"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



sábado, 18 de abril de 2026

“NÃO TE LEMBRES DOS MEUS PECADOS DA MOCIDADE”


“NÃO TE LEMBRES DOS MEUS PECADOS DA MOCIDADE”

“Não te lembres dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. Lembra-te de mim, segundo a tua misericórdia, por causa da tua bondade, ó SENHOR” (Sl 25:7).

Visto que nossos pecados são como um muro entre nós e Deus, o qual o impede de ouvir nossas orações, ou de estender sua mão em nosso auxílio, Davi agora remove tal obstrução. É deveras verdade, de modo geral, que os homens orariam de uma forma errônea e em vão, a menos que comecem a buscar o perdão de seus pecados. Não há esperança alguma de se obter algum favor de Deus a menos que ele nos reconcilie consigo. Como poderá nos amar a não ser que primeiro graciosamente nos reconcilie consigo mesmo? Portanto, a ordem própria e correta de orar é, como eu já disse, pedindo, logo de início, que Deus perdoe nossos pecados. Aqui Davi reconhece, em termos explícitos, que ele não pode de alguma outra forma tornar-se partícipe da graça de Deus a não ser que seus pecados sejam apagados. Por isso, para que Deus se mantenha acordado em relação à sua misericórdia para conosco, é indispensável que ele não lembre dos nossos pecados, porquanto a simples visão deles desvia de nós seu favor. Entrementes, com isso o salmista confirma mais claramente o que já havia dito, ou seja, que embora os perversos agissem em relação a ele com crueldade, e o perseguissem injustamente, no entanto atribuía a seus próprios pecados toda a miséria que suportava. Por que, pois, ele implora o perdão de seus pecados, recorrendo à misericórdia divina, senão porque reconhecia que, mediante o cruel tratamento que recebia de seus inimigos, simplesmente enfrentava a punição que justamente merecia? Ele, pois, agia sabiamente em volver seus pensamentos à causa primeira de sua miséria, com o intuito de encontrar o genuíno antídoto; e assim ele nos ensina, através de seu exemplo, que quando alguma aflição externa nos deprimir, não apenas roguemos a Deus que nos liberte dela, mas também que ele apague os nossos pecados, com os quais provocamos seu desprazer e nos colocamos sob a vara de seu castigo. E se porventura agirmos de outro modo, estaremos seguindo o exemplo dos médicos inexperientes que, ao diagnosticar a causa da doença, apenas buscam aliviar a dor, aplicando meramente remédios preventivos para a cura. Além do mais, Davi faz confissão não só de algumas ofensas leves, como os hipócritas costumam fazer, ou seja, confessando sua culpa de maneira geral e superficial, ou buscando algum subterfúgio, ou buscando atenuar a enormidade de seu pecado. Ele, porém, faz uma retrospecção de seus pecados, indo até sua infância e pondera de quantas formas ele havia provocado a ira divina contra si. Ao fazer menção dos pecados que cometera em sua juventude, ele não pretende com isso dizer que não guardava na memória alguns dos pecados que cometera em seus últimos anos; senão que desejava mostrar que se considerava digno da mais severa condenação. Em primeiro lugar, considerando que não havia começado a cometer pecado apenas agora, senão que desde outrora amontoara pecado sobre pecado, ele se curva, se podemos expressá-lo assim, debaixo de um peso acumulado. E, em segundo lugar, ele notifica que, se Deus o tratasse segundo o rigor da lei, não só os pecados de ontem, nem os de uns poucos dias, viriam a juízo contra ele, mas todas as instâncias em que havia ofendido, mesmo em sua infância, poderiam agora, com justiça, ser lançadas em sua acusação. Portanto, quando Deus nos terrificar com seus juízos e com os sinais de sua ira, avivemos nossa memória, não só em relação aos pecados que recentemente cometemos, mas também em relação a todas as transgressões de nossa vida pregressa, experimentando a renovação mediante sincera humilhação e lamentação.

Além do mais, com o fim de expressar mais plenamente que sua súplica é pelo gracioso perdão, ele pleiteia diante de Deus unicamente com base em seu beneplácito; e por isso ele diz: Lembra-te de mim, segundo a tua misericórdia, por causa da tua bondade, ó SENHOR. Quando Deus lança nossos pecados no esquecimento, isso o leva a olhar para nós com paternidade. Davi não podia descobrir nenhuma outra causa pela qual pudesse valer-se da paternidade divina, senão que Deus é bom, e desse fato segue-se que não há nada que induza a Deus a receber-nos em seu favor senão seu próprio beneplácito. Ao afirmar-se que Deus se lembra de nós com base em sua misericórdia, somos tacitamente levados a entender que há duas formas de lembrança que são totalmente antagônicas: uma é aquela em que ele visita os pecadores em sua ira; e a outra quando novamente manifesta seu favor àqueles de quem parecia por algum tempo ter-se esquecido.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 15 de abril de 2026

“LEMBRA-TE, SENHOR”


“LEMBRA-TE, SENHOR”

“Lembra-te, SENHOR, das tuas misericórdias e das tuas bondades, que são desde a eternidade” (Sl 25:6).

