"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 20 de novembro de 2023

“A FIGUEIRA MURCHA” - Introdução e parte do primeiro ponto


“A FIGUEIRA MURCHA” - Introdução e parte do primeiro ponto

“Cedo de manhã, ao voltar para a cidade, teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente. Vendo isto os discípulos, admiraram-se e exclamaram: Como secou depressa a figueira!” (Mt 21.17-20).

Que grande lição para as igrejas! Tem havido igrejas nas quais se destacaram os números e a influência, contudo a fé, o amor e a santidade não foram mantidos, e o Espírito Santo as deixou à exibição vã de uma profissão infrutífera; e ali ficam aquelas igrejas com o tronco da organização e com os galhos amplamente estendidos, mas estão mortas, e ano após ano tornam-se cada vez mais decadentes. Irmãos, temos nesta hora igrejas desse tipo entre os protestantes evangélicos. Que nunca seja assim com esta igreja! Podemos ter um bom número de pessoas que vem para ouvir a Palavra, e um grupo considerável de homens e mulheres que professam estar convertidos; mas a não ser que a piedade vital esteja em seu meio, o que são as congregações e as igrejas? Podemos ter um ministério de valor, mas o que ele seria sem o Espírito de Deus? Podemos ter grandes ofertas, e muitos esforços exteriores, mas o que valem sem o espírito da oração, o espírito da fé, o espírito da graça e da consagração? Eu ficaria apavorado se um dia nós chegássemos a ser como uma árvore precoce, ostentando uma profissão superlativa, mas sem valor aos olhos do Senhor, por estar ausente a vida secreta da piedade e da união vital com Cristo. Seria melhor o machado derrubar todo vestígio da árvore, do que deixá-la em pé sob o céu como uma mentira aberta, uma zombaria, uma ilusão.

I. Em primeiro lugar, então, há no mundo casos de profissão promissora, porém infrutífera. 

Os casos aos quais nos referimos não são tão raros assim. As pessoas envolvidas neles superam, em muito, tantas outras. Sua promessa é bem audível, e seu exterior é muito impressionante. Parecem árvores frutíferas; esperamos delas muitas cestadas dos melhores figos. Elas nos impressionam com a sua conversa, nos deixam assoberbados com os seus modos. Invejamos a elas, e açoitamos a nós mesmos. Essa última atitude talvez não nos faça mal; mas invejar hipócritas não pode deixar de ser danoso a longo prazo; isto porque quando for descoberta a hipocrisia delas, tenderemos a desprezar a religião, como também os que fingem ser religiosos. Acaso vocês não conhecem pessoas que na aparência são tudo e na realidade não são nada? Ó pensamento tenebroso! Nós mesmos poderíamos ser assim? Vejam o homem: ele está forte na fé, até o ponto da presunção; está alegre na esperança, até o ponto da leviandade; é amoroso de espírito, até o ponto de total indiferença quanto à verdade! Como é loquaz na conversa! Como está profundo na especulação teológica! Como é fervoroso em conclamar a movimentos de avanço! Nunca, porém, entrou no reino mediante o novo nascimento. Nunca foi ensinado por Deus. O evangelho chegou a ele somente em palavras. A obra do Espírito Santo lhe é desconhecida. Porventura não existem tais pessoas? Não há pessoas que são defensoras da ortodoxia, no entanto, heterodoxas na sua própria conduta? Não conhecemos homens e mulheres cujas vidas negam o que os seus lábios professam? Temos certeza de que assim é. Todas as vinhas já tiveram nelas figueiras cobertas de folhas, que se destacaram pela folhagem da sua profissão de fé, todavia não produziram frutos para o Senhor.

Deus nos abençoe!

*Introdução e parte do primeiro ponto do sermão “A Figueira Murcha”, por C.H.Spurgeon em 29/09/1889.

