"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



domingo, 5 de janeiro de 2025

“O PODER SACERDOTAL DE PERDOAR PECADOS”


“O PODER SACERDOTAL DE PERDOAR PECADOS”

"Mas alguns dos escribas estavam assentados ali e arrazoavam em seu coração: Por que fala ele deste modo? Isto é blasfêmia! Quem pode perdoar pecados, senão um, que é Deus? E Jesus, percebendo logo por seu espírito que eles assim arrazoavam, disse-lhes: Por que arrazoais sobre estas coisas em vosso coração? Qual é mais fácil? Dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados, ou dizer: Levanta-te, toma o teu leito e anda? Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados — disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa. Então, ele se levantou e, no mesmo instante, tomando o leito, retirou-se à vista de todos, a ponto de se admirarem todos e darem glória a Deus, dizendo: Jamais vimos coisa assim!" (Mc 2.6-12).

Consideremos nestes versículos, o poder sacerdotal de perdoar pecados, que possui nosso Senhor Jesus Cristo. Lemos que nosso Senhor disse ao paralítico: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. Jesus proferiu essas palavras com um propósito. Ele conhecia os corações dos escribas ao seu redor. Ele tencionava mostrar-lhes que tinha o direito de ser o verdadeiro Sumo Sacerdote, que tinha o poder de perdoar pecadores, embora, até o momento, raramente tivesse apresentado essa reivindicação. Ele tinha o poder e declarou-lhes isso claramente. Ele disse: “Para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados”. Ao dizer: “Filho, os teus pecados estão perdoados”, Cristo estava tão-somente exercendo seu legítimo ofício.

Consideremos, agora, quão grande deve ser a autoridade dAquele que tem o poder de perdoar pecados! Isso é algo que ninguém mais pode fazer, exceto Deus. Nenhum anjo nos céus, nenhum homem sobre a terra, nenhuma igreja em Concílio, nenhum ministro de qualquer denominação cristã pode tirar, da consciência de um pecador, a carga da culpa, outorgando-lhe paz com Deus. Tão-somente podem apontar para a fonte aberta para a purificação de todo pecado. Podem apenas declarar, com autoridade, que Deus está disposto a perdoar pecados. Porém, eles não podem perdoar pecados por sua própria autoridade. Eles não podem remover as transgressões de quem quer que seja. Essa é uma prerrogativa peculiar de Deus, uma prerrogativa posta nas mãos de seu Filho, Cristo Jesus.

Pensemos, por alguns instantes, sobre quão grande é a bênção de ser Jesus nosso grande Sumo Sacerdote e que, por isso, sabemos onde buscar a absolvição! Precisamos de um sacerdote e de um sacrifício que se interponha entre nós e Deus. Nossa consciência exige expiação por nossos inúmeros pecados. A santidade de Deus, por sua vez, torna isso uma necessidade absoluta. Sem um sacerdote que faça expiação, não pode haver paz no coração. Jesus Cristo é o Sacerdote que precisamos, poderoso para perdoar e absolver, dotado de um terno coração e sempre disposto a salvar.

Portanto, indaguemos a nós mesmos se já conhecemos ao Senhor Jesus como o nosso Sumo Sacerdote. Já apelamos para Ele? Já buscamos nEle a absolvição? Caso contrário, continuamos em nossos pecados. Não descansemos enquanto o Espírito de Deus não testificar, junto ao nosso espírito, que nos temos assentado aos pés de Cristo Jesus, que já ouvimos sua voz dizer-nos: “Filho, os teus pecados estão perdoados”.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“AFLIÇÕES E GRANDE BÊNÇÃO”


“AFLIÇÕES E GRANDE BÊNÇÃO”

“Alguns foram ter com ele, conduzindo um paralítico, levado por quatro homens. E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o eirado no ponto correspondente ao em que ele estava e, fazendo uma abertura, baixaram o leito em que jazia o doente. Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Filho, os teus pecados estão perdoados” (Mc 2.3-5).