Lembra-te, Senhor. Essa, pois, é a queixa de um homem que sofre extrema angústia e se acha mergulhado em profunda tristeza. Podemos aprender disso que, embora Deus, por algum tempo, venha a subtrair de nós todo sinal de sua misericórdia e benevolência, e aparentemente não leve em conta as misérias que nos afligem, nos esquecendo como se lhe fôssemos estranhos e não seu próprio povo, devemos lutar corajosamente até que, livres dessa tentação, cordialmente apresentemos a oração que é aqui registrada, rogando a Deus que, retornando à sua maneira anterior de nos tratar, ele uma vez mais comece a manifestar sua bondade para conosco e a tratar-nos de uma forma mais graciosa. Essa forma de oração não pode ser usada com propriedade, a menos que Deus esteja ocultando de nós sua face e pareça não demonstrar nenhum interesse por nós. Ademais Davi, havendo recorrido à misericórdia ou compaixão e benevolência de Deus, testifica que não confia em seu próprio mérito como se este fosse a base de sua esperança. Aquele que deriva cada coisa tão-somente da fonte da divina mercê nada encontra em si mesmo digno de recompensa aos olhos de Deus. Mas como a intermissão que Davi havia experimentado se tornara um obstáculo a impedir seu livre acesso à presença de Deus, ele se eleva acima dela através de um antídoto muito melhor, ou seja, a consideração de que, embora Deus, que de sua própria natureza é misericordioso, se retraia e cesse por algum tempo de manifestar seu poder, todavia não pode negar a si próprio; ou seja, não pode despir-se do sentimento de misericórdia que lhe é inerente e que poderia cessar se porventura sua existência não fosse eterna. Mas devemos manter firmemente esta doutrina, a saber: que Deus tem sido misericordioso desde o princípio, de modo que, se alguma vez ele parece agir com severidade em relação a nós e rejeitar nossas orações, não devemos imaginar que ele age em oposição a seu próprio caráter, ou que mudasse de propósito. Donde aprendemos com que objetivo as Escrituras por toda parte nos informam que em todos os tempos Deus sempre considerou seus servos com olhos de benignidade e exercitou sua compaixão para conosco. Devemos pelo menos considerar como um ponto fixo e estabelecido que, embora a bondade divina às vezes se mantenha oculta e, por assim dizer, sepultada da vista humana, ela jamais poderá ser extinta.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“TU ÉS O DEUS DA MINHA SALVAÇÃO”


“TU ÉS O DEUS DA MINHA SALVAÇÃO”

“Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia” (Sl 25:5).

Embora Davi frequentemente reitere a mesma coisa, pedindo que Deus o faça conhecer seus caminhos, o ensine em suas veredas e o guie em sua verdade, não há qualquer redundância nessas formas de linguagem. Nossos adversários são muitas vezes como a névoa que tira a visão de nossos olhos; e cada um sabe à luz de suas próprias experiências quão difícil é, enquanto essas nuvens escuras persistirem, discernir em que caminho devemos andar. Se Davi, porém, profeta tão distinto e dotado de uma sabedoria tão inusitada, era carente de instrução, o que será de nós se, em nossas aflições, Deus não dispersar de nossas mentes aquelas nuvens de escuridade que nos impedem de contemplar sua luz? Então, assim que as tentações nos assaltarem, que oremos sempre para que Deus faça a luz de sua verdade resplandecer sobre nós, a fim de que, recorrendo a invenções pecaminosas, não nos desviemos vagueando por caminhos proibidos.

Ao mesmo tempo, devemos observar o argumento que aqui Davi emprega para corroborar sua oração. Ao chamar Deus de Deus de minha salvação, ele procede assim a fim de revigorar sua esperança em Deus para o futuro, a partir de uma consideração dos benefícios que ele já havia recebido dele; e então reitera o testemunho de sua confiança no Senhor. E assim, a primeira parte do argumento é extraída da natureza da própria pessoa de Deus e do dever que, por assim dizer, lhe pertence; ou seja, visto que ele se esforça por manter o bem-estar dos santos e os socorre em suas necessidades, com base no fato de que continuará a manifestar o mesmo favor para com eles até ao fim. Visto, porém, ser necessário que nossa confiança corresponda à sua incomensurável benevolência para conosco, Davi o assevera, ao mesmo tempo, em conexão com uma declaração de sua perseverança. Porque, pela expressão, todo o dia ou cada dia, ele quer dizer que, com uma constância determinada e infatigável, depende exclusivamente de Deus. E, indubitavelmente, olhar para Deus é uma propriedade da fé, mesmo nas circunstâncias mais tentadoras, e pacientemente esperar pelo socorro que lhe fora prometido por Deus. Para que o reconhecimento das bênçãos divinas possa nutrir e sustentar nossa esperança, aprendamos a refletir sobre a bondade que Deus já manifestou em nosso favor, olhando para o que Davi fez, fazendo disso a base de sua confiança, a qual ele encontrou em sua própria experiência pessoal com Deus como o Autor da salvação.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“FAZE-ME, SENHOR, CONHECER OS TEUS CAMINHOS”


“FAZE-ME, SENHOR, CONHECER OS TEUS CAMINHOS”

“Faze-me, SENHOR, conhecer os teus caminhos, ensina-me as tuas veredas” (Sl 25:4).

Davi usa esta expressão, conhecer os teus caminhos, para indicar a regra de uma vida santa e justa. Visto que o termo, verdade, ocorre no versículo imediatamente seguinte, a oração que ele apresenta neste lugar tem, em minha opinião, este propósito: Senhor, guarda teu servo na firme convicção de tuas promessas, e não permitas que ele se desvie da verdade. Quando nossas mentes se dispõem à paciência, não empreendemos nada precipitadamente nem por meios impróprios, mas passamos a depender inteiramente da providência de Deus. Consequentemente, neste ponto Davi deseja não simplesmente ser dirigido pelo Espírito de Deus, a fim de não errar o caminho certo, mas também para que Deus claramente lhe manifeste sua verdade e fidelidade nas promessas de sua palavra, para que pudesse viver em paz perante ele e se visse livre de toda impaciência. Não faço objeção se alguém tomar as palavras num sentido geral, como se Davi se confiasse totalmente a Deus para ser governado por ele. Entretanto, como creio ser provável que, sob o título verdade, no próximo versículo, ele explique sua intenção no tocante aos termos, caminhos e veredas de Deus, dos quais ele aqui fala, não tenho dúvida de que a referência nesta circunstância é à oração, ou seja, que Davi, temendo ceder ao sentimento de impaciência, ou ao desejo de vingança, ou a algum impulso extravagante e ilícito, suplica que as promessas de Deus sejam profundamente impressas e esculpidas em seu coração. Pois eu disse antes que, quando esse pensamento prevalece em nossas mentes, ou seja, que Deus toma cuidado de nós, esse é o melhor e mais poderoso meio de resistir às tentações. Entretanto, se pelos termos, os caminhos e veredas de Deus, alguém entende ser sua doutrina, eu, não obstante, mantenho isto como um ponto estabelecido, a saber, que na linguagem do salmista há uma alusão às emoções súbitas e irregulares que despontam em nossas mentes quando somos açoitados pela adversidade, e pelas quais somos precipitados nas tortuosas e ilusórias veredas do erro, até oportunamente sermos dominados ou tranquilizados pela palavra de Deus. O significado, portanto, é este: Seja o que for que venha suceder-me, não deixes, ó Senhor, desviar-me de teus caminhos ou ser levado por uma voluntária desobediência à tua autoridade, ou qualquer outro desejo pecaminoso. Mas, ao contrário, que tua verdade me conserve num estado de quieto repouso e paz, por uma humilde submissão a ela.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 14 de abril de 2026

