"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“VAI E NÃO PEQUES MAIS”


“VAI E NÃO PEQUES MAIS”

“Erguendo-se Jesus e não vendo a ninguém mais além da mulher, perguntou-lhe: Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais” (Jo 8:10-11).

Não somos informados se Jesus absolveu absolutamente a mulher, senão que lhe permitiu ir livremente. Nem isso surpreende, pois ele não deseja empreender algo que não pertença a seu ofício. Ele fora enviado pelo Pai a congregar as ovelhas perdidas [Mt 10.6], e, por isso, cônscio de sua vocação, ele exorta a mulher ao arrependimento e a conforta com uma promessa de graça. Aqueles que inferem disto que o adultério não deve ser punido com a morte, devem, pela mesma razão, admitir que as heranças não devem ser divididas só porque Cristo recusou ser árbitro numa questão entre dois irmãos [Lc 12.13]. Aliás, se o adultério não for punido, então não existe nenhum crime que não possa ser isentado de qualquer penalidade da lei. E então a porta está escancarada a todo e qualquer tipo de traição, de corrupção, de homicídio e de latrocínio. Além disso, a adúltera, quando ilicitamente dá à luz a uma criança, não só rouba o nome da família, mas violentamente destrói o direito de herança da prole legítima e a entrega a estranhos. Mas, o que é ainda pior, a esposa não só desonra o esposo, a quem um dia se unira, mas se prostitui de uma maneira vergonhosamente perversa, e igualmente viola a sacra aliança de Deus. Lembremo-nos que, embora Cristo perdoe os pecados dos homens, ele não subverteu a ordem política nem reverteu as sentenças e castigos designados pela lei.

Vai e não peques mais. Daí inferirmos qual o desígnio da graça de Cristo. É para que o pecador, uma vez reconciliado com Deus, possa honrar o Autor de sua salvação vivendo uma vida boa e santa. Em suma, pela mesma palavra de Deus, quando o perdão nos é oferecido, somos igualmente chamados ao arrependimento. Além disso, ainda que esta exortação aponte para o futuro, ela humilha os pecadores despertando sua memória para sua vida pregressa.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“ACUSADOS PELA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA


“ACUSADOS PELA PRÓPRIA CONSCIÊNCIA”

“Mas, ouvindo eles esta resposta e acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um, a começar pelos mais velhos até aos últimos, ficando só Jesus e a mulher no meio onde estava” (Jo 8:9).

Aqui percebemos quão grande é o poder de uma consciência em conflito. Ainda que aqueles hipócritas perversos tencionassem induzir a Cristo a cair em seus sofismas, todavia sem embaraço ele fere suas consciências com uma única palavra, e envergonhados se põem em fuga. Este é o martelo com o qual devemos despedaçar a soberba dos hipócritas. Devem ser citados a comparecer diante do tribunal divino. Embora seja possível que vexame, com que se viram atingidos diante dos homens, tivesse maior influência sobre eles do que o temor de Deus, ainda é uma questão de muita importância que, de sua própria iniciativa, se tenham reconhecido culpados, quando assim desaparecem como se fossem dominados pela confusão mental. Acrescenta-se imediatamente:

A começar pelos mais velhos até aos últimos. Nossa atenção é atraída para esta circunstância, a saber, à proporção que cada um deles excedia os demais em honrosa posição, mais rapidamente o mesmo se conscientizava de sua condenação. Tomara que nossos escribas, que na atualidade vendem seus serviços para fazer guerra a Cristo, tivesse pelo menos tanta modéstia quanto esses homens. Mas são tão destituídos de vergonha que, enquanto se tornam infames por crimes tão detestáveis, gloriam-se no fato de que lhes é permitido ser tão abomináveis como bem lhes apraz sem qualquer punição. Devemos também observar quão amplamente essa convicção de pecado, pela qual os escribas se viram afetados, difere do arrependimento genuíno. Pois devemos deixar-nos afetar pelo juízo divino de uma maneira tal que não busquemos um refúgio para evitar a presença do Juiz, mas, ao contrário, nos dirijamos diretamente a ele a fim de implorar seu perdão.

Ficando só Jesus e a mulher. Isso foi ocasionado pelo Espírito de sabedoria, ou seja, que aqueles homens perversos, não tendo lucrado nada em tentarem a Cristo, se foram [sem nada conseguir]. Tampouco há alguma razão para dúvida de que continuaremos a desmantelar todos os artifícios de nossos inimigos, contanto que nos deixemos governar pelo mesmo Espírito. Mas frequentemente sucede que levam a melhor sobre nós, só porque, não atentando para suas armadilhas, não cuidamos em tomar conselho, ou melhor, confiando em nossa sabedoria, não levamos em conta o quanto carecemos do governo do Espírito Santo. Ele diz que Cristo ficou sozinho, não que o povo a quem anteriormente ensinava o tivesse abandonado, mas porque todos aqueles escribas que tinham trazido a adúltera não lhe deram mais aborrecimento. Ao lermos que a mulher permaneceu com Cristo, que aprendamos desse exemplo que não há nada melhor para nós do que conduzidos, como culpados, perante seu tribunal, desde que nos rendamos meiga e submissamente ao seu governo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTIVER SEM PECADO”


“AQUELE QUE DENTRE VÓS ESTIVER SEM PECADO”

“Como insistissem na pergunta, Jesus se levantou e lhes disse: Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (Jo 8:7).

