazer o mundo inteiro, donde procede toda a escuridão sinistra e mortal que envolve a maior parte da humanidade, senão porque Deus não olha para todos os homens igualmente com seu semblante amigo e paterno, nem abre os olhos de todos os homens para que busquem a essência de sua alegria nele, e em nenhum outro?

Plenitude de alegria é contrastada com fascinações e prazeres evanescentes deste mundo transitório, o qual, depois de ter divertido seus miseráveis adeptos por algum tempo, por fim os deixa insatisfeitos, famintos e decepcionados. Podem intoxicar-se e empanturrar-se de prazeres até à máxima saciedade, mas, em vez de se sentirem satisfeitos, ao contrário se tornam cansados deles com profunda repugnância. Além disso, os prazeres deste mundo se desvanecem como sonhos. Davi, pois, testifica que a verdadeira e sólida alegria, na qual as mentes dos homens podem repousar, jamais será encontrada em alguma outra parte senão em Deus. Portanto, ninguém mais além dos fiéis, que vivem contentes só com a graça divina, podem viver real e perfeitamente felizes.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 30 de agosto de 2024

“INCLINA-ME OS OUVIDOS, LIVRA-ME DEPRESSA”


“INCLINA-ME OS OUVIDOS, LIVRA-ME DEPRESSA”

“Inclina-me os ouvidos, livra-me depressa; sê o meu castelo forte, cidadela fortíssima que me salve. Porque tu és a minha rocha e a minha fortaleza; por causa do teu nome, tu me conduzirás e me guiarás. Tirar-me-ás do laço que, às ocultas, me armaram, pois tu és a minha fortaleza” (Sl 31.2-4).

Estas palavras expressam com quanto ardor a alma de Davi se animava a orar. Ele descreve com figuras próprias a veemência de seu desejo. Ao orar para que fosse libertado depressa, demonstrava a agudeza do perigo que o cercava, como se quisesse dizer: Logo todos se assenhorearão de minha vida, a não ser que Deus se apresse em socorrer-me. Com as palavras, castelo forte, fortaleza e rocha, ele notifica que, sendo-lhe impossível resistir a seus inimigos, sua esperança repousa unicamente na proteção divina.

Davi, ao exclamar esta reflexão, se anima não só a orar com intensidade, mas também a nutrir confiante esperança de obter o que solicita. Sabemos, em todos os casos, que é um hábito dele misturar tais elementos em suas orações, como se quisesse remover suas dúvidas e confirmar sua certeza. Havendo, pois, expresso sua necessidade, ele se assegura, com o fim de encorajar-se e animar-se, de que sua oração, com toda certeza, receberá uma resposta feliz. Ele havia dito: Sê tu minha forte rocha e minha fortaleza; e agora adiciona: Com toda certeza tu és minha rocha e minha fortaleza; notificando que não emitira estas palavras temerariamente, como fazem os incrédulos que, embora estejam acostumados a exigir muito de Deus, são mantidos em suspenso pelos eventos terríveis e incertos. Deste fato ele extrai outro encorajamento, a saber: que terá Deus por seu guia e líder durante todo o curso de sua vida. Ele usa dois termos: conduzir e guiar, para expressar a mesma coisa, e faz isso (pelo menos assim o explico) por conta dos vários acidentes e das vicissitudes desiguais pelas quais os homens vivem e são provados, como se quisesse dizer: Se tenho de subir às montanhas mais íngremes ou labutar por regiões ásperas ou andar entre os espinheiros, confio que serás o meu Guia constante. Além do mais, como os homens sempre encontram em si mesmos motivos para dúvida, caso olhem para seus próprios méritos, Davi expressamente pede a Deus que se convença a socorrê-lo por amor de seu próprio nome, ou em consideração à sua própria glória, visto que, propriamente falando, não existe nenhum outro motivo que o induza a socorrer-nos. É preciso, pois, ter em mente que o nome de Deus, que se opõe a todo e qualquer mérito [humano], é a única causa de nossa salvação.

No versículo quatro, sob a metáfora de um laço, tudo indica que Davi está a designar as ciladas e artifícios com que seus inimigos o enredavam. Sabemos que se engendravam frequentes inspirações contra sua vida, as quais não lhe deixavam lugar algum de escape; e como seus inimigos eram profundamente hábeis em matéria de sagacidade, e odiavam-no com inconcebível furor, e ardentemente buscavam sua destruição, era-lhe impossível desvencilhar-se deles por qualquer poder humano. Por essa razão ele chama Deus minha força; como se quisesse dizer: Unicamente ele é suficiente para desmantelar todas as ciladas nas quais ele vê seu aflito povo enleado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“EM TI, SENHOR, ME REFUGIO”


“EM TI, SENHOR, ME REFUGIO”

“Em ti SENHOR, me refugio; não seja eu jamais envergonhado; livra-me por tua justiça” (Sl 31.1).