Nestes versículos, observemos como as aflições podem redundar em grande bênção para a alma de um homem. Somos inteirados que um paralítico foi levado à presença de nosso Senhor Jesus, em Cafarnaum, a fim de ser curado. Incapaz e dependente, ele foi transportado em seu leito por quatro bondosos amigos e descido bem no meio do lugar onde Jesus estava pregando. Imediatamente o paralítico obteve aquilo que buscava. O grande Médico do corpo e da alma, viu-o e deu-lhe alívio imediato. Restaurou-lhe a saúde e as forças físicas. Além disso, concedeu-lhe a bênção maior do perdão dos pecados. Em poucas palavras, o homem que, naquela manhã, fora levado de sua própria casa, muito débil, vencido tanto no corpo quanto na alma, retornou regozijando-se.

Quem pode duvidar que, até o fim de sua vida, aquele homem tenha ficado grato a Deus por aquela paralisia? Sem ela, mui provavelmente teria vivido e morrido na ignorância, sem jamais ter conhecido a Cristo. Sem a paralisia, ele talvez teria cuidado de algum negócio na Galiléia, a vida inteira, sem nunca ter sido conduzido a Cristo, e nunca ouviria aquelas abençoadas palavras: “Filho, os teus pecados estão perdoados”. Aquela paralisia foi, de fato, uma bênção para ele. Quem pode negar que aquele mal foi o começo da vida eterna para a sua alma?

Quantos outros, no decorrer dos séculos, podem testificar que a sua experiência tem sido a mesma! Esses têm aprendido a ser sábios através das aflições. A perda de entes amados tem trazido misericórdias. Uma perda acaba redundando em ganhos. As enfermidades têm levado muitas pessoas ao grande Médico das almas, levando-as às Escrituras, afastando-as do mundo, mostrando-lhes a sua insensatez, ensinando-lhes a orar. Milhares, como o salmista Davi, podem dizer: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71).

Tenhamos muito cuidado para não murmurarmos quando submetidos a aflições. Podemos ter certeza de que há um motivo imperioso para cada cruz e uma sábia razão para toda provação. Cada tristeza ou enfermidade é uma graciosa mensagem da parte de Deus, cujo propósito é aproximar-nos um pouco mais do Senhor. Oremos para sermos capazes de aprender a lição que cada sofrimento visa ensinar-nos. Cuidemos em não desprezar Aquele que “dos céus nos adverte” (Hb 12.25).

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

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“PRIVILÉGIOS ESPIRITUAIS SEM USO”


“PRIVILÉGIOS ESPIRITUAIS SEM USO”

"Dias depois, entrou Jesus de novo em Cafarnaum, e logo correu que ele estava em casa. Muitos afluíram para ali, tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam lugar; e anunciava-lhes a palavra" (Mc 2.1,2).

Esta passagem bíblica nos mostra o nosso Senhor Jesus, uma vez mais, em Cafarnaum. Uma vez mais, nos O encontramos fazendo sua obra costumeira - pregando a Palavra e curando os doentes.

Nestes dois primeiros versículos, percebemos quão grandes privilégios espirituais algumas pessoas desfrutam, embora não façam uso deles. Essa é uma verdade ilustrada de forma saliente nessa narrativa sobre Cafarnaum. Nenhuma outra cidade da Palestina parece haver usufruído tanto da presença de nosso Senhor, durante seu ministério terreno, quanto essa cidade. Foi pra lá que Jesus se mudou ao deixar Nazaré (Mt 4.13). Essa foi a localidade onde muitos dos seus milagres foram realizados e muitos de seus sermões foram proferidos. Entretanto, nada do que Jesus disse ou fez parece ter produzido qualquer efeito nos corações de seus habitantes. Eles costumavam ajuntar-se em multidão para ouvi-Lo e, conforme lemos nesta passagem, eram “tantos que nem mesmo junto à porta eles achavam lugar”. Ficavam admirados; estarrecidos. Ficavam maravilhados diante das poderosas obras de Jesus. Não obstante, não se converteram. Viveram sob a luz ofuscante e radiante do Sol da Justiça, mas seus corações permaneceram endurecidos. Assim, receberam de nosso Senhor a mais grave condenação já proferida contra qualquer outra localidade, exceto Jerusalém: “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até o céu? Descerás até ao inferno; porque se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje. Digo-vos, porém, que menos rigor haverá no Dia do Juízo para com a terra de Sodoma, do que para contigo” (Mt 11.23,24).