Cristo Jesus declarou isso em conformidade com o costume da lei, pois Deus ordenara que a testemunha, com suas próprias mãos, tomasse a iniciativa na morte dos malfeitores, em conformidade com a sentença por eles pronunciada, a fim de haver mais prudência em dar-se testemunho [Dt 17.7]. Há muitas pessoas que procedem temerariamente ao esmagarem seu irmão com perjúrio, porquanto não imaginam que estão abrindo uma ferida mortal com suas línguas. E este mesmo argumento foi de muito peso para esses caluniadores, desesperados como estavam, pois nem bem tiveram uma visão dele, se descartaram das incandescentes paixões com que se deixaram encher de vaidades quando chegaram. Todavia existe essa diferença entre a injunção da lei e as palavras de Cristo, a saber, que na lei Deus meramente ordenara que não se condenasse uma pessoa com a língua, a menos que lhes fosse permitido matá-la com as próprias mãos. Aqui, porém, Cristo demanda das testemunhas inocência plenária, de modo que ninguém pudesse acusar outrem de crime, a menos que fosse puro e isento de toda falha. Ora, o que ele disse naquele tempo a umas poucas pessoas, temos de considerar como havendo falado a todos, para que todo aquele que acusar outrem, imponha a si uma lei de inocência, do contrário, não estamos indo ao encalço de atos ímpios, e, sim, estamos sendo hostis às pessoas.

Entretanto, dessa forma Cristo parece anular no mundo todas as decisões judiciais, de modo que ninguém ousará a dizer que tem o direito de punir os crimes. Porque, é impossível encontrar um único juiz que não tenha consciência de haver cometido algum erro? É possível encontrar uma única testemunha que não seja culpada de alguma falha? Portanto, é como se ele proibisse a todas as testemunhas de apresentar seu testemunho público, e a todos os juízes de ocupar seu tribunal. Eis minha resposta: esta não é uma proibição absoluta e ilimitada, por meio da qual Cristo proíba os pecadores de seu dever de corrigir os pecados de outrem. Senão que, por meio dessa palavra, ele apenas reprova os hipócritas que suavemente se lisonjeiam e abrandam seus vícios, contudo são excessivamente severos, e inclusive chegam a ser cruéis, ao censurarem outros. Ninguém, pois, será impedido por seus próprios pecados de corrigir os pecados de outrem, e inclusive de puni-los sempre que achar necessário, contanto que em si e nos outros ele odeie o que deve ser condenado. E além de tudo isso, cada pessoa deve começar interrogando sua própria consciência e agindo como testemunha e como juiz contra si mesmo, antes de chegar a outros. E assim, sem odiar os homens, faremos guerra contra os pecados.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“JESUS, INCLINANDO-SE, ESCREVIA NA TERRA COM O DEDO”


“JESUS, INCLINANDO-SE, ESCREVIA NA TERRA COM O DEDO”

“Isto diziam eles tentando-o, para terem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia na terra com o dedo” (Jo 8:6).

Com esta atitude Cristo pretendia mostrar que os menosprezava. Os que conjecturam que ele escrevia isto ou aquilo, em minha opinião, não captam sua intenção. Tampouco aprovo a ingenuidade de Agostinho que cria que dessa forma se realçava a distinção entre a lei e o evangelho, porque Cristo não escreveu em tábuas de pedra [Ex 31.18], mas no homem, que é pó e terra. Pois, Cristo, antes, pretendia nada mais nada menos que mostrar quão indignos eram eles de ser ouvidos, justamente como se alguém, enquanto outro falava, se pusesse a rabiscar a parede ou virasse as costas ou por meio de algum outro gesto, insinuasse que nada entendia do que lhe era dito. Assim, na atualidade, quando Satanás tenta, por vários métodos, desviar-nos da reta vereda da instrução, devemos desdenhosamente passar por alto muitas coisas que ele põe diante de nós. Os sofistas nos provocam o máximo que podem, fazendo uso de sofismas triviais, como se lançassem fumaça ao ar. Se mestres piedosos empregarem laboriosamente seu tempo em examinar cada um desses sofismas, começarão a envolver-se em questões sem fim, e, portanto, se delongam de tal sorte, que nada mais fazem senão estorvar o progresso do evangelho, e são sabiamente desconsiderados.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“SURPREENDIDA EM ADULTÉRIO”


“SURPREENDIDA EM ADULTÉRIO”

“Os escribas e fariseus trouxeram à sua presença uma mulher surpreendida em adultério e, fazendo-a ficar de pé no meio de todos, disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério” (Jo 8:3-4).

É bastante óbvio que esta passagem não era conhecida das igrejas gregas, e alguns conjecturam que ela foi trazida de alguma outra fonte e inserida aqui. Visto, porém, que a mesma sempre foi aceita pelas igrejas latinas, e está presente em muitos manuscritos gregos antigos e nada contém de indigno de um espírito apostólico, não há razão por que devamos recusar aplicá-la para nosso proveito. Ao dizer o Evangelista que os escribas e fariseus trouxeram uma mulher, sua intenção é dizer que isso foi de comum acordo entre si, com o fim de apanhar Cristo numa armadilha. Ele menciona expressamente os fariseus porque eram as principais pessoas na ordem dos escribas. Ao adotarem tal pretexto para exprimir sua calúnia, eles exibem a hediondez de sua perversidade, e até mesmo seus próprios lábios os acusam, pois não dissimulam que possuem um claro mandamento da lei, e daí se segue que agem maliciosamente, formulando uma pergunta como se fosse uma matéria indubitável. Sua intenção, porém, era constranger a Cristo a afastar-se de seu ofício de pregador da graça, para que parecesse ser volúvel e instável. Declaram expressamente que as adúlteras estão condenadas por Moisés [Lv 20.10], para que obrigassem Cristo pela sentença já formulada pela lei, pois não era lícito inocentar aqueles a quem a lei condenava. E, em contrapartida, se ele desse seu assentimento à lei forçaria a conclusão de ser um tanto incoerente consigo mesmo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

“E AS TREVAS NÃO PREVALECERAM”


“E AS TREVAS NÃO PREVALECERAM”

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1:5).