“E O ABENÇOEI, E ELE SERÁ ABENÇOADO”


“E O ABENÇOEI, E ELE SERÁ ABENÇOADO”

“Então, estremeceu Isaque de violenta comoção e disse: Quem é, pois, aquele que apanhou a caça e ma trouxe? Eu comi de tudo, antes que viesses, e o abençoei, e ele será abençoado” (Gn 27:33).

Aqui, uma vez mais, a fé que estivera sufocada no peito do santo homem se renova e emite novas fagulhas; pois não há dúvida de que seu temor emana da fé. Além disso, o que Moisés descreve não é um temor comum, mas aquele que fez estremecer totalmente o santo homem; porque, enquanto estava perfeitamente consciente de sua própria vocação, e por isso estava persuadido de que o dever de nomear o herdeiro em quem depositaria a aliança de vida eterna lhe fora divinamente ordenado, no mesmo instante em que descobriu seu erro, se encheu de temor, que numa questão tão grande e séria Deus deixou que ele errasse; porque, a menos que concluísse que Deus era quem controlava esse ato, o que teria impedido de ignorar sua ignorância como desculpa, e de enfurecer-se contra Jacó, que lhe enganava por meio de fraude e astúcia? Mas, embora se cobrisse de vergonha por causa do erro cometido, contudo, com uma mente renovada, ele confirma a bênção que havia pronunciado; não tenho dúvida de que, como alguém que acorda, ele começou a recordar o oráculo para o qual não atentara suficientemente. Portanto, o santo homem não foi impelido pela ambição a ser assim tão firme em seu propósito, como os homens obstinados costumam ser, os quais levam até as últimas consequências o que uma vez começaram, ainda que nesciamente; mas a declaração: “e o abençoei, e ele será abençoado” era fruto de uma rara e preciosa fé; pois ele, renunciando os afetos da carne, agora se rende inteiramente a Deus, e, reconhecendo-o como o autor da bênção que havia impetrado, lhe atribui a devida glória, e não ousa revogá-la. O benefício dessa doutrina pertence à Igreja, a fim de que saibamos com certeza que tudo que os arautos do evangelho nos prometem pela ordenação de Deus será eficaz e inabalável, porque não falam na qualidade de meros homens, e sim pela ordenação do próprio Deus; e a debilidade do ministro não destrói a fidelidade, poder e eficácia da palavra de Deus. Aquele que se nos apresenta com a missão de oferecer a felicidade e vida eternas está sujeito às mesmas misérias e à própria morte até; entretanto, a despeito de tudo isso, a promessa é eficaz. Aquele que nos absolve dos pecados se fez a si mesmo pecado; visto, porém, que seu ofício lhe foi divinamente designado, a firmeza dessa graça, tendo seu fundamento em Deus, jamais falhará.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 11 de abril de 2026

Louvor: QUEM SUBIRÁ AO MONTE DO SENHOR?

Louvor: QUEM SUBIRÁ AO MONTE DO SENHOR?

"Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente" (Sl 24:3,4).

A letra é uma adoração contemporânea baseada no Salmo 24, destacando a soberania de Deus, a necessidade de santidade e intimidade com o SENHOR. É um chamado à consagração, um convite para despir-se de aparências e vaidades.

Pontos principais:

1. A Soberania e a Onisciência de Deus.

"Do Senhor é a terra... ele sabe, ele vê": A música começa estabelecendo que Deus é o dono de tudo e tem controle absoluto (soberania). Ele conhece as histórias individuais e os segredos ocultos ("segredos da varanda", "pesos presos ao olhar"), indicando que nada está oculto aos olhos do Senhor (Hb 4.13).

2. O Monte do Senhor: Lugar de Intimidade, adoração, santidade.

"Quem subirá ao Monte do Senhor?": O monte simboliza a presença de Deus, um lugar elevado de adoração e santidade. “Quem pode ficar?” A resposta é quem tem "mãos limpas, coração que o adora, alma inteira, sem mentira". Isso interpreta a pureza como integridade, exigindo sinceridade absoluta diante de Deus.

3. Arrependimento e Purificação. A letra vai além da adoração superficial e pede transformação: "Purifica as minhas mãos, alinha o meu coração". A "restauração" ocorre quando o "coração quebrado" é levado ao altar, indicando que a aproximação de Deus exige o reconhecimento da nossa própria fraqueza.

4. Mais que "dons", um relacionamento. "Eu não quero só os teus dons, eu te quero por quem tu és": Esta é a parte central da devoção. A música interpreta que a verdadeira adoração não busca benefícios (dons/bênçãos), mas Deus por si só.