Convém salientarmos bem esse incidente que envolveu Cafarnaum. Todos nós tendemos a supor que nada mais se faz necessário, para que as almas se convertam, do que uma poderosa pregação do evangelho. Supomos também que se o evangelho for anunciado em algum lugar, todos deverão crer. Mas, esquecemos do grande poder da incredulidade e da profundeza da inimizade do homem contra Deus. Esquecemos que os habitantes de Cafarnaum ouviram a mais infalível pregação e que a viram confirmada mediante os mais surpreendentes milagres; mas, mesmo assim, permaneceram mortos em seus delitos e pecados. Precisamos lembrar que o mesmo evangelho, que é perfume de vida para alguns, é odor de morte para outros. Efetivamente, nenhuma outra coisa parece endurecer tanto o coração dos homens como ouvirem regularmente o evangelho, enquanto preferem deliberadamente servir ao pecado e ao mundo. Nunca houve uma população tão favorecida como a de Cafarnaum; também nunca houve um povo que parece ter se tornado tão endurecido quando aquele. Tenhamos cautela de não seguir pelas pisadas deles. Precisamos fazer, com frequência, esta oração: Da dureza de coração, ó Senhor Deus, livra-nos.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

“RECEBI TUDO E TENHO EM ABUNDÂNCIA”


RECEBI TUDO E TENHO EM ABUNDÂNCIA

“Não que eu procure o donativo, mas o que realmente me interessa é o fruto que aumente o vosso crédito. Recebi tudo e tenho em abundância; estou suprido, desde que Epafrodito me passou às mãos o que me veio de vossa parte como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (Fp 4.17,18).

Não que eu procure o donativo. Uma vez mais o apóstolo Paulo repele uma opinião desfavorável que porventura fosse formulada pela cobiça imoderada, para que não presumissem que fosse uma insinuação indireta, como se devessem sozinhos postar-se no lugar de todos, e como se ele abusasse da bondade deles. Por conseguinte, ele declara que não buscara tanto sua vantagem pessoal quanto à deles. “Enquanto recebo de vós”, diz ele, “há em proporção muita vantagem que redunda em vosso favor; pois há tantos artigos que podereis considerar como sendo transferidos para a lista de contas.” O significado desta palavra está conectado com a similitude previamente empregada de troca ou compensação em questões pecuniárias.

Recebi tudo e tenho em abundância. Paulo declara em termos mais explícitos que por ora tem o que é suficiente, e honra a liberalidade deles com um notável testemunho, dizendo que tem em abudância. Indubitavelmente, o que enviaram foi uma soma moderada, mas ele diz que por meio dessa soma moderada ele se saciou. No entanto, é um enaltecimento mais excelente o que ele outorga à dádiva no que segue, quando a chama de um “sacrifício aceitável e apresentado como aroma suave”. Porque, que coisa melhor se pode desejar do que nossos atos de bondade sejam [considerados] ofertas santas que Deus recebe de nossas mãos, e com cuja doce fragrância ele se deleita? Pela mesma razão, Cristo diz: “Sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes” [Mt 25.40].

A semelhança de sacrifícios, contudo, adiciona muita ênfase, pela qual somos ensinados que o exercício do amor que Deus nos impõe não é meramente um benefício conferido ao homem, mas é também um serviço espiritual e sagrado que é prestado a Deus, como lemos na Epístola aos Hebreus: que ele “se agrada com tais sacrifícios” [Hb 13.16]. Ai de nossa indolência! - a qual transparece nisto: que enquanto Deus nos convida com tanta bondade à honra do sacerdócio, e ainda põe sacrifícios em nossas mãos, não obstante não lhe oferecemos sacrifício, e aquelas coisas que foram separadas por oblações santas, não só gastamos com usos mundanos, mas esbanjamo-las impiamente nas contaminações mais sujas. Pois os altares nos quais os sacrifícios de nossos recursos devem ser apresentados são os pobres e os servos de Cristo. Ao negligenciarem estes, alguns esbanjam seus recursos com todo gênero de luxo, outros com deleite gastronômico, outros com vestuário imoderado, outros com casas gigantescas.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NO TOCANTE A DAR E RECEBER”


“NO TOCANTE A DAR E RECEBER”

“E sabeis também vós, ó filipenses, que, no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo no tocante a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades” (Fp 4.15,16).