Ainda que o Filho de Deus tenha sempre convocado os homens a si, pela instrumentalidade dessa pobre luz que ainda restou em nós, o Evangelista assevera que ela era ineficaz, porquanto, “vendo, não veem”. Porque, depois que o homem foi alienado de Deus, tal foi a ignorância que se apoderou de sua mente, que toda e qualquer luz que porventura nela restou é extinta e inútil. A experiência também comprova tal fato diariamente. Pois mesmo aqueles que não foram ainda regenerados pelo Espírito de Deus exercem certa razão, de modo que somos claramente instruídos de que o homem foi criado não só para respirar, mas que possui também entendimento. Não obstante, guiados por sua razão, o homem não alcança ou não consegue ter acesso a Deus e, assim, toda sua inteligência não prima direção senão rumo à vaidade, donde se deduz que não há qualquer esperança para a salvação dos homens, a menos que Deus lhe proveja um novo recurso. Pois ainda que o Filho de Deus derrame sua luz sobre eles, encontram-se tão entorpecidos que sua obtusidade não lhes permite compreender a fonte dessa luz; obcecados por fascinantes e perversas fantasias acabam na demência.

Há duas partes primordiais nessa luta que ainda permanecem na natureza corrompida. Alguma semente da religião está plantada em todos; existe também aquela distinção entre o bem e o mal que está esculpida em suas consciências. Afinal, qual é o usufruto disso, senão que a religião produz mil e uma superstições monstruosas, e a consciência corrompe todo o juízo, confundindo vício com virtude? Em suma, a razão jamais guiará os homens a Cristo. O fato de serem eles dotados de sabedoria para dirigir suas vidas e de se formarem em filosofia e ciências se reduz e resulta em nada.

Além do mais, devemos ter em mente que o Evangelista está falando unicamente dos dons naturais, e não está tratando ainda da graça da regeneração. Porque há no Filho de Deus dois poderes distintos. O primeiro se manifesta na arquitetura do mundo e na ordem da natureza. No uso do segundo, ele renova e restaura a natureza caída. Ele é a eterna Palavra de Deus; e, por conseguinte, por meio dele, o mundo foi criado. Pela ação de seu poder, todas as coisas conservam a vida que uma vez receberam; de uma forma toda especial, o homem foi adornado com o dom singular do entendimento. E, conquanto, com sua queda, tenha perdido a luz do entendimento, ele ainda vê e entende, já que o que ele naturalmente possui da graça do Filho de Deus não lhe foi totalmente destruído. Visto, porém, que mediante seu embotamento e perversidade, ele empana a luz que ainda lhe resta, cumpre ao Filho de Deus assumir uma nova função, a saber, a de Mediador, e assim renova o homem perdido através do Espírito de regeneração. Portanto, põe o carro adiante do boi quem interpreta a luz que o Evangelista menciona como sendo o evangelho e a proclamação da salvação.  

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“A LUZ RESPLANDECE NAS TREVAS”


“A LUZ RESPLANDECE NAS TREVAS”

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela” (Jo 1:5).

Pode-se suscitar uma objeção, dizendo que os homens são, em muitas passagens da Escritura, chamados de cegos, e que tal cegueira, à qual se acham condenados, é sobejamente notória, porquanto fracassam miseravelmente em todo seu raciocínio. Pois, donde procedem os infindáveis labirintos e erros no mundo, senão do fato de os homens serem guiados tão somente por seu próprio entendimento às ilusões e falsidades? Não obstante, se porventura nenhuma luz é visível aos homens, conclui-se que este testemunho do Evangelista acerca da divindade de Cristo fica destruído. Porque, como já disse, na vida humana, há algo muito mais excelente do que mero movimento e respiração. O Evangelista antecipa este problema prontamente nos advertindo que a luz outorgada aos homens no princípio não pode ser avaliada em seu presente estado, visto que, nesta natureza arruinada e degenerada, a luz se converteu em trevas. E, no entanto, ele nega que a luz da razão esteja completamente extinta, porquanto na densa escuridão da mente humana brilham ainda algumas centelhas desse esplendor. Agora, o leitor poderá perceber a existência de duas ideias nessa frase. O Evangelista diz que os homens são agora muito diferentes daquela natureza íntegra com a qual foram dotados no princípio. Suas mentes, que teriam sido radiantes em todos os aspectos se acham mergulhadas nas sombras de desditosa cegueira. E assim, nessa corrupção da natureza, a glória de Cristo está como que sombreada. Em contrapartida, porém, o Evangelista afirma que em meio às trevas ficaram ainda certos traços que de algum modo revelam o divino poder de Cristo. O Evangelista monstra, pois, que a mente humana está completamente cega, de tal modo que ela pode ser francamente considerada como que submersa em trevas. Pois ele poderia ter usado um meio termo e dizer que a luz era miserável ou sombria, mas não: ele quis expressar muito mais claramente quão depravada é nossa condição desde a queda do primeiro homem. Sua afirmação de que a luz resplandece nas trevas não pretendia absolutamente exaltar a natureza corrompida. Ao contrário, pretendia despir a ignorância de toda e qualquer justificativa.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

“A VIDA ERA A LUZ DOS HOMENS”


“A VIDA ERA A LUZ DOS HOMENS”

“A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4).

