ÉÉN HEER – UM SÓ SENHOR
"Um só Senhor. Um só Nome. Um só Deus que está acima de tudo".
Deus nos abençoe!
ÉÉN HEER – UM SÓ SENHOR
"Um só Senhor. Um só Nome. Um só Deus que está acima de tudo".
Deus nos abençoe!
“POIS TU, SENHOR,
ABENÇOAS O JUSTO”
“Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência” (Sl 5:12).
Pois tu, SENHOR, abençoas o justo. O salmista Davi confirma neste ponto a sentença conclusiva do versículo precedente, isto é, que todos os servos de Deus em geral buscarão apoio para sua fé com base no que ele experimentou, pois ele, partindo de um só exemplo, poderia moldar nosso juízo sobre a imutabilidade e perpetuidade da graça divina para com todos os santos. Também, por esse meio ele nos ensina que não existe alegria genuína e eficaz senão aquela que nasce do senso do amor paternal de Deus. A palavra abençoar, em hebraico (quando falamos dela como um ato humano), significa desejar felicidade e prosperidade a alguém e orar por ele; quando, porém, é expressa como um ato divino, significa o mesmo que fazer uma pessoa prosperar, ou enriquecê-la abundantemente com todas as coisas boas; porque, visto que o favor de Deus é eficaz, sua bênção, por natureza, produz em abundância tudo quanto é bom. O título justo não se restringe a uma pessoa em particular, mas significa todos os servos de Deus em geral. Aqueles, contudo, que na Escritura são chamados justos, não são assim chamados em razão do mérito de seus feitos, mas porque têm fome e sede de justiça; pois, como Deus os tem recebido em seu favor, não lhes imputando seus pecados, ele aceita seus sinceros esforços como perfeita justiça.
O que se segue
tem a mesma importância que a cláusula precedente: Tu o cercas da tua benevolência, ou, melhor, como com um escudo. O que o salmista
quer dizer é o seguinte: o fiel será completamente defendido de todos os lados,
visto que Deus, de forma alguma, os privará de sua graça, a qual é para eles
uma fortaleza inexpugnável, e a mantém em perfeita segurança. O verbo cercar, que o salmista emprega, às
vezes denota em hebraico ornamento ou
glória, mas, visto que aí se adiciona
a similitude de um escudo, não tenho dúvida de que ele o usa metaforicamente no
sentido de fortificar ou cercar. O significado, pois, é que, por
maiores e variados sejam os perigos que cercam os justos, não obstante eles
escaparão e se salvarão, porque Deus lhes é favorável.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Mas
regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque
tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome” (Sl 5:11).
Mas regozijem-se todos os que confiam em ti. Fará pouca diferença ao sentido se lermos estas palavras no
tempo futuro — Regozijarão todos... —
ou no modo optativo – Regozijem-se todos...
Pois em ambos os modos o significado do salmista será o mesmo; isto é, se Deus
o livrar, o fruto desse livramento será comum a todos os santos; como se
dissesse: Senhor, se tu me socorreres, a benevolência que me conferires não se
restringirá a mim somente, mas se estenderá a todos os teus servos; pois isso
servirá para confirmar mais a fé deles, e os levará a louvar teu nome com mais
fervor. Portanto, a fim de induzir a Deus a conceder-lhe seu livramento, ele
emprega como argumento o fim ou efeito que deveria produzir, contanto que
incitasse a todos os santos a exercitar grande confiança em Deus e a
encorajá-los a render-lhe louvores e ações de graças. Esta passagem nos ensina
que seríamos ingratos para com Deus caso não extraíssemos ânimo e conforto de
todas as bênçãos que ele confere a nosso próximo, visto que, por esse meio, ele
testifica que estará sempre disposto a derramar sua munificência sobre todos os
santos em geral. Consequentemente, acrescenta-se a razão de tal alegria: porque
o Senhor os cobrirá ou os protegerá. Tão logo Deus conceda algumas bênçãos a
alguns dos fiéis, os demais, como já afirmei antes, devem concluir que ele se
mostrará beneficente para com eles também. Esta passagem também nos ensina que
a genuína alegria não procede de alguma outra fonte senão só da proteção
divina. Podemos ficar expostos a mil mortes, mas essa única consideração deve
ser-nos plenamente suficiente, ou seja, que somos envolvidos e defendidos pela
mão divina. E esse será o caso se porventura as sombras ilusórias deste mundo
não nos fascinarem tanto que nos excitem a buscar nelas refúgio. É mister que
notemos também em particular a afirmação de que aqueles que confiam no Senhor
amam seu nome. Lembrarmo-nos de Deus e enchermos nossos corações com sua
alegria, ou, antes, deixarmo-nos arrebatar por seu amor, depois de levar-nos a
fazer prova de sua munificência, deve ser-nos algo de extremo lenitivo.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“SENHOR, guia-me
na tua justiça, por causa dos meus adversários; endireita diante de mim o
teu caminho (Sl 5:8).