E sabeis também vós. Entendo isto como um acréscimo ao modo de desculpa, visto que com frequência o apóstolo Paulo recebia algo da parte deles, pois se as outras igrejas não cumpriam seu dever, poderia parecer como se ele estivesse ansioso demais em receber. Daí, ao ser claro, ele os elogia; e, elogiando, modestamente desculpa os outros. Nós também, segundo o exemplo do apóstolo, devemos atentar bem para que os santos, vendo-nos tão inclinados a receber de outrem, não tenham boas razões de nos considerar insaciáveis. E sabeis também vós, diz ele. “Não espero que convoquem outra testemunha, porquanto vocês mesmos sabem”. Pois frequentemente sucede que, quando alguém pensa que outros são deficientes no cumprimento dos deveres, essa pessoa é a mais liberal em prestar assistência. Assim a liberalidade de alguns escapa à observação de outros.

No tocante a dar e receber. Paulo faz referência a questões pecuniárias nas quais há duas partes: uma de receber, a outra de dar. É necessário que estas sejam trazidas a uma equidade por compensação mútua. Há uma conta desta natureza pendente entre Paulo e as igrejas. Enquanto Paulo lhes ministrava o evangelho, havia certa obrigação envolvendo-os, em troca, no suprimento do que era necessário para o sustento de sua vida, como ele diz em outro lugar: “Se nós semeamos para vós as coisas espirituais, será muito que de vós colhamos as materiais?” [1Co 9.11]. Daí, se outras igrejas aliviavam as necessidades de Paulo, não lhe estariam dando nada de graça, mas estariam simplesmente pagando sua dívida, pois deveriam reconhecer que lhe estavam endividados pelo evangelho. Entretanto, ele reconhece que este não fora o caso, visto que não haviam depositado nada em sua conta. Que vil ingratidão, e quão inconveniente era tratar com negligência um apóstolo como este, para com o qual bem sabiam estar em obrigação além de seu poder de cumprir! Em contrapartida, quão grande tolerância deste santo homem em suportar a desumanidade deles com tanta mansidão e indulgência, a ponto de não fazer uso de uma palavra cortante sequer para acusá-los!

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 28 de dezembro de 2024

“TENDO O DESEJO DE PARTIR E ESTAR COM CRISTO”


“TENDO O DESEJO DE PARTIR E ESTAR COM CRISTO”

“Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor” (Fp 1.23).

Ora, de um e outro lado, estou constrangido. O apóstolo Paulo não deseja viver com nenhum outro objetivo em vista senão a promoção da glória de Cristo, e fazer o bem aos irmãos. Daí ele enxergar nenhuma outra vantagem em viver senão o bem-estar dos irmãos. Mas, no que diz respeito a si mesmo, ele reconhece que lhe seria preferível morrer logo, visto que [nesse caso] passaria a estar com Cristo. Apesar disso, por sua escolha ele revela que ardente amor havia em seu coração. Aqui nada se diz sobre vantagens terrenas, mas sobre benefício espiritual, o qual é um motivo supremamente desejável aos olhos dos santos. Entretanto, como se esquecesse de si mesmo, ele não só se mantém indeciso, para que não levasse em conta seu próprio benefício, e sim o dos filipenses, mas, por fim, conclui que em sua mente devia vencer o interesse deles. E, com toda certeza, isto é na verdade viver ou morrer para Cristo, quando, sendo indiferente em relação a nós mesmos, nos deixemos ser levados aonde quer que Cristo nos chame e, ali, usados.