Deliberadamente, desconsidero qualquer outra interpretação que não esteja em harmonia a intenção do Evangelista. Creio ser esta uma referência àquela parte da vida na qual os homens excedem às demais criaturas animadas. É como se ele quisesse dizer que a vida outorgada aos homens não era a vida em geral, mas a vida associada à luz da razão. Além do mais, ele separa os homens dos demais seres, visto que somos cônscios do poder de Deus através do sentimento existente em nós mais do que através da visão ótica dele à distância. Daí, em Atos 17.27, Paulo nos dizer para não buscarmos a Deus como se ele estivesse longe, já que ele se revela em nosso interior. E assim, quando o Evangelista pôs em evidência uma consideração geral da graça de Cristo, procurando persuadir os homens a prestarem maior atenção, ele põe diante deles o que lhes fora outorgado de forma específica – a saber, que não foram criados à semelhança dos seres brutos, senão que, ao serem dotados de razão, foram postos numa categoria muito sublime. Além do mais, visto que Deus eficazmente ilumina suas mentes com sua própria luz, segue-se que foram criados para que pudessem saber que Deus é o Autor de uma bênção tão singular. E visto que essa luz nos flui da Palavra, como sua fonte, ela nos é como um espelho no qual podemos ver claramente o divino poder da Palavra.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“A VIDA ESTAVA NELE”


“A VIDA ESTAVA NELE”

“A vida estava nele e a vida era a luz dos homens” (Jo 1:4).

Até aqui o Evangelista nos ensinou que todas as coisas foram criadas pela Palavra de Deus. Agora, da mesma forma, atribui-lhe a preservação do que fora criado, como se pretendesse dizer que, na criação do mundo, seu poder não apareceu meramente de súbito para, em seguida, desaparecer, mas que o mesmo se faz visível na preservação da ordem fixa e estável da natureza – exatamente como em Hebreus 1.3 está expresso que Deus sustenta todas as coisas pela Palavra ou comando de seu poder. Além do mais, essa vida pode ser ou uma referência mais extensa às criaturas inanimadas, as quais têm sua vida própria, ainda que lhes falte emoção, ou uma referência exclusivamente à vida animada. Pouco importa a escolha que o leitor faça, pois a ideia simplesmente consiste em que a Palavra de Deus não foi apenas a fonte de vida para todas as criaturas, tanto que as que ainda não existiam vieram à existência, mas que seu poder gerador de vida as fez permanecer em seu estado. Pois se sua inspiração não houvera mantido vivo o mundo, o que quer que florescesse, sem dúvida alguma, murcharia imediatamente ou se reduziria a nada. Em suma, o que Paulo atribui a Deus, que nele temos nosso ser, nos movemos e vivemos [At 17.27], João declara se efetuado pela agência graciosa da Palavra. É Deus, pois, quem nos outorga a vida, mas ele o faz pela instrumentalidade da Palavra eterna.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sábado, 3 de outubro de 2026

“NÃO OCULTEI NO CORAÇÃO A TUA JUSTIÇA”

“NÃO OCULTEI NO CORAÇÃO A TUA JUSTIÇA”

“Não ocultei no coração a tua justiça; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação; não escondi da grande congregação a tua graça e a tua verdade” (Sl 40:10).

Aqui se faz necessário observar o acúmulo de termos que são empregados para denotarem a mesma coisa. À justiça de Deus o salmista acrescenta sua fidelidade, sua salvação e sua graça. E qual é o propósito disto senão para magnificar e ressaltar a bondade de Deus através de muitos termos ou expressões de louvor? E preciso, contudo, notar em que aspectos estes termos diferem; porque desta forma poderemos determinar em que aspectos se aplicam ao livramento sobre o qual Davi aqui discursa. Se estas quatro coisas forem tomadas na devida ordem, graça manterá o primeiro lugar, como aquele elemento pelo qual só Deus se induz a dignar-se a abençoar-nos. Sua justiça é a proteção pela qual ele constantemente defende a seu próprio povo, e a bondade pela qual, como já dissemos, ele o preserva. E, para que não haja dúvida alguma de que ela fluirá num curso constante e ininterrupto, Davi acrescenta, em terceiro lugar, a verdade, pela qual somos instruídos de que Deus prossegue sendo sempre o mesmo, e que jamais se cansa de socorrer-nos nem em tempo algum nos deixa escapar de sua mão. Ao mesmo tempo há implícito nisto uma exibição de suas promessas; pois nenhum outro jamais se apropriará corretamente da justiça divina senão aquele que a abraça como ela lhe é oferecida e apresentada na Palavra. Salvação é o efeito da justiça, pois Deus continua a manifestar a seu povo seu gracioso favor, oferendo-lhe diariamente auxílio e assistência, até que o mesmo seja completamente salvo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“ESPEREI CONFIANTEMENTE PELO SENHOR”


“ESPEREI CONFIANTEMENTE PELO SENHOR”

“Esperei confiantemente pelo SENHOR; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro” (Sl 40:1).