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“A FIGUEIRA MURCHA” - Conclusão

 

“A FIGUEIRA MURCHA” - Conclusão (Mt 21.17-20)

Sugiro que todas as pessoas aqui presentes clamem ao Senhor para nos tornar conscientes da nossa esterilidade natural. Amados irmãos, que o Senhor nos leve a lamentar nossa esterilidade, mesmo quando trazemos alguns frutos. Sentirem-se bem satisfeitos consigo mesmos é perigoso: julgarem-se santos, e até mesmo perfeitos, é ficar à beira da fossa do orgulho. Se vocês erguerem a cabeça tão alta, temo que vão batê-la contra a verga da porta. Se andarem sobre pernas de pau, temo que cairão. É muito mais seguro sentir: "Senhor, realmente sirvo a Ti, e não sou enganador. Amo-te realmente; Tu tens operado em mim as obras do Espírito. Mas ai de mim! Não sou o que quero ser, não sou o que devo ser. Aspiro à santidade; ajuda-me a alcançá-la. Senhor, devo ficar deitado no próprio pó diante de Ti quando penso que, depois de ter recebido o trabalho da escavação e da adubação, produzo tão poucos frutos. Sinto que sou menos do que nada. Meu clamor é: "Deus tem misericórdia de mim". Se eu tivesse feito tudo, ainda seria um servo de pouco proveito; mas tendo feito tão pouco, Senhor, onde esconderei a minha cabeça culpada?"

Finalmente, depois de terem feito essa confissão, e o bom Senhor ter ouvido, há um símbolo nas Escrituras que eu gostaria que vocês copiassem. Imaginemos que nesta manhã vocês se sintam tão secos, mortos e infrutíferos, que não podem servir a Deus como gostariam de fazer, nem sequer orar pedindo mais graça, conforme desejam. Então, estão como doze varas. Estão muito mortas e secas, porque ficaram sempre nas mãos de doze chefes, que as usaram como cetros do seu cargo oficial. Essas doze varas devem ser colocadas diante do Senhor. Esta aqui é a de Arão; mas está tão morta e seca como qualquer das demais. Todas as doze são colocadas onde o Senhor habita. Vemo-las no dia seguinte. Onze delas continuam a ser varas secas; mas vejam essa vara de Arão! O que aconteceu? Era seca como a morte. Mas vejam, brotou! Isto é maravilhoso! Mas olhem, floresceu! Há nela flores de amendoeira. São cor-de-rosa e brancas. É uma maravilha! Mas olhem de novo: produziu amêndoas! Aqui estão! Vejam estes frutos verdes, que parecem pêssegos. Tirem a parte carnuda, e aqui está uma amêndoa cuja casca vocês podem quebrar para achar a noz. O poder celestial veio sobre a vara seca, e brotou, e floresceu, e até mesmo produziu amêndoas. Frutificar é a prova da vida e do favor. Senhor, tome essas pobres varas hoje, e faça- as brotar. Senhor, aqui estamos, num feixe, realize aquele milagre antigo em mil de nós. Faça-nos brotar, florescer, e frutificar! Vem com poder divino, e transforma esta congregação de gavela em pomar. Quem dera que nosso bendito Senhor obtivesse um figo dalguma vara seca nesta manhã! — pelo menos um figo tal como este: "Deus tem misericórdia de mim, pecador!" Há doçura nessa oração. Nosso Senhor Jesus gosta do sabor de um figo tal como este: "Senhor, creio! Ajuda a minha falta de fé!" Aqui está outro: "Ainda que ele me mate, nele esperarei" — é uma cestada de figos temporãos, e o Senhor Se regozija na sua doçura. Vem, Espírito Santo, produza frutos em nós hoje, mediante a fé em Jesus Cristo, nosso Senhor! 

Amém e Amém!

C.H.Spurgeon (1834-1892).

*Parte conclusiva do sermão pregado por C.H.Spurgeon em 29/09/1889.

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

domingo, 19 de novembro de 2023

“REGOZIJAI-VOS SEMPRE. ORAI SEM CESSAR. EM TUDO, DAI GRAÇAS”


“REGOZIJAI-VOS SEMPRE. ORAI SEM CESSAR. EM TUDO, DAI GRAÇAS”

“Regozijai-vos sempre. Orai sem cessar. Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.16-18).