Tendo o desejo de partir e [de] estar com Cristo. Estas duas coisas têm de ser lidas em conexão. Pois a morte, por si só, nunca será desejável, uma vez que tal desejo se opõe ao sentimento natural, porém, é desejável por alguma razão particular, ou com vistas a algum outro fim. Pessoas em desespero têm recorrido a ela por se sentirem cansadas da vida; os crentes, por sua vez, espontaneamente se apressam para ela, pois [isso] representa um livramento da servidão do pecado e [também] o ingresso no reino celestial. Ora, o que Paulo diz é o seguinte: “Desejo morrer, porque quero, por esse meio, entrar imediatamente na comunhão com Cristo.” Entrementes, os crentes não deixam de encarar a morte com horror, mas quando volvem seus olhos para aquela vida que segue a morte, vencem com facilidade todo medo em virtude dessa consolação. Inquestionavelmente, todo aquele que crê em Cristo deve ser de tal modo corajoso que erga sua cabeça ante a menção da morte, com o coração cheio de alegria só de tomar consciência de sua redenção [Lc 21.28]. A partir deste fato notamos quantos são os cristãos nominais, visto que a maioria, ao ouvir fazer-se menção da morte, fica não só alarmada, mas se sente quase que desfalecida de medo, como se nunca tivesse ouvido sequer uma palavra sobre Cristo. Quão preciosa e valiosa é uma boa consciência! Ora, a fé é o fundamento de uma boa consciência; não só isso, ela é a própria bondade da consciência.

Partir. É preciso notar bem esta forma de expressão. As pessoas profanas falam da morte como sendo a destruição do homem, como se este perecesse completamente. Aqui, Paulo nos lembra que a morte é a separação entre a alma e o corpo. E ele expressa isso mais plenamente logo a seguir, explicando que condição aguarda os crentes após a morte - habitação com Cristo. Estamos com Cristo mesmo nesta vida, visto que o reino de Deus está dentro de nós [Lc 17.21], e Cristo habita em nós pela fé [Ef 3.17], e prometeu que estará conosco até o fim do mundo [Mt 28.20], mas desfrutamos dessa presença só em esperança. Daí, quanto ao nosso sentimento, é-nos informado que, no tocante à presença, estamos longe dele [cf. 2C0 5.6]. Esta passagem é muito útil para afastar a fantasia tola daqueles que sonham que as almas dormem assim que se separam do corpo, pois o apóstolo declara francamente que desfrutamos da presença de Cristo assim que nos livramos do corpo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“PARA MIM, O VIVER É CRISTO, E O MORRER É LUCRO”


“PARA MIM, O VIVER É CRISTO, E O MORRER É LUCRO”

“Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher” (Fp 1.21,22).

Porquanto, para mim o viver. Os intérpretes têm feito até agora, em minha opinião, uma tradução e exposição errôneas desta passagem; pois fazem esta distinção: que Cristo era a vida para Paulo, e a morte era lucro. Em contrapartida, eu faço Cristo ser o sujeito da frase em ambas as partes, de modo que ele é declarado como sendo lucro para ele, quer na vida, quer na morte. Além disso, este significado é menos forçado, e também corresponde melhor com a afirmação precedente e contém a doutrina mais completa. O apóstolo declara ser-lhe indiferente, e é a mesma coisa, se ele vive ou morre, porque, possuindo Cristo, ele tem ambas as coisas como lucro. E, com toda certeza, é somente Cristo que nos faz felizes, quer na morte, quer na vida; de outro modo, se a morte for miserável, a vida de modo algum é mais feliz; de modo a ser difícil determinar se é mais vantajoso viver ou morrer fora de Cristo. Em contrapartida, se Cristo está conosco, e abençoar nossa vida, tanto quanto nossa morte, então ambas nos serão felizes e desejáveis.

Entretanto, se o viver na carne. Como as pessoas em desespero se sentem em perplexidade sobre se devem prolongar sua vida e viver um pouco mais em misérias, ou terminar suas tribulações com a morte, assim Paulo, em contrapartida, diz que se acha, no espírito de contentamento, bem preparado para a morte ou para a vida, porque a condição dos crentes, seja num caso ou no outro, é bem-aventurada, de modo que ele se sente em dificuldade com a escolha. Já não sei o que hei de escolher; isto é, “se tenho razão de crer que haverá maior vantagem viver do que morrer, não percebo qual delas devo preferir”. Viver na carne é uma expressão que ele usa com menosprezo quando ela é comparada com uma vida melhor.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“CHEIOS DO FRUTO DE JUSTIÇA”


“CHEIOS DO FRUTO DE JUSTIÇA”

“Cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus.” (Fp 1.11).