SENHOR, guia-me na tua justiça. Há quem
explique essas palavras da seguinte forma: Mostra-me o que é certo e faz-me
totalmente devotado à prática daquela justiça que adorna teu caráter; e faze
assim por causa de meus adversários; pois os santos, impelidos pela perversa
prática e fraudulentas artes dos ímpios, correm o risco de desviar-se do
caminho reto.
Esse significado
é inquestionavelmente piedoso e proveitoso. A outra interpretação, porém, é
mais adequada, a qual visualiza as palavras como uma oração para que Deus guie
seu servo em segurança por entre as armadilhas de seus inimigos e lhe abra uma
via de escape, mesmo quando parecesse a todos que fora apanhado e cercado de
todos os lados. A justiça de Deus,
portanto, nesta passagem, como em muitas outras, deve ser entendida como sendo
sua fidelidade e misericórdia demonstradas na defesa e preservação de seu povo.
Consequentemente, na tua justiça,
significa o mesmo que por tua justiça
ou segundo tua justiça. Davi,
aspirando ter a Deus como guia de seus passos, se anima na esperança de obter o
que pedira, uma vez que Deus é justo; como se dissesse: Senhor, já que és
justo, defende-me com teu auxílio, para que eu escape das ímpias tramas de meus
inimigos. Da mesma importância é a última cláusula do versículo, onde ele ora
para que o caminho de Deus fosse
endireitado diante de seu rosto, em outras palavras, para que fosse
libertado pelo poder de Deus dos infortúnios com que se via completamente
cercado, e dos quais, segundo o juízo da carne, ele jamais esperava encontrar
uma via de escape. E assim ele reconhece quão impossível lhe era evitar cair
nas malhas de seus inimigos, a menos que Deus lhe desse sabedoria e lhe abrisse
uma via por onde não existia passagem. Cabe-nos, à luz de seu exemplo, fazer o
mesmo; de modo que, desconfiando de nós mesmos quando os conselhos fracassam e
prevalecem a malícia e a perversidade de nossos inimigos, recorramos
imediatamente a Deus, em cujas mãos estão os escapes da morte.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
"A lei do SENHOR é
perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos
símplices” (Sl 19.7).
A primeira
recomendação da lei de Deus consiste em que ela é perfeita. Com essa palavra o
salmista Davi quer dizer que, se uma pessoa é devidamente instruída na lei de
Deus, ela não carece de nada que seja indispensável à perfeita sabedoria. Não
há dúvida de que nos escritos dos autores pagãos encontraremos algumas frases
verdadeiras e úteis; e é igualmente verdade que Deus tem
posto nas mentes humanas algum conhecimento de justiça e retidão; em consequência,
porém, devido à corrupção de nossa natureza, a genuína luz da verdade não será
encontrada entre os homens em quem a revelação não é desfrutada, mas apenas
certos princípios mutilados que se encontram envolvidos por muita obscuridade e
dúvida. Davi, pois, com razão reivindica esse louvor para a lei de Deus, ou
seja, que nela há perfeita e absoluta sabedoria.