Logo de início Davi nos diz que tipo de oração ofereceu em sua agonia e aperto; e sua linguagem transmite afeto da mais ardente natureza. Ele a usa como base da esperança que depositava no Senhor ou que continuava a confiar nele. Ele mantém como um princípio, o fato de que a esperança que depende de Deus não é possível ser frustrada. Entrementes, vemos como ele nada apresenta que não seja unicamente pela fé, profetizando seu livramento só porque está persuadido de que seria salvo pelo socorro e favor de Deus. Como, porém, esta doutrina já foi explanada, e ainda ocorrerá com alguma frequência, presentemente será suficiente um relanceio sobre ela. Oh! se todos nós, na prática, ao aproximarmo-nos de Deus, fôssemos capazes de declarar como Davi de que nossas orações procedem desta fonte, ou seja, da inabalável persuasão de que nossa segurança depende do poder de Deus. A partícula indicativa, jamais ou para sempre, pode ser explicada de duas formas. Como Deus às vezes subtrai seu favor, o significado não pode impropriamente ser: Embora no momento me veja privado de teu socorro, todavia não me expulsaste definitivamente, ou para sempre. E assim Davi, desejando munir-se de paciência contra suas provações, traça um contraste entre dois fatos: viver em aflição por algum tempo e permanecer nesse estado de confusão. Mas se alguém preferir entender as palavras de Davi neste sentido: “Sejam quais forem as aflições que me sobrevenham, esteja Deus disposto a socorrer-me e de vez em quando estender-me sua mão, segundo a situação o requeira”, eu não rejeitaria tal significado como inferior ao outro. Davi deseja ser entregue à justiça divina, visto que Deus manifesta sua justiça, pondo em ação sua promessa feita a seus servos. É um raciocínio por demais refinado asseverar que Davi, aqui, recorre à justiça que Deus graciosamente comunica a seu povo, visto que sua justiça pessoal, com base nas obras, é de nenhum valor. Ainda mais fora de propósito é a opinião daqueles que concluem que Deus preserva os santos de conformidade com a justiça deles; equivale dizer, uma vez tendo eles agido de forma tão meritória, a justiça requer que recebam seu galardão. É fácil de se perceber, à luz do frequente uso do termo nos Salmos, que a justiça de Deus significa sua fidelidade, no exercício da qual ele defende todo aquele que se entrega à sua guarda e proteção. Davi, pois, confirma sua esperança com base na natureza de Deus, que não pode negar-se a si mesmo e que perenemente continua sendo ele mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 26 de agosto de 2024

“CERTAMENTE RETRIBUIRÁS A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”


“CERTAMENTE RETRIBUIRÁS A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS”

“A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras” (Sl 62.12).

O salmista adiciona: Certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras. E aqui Davi apresenta o que disse para ter ainda mais perto o ponto que estabeleceria, declarando que o Deus que governa o mundo por sua providência o julgará com justiça. A expectativa disto, devidamente apreciada, terá um feliz efeito na disposição de nossa mente, acalmando a impaciência e restringindo qualquer disposição ao ressentimento e retaliação em face de nossas injúrias. Ao colocar a si e aos outros diante do tribunal de Deus, ele anima seu coração na esperança daquele livramento que era iminente e se convence a desprezar a insolente perseguição de seus inimigos, ao considerar que toda obra humana terá que entrar em juízo diante daquele que, para cessar de ser Juiz, teria que negar-se a si mesmo. Podemos, pois, descansar seguros, por mais graves sejam nossos erros, ainda que os ímpios nos considerem o lixo e o refugo de todas as coisas, que o Deus que é testemunha do que sofremos se interporá no devido tempo e não frustrará nossa paciente expectativa. A luz desta passagem e de outras semelhantes, os hereges tiram argumento em defesa de sua doutrina de que a justificação e a salvação dependem das boas obras. Já expus, porém, a falácia de seu raciocínio. Aqui não se faz menção por mais que lancem mão desta expressão como equivalente a uma afirmação de que Deus galardoa os homens com base nos méritos. É com um desígnio muito diferente, e não para encorajar tal opinião, que o Espírito promete galardoar nossas obras, ou seja: para animar-nos nas veredas da obediência, e não para inflamar aquela ímpia autoconfiança que corta a salvação pelas próprias raízes.