Regozijai-vos sempre. Refiro isto à moderação de espírito, quando a mente se mantém calma sob a adversidade, e não dá lugar à tristeza. Concordemente, relaciono estas três coisas entre si: regozijar-se sempre, orar sem cessar e em tudo dar graças. Pois, quando recomenda a oração constante, o apóstolo Paulo aponta o meio de se regozijar perpetuamente, porque através deste meio pedimos a Deus alívio em relação a todas as nossas aflições. De modo semelhante, em Filipenses 4.4, tendo dito: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos. Seja a vossa moderação notória a todos. Não estejais inquietos por coisa alguma. Perto está o Senhor”, ele indica a seguir o meio para isto: “antes as vossas petições sejam em tudo conhecidas diante de Deus, com ação de graças”.

Nessa passagem, como sabemos, o apóstolo apresenta como fonte de alegria uma mente calma e serena, que não é excessivamente perturbada por injúrias ou adversidades. Mas, para que não sejamos abatidos pela aflição, tristeza, ansiedade e temor, ele nos manda descansarmos na providência de Deus. E, como frequentemente se introduzem dúvidas quanto a se Deus cuida de nós, também prescreve o remédio – que, pela oração, descarreguemos nossas ansiedades como que em seu seio, como Davi nos recomenda a fazer em Sl 37.5 e Sl 55.22; e Pedro também, conforme o seu exemplo (1Pe 5.7). Como, porém, somos excessivamente precipitados em nossos desejos, ele impõe um freio sobre eles – que, embora desejemos aquilo de que precisamos, ao mesmo tempo não deixemos de dar graças.

Paulo observa, aqui, praticamente a mesma ordem, embora em menos palavras. Pois, antes de tudo, queria que tivéssemos os benefícios de Deus em tanta estima que o reconhecimento deles e a meditação sobre eles superassem toda a tristeza. E, sem sombra de dúvida, se consideramos o que Cristo nos concedeu, não haverá amargura de tristeza tão intensa que não possa ser aliviada, e dê lugar à alegria espiritual. Pois, se esta alegria não reina em nós, o reino de Deus é ao mesmo tempo banido de nós, ou nós dele. E muito ingrato a Deus é o homem que não dê um valor tão elevado à justiça de Cristo e à esperança da vida eterna, regozijando-se em meio à tristeza. Como, porém, nossas mentes são facilmente abatidas, até que deem lugar à impaciência, devemos observar o remédio que ele prescreve logo após. Pois, ao sermos derribados e abatidos, somos novamente levantados pelas orações, porque colocamos sobre Deus o que nos sobrecarregava. Como, porém, a cada dia, sim, a cada instante, há muitas coisas que podem perturbar a nossa paz, e frustrar a nossa alegria, por esta causa ele nos manda orar sem cessar. Ação de graças, conforme disse, é acrescentada como uma limitação. Pois muitos oram de tal modo que ao mesmo tempo murmuram contra Deus, e se queixam de que ele não gratifique imediatamente seus desejos. Mas, pelo contrário, é conveniente que nossos desejos sejam refreados de tal modo que, contentes com o que nos é dado, sempre misturemos ações de graças aos nossos desejos. É verdade que podemos licitamente pedir, sim, suspirar e lamentar, mas isto deve ser de tal modo que a vontade de Deus seja mais aceitável a nós do que a nossa própria.

Pois esta é a vontade de Deus. Deus possui tal disposição para conosco em Cristo que mesmo em nossas aflições temos grande oportunidade de dar graças. Pois, o que é mais justo e mais apropriado para nos apaziguar, senão quando sabemos que Deus nos abraça em Cristo tão ternamente, que ele torna em nosso benefício e felicidade todas as coisas que nos ocorrem? Portanto, tenhamos em mente que este é um remédio especial para corrigir a nossa impaciência – desviar nossos olhos de contemplar os males presentes que nos atormentam, e direcionar nossa vista a uma consideração de natureza diferente: como Deus permanece favorável a nós em Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

“O AMOR QUE PROCEDE DE CORAÇÃO PURO”


“O AMOR QUE PROCEDE DE CORAÇÃO PURO”

“Mas o intuito da presente admoestação é o amor que procede de coração puro, de uma consciência íntegra, e de uma fé sem fingimento” (1Tm 1.5).