O início deste Salmo constitui uma expressão de gratidão na qual Davi relata que fora libertado, não apenas do perigo, mas também da presença da morte. Há quem defenda a opinião, mas sem boas razões, de que esta oração deve ser entendida como resultado de uma enfermidade. Deve-se, sim, pressupor que Davi, nesta passagem, envolve uma infinidade de perigos dos quais ele escapara. Certamente estivera mais de uma vez exposto ao maior de todos os perigos, a morte; de sorte que, com boas razões, podia dizer que fora tragado pelo abismo da morte e atolado em lodo lamacento. Não obstante, o que transparece é que sua fé ainda continuava firme, porquanto não cessou de confiar em Deus, embora a longa permanência da calamidade deixara sua paciência à mercê da exaustão. Ele não nos diz simplesmente que havia esperado, mas a ênfase no verbo revela que fora deixado por longo tempo em angustiante expectativa. À medida, pois, que sua provação se prolongava, a evidência e prova de sua fé em suportar a delonga com calma e estabilidade de mente se faziam ainda mais patentes. O significado em suma consiste em que, embora Deus delongasse seu socorro, não obstante o coração de Davi não desfaleceu, nem se cansou; antes, depois de dar, por assim dizer, suficiente demonstração de sua paciência, por fim foi ouvido. Em seu exemplo surge diante de nós uma doutrina muito proveitosa, a saber: embora Deus não se apresse em surgir em nosso socorro, no entanto propositadamente nos mantém em suspenso e perplexidade; entretanto, não devemos perder a coragem, já que a fé não é totalmente provada senão pela longa espera. O resultado também, do qual ele fala em termos de louvor, deve inspirar-nos com crescente constância. E possível que Deus nos socorra mais lentamente do que gostaríamos, mas quando parece não tomar ele conhecimento de nossa condição, ou, se é que podemos usar tal expressão, quando parece inativo, isso é totalmente diferente de enganar; pois se somos incapazes de suportar, mediante o vigor e o poder invencíveis da fé, o tempo oportuno de nosso livramento por fim se manifestará.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564). 

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

RUACH

RUACH

“Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1:8).

RUACH

Deus em nós
Tu fazes novas todas as coisas.

Vem, envia o Teu fogo santo.

Vem, derrama o Teu poder em nossos corações
Vem, enche a Tua igreja de novo.

Vem, Senhor, esperamos com anseio.

Ruach, Ruach, Ruach
Bem-vindo, sopro de Deus.



 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

“QUEM PRATICA A VERDADE APROXIMA-SE DA LUZ”


“
QUEM PRATICA A VERDADE APROXIMA-SE DA LUZ”

“Quem pratica a verdade aproxima-se da luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque feitas em Deus” (Jo 3:21).

Esta aparenta ser uma afirmação imprópria e absurda, a não ser que o leitor prefira admitir que alguns são retos e verdadeiros mesmo antes que tenham sido renovados pelo Espírito de Deus, o que de forma alguma se harmoniza com a doutrina uniforme da Escritura. Pois bem sabemos que a fé é a raiz da qual procedem os frutos das boas obras. Com vista a resolver esta dificuldade, Agostinho diz que praticar a verdade significa “reconhecer que somos miseráveis e destituídos de todo poder de praticar o bem”; e, por certo, é uma genuína preparação para a fé quando a convicção de nossa pobreza nos compele a fugir para a graça de Deus. Mas tudo isso é amplamente removido da intenção de Cristo, pois ele pretendia simplesmente dizer que aqueles que agem sinceramente nada desejam mais solicitamente do que a luz, para que suas obras sejam julgadas. Porque, quando tal prova é feita, torna-se mais evidente que, à vista de Deus, falam a verdade e são isentos de toda falsidade.

Ora, seria um raciocínio inconclusivo, caso inferíssimos disso que os homens desfrutam de sã consciência antes de experimentar a fé. Porque Cristo não diz que os eleitos creem a ponto de merecerem o louvor das obras, mas simplesmente o que os incrédulos fariam caso não experimentassem uma má consciência.

Cristo empregou a palavra verdade porque, quando somos enganados pelo brilho externo das obras, não consideramos o que está oculto dentro. Consequentemente, diz ele que os homens que são isentos de hipocrisia espontaneamente entram na presença de Deus, o único que é Juiz competente de nossas obras. Porque somos informados que essas obras são feitas em Deus ou de conformidade com Deus, as quais são aprovadas por ele e as quais são boas em consonância com sua norma. Daí, aprendamos que não devemos julgar as obras de qualquer outra maneira senão trazendo-as para a luz do evangelho, porquanto nossa razão é totalmente cega.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

domingo, 20 de setembro de 2026

ZOON VOL GLORIE - FILHO CHEIO DE GLÓRIA

ZOON VOL GLORIE

FILHO CHEIO DE GLÓRIA

Este é o Verbo, aqui em carne e osso
Entre os humildes, mansos e brandos
A voz de Deus, quando Ele fala
O plano de salvação de Deus se revela.

Oh, contemple-O, oh, contemple-O
Venha, erga o olhar, veja o Filho cheio de glória
Hosana, hosana
Venha, louve ao Senhor, honre a Jesus.

Este é o Seu coração, aqui na cruz
De cada ferida flui a Sua graça
Um novo dia, o túmulo vazio
A morte está morta, vencida para sempre.

Oh, contemple-O, oh, contemple-O
Venha, erga o olhar, veja o Filho cheio de glória
Hosana, hosanacheio de glóriaha, louve ao Senhor, honre a Jesus.

Esta é a Sua morada, aqui em nossos corações
Você também ouve o nosso Salvador batendo?
Deixe-O entrar, deixe-O agir
O seu "sim" traz o Reino d'Ele para perto
E ouça os santos, eles se alegram
Por Jesus, nossa Esperança da glória.