Cheios do fruto de justiça. Isto pertence agora à vida exterior, pois uma boa consciência produz seus frutos por meio de obras. Daí Paulo desejar que fossem frutíferos em boas obras para a glória de Deus. Tais frutos, diz ele, provêm de Cristo, porque emanam da graça de Cristo. Pois o princípio de nossas boas obras está na santificação oriunda de seu Espírito, porquanto ele repousou sobre [Cristo], para que todos recebamos de sua plenitude [Jo 1.16]. E, como Paulo aqui deriva das árvores uma similitude, somos oliveiras silvestres [Rm 11.24], e improdutivas, até que sejamos enxertados em Cristo, o qual, por sua raiz viva, nos faz árvores produtivas, em conformidade com aquele dito: “Eu sou a videira, vós os ramos” [Jo 15.1]. Ao mesmo tempo, ele mostra o propósito: para que promovamos a glória de Deus. Pois nenhuma vida é tão excelente em aparência que não seja corrompida e ofensiva aos olhos de Deus, se não for direcionada para este objetivo.

O apóstolo Paulo aqui fala de obras sob o termo justiça, a qual de modo algum é inconsistente com a justiça gratuita da fé. Pois imediatamente se segue que há justiça onde quer que haja os frutos da justiça, visto não haver justiça aos olhos de Deus, a menos que haja uma plena e completa obediência à lei, a qual não é encontrada em nenhum dos santos, ainda que, não obstante, produzam, em conformidade com sua medida, os bons e deleitosos frutos da justiça; e é por esta razão que, quando Deus começa a justiça em nós, mediante a regeneração do Espírito, o que fica faltando é amplamente suprido pela remissão dos pecados, de maneira tal que toda a justiça, não obstante, dependa da fé.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“AQUELE QUE COMEÇOU BOA OBRA EM VÓS”


“AQUELE QUE COMEÇOU BOA OBRA EM VÓS”

“Estou plenamente certo de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao Dia de Cristo Jesus” (Fp 1.6).

Estou plenamente certo. Um motivo adicional de alegria é fornecido na confiança [depositada pelo apóstolo Paulo] nos eleitos de Deus para o futuro. Mas é possível que alguém diga: por que os homens ousariam a garantir-se para amanhã em meio a tão grande enfermidade da natureza, em meio a tantos impedimentos, asperezas, precipícios? Por certo que Paulo não derivava esta confiança da firmeza e da excelência dos homens, mas simplesmente do fato de que Deus manifestara seu amor para com os filipenses. E, indubitavelmente, esta é a genuína maneira de reconhecer os benefícios divinos - quando derivamos deles ocasião de nutrir boas esperanças quanto ao futuro. Porque, como são tomados imediatamente por sua bondade, e por sua paternal benevolência para conosco, que ingratidão seria não derivar disto nenhuma confirmação de esperança e bom ânimo! Além disto, Deus não é como os homens a ponto de se cansar ou sentir-se exausto em conferir bondade. Portanto, que os crentes se exercitem em constante meditação sobre os favores que Deus confere, para que se animem e confirmem a esperança quanto ao futuro, e tenham sempre em sua mente este silogismo: Deus não se esquece da obra que suas próprias mãos começaram, como o profeta testifica [SI 138.8]; nós somos a obra de suas mãos; portanto, ele completará o que já começou a fazer em nós. Quando digo que somos a obra de suas mãos, não me refiro à mera criação, mas à vocação pela qual somos adotados como seus filhos. Pois o fato de que o Senhor nos chamou eficazmente para si, pela operação de seu Espírito, é sinal da nossa eleição.

Não obstante, pergunta-se se alguém pode estar certo quanto à salvação de outra pessoa, porquanto aqui Paulo não está falando de si mesmo, e sim dos filipenses. Respondo que a certeza que um indivíduo tem com respeito à sua salvação pessoal é muito diferente da que ele tem em relação à das outras pessoas. Pois o Espírito de Deus é minha testemunha de que fui chamado, como o é também de cada um dos eleitos. Quanto aos outros, não temos nenhum testemunho, exceto o da eficácia externa do Espírito; ou, seja, até onde a graça de Deus se exibe neles, e até onde a percebemos. Portanto, há uma grande diferença porque a certeza de fé permanece encerrada no interior de cada um, e não se exterioriza aos demais. Não obstante, onde quer que notemos quaisquer das marcas da eleição divina, que porventura sejam notadas por nós, devemos imediatamente estimular-nos a nutrir boa esperança, seja para que não sejamos invejosos em relação aos nossos semelhantes, seja subtraindo deles um juízo equitativo de caridade; e, ainda, para que sejamos gratos a Deus. Não obstante, esta é uma regra geral, seja quanto a nós mesmos, seja quanto aos demais - que, desconfiando de nossa própria força, dependamos inteiramente só de Deus.