Quanto a restauração da alma, de que
ele fala imediatamente a seguir, que sem dúvida subentende sua conversão, não
sinto qualquer dificuldade em assim traduzi-la. Há alguns que arrazoam com
demasiada sutileza sobre esta expressão, explicando- a como se referindo ao
arrependimento e regeneração do homem. Admito que a alma não pode ser
restaurada pela lei de Deus, sem ser ao mesmo tempo renovada para a justiça;
mas devemos considerar qual o significado próprio de Davi, que é o seguinte:
visto que a alma transmite vigor e energia ao corpo, assim a lei
semelhantemente é a vida da alma. Ao dizer que a alma é restaurada, ele faz
alusão ao miserável estado em que todos nós nascemos. Indubitavelmente, ainda
sobrevivem em nós alguns resquícios da primeira criação; visto, porém, que
nenhuma parte de nossa constituição está isenta de contaminação e impureza, a
condição da alma, assim corrompida e depravada, difere muito da morte e se
inclina totalmente para a morte. Portanto, necessário se faz que Deus empregue
a lei como antídoto para restaurar-nos à pureza. Não que a letra da lei possa
por si só fazer isso, como será subsequentemente demonstrado mais extensamente,
mas porque Deus emprega sua palavra como instrumento para a restauração de
nossas almas.
Quando o
salmista declara: O testemunho do SENHOR é fiel, é uma repetição da frase
precedente, de modo que a integridade ou perfeição da lei e a fé plenária ou
verdade de seu testemunho, significam a mesma coisa; isto é, que quando nos
entregamos para sermos guiados e governados pela palavra de Deus, não corremos
nenhum risco de desviar-nos, visto que esta é a vereda pela qual ele
seguramente guia seu próprio povo à salvação. Instrução em sabedoria parece,
aqui, ser adicionada como o princípio da restauração da alma. O entendimento é
o dote mui excelente da alma; e Davi nos ensina que ele se deriva da lei, pois
somos naturalmente destituídos dele. Pela palavra símplices, ele não deve ser interpretado como a indicar alguma
classe particular de pessoas, como se outros fossem suficientemente e por si
mesmos sábios; mas com isso ele nos ensina, em primeiro lugar, que ninguém é
dotado com o reto entendimento enquanto não fizer progresso no estudo da lei.
Em segundo lugar, ele mostra com isso que gênero de estudantes Deus requer, a
saber, aqueles que consideram a si próprios como estultos [1Co 3.18] e que
descem à categoria de criancinhas, para que a indolência de seu próprio
entendimento não os impeça de dedicar-se, com um espírito de total docilidade,
ao estudo da palavra de Deus.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
"A lei do SENHOR é
perfeita e restaura a alma; o testemunho do SENHOR é fiel e dá sabedoria aos
símplices” (Sl 19.7).
Depois de
haver mostrado que as criaturas, ainda que não falem, não obstante servem como
instrutoras a todo o gênero humano, e ensinam a todos os homens tão claramente
que existe um Deus, que os deixam inescusáveis, o salmista Davi agora se volve para
os judeus, a quem Deus havia comunicado um conhecimento mais pleno de si mesmo
por meio de sua palavra. Enquanto os céus dão testemunho acerca de Deus, seu
testemunho não guia os homens ao ponto de, por meio deles, aprenderem a temê-lo
realmente e adquirirem um sólido conhecimento dele. Tal testemunho só serve
para deixá-los indesculpáveis. É realmente verdade que, se não fôssemos tão
obtusos e estúpidos, as assinaturas e provas da Deidade que se encontram na
criação são suficientemente abundantes para incitar-nos ao reconhecimento e
reverência de Deus; mas visto que, embora circundados com uma luz tão vívida,
somos, não obstante, cegos, essa esplêndida representação da glória de Deus,
sem o auxílio da palavra, de nada nos aproveitaria, ainda que ela seja para nós
uma audível e distinta proclamação a soar em nossos ouvidos. Consequentemente,
Deus se digna conceder graça especial àqueles a quem determinou chamar para a
salvação, justamente como nos tempos antigos, enquanto concedia a todos os
homens, sem exceção, evidências de sua existência, em suas obras, ele
comunicava sua lei exclusivamente aos filhos de Abraão, para, por esse meio,
dotá-los de um conhecimento mais definido e íntimo de sua majestade. Donde se
segue que os judeus estão atados a uma dupla obrigação de servir a Deus. Visto
que os gentios, a quem Deus falou somente pelas mudas criaturas, não têm
justificativa de sua ignorância, quanto menos tolerável será a negligência de
quem ouve a voz que procede de seus próprios lábios sacros! O propósito, pois,
que Davi, aqui, tem em vista consiste em incitar os judeus, a quem Deus uniu a
si por um laço muito mais sagrado, a prestar-lhe obediência com uma afeição
muito mais espontânea e alegre. Além do mais, sob o termo lei ele não só
significa a regra de um viver íntegro, ou os Dez Mandamentos, mas também
compreende o pacto pelo qual Deus distinguira aquele povo do resto do mundo,
bem como toda a doutrina de Moisés as partes que subsequentemente enumera sob
os termos testemunhos, estatutos e
outros títulos. Esses títulos e recomendações, pelos quais ele enaltece a dignidade
e excelência da Lei, não se coadunariam só com os Dez Mandamentos, a menos que
houvesse, ao mesmo tempo, associadas a eles a gratuita adoção e as promessas
das quais ela depende; e, em suma, todo o corpo de doutrina do qual a
verdadeira religião e a autêntica piedade consistem.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Pois quem é Deus, senão o
SENHOR? E quem é rochedo, senão o nosso Deus?” (Sl 18.31).