 

sábado, 19 de setembro de 2026

“EU SOU A LUZ DO MUNDO”


“EU SOU A LUZ DO MUNDO”

“De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida” (Jo 8:12).

É um belo conhecimento de Cristo quando ele é denominado a luz do mundo, porque, visto que por natureza todos nós somos cegos, um remédio nos é oferecido, pelo qual possamos ser libertos e resgatados das trevas e feitos participantes da genuína luz. Nem é apenas a uma ou outra pessoa que se oferece este benefício, pois Cristo declara que ele é a luz do mundo inteiro. Por meio desta afirmação ele tencionava remover a distinção, não apenas entre judeus e gentios, mas entre o erudito e o ignorante, entre as pessoas de distinção e os plebeus.

Mas devemos primeiramente averiguar que necessidade há para se buscar esta luz, pois os homens jamais se apresentarão a Cristo para serem iluminados, até que saibam que este mundo jaz em trevas e que eles mesmos são totalmente cegos.

Portanto, saibamos que, quando a maneira de se obter esta luz nos remete a Cristo, somos todos condenados por cegueira, tudo quanto consideramos como sendo luz é comparado a trevas e a uma noite muito tenebrosa. Pois Cristo não fala dela como pertencente a ele em comum com outros, mas reivindica como sendo peculiarmente sua. Donde se segue que fora de Cristo não existe uma fagulha de luz genuína. Pode haver certa aparência de luminosidade, porém se assemelha a um relâmpago que apenas ofusca os olhos. Devemos observar ainda que o poder e o ofício de iluminar não se confinam à presença pessoal de Cristo, pois ainda que ele esteja muito afastado de nós no que concerne ao seu corpo, todavia diariamente jorra sua luz sobre nós, através da doutrina do evangelho e pelo poder secreto de seu Espírito. Todavia não teremos uma definição plena desta luz, a menos que aprendamos que somos iluminados pelo evangelho e pelo Espírito de Cristo, para que saibamos que a fonte de todo o conhecimento e sabedoria está oculta nele.

Quem me segue. À doutrina Cristo adiciona uma exortação, a qual ele imediatamente depois confirma por meio de uma promessa. Pois quando aprendemos que todos os que se deixarem governar por Cristo estão fora do perigo de apostatar, devemos sentir-nos impelidos a segui-lo e, deveras, ao estender a sua mão, por assim dizer, ele nos atrai a si. Devemos ainda deixar-nos ser poderosamente afetados por uma promessa tão imensa e magnificente, a saber, que todos quantos dirigem seus olhos para Cristo estão certos de que, mesmo no meio das trevas, serão preservados da apostasia, e que não só por um certo período, mas até que concluam sua trajetória. Pois esse é o significado das palavras usadas no tempo futuro: não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida. Tal também é a substância dessa última sentença, na qual a perpetuidade da vida é declarada em termos expressos. Não devemos temer, pois, que ela nos deixe no meio da jornada, porque ela nos conduz inclusive à vida. Emprega-se o genitivo da vida, em concordância com o idioma hebreu, em vez do adjetivo, para denotar o efeito, como se ele houvera dito: a luz geradora de vida. Não precisamos admirar-nos que trevas tão maciças de erros e superstições prevalecem no mundo, onde tão poucos há que mantêm seus olhos fixos em Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

MARANATHA JESUS MESSIAS

MARANATHA JESUS MESSIAS


MARANATHA JESUS MESSIAS

No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus
E o Verbo se fez carne.

Pois Deus falou conosco por meio de seu Filho
por quem Ele criou o universo
Ele irradia a glória de Deus
Ele é a sua imagem exata
com sua palavra poderosa, Ele sustenta tudo o que existe
Ele é a imagem do Deus invisível,
o primogênito de toda a criação:
nele todas as coisas foram criadas,
tudo o que há nos céus e na terra,
o visível e o invisível,
principados e governantes, poderes e autoridades;
todas as coisas foram criadas por meio dele e para ele.

Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas existem nele.
Ele é a cabeça do corpo, a igreja.
Ele é a Fonte,
o primogênito dentre os mortos,
para que ele tenha a primazia em tudo.

Pois nele toda a plenitude se agradou em habitar,
e, por meio dele e para ele, reconciliar consigo todas as coisas —
tudo o que há na terra e nos céus —
fazendo a paz pelo seu sangue na cruz.

Aquele que testemunha estas coisas diz:
"Sim, venho em breve."
E nós dizemos: "Amém. Vem, Senhor Jesus."

Vem em breve.
Pois disseste: "Faço novas todas as coisas."

E nós dizemos: Maranata.
Jesus, vem em breve
E faze novas todas as coisas.
Maranata.
Jesus, vem em breve
e faze novas todas as coisas.
Maranata
Maranata
Maranata
Maranata
Maranata

Maranata
Vem, Senhor Jesus
Maranata
Vem, Senhor Jesus
Maranata
Vem, Senhor Jesus
Maranata.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

“O AMOR É HUMILDE”


“O AMOR É HUMILDE”

“O amor “não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente” (1Co 13.4,5).

Nas palavras do texto, podemos observar que o amor cristão é expresso como o oposto não só do comportamento soberbo, mas de uma atitude soberba, ou o orgulho no coração, porquanto o amor “não se ensoberbece”. Eis a doutrina que nos é ensinada, nestas palavras: - 

Que o amor cristão, é humilde.