Até ao Dia de Jesus Cristo. De fato, a principal coisa a ser entendida aqui é esta: até o término do conflito. Ora, o conflito termina com a morte. Não obstante, como o Espírito costuma falar desta maneira em referência à última vinda de Cristo, seria melhor estender o avanço da graça de Cristo até a ressurreição da carne. Pois embora aqueles que já foram libertados do corpo mortal não mais contendam com as concupiscências da carne, e estão, por assim dizer, além do alcance de um único dardo, contudo não haverá absurdo algum em falar deles como estando ainda no caminho de avanço, visto que ainda não alcançaram o ponto que desejam - ainda não desfrutando da felicidade e glória que tanto esperam; e, por fim, o dia ainda não chegou para que se descubram os tesouros que jazem na esperança. E, na verdade, quando se trata da esperança, nossos olhos devem estar sempre direcionados para a bem-aventurada ressurreição, como sendo o grande objeto em vista.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 22 de dezembro de 2024

“AO NOME DE JESUS SE DOBRE TODO JOELHO”


AO NOME DE JESUS SE DOBRE TODO JOELHO”

“Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra” (Fp 2.10).

Para que se dobre todo joelho. Ainda que se deva mostrar respeito também pelos homens, por meio deste rito, não pode haver dúvida que o que aqui está implícito é aquela adoração que pertence exclusivamente a Deus, da qual o curvar-se é um emblema. Quanto a isto, é oportuno observar que Deus deve ser adorado não meramente com o afeto íntimo do coração, mas também pela profissão externa, se quisermos render-lhe o que lhe é devido. Daí, em contrapartida, ao descrever seus genuínos adoradores, ele diz: “todos os joelhos que não se dobraram a Baal” [1Rs 19.18].

Aqui, porém, surge uma pergunta: isto se relaciona com a divindade de Cristo, ou com sua humanidade, porquanto qualquer das duas contém alguma inconsistência, visto que não se poderia outorgar nada novo à sua divindade; e à sua humanidade, em si mesma, vista separadamente, de modo algum possui alguma exaltação que pudesse ser adorada como Deus? Respondo que isto, como muitas outras coisas, é afirmado em referência à pessoa inteira de Cristo, vista como “Deus manifestado na carne” [1Tm 3.16]. Pois ele não se aviltou, seja quanto à humanidade sozinha, ou quanto à divindade sozinha, senão que, uma vez que ele se vestiu de nossa carne, ele se ocultou sob sua fragilidade. De modo que Deus exaltou seu próprio Filho na mesma carne na qual vivera no mundo abjeto e desprezível, a mais elevada posição de honra, para que se assentasse à sua destra.

Contudo, o apóstolo Paulo parece ser inconsistente consigo mesmo; pois, em Romanos 14.11, ele cita esta mesma passagem, quando ele tem em vista provar que Cristo um dia será o Juiz de vivos e de mortos. Ora, não seria aplicável àquele tema se já houvesse concretizado o que ele declara aqui. Respondo que o reino de Cristo possui uma base tal que a todo dia vai crescendo e avançando em perfeição, enquanto que, ao mesmo tempo, ainda não atingiu a perfeição, nem será reconhecido assim até o dia final. Assim, ambas as coisas se mantêm verdadeiras - que todas as coisas ora estão sujeitas a Cristo, e que esta sujeição, não obstante, não se completará até o dia da ressurreição, porque aquilo que agora apenas começou então se completará. Daí não ser sem razão que esta profecia se aplica de diferentes maneiras e em diferentes tempos, como também todas as demais profecias que falam do reinado de Cristo não se restringem a um só tempo particular, mas o descreve em todo seu curso. Não obstante, disto inferimos que Cristo é aquele Deus eterno que falou pelos lábios de Isaías.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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