Pois quem é Deus, senão o SENHOR? Neste ponto Davi, escarnecendo das loucas invenções humanas
que, conforme suas próprias fantasias, fazem para si mesmos deuses tutelares, confirma
o que já disse antes, a saber, que ele jamais empreendia alguma atividade que
não fosse pela autoridade e comando de Deus. Se houvera passado além dos
limites de sua vocação, não poderia ter dito com tal confiança que Deus estava
do seu lado. Além disso, embora nessas palavras ele contraponha ao verdadeiro
Deus todos os falsos deuses inventados pelos homens, seu propósito, ao mesmo
tempo, é destruir todas as vãs esperanças às quais o mundo se devota e pelas
quais o mesmo é desviado e impedido de descansar em Deus. A questão da qual
Davi aqui trata não é o mero título e nome, Deus, mas declara que toda e
qualquer assistência de que carecemos devemos buscá-la em Deus, e de nenhuma
outra parte, visto só ele possuir real poder: Quem é rochedo, senão o nosso Deus?
Contudo, devemos atentar para o propósito de Davi, para o qual chamo sua
atenção, ou seja, ao confiadamente contrapor Deus a todos os seus inimigos e
como o Líder sob cuja bandeira havia valentemente lutado contra eles, ele
tenciona afirmar que nada tentara com base em suas próprias fantasias nem com
sua consciência a acusá-lo.
Deus nos abençoe!
João Calvino
(1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“O caminho de
Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que
nele se refugiam” (Sl 18:30).
A frase, O caminho de
Deus, não é aqui tomada no sentido de sua vontade revelada, mas de seu método
de tratar com seu povo. O significado, pois, consiste em que Deus jamais
desaponta ou engana a seus servos, nem os esquece em tempos de necessidade
(como pode ser o caso com as pessoas que não ajudam seus dependentes, exceto
até onde isso contribua para sua vantagem pessoal), mas fielmente defende e
sustenta aqueles a quem uma vez tomou sob sua proteção. Nós, porém, jamais
sentiremos qualquer solicitude por Deus, a menos que ele primeiro se aproxime
de nós através de sua palavra; e, por essa razão, Davi, depois de haver
asseverado que Deus auxilia a seu povo com absoluta seriedade, acrescenta, ao
mesmo tempo, que a palavra do Senhor é provada. Portanto, descansemos seguros
de que Deus realmente se mostrará íntegro para conosco, visto que ele prometeu
ser o guardião e defensor de nosso bem-estar, e sua promessa é verazmente
definida e infalível. Que por a palavra
devemos entender não os mandamentos, mas as promessas de Deus, é facilmente
deduzido da cláusula seguinte, onde se diz: Ele é escudo para todos os que nele se refugiam. De fato, aparentemente é uma recomendação comum dizer que a
palavra de Deus é pura e sem qualquer misto de fraude e mentira, à semelhança
da prata que é bem refinada e purificada de todos os seus resíduos. Mas nossa
incredulidade é a razão por que Deus, ao nos falar, se vê obrigado a usar tais
similitudes, com o propósito de recomendar suas promessas e levar-nos a formar
elevadas concepções da solidez e infalibilidade das mesmas; pois sempre que os
resultados não correspondam nossa expectativa, não há nada a que somos mais
inclinados do que, incontinenti, começar a nutrir pensamentos profanos e suspeitosos
acerca da palavra de Deus.