O que é humildade? A humildade pode ser definida como sendo o hábito da mente e do coração que corresponde à nossa indignidade e vileza em comparação com Deus, ou o senso de nossa própria insignificância aos olhos de Deus, com a disposição para um comportamento correspondente à humildade. Ela consiste em parte no senso ou estima que temos de nós mesmos; e, em parte, na disposição que temos para um comportamento correspondente a este senso ou estima. E o primeiro elemento na humildade é: - 

O senso de nossa própria insignificância comparativa. Digo insignificância comparativa por que a humildade é uma graça peculiar aos seres que são gloriosos e excelentes em todos os seus muitos aspectos. Assim os santos e anjos no céu, suplantam em humildade; e esta é peculiar a eles e adequada neles, ainda que sejam seres puros, impolutos e gloriosos, perfeitos em santidade e excelentes na mente e força. Mas, ainda que sejam assim gloriosos, contudo possuem uma insignificância comparativa diante de Deus, e disto são sensíveis, pois lemos que, aquele diante de quem devemos nos humilhar, contempla as coisas que estão no céu (Sl 113.5,6). Assim o homem Jesus Cristo, que é o mais excelente e glorioso de todas as criaturas, no entanto é manso e humilde de coração, e em humildade suplanta todos os demais seres. A humildade é uma das excelências de Cristo, porque ele é não somente Deus, mas também homem, e, como homem, ele era humilde; pois humildade não é, e não pode ser, um atributo da natureza divina. A natureza de Deus é de fato infinitamente oposta ao orgulho, e contudo a humildade não pode ser, propriamente, um predicado dele; pois, se o fosse, isto implicaria imperfeição, o que é impossível em Deus. Deus, que é infinito em excelência e glória, e infinitamente acima de todas as coisas, não pode ter em si qualquer consciência de insignificância, e portanto não pode ser humilde. Humildade, porém, é uma excelência peculiar a todos os seres inteligentes criados, pois todos eles são infinitamente pequenos e insignificantes diante de Deus, e a maioria é de alguma maneira insignificante e inferior em comparação com alguns de seus semelhantes. Humildade implica compromisso com aquela norma do apóstolo (Rm 12.3), a saber, que não devemos pensar de nós mesmos mais do que convém pensarmos, mas que pensemos de nós mesmos sobriamente, segundo Deus trata de cada um, na medida não só da fé, mas também das demais coisas. E esta humildade, como uma virtude nos homens, implica o senso de sua própria insignificância comparativa, tanto quando compara com Deus, como quando comparada com seus semelhantes.

Jonathan Edwards (1703-1758).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE”


“EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE”

“Quando o coração se me amargou e as entranhas se me comoveram, eu estava embrutecido e ignorante; era como um irracional à tua presença” (Sl 73:21,22).

O salmista volta novamente à confissão que previamente fizera, reconhecendo que, enquanto sentia seu coração amargurado e suas entranhas espicaçadas por perversa inveja, ele se queixava de Deus de uma maneira impertinente. Esses pensamentos angustiantes eram, por assim dizer, espinhos que o feriam. Já falamos como o salmista foi afetado por essa ferina humilhação do espírito. Encontraremos muitos homens profanos que, embora neguem que o mundo seja governado pela Providência de Deus, todavia isso não os perturba muito, mas simplesmente sorriem para os caprichos da “sorte”. Em contrapartida, os verdadeiros crentes, quanto mais firmemente estejam convencidos de que Deus é o juiz do mundo, mais aflitos se sentem quando o procedimento dele não corresponde aos desejos deles.

EU ESTAVA EMBRUTECIDO E IGNORANTE. O salmista censura a si próprio de forma cortante, como lhe cabia fazer, em primeiro lugar declarando que se tornara insensato; em segundo lugar, ele se culpa de ignorância; e, em terceiro, ele afirma que se assemelhara aos irracionais. Houvera simplesmente reconhecido sua ignorância, poder-se-ia perguntar: Donde procedia tal vício ou mácula de ignorância? Ele, pois, a atribui a sua própria estultícia; e ao expressar mais enfaticamente sua tolice, ele se compara aos animais inferiores. Equivalendo a isto: a inveja perversa de que falara era oriunda da ignorância e erro, e a culpa de haver assim errado devia ser imputada unicamente a si próprio, visto que perdera o bom senso e discernimento, e não de uma forma corriqueira, mas numa extensão tal que se reduzira ao estado de brutal estupidez. O que já afirmamos previamente é a pura verdade, ou, seja, que os homens nunca formulam um reto juízo das obras de Deus; pois quando aplicam suas mentes a avaliá-las, todas suas faculdades falham, tornando-se impróprias para a tarefa; no entanto o salmista, com razão, põe a culpa de tal fracasso em si próprio, porque, havendo perdido o juízo de ser humano, caíra, por assim dizer, na categoria das criaturas irracionais. Sempre que nos sentirmos insatisfeitos com o método da providência divina em governar o mundo, lembremo-nos que tal coisa se deve atribuir à perversidade de nosso entendimento.