Se o objetivo e o fim da lei é que sejamos instruídos no amor que nasce da fé e de uma consciência íntegra, conclui-se, pois, que aqueles que desviam seu ensino para questões motivadas pela curiosidade são maus intérpretes da lei. Nesta passagem, não é de grande relevância se o amor é considerado como uma referência a ambas as tábuas da lei ou só a segunda. Recebemos o mandamento de amar a Deus de todo o nosso coração e ao nosso próximo como a nós mesmos, ainda que, quando o amor é mencionado na Escritura, geralmente se restrinja mais ao amor ao próximo. Neste versículo, não hesitaria em entender o amor como sendo tanto a Deus quanto ao próximo, se Paulo houvera mencionado unicamente a palavra amor. Visto, porém, que ele acrescenta a fé e uma consciência íntegra, a interpretação que estou para apresentar se adequa muito bem ao contexto em que ele está escrevendo. A suma da lei consiste em que devemos adorar a Deus com uma fé genuína e uma consciência pura, bem como devemos igualmente amar uns aos outros; e todo aquele que se desvia disso corrompe a lei de Deus, torcendo-a para servir a algum outro propósito alheio a ela mesma.

Aqui, porém, pode surgir uma dúvida, ou seja: Paulo, aparentemente, situa o amor antes da fé. Minha resposta é que aqueles que pensam assim estão se portando como infantis, pois o fato de o amor ser mencionado primeiro não significa que ele desfruta do primeiro lugar de honra, já que Paulo também deixa em evidência que ele procede da fé. Ora, a causa, indubitavelmente, tem prioridade sobre o efeito, e se todo o contexto for levado em conta, o que Paulo está dizendo é o seguinte: “A lei nos foi promulgada a fim de instruir-nos na fé, a qual é a mãe de uma consciência íntegra e de um amor genuíno”. Daí termos que começar com a fé e não com o amor.

Há pouca distinção entre coração puro e consciência íntegra. Ambos são frutos da fé. Atos 15.9 fala de um coração puro, ao dizer que “Deus purifica os corações mediante a fé”. E Pedro diz que uma consciência íntegra está fundamentada na ressurreição de Cristo (1Pe 3.21). À luz desta passagem torna-se evidente que não pode haver amor sem o temor de Deus e a integridade de consciência. Devemos notar os termos que Paulo usa para descrever cada uma dessas virtudes. Não há nada mais comum ou mais fácil do que vangloriar-se da fé e de uma consciência íntegra, porém são mui poucos os que comprovam por meio de seus atos que estão isentos de toda sombra de hipocrisia. Devemos notar especialmente como ele fala da fé sem fingimento, significando que é insincera qualquer profissão de fé que não se pode comprovar por uma consciência íntegra e manifestar-se no amor. Visto que a salvação do homem depende da fé, e a perfeita adoração divina consiste de fé e de uma consciência integra e de amor, não precisamos sentir-nos surpresos por Paulo dizer que estes elementos constituem a suma da lei.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

CD Boas Palavras - Pr. Josué Rodrigues

CD Boas Palavras - Pr. Josué Rodrigues

“De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor” (Sl 45.1)


Deus nos abençoe!

“GRAÇA A VÓS OUTROS E PAZ”


“GRAÇA A VÓS OUTROS E PAZ”

“Graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do [nosso] Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (Gl 1.3-5).

Graça a vós e paz. Essa forma de saudação ocorre em outras epístolas. Sou da opinião de que o apóstolo Paulo deseja que os gálatas desfrutem da amizade com Deus e, com ela, de todas as boas coisas. Pois todo o gênero de prosperidade nos emana do favor de Deus. Paulo apresenta suas orações tanto a Cristo quando ao Pai, porquanto fora de Cristo não pode haver nem graça e nem qualquer bom êxito.

O apóstolo começa enaltecendo a graça de Cristo, com o fim de chamar os gálatas de volta para ele e para perseverar nele. Porque, se porventura tivessem realmente apreciado esta bênção redentiva, jamais se haveriam desviado para observâncias estranhas. Aquele que conhece a Cristo certamente se apegará a ele, o abraçará com ambos os braços, se sentirá completamente acolhido nele e nada desejará além dele. O melhor antídoto para purificar nossas mentes de qualquer gênero de erro ou superstição é guardar na lembrança o que Cristo representa para nós e o fato de que ele nos tem conduzido.