5. A Promessa de "achegar-se sem se esconder". "Esse recebe a bênção que transborda", ou seja, aquele que se aproxima de Deus com sinceridade ("sem se esconder", sem máscaras), em justiça recebe a “bênção que transborda”, onde a graça e o cuidado de Deus manifestam-se em abundância. Isso afeta toda a nossa vida e de quem está ao nosso redor, uma referência a ser cheio do Espírito Santo. “A justiça do Deus do seu viver”, no contexto está ligada à fidelidade de Deus à sua aliança. Assim estaremos em sua presença justificados, bênção oferecida por sua graça e recebida mediante a fé em Cristo Jesus (Rm 5.1).

Deus nos abençoe!

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terça-feira, 7 de abril de 2026

“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”


“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”

“Mal acabara Isaque de abençoar a Jacó, tendo este saído da presença de Isaque, seu pai, chega Esaú, seu irmão, da sua caçada” (Gn 27:30).

Aqui se acrescenta a maneira como Esaú foi rejeitado, cuja circunstância era favorável para confirmar a bênção sobre Jacó; porque, se Esaú não fosse rejeitado, poderia parecer que ele não foi privado daquela honra que a natureza lhe conferiu; agora, porém, Isaque declara que, o que fizera, em virtude de seu ofício patriarcal, não podia deixar de ser confirmado. De fato, aqui fica evidente, outra vez, que a primogenitura que Jacó obtivera, à custa de seu irmão, se fizera sua por um dom gratuito; pois se compararmos as obras dos gêmeos, Esaú obedece a seu pai, traz-lhe o produto de sua caçada, prepara-lhe a refeição obtida por seu próprio labor, e nada fala senão a verdade; em suma, nada encontramos em Esaú que não seja digno de louvor. Jacó nunca deixa seu lar, substitui uma caça por um cabrito, dissimula por meio de muitas mentiras, nada traz que propriamente o recomende, mas em muitas coisas merece repreensão. Por isso devemos reconhecer que a causa desse evento não deve remontar-se às boas obras, senão que está oculta no eterno conselho de Deus. Contudo, Esaú não é injustamente reprovado, porque os que não são governados pelo Espírito de Deus nada podem receber de boa consciência. Diante disso, devemos apenas manter firmemente que, uma vez que a condição de todos é igual, se alguém for preferido a outro, isso não deve ao seu próprio mérito, mas porque o Senhor graciosamente o elegera.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”


“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”

“Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).

Aqui, Isaque não parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno; pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida. Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples; pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.

Em todos esses atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco, subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras, pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.

Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”


“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”

“Jura que não nos farás mal, como também não te havemos tocado, e como te fizemos somente o bem, e te deixamos ir em paz. Tu és agora o abençoado do SENHOR” (Gn 26:29).

Uma consciência acusadora os leva a desejarem manter Isaque obrigado diante deles e, por isso, exigem dele um juramento de que não os ferirá. Pois sabiam que Isaque poderia vingar-se com justiça pelos sofrimentos que suportara; mas eles dissimulam e inclusive se vangloriam de seus próprios atos de bondade. De fato, a princípio, a benevolência do rei foi algo notável, pois não só entreteve Isaque com hospitalidade, mas o tratou com peculiar honra; entretanto, não manteve essa atitude até o fim. Mas de acordo com o costume dos homens, eles dissimulam seus erros utilizando-se de todos os artifícios e meios que possam inventar. Mas, caso tenhamos cometido alguma ofensa, devemos antes confessar sinceramente nosso erro, em vez de negá-lo, para que não fira mais profundamente a mente daqueles a quem temos ofendido. Entretanto, Isaque, visto que já havia ferido suficientemente a consciência deles, não os pressiona mais. Pois os estranhos não devem ser tratados por nós como familiares, porém, se não tirarem proveito, que sejam deixados ao juízo de Deus. Portanto, embora Isaque não arrancasse deles uma confissão justa, para que não pensassem que Isaque nutria alguma hostilidade contra eles, não se recusa a fazer uma aliança com eles. Assim aprendemos de seu exemplo que, se porventura alguém se afastar de nós, que não seja rejeitado caso nos ofereça outra vez sua amizade. Pois se somos ordenados a seguir a paz, mesmo quando ela parece fugir de nós, então não devemos nos esquivar quando nossos inimigos voluntariamente buscarem reconciliação; especialmente se houver alguma esperança de uma reconciliação futura, embora o verdadeiro arrependimento ainda não seja visível. E Isaque lhes oferece uma festa, não apenas para promover a paz, mas também com o intuito de mostrar que ele, esquecendo-se de toda ofensa, se torna amigo deles.

Tu és agora o abençoado do SENHOR. Normalmente essa expressão é explicada no sentido de que eles buscavam o favor de Isaque com bajulações, exatamente como algumas pessoas costumam bajular quando querem um favor; no entanto, eu, ao contrário, creio que essa expressão foi acrescentada em um sentido diferente. Isaque havia se queixado das injúrias deles por haverem-no expulsado por inveja; eles respondem que não havia razão para que restasse a menor sombra de pesar na mente de Isaque, visto que o Senhor o tratara de modo tão bondoso e precisamente conforme seu próprio desejo, como se quisessem dizer: “o que ainda queres? Não te contentas com o teu atual êxito? Admitimos que não temos cumprido com o dever de hospitalidade para contigo; contudo a bênção de Deus é abundantemente suficiente para apagar a lembrança daquele tempo”. Mas, talvez, por essas palavras, eles novamente estejam dizendo que estão agindo de boa-fé para com ele, porque ele está sob a proteção de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”


“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”

“Eles responderam: Vimos claramente que o SENHOR é contigo; então, dissemos: Haja agora juramento entre nós e ti, e façamos aliança contigo” (Gn 26:28).