ERA COMO UM IRRACIONAL À TUA PRESENÇA. Aqui deve ser tomado, ao modo de comparação; como se o salmista dissesse: Senhor, embora neste mundo tenha eu a aparência de alguém dotado de juízo e razão superiores, contudo, diante de tua sabedoria celestial, tenho me portado como um dos animais inferiores. Devido a esse fato, os homens se deixam ludibriar não tanto por sua própria estultícia, mas por isto: enquanto se entreolham, todos interiormente se mimam. Entre os cegos, cada um acredita possuir um olho; em outros termos, que ele sobressai aos demais; ou, pelo menos, deleita-se com a reflexão de que seus amigos em sentido algum lhe são superiores em sabedoria. Quando, porém, as pessoas vão a Deus, e se comparam a ele, esse erro tão prevalecente, no qual todos bem depressa adormecem, não pode encontrar qualquer guarida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“COMO TÊM SIDO DESTRUÍDOS”


“COMO TÊM SIDO DESTRUÍDOS”

“Como têm sido destruídos, como por um momento! Têm perecido, têm se consumido com terrores.” (Sl 73:19).

A linguagem de espanto com que o salmista se sente impelido serve bem para confirmar o conteúdo do versículo precedente. Uma vez que a consideração da prosperidade dos ímpios induz certo torpor a nossas mentes, aliás, as torna até mesmo estúpidas, portanto sua destruição, sendo súbita e imprevista, tende a despertar-nos mais eficazmente, sendo cada um de nós constrangido a inquirir como é possível suceder um fato como esse, o qual todos os homens jamais poderiam imaginar que se concretizasse. O profeta, pois, fala do mesmo na forma exclamativa, como de algo incrível. Não obstante, ele ao mesmo tempo nos ensina que Deus está diariamente trabalhando de maneira tal que, se pelo menos abríssemos nossos olhos, veríamos a manifestação de coisas que no mínimo excitariam nosso espanto. Sim, mais ainda, se pela fé olhássemos à distância para os juízos de Deus, diariamente chegando mais e mais perto de nós, nada aconteceria que considerássemos por demais estranho ou difícil de se crer; pois a surpresa que sentimos procede da lentidão e displicência com que procedemos na aquisição do conhecimento da divina verdade. Quando se diz: têm se consumido com terrores, pode-se entender a expressão de duas maneiras. Ou significa que Deus troveja sobre eles de uma maneira tão inusitada, que a própria singularidade do fato os abala com consternação; ou que Deus, embora não estenda suas mãos sobre seus inimigos, não obstante os precipita em consternação e os reduz a nada, tão-somente pelo terror de seu sopro, exatamente no momento em que são surpreendidos desprezando todos os perigos, como se estivessem em perfeita segurança e fazendo um pacto com a morte. Daí virmos antes Davi introduzindo-os a estimular-se em sua obstinação com essa linguagem ostensiva: “Quem é SENHOR sobre nós?” [SI 12.4], Sou mais inclinado a adotar o primeiro sentido; e a razão que me leva a fazer isso é que, quando Deus percebe que somos por demais lentos na avaliação de seus juízos, então ele inflige sobre os ímpios juízos de um gênero mui severo, e os persegue com espantosa manifestação de sua ira, como se provocasse tremores na terra, a fim de, com isso, corrigir a obtusidade de nossa percepção.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).

“LUGARES ESCORREGADIOS”


“LUGARES ESCORREGADIOS”

“Certamente tu os puseste em lugares escorregadios; tu os precipitarás na destruição” (Sl 73:18).

O salmista, passando em revista seus conflitos, começa, se pudermos usar tal expressão, sentindo-se um novo homem; e fala com mente tranquila, sendo, por assim dizer, elevado a uma torre de vigia, donde obtém uma clara e distinta visão das coisas que antes lhe eram ocultas. A resolução do profeta Habacuque era de assumir tal posição, e, por seu exemplo, ele nos prescreve isso como um antídoto em meio às tribulações - “Pôr-me-ei em minha guarda”, diz ele, “e pôr-me-ei sobre a torre” (Hc 2.1). O salmista, pois, mostra quanta vantagem se pode derivar do acesso a Deus. Agora vejo, diz ele, como procedes em tua providência; pois, embora os ímpios continuem estáveis por um breve tempo, contudo estão, por assim dizer, empoleirados em lugares escorregadios, a fim de caírem antes que sejam precipitados na destruição. Ambos os verbos deste versículo estão no pretérito; mas o primeiro, os puseste em lugares escorregadios, deve ser entendido no tempo presente, como se houvesse dito: Deus, por um breve período, os põe em lugares altos, e, quando caem, sua queda pode ser extremamente pesada. É verdade que essa parece ser a porção tanto dos justos quanto dos ímpios; pois tudo neste mundo é escorregadio, incerto e mutável. Visto, porém, que os crentes dependem do céu, ou, melhor, visto que o poder de Deus é o fundamento sobre o qual descansam, não se afirma deles que são postos em lugares escorregadios, não obstante a fragilidade e incerteza que caracterizam sua condição neste mundo. Que embora tremam ou mesmo caiam, o Senhor tem sua mão sob eles para sustê-los e fortalecê-los quando tremerem, e erguê-los quando estiverem prostrados. A incerteza da condição dos ímpios, ou, como ele aqui o expressa, sua condição escorregadia, procede disto: que eles sentem prazer em contemplar seu próprio poder e grandeza, e se admiram por essa conta, tal como uma pessoa que teria de caminhar ociosamente sobre o gelo; e assim, por sua enfatuada presunção, se preparam para cair de ponta cabeça. Não devemos delinear em nossa imaginação a roda da "sorte", a qual, quando gira, enreda todas as coisas em total confusão; devemos, porém, admitir a verdade em relação à qual o profeta aqui chama a atenção, e a qual ele nos diz se faz conhecida de todos os santos no santuário, ou, seja, que há uma secreta e divina providência que administra todas as atividades do mundo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba(PR).