As palavras - “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados” - são muito importantes. O que Paulo desejava dizer aos gálatas, francamente, é que a expiação dos pecados e a perfeita justiça não devem ser buscadas em qualquer outra fonte além de Cristo. Pois ele se ofereceu ao Pai em sacrifício. E, ele foi uma oferenda tal que não devemos tentar equipará-la com quaisquer outras satisfações. Tão gloriosa é esta redenção, que devemos olhar para ela fascinados e maravilhados. Além do mais, o que Paulo aqui atribui a Cristo, em outras partes da Escritura é referido a Deus, o Pai. E tal coisa se adequa bem a ambos; pois, de um lado, o Pai, por seu eterno propósito, decretou esta expiação, e nela deu tal prova de seu amor para conosco que não poupou ao seu Unigênito Filho, mas o entregou por todos nós. E Cristo, por outro lado, se ofereceu em sacrifício para reconciliar-nos com Deus. Daqui, segue-se que sua morte é a satisfação pelos [nossos] pecados.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“APÓSTOLO, NÃO DA PARTE DE HOMENS”

 

“APÓSTOLO, NÃO DA PARTE DE HOMENS”

“Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl  1.1).

Em suas saudações, o apóstolo Paulo tinha por costume reivindicar o título de apóstolo com o fim de corroborar seu ensino com a autoridade inerente ao seu ofício. Essa autoridade depende, não do critério ou opinião de homens, mas exclusivamente da vocação divina. Devemos notar que ele diz que não fora chamado da parte de homens, nem por intermédio de homem algum. Com isso, ele não pretendia excluir inteiramente a vocação da Igreja, mas simplesmente mostrar que seu apostolado repousava numa escolha prévia e mais excelente.

Paulo também declara que os Autores de seu apostolado foram Deus o Pai e Jesus Cristo. Cristo é evocado em primeiro, porque seu papel é enviar, e o nosso é sermos embaixadores dele. Mas, para tornar a afirmação mais completa, o Pai é também mencionado, como se quisesse dizer: “Se porventura existe alguém para quem a majestade de Cristo é inteiramente insuficiente, então que o mesmo saiba que meu ofício foi também recebido de Deus o Pai”.

A sua menção da ressurreição de Cristo por Deus o Pai é pertinente a este contexto, porquanto esse é o princípio do reino de Cristo. Censuravam Paulo por ele não ter tratado com Cristo face a face enquanto ele estivera na terra. Mas o apóstolo afirma o contrário, dizendo que, assim como Cristo fora glorificado por sua ressurreição, assim também ele igualmente exerce seu poder no governo de sua Igreja. A vocação de Paulo, pois, tem ainda mais honra do que se Cristo, quando ainda era um mortal, o houvera ordenado. E este fato merece atenção. Pois Paulo insinua que seus detratores estavam de fato atacando maliciosamente o maravilhoso poder de Deus que fora demonstrado na ressurreição de Cristo. Pois o mesmo Pai celestial que ressuscitara a Cristo dentre os mortos também designara a Paulo como arauto dessa sua portentosa obra.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.  

“EIS QUE VOS DIGO UM MISTÉRIO”


EIS QUE VOS DIGO UM MISTÉRIO”

“Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos” (1Co 15.50,51).

Ao chegar a este ponto, o argumento do apóstolo Paulo consistiu de duas partes. Ele demonstrou, antes de tudo, que haverá ressureição dos mortos; e, em segundo lugar, qual será a natureza da ressurreição. Mas agora ele prossegue apresentando uma descrição mais completa de como ela se dará, chamando sua descrição de mistério, visto que não havia a mesma clareza sobre esta, como no caso dos outros aspetos, na ausência, até aqui, de qualquer revelação de Deus sobre o assunto. Paulo procede assim a fim de levá-los a prestar mais atenção ao que tem a dizer. Ao fazer uso do termo “mistério”, ele está a adverti-los de que estão se tornando familiarizados com algo sobre o qual não só não sabem nada, mas também que deve ser considerado como parte dos segredos celestiais de Deus.