Por esse argumento, eles provam que desejavam fazer um acordo com Isaque, não um acordo fraudulento, mas de boa-fé, porque reconhecem o favor de Deus para com ele. Pois era necessário se livrar dessa suspeita, visto que agora se apresentavam de modo tão gentil a alguém contra o qual previamente faziam injustificável oposição. Essa confissão deles, contudo, contém uma instrução proveitosa. Os homens profanos, ao chamarem alguém, cujas atividades são todas bem-sucedidas e prósperas, o bendito do Senhor, dão testemunho de que Deus é o autor de todas as boas dádivas, e que somente dele flui toda prosperidade. Excessivamente vil, pois seria ingratidão se, quando Deus age bondosamente para conosco, ignoramos seus benefícios. Além disso, os homens profanos consideram a amizade de alguém a quem Deus favorece como algo desejável, levando em conta que não há melhor ou mais santa recomendação do que o amor de Deus. Perversamente cegos, pois, são aqueles que só negligenciam aos que Deus declara lhe serem queridos, mas iniquamente os perturbam. O Senhor proclama que está pronto para executar vingança contra alguém que porventura faça injúria àqueles a quem ele toma sob sua proteção; mas a maioria, indiferente a essa mui terrível denúncia, ainda perversamente aflige os bons e simples. Contudo, vemos aqui que o senso natural proclamava aos incrédulos o que raramente reconhecemos aquilo que é dito pela boca do próprio Deus. Entretanto, é surpreendente que tivessem medo de um homem inofensivo, e exigissem dele um juramento de que lhes não causaria nenhum dano. Deveriam ter concluído, à luz do favor que Deus lhe demonstrava, que ele era um homem justo, e por isso ele não representava nenhum perigo; contudo, pelo fato de formarem sua convicção a respeito de seu caráter a partir do caráter e conduta deles, também põem em dúvida sua integridade. Tal perturbação geralmente inquieta os incrédulos, de modo que são inconsistentes consigo mesmos; ou ao menos, vacilam e são atormentados por sentimentos conflitantes, e ficam sem estabilidade e constância. Pois aqueles princípios do reto juízo, que fluem de dentro de si, logo são sufocados pelos afetos depravados. Por isso, justamente aquilo que é concebido por eles se desvanece; ou, pelo menos, é corrompido e não produz bons frutos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”


“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”

“Disse-lhes Isaque: Por que viestes a mim, pois me odiais e me expulsastes do vosso meio?” (Gn 26:27).

Isaque não só se queixa das injúrias recebidas, mas protesta que no futuro não pode ter confiança neles, já que descobrira que da parte deles havia uma disposição tão hostil para com ele. Essa passagem nos ensina que é lícito aos fiéis apresentar queixa de seus inimigos, a fim de que, se possível, relembrá-los de seu propósito de fazer injúria, e refrear sua força, fraude e atos de injustiça. Pois a liberdade não é inconsistente com a paciência; tampouco Deus exige de seu próprio povo que suportem silenciosamente toda injúria que porventura lhes seja infligida, mas tão somente refreiem sua mente e contenham suas mãos de vingança. Ora, se a mente deles é pura e bem regulada, a sua língua não será virulenta em reprovar as faltas dos outros; mas o seu único propósito será restringir os perversos por um senso de vergonha, por causa da iniquidade. Pois onde não há esperança de tirar proveito das lamúrias, é melhor cultivar a paz mediante o silêncio, a menos que, talvez, o propósito será tornar indesculpáveis os que se deleitam na perversidade. De fato, devemos nos precaver sempre para que, movida por um desejo de vingança, nossa língua não irrompa em reprimendas; e, no dizer de Salomão, “O ódio excita contendas” (Pv 10.12).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 27 de março de 2026

“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”


“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”

“E deu esta ordem a todo o povo: Qualquer que tocar a este homem ou à sua mulher certamente morrerá” (Gn 26:11).

Ao denunciar a punição capital contra quem prejudicasse a esse estrangeiro, podemos presumir que Abimeleque promulgou esse edito como um privilégio especial; pois não é comum vingar-se tão rigidamente de todo tipo de injúria. Qual é, pois, a origem dessa disposição da parte do rei de preferir Isaque a todos os habitantes nativos do pais, e quase tratá-lo como igual, senão que alguma porção da majestade divina brilhou nele, a qual lhe assegurou esse decreto de reverência? Também para ajudar seu servo em sua fraqueza, Deus inclinou a mente do rei pagão, de todas as formas, para mostrar-lhe favor. E não há dúvida de que sua modéstia geral induziu o rei a protegê-lo tão cuidadosamente; pois ele, percebendo que Isaque era um homem tímido, que chegara ao ponto de preservar sua própria vida pela ruína de sua esposa, sentiu-se ainda mais disposto a dar-lhe sua assistência em seus perigos, a fim de que pudesse viver em segurança sob seu próprio governo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE É ISSO QUE NOS FIZESTE?”


“QUE É ISSO QUE NOS FIZESTE?”

“Disse Abimeleque: Que é isso que nos fizeste? Facilmente algum do povo teria abusado de tua mulher, e tu, atraído sobre nós grave delito” (Gn 26:10).

O Senhor não castiga Isaque como merecia, talvez porque ele não fosse completamente dotado de paciência como o fora seu pai; e, portanto, para que a apreensão de sua esposa não o desanimasse, Deus misericordiosamente a previne. Entretanto, para que a censura produzisse uma vergonha mais profunda, Deus constitui um pagão como seu mestre e seu reprovador. Podemos acrescentar que Abimeleque reprova sua estultícia não tanto com a intenção de injuriá-lo quanto de repreendê-lo. Entretanto, teria ferido profundamente a alma do santo homem, quando percebeu que sua ofensa era repulsiva ao juízo, inclusive dos cegos.