Deus nos
abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Porque fazes
resplandecer a minha lâmpada; o SENHOR, meu Deus, derrama luz nas minhas trevas”
(Sl 18:28).
Porque fazes resplandecer a minha lâmpada. No cântico em 2 Samuel, a forma de expressão é um tanto mais precisa; pois ali se diz não que Deus acende nossa lâmpada, mas que ele mesmo é nossa lâmpada. O significado, contudo, vem a ser o mesmo, ou seja, que foi pela graça de Deus que Davi, que havia sido precipitado nas trevas, foi trazido de volta para a luz. Davi rende graças a Deus não simplesmente por haver ele acendido uma lâmpada diante dele, mas também por haver convertido suas trevas em luz. Ele, pois, reconhece que havia sido reduzido a tal extremo de angústia, que se transformara em alguém cuja condição era miserável e sem esperança; pois ele compara o estado confuso e perplexivo de suas atividades a trevas. Isso, deveras, pela transferência de coisas materiais para coisas espirituais, pode aplicar-se à iluminação do entendimento; ao mesmo tempo, porém, devemos atentar para o tema do qual Davi está a tratar, para que não nos afastemos do significado genuíno e próprio. Ora, visto reconhecer que havia sido restaurado à prosperidade, pelo favor divino, o qual era para ele, por assim dizer, uma luz vivificante, seguindo nós seu exemplo, consideremos como fato que jamais teremos o conforto de ver nossas adversidades levadas a bom termo, a menos que Deus disperse as trevas que porventura nos envolvam e nos restaure a luz da alegria. Contudo, que não nos seja penoso andar nas trevas, desde que Deus se agrade de usar-nos como lâmpadas.
Deus nos abençoe!
João
Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.
“Laços de morte me cercaram, torrentes de impiedade me impuseram terror.
Cadeias infernais me cingiram, e tramas de morte me surpreenderam. Na minha
angústia, invoquei o SENHOR, gritei por socorro ao meu Deus. Ele do seu templo
ouviu a minha voz, e o meu clamor lhe penetrou os ouvidos” (Sl 18.4-6).
A fé de Davi provou ser evidentemente incomum quando, sendo quase que
precipitado no abismo da morte, ele ergueu seu coração ao céu em oração.
Aprendamos, pois, que um exemplo tal é posto diante de nossos olhos para que
nenhuma calamidade, por maior e mais opressiva seja ela, não nos impeça de
orar, tampouco crie em nós alguma aversão à oração. Foi a oração que trouxe a
Davi os frutos ou os maravilhosos resultados de que ele fala um pouco adiante,
e desse fato se torna ainda mais evidente que seu livramento foi efetuado pelo
poder de Deus. Ao dizer, invoquei ou clamei, sua intenção, como observamos em
outra parte, era expressar o ardor e solicitude que ele demonstrava quando
orava. Além disso, ao chamar Deus, meu Deus, ele se distingue da massa dos
desdenhadores de Deus, ou hipócritas que, quando impelidos pela necessidade,
invocam a Divina Majestade com modos confusos e tumultuosos, mas que não se
chegam a Deus de forma familiar e com coração puro, visto que nada sabem de seu
favor e munificência paternais. Quando, pois, nos aproximarmos de Deus, que a
fé vá adiante para iluminar o caminho, gerando em nós plena persuasão de que
ele é o nosso Pai, então os portões se abrirão e nos poremos a conversar
francamente com ele e ele conosco. Davi, ao chamar Deus, meu Deus, e ao pôr-se
ao lado dele, também notifica que Deus opunha-se aos seus inimigos; e isso
serve para demonstrar que ele fora impulsionado pela genuína piedade e temor de
Deus. Pela palavra templo, aqui, não devemos entender o santuário como em
muitos outros lugares, mas o céu; pois a descrição que imediatamente se segue
não se pode aplicar ao santuário. Consequentemente, o sentido é este: quando
Davi se viu esquecido e abandonado no mundo, e todos os homens fecharam seus
ouvidos ao seu clamor por auxílio, Deus lhe estendeu do céu sua mão para
salvá-lo.
Deus nos abençoe!
João Calvino (1509-1564).
*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.