Nem todos dormiremos. Não há variante nos manuscritos gregos, mas há três redações diferentes no latim. A primeira é: “Na verdade todos morreremos, mas nem todos seremos transformados”. A segunda é: “Na verdade todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados”. A terceira é: “Certamente, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados”. Minha conjectura é que estas diferenças são oriundas do fato de que alguns revisores, sendo um tanto obtusos, e achando a redação genuína um tanto inconsistente, tomaram a iniciativa de substituí-la pela que entendiam se a mais provável. Porque, em face da dificuldade, parecia-lhes inconveniente que “nem todos morreremos”, quando Hebreus 9.27 afirma que “aos homens está determinado morrerem uma vez”. Portanto, o alteraram para que significasse “nem todos seremos transformados”, e ainda que “todos ressuscitaremos”, ou “todos morreremos”, e ser transformados, para eles, significa a glória que somente os filhos de Deus receberão. Porém, à luz do contexto, podemos decidir qual é a redação genuína.

O propósito de Paulo é explicar o que já havia dito, ou seja, que seremos feitos semelhantes a Cristo, porque “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus”. Mas isto suscita a seguinte pergunta: qual, pois, será o destino daqueles que estiverem vivos quando o Dia do Senhor chegar? Paulo responde que, embora não morram, não obstante serão todos renovados, para que a mortalidade e a corrupção sejam destruídas. Notemos, porém, que ele está falando somente dos crentes; porque, ainda que haverá ressurreição, e até mesmo transformação dos incrédulos, todavia, diante do fato de que são passados em silêncio aqui, devemos entender tudo o que ficou dito como aplicando-se exclusivamente aos eleitos. Agora percebemos o quanto esta frase se ajusta à precedente, porque, havendo dito que levaremos a imagem de Cristo, ele agora esclarece que tal se dará quando formos transformados, para que o que é mortal seja absorvido pela vida, e também mostra que não se fará nenhuma diferença nesta transformação, que a vinda de Cristo alcançará alguns que ainda estarão vivos naquele tempo.

Mas ainda temos que encontrar uma solução para o problema de que “está determinado que todos os homens morram”; e de fato esta não é uma tarefa difícil. Visto que a transformação não pode acontecer sem a destruição da natureza que existia previamente, e tal transformação é corretamente considerada como uma espécie de morte; porém, visto que não há separação entre a alma e corpo, esta não deve ser imaginada como sendo uma morte ordinária. Será morte no sentido em que nossa natureza corruptível será destruída; não será adormecimento, visto que a alma não se separará do corpo; mas haverá uma súbita transição de nossa natureza corruptível para a bem-aventurada imortalidade.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.  

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

“CONSIDERAI-VOS MORTOS PARA O PECADO”


“CONSIDERAI-VOS MORTOS PARA O PECADO”

“Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.11).

O apóstolo Paulo agora adiciona a definição de sua analogia. Ele aplica as duas afirmações concernentes ao fato de Cristo morrer para o pecado uma vez por todas e viver eternamente para Deus (v.10), e nos instrui em como devemos agora morrer enquanto vivemos, ou seja: pela renúncia do pecado. Entretanto, ele não omite a outra parte da analogia, isto é, como vamos viver depois de termos uma vez para sempre abraçado a graça de Cristo mediante a fé. Embora a mortificação de nossa carne esteja apenas começando em nós, todavia a vida de pecado está destruída por este mesmo expediente, de modo que a nossa renovação espiritual, a qual é de caráter divino, venha a continuar para sempre. Se Cristo por fim não destruísse o pecado em nós, então sua graça seria carente de estabilidade e continuidade.

Portanto, o significado desta passagem é o seguinte: “Eis a posição que deves assumir, em teu caso: Assim como Cristo, uma vez por todas, morreu para destruir o pecado, também deves morrer uma vez por todas a fim de que, no futuro, cesses de pecar. De fato, deves progredir diariamente na mortificação de tua carne, a qual já teve início em ti, até que o pecado seja de vez erradicado. Assim como Cristo ressuscitou para uma vida incorruptível, também deves ser regenerado pela graça de Deus, a fim de seres guiado por toda a tua vida em santidade e justiça, visto que o poder do Espírito Santo, por meio do qual foste renovado, é eterno, e florescerá para sempre”.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.