Portanto, recordemos bem que devemos andar na luz que Deus nos tem acendido, para que até mesmo os incrédulos, que vivem envolto pelas trevas da ignorância, não reprovem nosso entorpecimento. E, certamente, quando negligenciamos a obediência à voz de Deus, merecemos ser enviados aos bois e aos asnos para deles recebermos instrução. Na verdade, Abimeleque não investiga nem perscruta toda ofensa de Isaque, mas apenas menciona uma parte dela. Isaque, porém, quando assim brandamente admoestado por uma única palavra, deveria ter condenado a si mesmo, visto que, em vez de confiar a si mesmo e a sua esposa aos cuidados de Deus, o qual prometeu ser o guardião de ambos, recorreu, por sua própria incredulidade, a uma solução ilícita. Pois a fé tem a seguinte característica: ela nos mantém dentro dos limites divinamente prescritos, para que nada tentemos, exceto com a autoridade ou permissão de Deus. Consequentemente, a fé de Isaque oscilou quando se afastou de seu dever de marido.

Além disso, das palavras de Abimeleque, deduzimos que todas as nações têm inscrito em sua mente o senso de que a violação do santo matrimônio é um crime digno da vingança divina e, consequentemente, traz em si o medo do juízo divino. Pois embora a mente dos homens seja obscurecida por densas nuvens, de modo que são frequentemente enganadas, Deus tem feito com que permaneça algum poder de distinção entre o certo e o errado, de modo que cada um suporte a sua própria condenação, e que todos sejam considerados indesculpáveis. Se, pois, Deus intima inclusive os incrédulos ao seu tribunal, e não permite que escapem à justa condenação, quão horrível é aquela punição que nos aguarda, se tentarmos extirpar, por nossa própria fraqueza, aquele conhecimento que Deus gravou em nossa própria consciência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 25 de março de 2026

“OLHANDO DA JANELA”


“OLHANDO DA JANELA”

“Ora, tendo Isaque permanecido ali por muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando da janela, viu que Isaque acariciava a Rebeca, sua mulher. Então, Abimeleque chamou a Isaque e lhe disse: É evidente que ela é tua esposa; como, pois, disseste: É minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: para que eu não morra por causa dela” (Gn 26:8,9).

De fato, a paciência de Deus é admirável, não apenas porque perdoa de modo condescendente o duplo erro de seu servo, mas também porque estende sua mão e evita de modo maravilhoso, pela aplicação de um remédio imediato, o mal que ele traria sobre si mesmo. Deus não permitiu – o que duas vezes ocorrera a Abraão – que sua esposa fosse arrancada de seus braços; porém, instigou a um rei pagão para corrigir, com brandura e sem causar-lhe qualquer tribulação, sua insensatez. Mas, embora Deus ponha diante dos nossos olhos tal exemplo de sua bondade, para que os fiéis, se em algum tempo porventura venha a cair, possam esperar confiantemente encontrar-se com um Deus amável e propício, contudo, devemos nos precaver da autoconfiança, quando observamos que a santa mulher, que naquele momento era a única mãe da Igreja sobre a terra, estava isenta de desonra por um privilégio especial. Entretanto, podemos presumir, com base no julgamento de Abimeleque, quão santa e pura havia sido a conduta de Isaque, em quem não podia recair sequer uma suspeita de mal; e, além disso, quão maior integridade florescia naquele tempo do que no nosso. Pois, por que ele não condenou a Isaque como culpado de fornicação, visto ser provável que algum crime se insinuava, quando, negou que ela era sua esposa? E por isso não tenho dúvida de que a religião de Isaque e a integridade de sua vida, eram suficientes para defender seu caráter.

Por esse exemplo, somos ensinados a cultivar de tal modo a retidão ao longo de toda nossa vida, que os homens não sejam capazes de suspeitar algo perverso e desonroso de nossa parte, pois não há nada que nos vindique mais completamente do estigma de infâmia do que uma vida vivida com modéstia e temperança. Entretanto, devemos acrescentar o que eu já mencionei anteriormente: que naquele tempo as concupiscências não eram tão comuns e tão profundamente fomentadas, a ponto de uma suspeita desfavorável surgir na mente do rei no tocante a um peregrino de caráter honesto. Portanto, ele facilmente se convence de que Rebeca era esposa, e não prostituta. O senso de castidade daquela época se evidencia ainda mais com base nisto: que Abimeleque toma a familiaridade afetiva de Isaque com Rebeca como uma evidência de sua vida conjugal. Pois Moisés não fala sobre relação conjugal, mas sobre algumas atitudes que eram demasiadamente íntimas, que eram uma prova ou de licenciosidade dissoluta ou de amor conjugal. Hoje, porém, a licenciosidade avançou tanto para além de todos os limites, que o marido é obrigado a ouvir em silêncio sobre a conduta dissoluta da esposa com estranhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“A RESPEITO DE SUA MULHER, DISSE: É MINHA IRMÔ


“A RESPEITO DE SUA MULHER, DISSE: É MINHA IRMÔ

“Perguntando-lhe os homens daquele lugar a respeito de sua mulher, disse: É minha irmã; pois temia dizer: É minha mulher; para que, dizia ele consigo, os homens do lugar não me matem por amor de Rebeca, porque era formosa de aparência” (Gn 26:7).