Segundo o juízo que Deus forma das obras do crente, sua dignidade e valor dependem primeiro do perdão gratuito a ele estendido como pecador, e mediante o qual ele é reconciliado com Deus; seus préstimos, não obstante todas as suas imperfeições. Sabemos não haver nenhuma de nossas obras que, à vista de Deus, seja considerada perfeita ou pura e sem qualquer mácula de pecado. Qualquer recompensa que porventura recebam, deve, pois, ser atribuída à benevolência divina. Visto que as Escrituras prometem um galardão aos santos, com a única intenção de estimular suas mentes e encorajá-los no divino combate, e não com o mais remoto desígnio de detrair algo da misericórdia divina, é absurdo que os hereges aleguem que eles, em algum sentido, merecem o que lhes é concedido. No que respeita aos ímpios, ninguém disputará que o castigo que lhes é retribuído, como violadores da lei, é estritamente merecido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“A TI TAMBÉM, SENHOR, PERTENCE A MISERICÓRDIA”


“A TI TAMBÉM, SENHOR, PERTENCE A MISERICÓRDIA”

“A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois certamente retribuirás a cada um segundo as suas obras” (Sl 62.12).

Podemos então juntar numa forma bem conectada as doutrinas particulares que Davi selecionou para uma atenção especial. É essencialmente necessário, se porventura temos de fortificar nossas mentes contra a tentação, cultivar conceitos adequadamente elevados do poder e misericórdia de Deus, visto que nada nos preservará mais eficientemente numa trajetória reta e sem desvios do que a firme convicção de que todos os eventos se acham nas mãos de Deus, e que ele é misericordioso e poderoso. Consequentemente, Davi dá seguimento ao que havia dito sobre o tema da diferença de se render em obediência à palavra, declarando que fora instruído por ela no poder e bondade de Deus. Alguns [intérpretes] o entendem como a dizer que está no poder de Deus livrar seu povo e que sua clemência o convence a exercê-lo. Ele, porém, parece mais tencionado a dizer que Deus é poderoso para impor restrição aos ímpios e esmagar sua soberba e seus nefastos desígnios, mas que a disposição de sua bondade é sempre proteger e defender seus próprios filhos. O homem que se disciplina à contemplação destes dois atributos, os quais nunca devem estar em nossa mente dissociados da ideia de Deus, está certo de permanecer ereto e inamovível ante os furiosos assaltos da tentação; enquanto que, por outro lado, ao perdermos de vista a infinita suficiência de Deus (o que nos dispomos demasiadamente a fazer), nos tornamos vulneráveis ao massacre do primeiro encontro [no campo de batalha]. A opinião que o mundo tem de Deus é que ele está sentado no céu como indolente e despreocupado espectador dos eventos que se desenrolam. Carece que fiquemos surpresos diante do fato de que os homens estremecem ante a própria casualidade, ao crerem que são objetos do cego acaso? Não podemos sentir segurança a menos que fiquemos satisfeitos com a verdade de que há uma divina superintendência, e portanto podemos entregar nossas vidas e tudo o que temos nas mãos de Deus. A primeira coisa que devemos observar é seu poder, a fim de podermos nutrir plena convicção de ser ele um seguro refugio para todos quantos se entregam ao seu cuidado. A isso devemos juntar a confiança em sua misericórdia, a fim de impedir os ansiosos pensamentos que de outra forma brotariam em nossa mente. Esta poderia sugerir a dúvida: Ora, se Deus governa o mundo, segue-se, então, que ele se preocupará com objetos tão sem valor como nós somos?

Há uma óbvia razão, pois, para o salmista associar estas duas coisas: seu poder e sua clemência. Estas são as duas asas com as quais voamos para o céu; as duas colunas entre as quais descansamos e podemos desafiar as procelosas vagas da tentação. Os perigos, em suma, surgem de qualquer canto, e por isso temos de nos lembrar que o divino poder que pode coibir todos os males, e enquanto tal sentimento prevalecer em nossa mente, nossos problemas não podem deixar de cair prostrados diante do divino poder. Por que temeríamos? Como é possível temermos quando o Deus que nos cobre com a sombra de suas asas é o mesmo que governa o universo com um gesto seu, mantém secretas as cadeias do diabo e de todos os ímpios, e eficazmente administra os desígnios e intrigas deles?

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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