Moisés relata que Isaque foi tentado da mesma maneira que seu pai Abraão, isto é, pelo fato de a sua esposa ter sido tirada dele; e, sem dúvida, ele foi conduzido de tal modo pelo exemplo de seu pai que, sendo instruído pela semelhança das circunstâncias, veio a juntar-se com ele em sua fé. Contudo, nesse ponto, ele deveria antes ter evitado do que imitado à falha de seu pai; pois, sem dúvida, ele se lembrava perfeitamente bem de que a castidade de sua mãe fora duas vezes posta em grande perigo; e, embora ela fosse maravilhosamente resgatada pela mão de Deus, ela e seu marido, respectivamente, pagaram o preço de sua desconfiança. Por isso a negligência de Isaque é indesculpável, porque ele agora tropeça na mesma pedra. Ele não nega sua esposa de forma expressa; porém, deve ser culpado, em primeiro lugar, porque, querendo preservar sua esposa, recorre a uma evasiva não muito distante de uma mentira; e, segundo, porque, ao fazer isso, ele à expõe a prostituição. No entanto, agrava ainda mais seu erro, principalmente (como eu já disse) em não recorrer às advertências dos exemplos domésticos, porém, voluntariamente, lança sua esposa em manifesto perigo. Assim, fica evidente quão grande é a propensão de nossa natureza à dúvida, e quão facilmente ela se mostra destituída de sabedoria nas situações de perplexidade. Visto, pois, que vivemos cercados por todos os lados de muitos perigos, devemos rogar ao Senhor que nos fortaleça por seu Espírito, para que nossa mente não desfaleça e não se dissolva no temor e tremor; de outro modo, seremos frequente e inutilmente envolvidos em ações das quais logo nos arrependeremos, porém, tarde demais para remediar o mal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NÃO DESÇAS AO EGITO”


“NÃO DESÇAS AO EGITO”

“Apareceu-lhe o SENHOR e disse: Não desças ao Egito. Fica na terra que eu te disser” (Gn 26:2).

Não tenho dúvida de que aqui é apresentada uma razão por que Isaque foi para o país de Gerar e não para o Egito: talvez isso lhe fosse mais conveniente; Moisés, porém ensina que ele foi impedido por um oráculo celestial, de modo que não lhe foi deixada uma livre escolha. É possível que aqui se indague por que o Senhor proibira Isaque de descer ao Egito, se havia permitido isso a seu pai. Embora Moisés não revele a razão temos a liberdade de presumir que a jornada teria sido muito mais perigosa ao filho. Certamente o Senhor também poderia ter dotado Isaque com o poder de seu Espírito, como fizera a seu pai Abraão, de modo que a abundância e as delícias do Egito não o teriam corrompido com suas fascinações; visto porém, que ele governa a seu povo fiel com tal moderação, que não corrige todas as suas falhas de uma só vez e os torna inteiramente puros, ele os ajuda em suas enfermidades e antecipa, com remédios adequados, aqueles males pelos quais podem ser enredados. Portanto, visto que ele bem sabia que havia em Isaque mais fragilidade do que houve em Abraão, assim preferiu não o expor ao perigo; pois ele é fiel e não permitirá que seu próprio povo seja tentado além do que é capaz de suportar [1Co 10.13]. Ora, como devemos deixar-nos persuadir de que, por mais árdua que sejam as tentações que nos sobrevêm, o socorro divino jamais deixará de renovar nossa força; assim, em vez disso, devemos precaver-nos de não nos precipitarmos de cabeça nos perigos, mas que cada um de nós se deixe admoestar por sua própria debilidade e prosseguir cautelosamente e cheio de temor.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SOBREVINDO FOME À TERRA”


“SOBREVINDO FOME À TERRA”

“Sobrevindo fome à terra, além da primeira havida nos dias de Abraão, foi Isaque a Gerar, avistar-se com Abimeleque, rei dos filisteus (Gn 26:1).

Vemos que Isaque foi provado por uma tentação semelhante àquela pela qual Abraão, seu pai, passara duas vezes. Já expliquei anteriormente quão severo e violento foi esse fato. A condição, na qual a vontade de Deus colocava seus servos, como estrangeiros e peregrinos na terra que lhe havia prometido, parecia muito incômoda e difícil, porém, parece ainda mais absurdo que ele lhes permitia subsistir (se podemos falar assim) nesse tipo de vida errante, incerta e instável, ao ponto de quase serem consumidos pela fome. Quem não diria que Deus não se esquecera de si mesmo, quando nem mesmo supria seus próprios filhos – em quem recebera em seu especial cuidado e reponsabilidade – com um pouco de comida? Deus, assim, provava os santos Patriarcas, para que fôssemos instruídos, pelo exemplo dele, a não sermos frouxos e covardes diante das tentações.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 20 de março de 2026

“O ANJO DO SENHOR”


“O ANJO DO SENHOR”

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra” (Sl 34:7).

Neste ponto o salmista Davi argumenta em termos gerais sobre o favor paternal de Deus para com todos os piedosos; e visto que a vida humana se expõe a inumeráveis perigos, ao mesmo tempo ele nos ensina que Deus é capaz de livrá-las deles. Especialmente os fiéis, que são como ovelhas no meio de lobos, como se vivessem sitiados de todas as formas pela morte, são constantemente acossados pelo medo de que alguma sorte de perigo se aproxime. Davi, pois, afirma que os servos de Deus são protegidos e defendidos pelos anjos. O propósito do salmista é mostrar que, embora os fiéis se veem expostos a muitos perigos, não obstante podem descansar seguros de que Deus será o fiel guardião de sua vida. Mas para confirmá-los o máximo possível nesta esperança, ao mesmo tempo ele acrescenta, e não sem razão, que aqueles a quem Deus preserva em segurança, ele os defende mediante o poder e ministério dos anjos. O poder de Deus seria, aliás, por si só suficiente para alcançar tal objetivo, mas em sua mercê para com nossa enfermidade ele se digna em empregar anjos como seus ministros. Tal fato serve muitíssimo para a confirmação de nossa fé, sabendo nós que Deus possui inumeráveis legiões de anjos que estão sempre disponíveis para seu serviço, sempre que se lhe apraz nos socorrer. Muito mais que isso, os anjos também, que são chamados principados e potestades, estão sempre atentos na preservação de nossa vida, porque sabem que este dever lhes é confiado. Aliás, Deus é designado com propriedade o muro de sua Igreja e todo gênero de fortaleza e seu lugar de defesa. Mas, à guisa de acomodação, na medida e extensão de nosso presente estado de imperfeição, ele manifesta a presença de seu poder para ajudar-nos pela instrumentalidade de seus anjos. Além do mais, o que o salmista aqui diz de um anjo, no singular, deve aplicar-se a todos os demais anjos; pois se distinguem pelo título geral, “espíritos ministradores, enviados para ministrarem aos que serão os herdeiros da salvação” [Hb 1.14], e as Escrituras, em outras passagens, nos ensinam que, sempre que a Deus apraz, e sempre que ele sabe ser para o benefício deles, muitos anjos são designados para que cuidem de cada um dentre seu povo [2Rs 6.15; SI 91.11; Lc 16.22], A suma, pois, do que ficou dito é que, por maior que seja o número de nossos inimigos e dos perigos pelos quais nos vemos cercados, não obstante os anjos de Deus, armados de invencível poder, velam constantemente por nós e se postam de todos os lados com o fim de socorrer-nos e de livrar-nos de todo mal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“BUSQUEI O SENHOR, E ELE ME ACOLHEU”


“BUSQUEI O SENHOR, E ELE ME ACOLHEU”

“Busquei o SENHOR, e ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores” (Sl 34:4).

Neste ponto o salmista Davi explica mais claramente e de forma mais plena o que dissera acerca do regozijo. Em primeiro lugar, ele nos diz que suas orações haviam sido ouvidas. Isto ele aplica a todos os piedosos que, encorajados por testemunho tão precioso, poderiam estimular-se à oração. O que está implícito em buscar a Deus é evidente à luz da cláusula que se segue. Em alguns lugares ela deve ser entendida num sentido distinto, a saber, submeter a mente, em solícita aplicação, ao serviço de Deus e manter todos os pensamentos voltados para ele. Aqui ela simplesmente significa recorrer a ele em busca de auxílio; pois imediatamente se segue que Deus lhe respondeu; e dele corretamente se diz responder à oração e súplica. Pela expressão, meus temores, o salmista quer dizer, tomando o efeito pela causa, os perigos que dolorosamente inquietaram sua mente; contudo, sem dúvida ele confessa que fora terrificado e agitado pelos temores. Ele não olhava para seus perigos com uma mente serena e tranquila, como se os visse a certa distância e de uma posição cômoda e elevada, mas, sendo seriamente atormentado com inúmeras preocupações, podia com razão falar de seus temores e terrores. Ainda mais, pelo uso do plural, ele mostra que fora grandemente terrificado não só de uma maneira, mas que fora destroçado por uma variedade de angústias. Por um lado, ele viu uma morte cruel à sua espreita; enquanto que, por outro lado, sua mente poderia ter sido dominada pelo medo de que Aquis o enviasse a Saul para seu contentamento, como os ímpios costumam divertir-se às custas dos filhos de Deus. E visto que ele já fora uma vez detectado e traído, poderia muito bem concluir, mesmo se escapasse, que os assassinos de aluguel de Saul o cercariam de todos os lados. O ódio profundo que Aquis nutria contra ele, tanto pela morte de Golias quanto pela destruição de seu próprio exército, poderia dar origem a tantos temores; especialmente considerando que seu inimigo poderia instantaneamente descarregar sua vingança sobre ele, e que nutria boas razões para crer que sua crueldade era de tal vulto que não seria amenizada sujeitando-o a alguma forma branda de morte. Devemos observar isto particularmente, a fim de que, se em algum tempo formos terrificados pelos perigos que nos cercam, não sejamos impedidos por nossa timidez excessiva de invocar a Deus. Mesmo Davi, que se sabe ter suplantado a outros em heroísmo e bravura, não possuía um tal coração de ferro ao ponto de repelir os temores e sustos, senão que às vezes se sentia profundamente inquieto e esmagado pelo medo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 18 de março de 2026

“CELEBRAI COM JÚBILO AO SENHOR”


“CELEBRAI COM JÚBILO AO SENHOR”

“Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras. Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico” (Sl 100:1,2).

Ao convidar a todos os habitantes da terra indiscriminadamente a louvarem ao SENHOR, tudo indica que, no espírito profético do salmista, a referência seja ao período em que a Igreja seria congregada dentre as diferentes nações. Daí ordenar ele [v.2] que Deus seja servido com alegria, notificando que sua bondade para com seu povo é tão imensa que lhes fornece bases profusas para se regozijarem. Isso é melhor expresso no terceiro versículo, no qual ele primeiro repreende a presunção daqueles homens que impiamente se revoltaram contra o verdadeiro Deus, tanto em modelar para si muitos deuses, quanto em inventar várias formas de cultuá-lo. E visto que uma multidão de deuses destrói e substitui o verdadeiro conhecimento do Deus único e obscurece sua glória, o profeta, com grande propriedade, convoca todos os homens a repensarem e a cessarem de usurpar a Deus da honra devida a seu nome; e, ao mesmo tempo, a expressarem sua loucura nisto: não contentes com o único Deus, se tornaram fúteis em suas imaginações. Porque, quanto mais se veem constrangidos a confessar com os lábios que Deus existe, o Criador de céu e terra, não obstante de quando em quando tentam despojá-lo gradualmente de sua glória; e assim a Deidade é, na máxima extensão do poder deles, reduzido a mera nulidade. Visto, pois, restringir os homens na prática do culto divino em sua pureza ser algo em extremo difícil, o profeta, não destituído de razão, lembra o mundo de sua costumeira vaidade e o ordena a reconhecer a Deus como tal. Pois devemos atentar bem para esta breve definição do conhecimento dele, a saber: que sua glória seja intocavelmente preservada, e que nenhuma divindade se lhe oponha com o intuito de obscurecer a glória de seu nome. Saiba-se, pois, que o genuíno culto de Deus não pode ser preservado em toda sua integridade enquanto a vil profanação de sua glória, que é a inseparável acompanhante da superstição, não for completamente erradicada.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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