"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



segunda-feira, 11 de novembro de 2024

“DOUTRINA DA ADOÇÃO”


DOUTRINA DA  ADOÇÃO”

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade” (Ef 1.3-5).

“Todos quantos são justificados, Deus se digna fazer participantes da graça da adoção, em e por seu único Filho Jesus Cristo; por meio de quem são eles recebidos no número e desfrutam da liberdade e privilégios dos filhos de Deus; têm sobre si o nome dele, recebem o Espírito de adoção; têm acesso, com ousadia, ao trono da graça; são capacitados a clamar: Aba, Pai; são tratados com piedade, protegidos, sustentados e corrigidos por ele como por um pai; contudo, jamais abandonados, mas selados para o dia da redenção, e herdam as promessas, como herdeiros da eterna salvação” (Da Adoção - CFW XII).

Ef 1.5; Gl 4.4,5; Rm 8.17; Jo 1.12; Jr 14.9; 2Co 5.18; Ap 3.12; Rm 8.15, Ef 3.12; Rm 5.2; Gl 4.6; Sl 103.13; Pv 14.26; Mt 6.30,32; 1Pe 5.7; Hb 12.6; Lm 3.31; Ef 4.30; Hb 6.12; 1Pe 1.3,4; Hb 1.14.

No mesmo instante em que um crente é unido a Cristo no exercício da fé, ter-se-ão consumado nele simultânea e inseparavelmente duas coisas:

1. Uma mudança total de relação com Deus e com a lei como um pacto de vida; e

2. Uma mudança de sua natureza interior e espiritual. A mudança de relação é representada pela justificação; a mudança de natureza, pela regeneração. Regeneração é um ato de Deus, originando, por meio de uma nova criação, uma nova vida espiritual no coração do sujeito. O primeiro e instantâneo ato dessa nova criatura, resultante de sua regeneração, é ou crer, confiante recepção da pessoa e obra de Cristo. No exercício da fé pela alma regenerada, justificação é o ato instantâneo de Deus, sobre a base daquela perfeita justiça que a fé do pecador apreendeu, declarando-o livre de toda condenação e com o direito legal às relações e benefícios assegurados pelo pacto que Cristo cumpriu em seu favor. Santificação é o desenvolvimento progressivo para a perfeita maturidade dessa nova vida que foi implantada na regeneração. A adoção representa a nova criatura em suas novas relações - suas novas relações introduzidas num coração apropriado, e sua nova vida desenvolvendo-se num ambiente apropriado e cercado daquelas relações que nutrem seu crescimento e a coroa com bem-aventurança. A justificação só efetua uma mudança de relações. A regeneração e a santificação só efetuam um estado inerente moral e espiritual da alma. A adoção inclui ambas. Como apresentada na Escritura, ela segue, num cenário complexo, a criatura recém-regenerada nas relações em que ela é introduzida pela justificação.

Esta divina filiação, na qual o crente é introduzido pela adoção, inclui os seguintes elementos e vantagens primordiais:

2.1. Deriva a natureza espiritual de Deus: “Para que sejais participantes da natureza divina”. 2Pe 1.4; Jo 1.13; Tg 1.18; 1Jo 5.18.

2.2. Nasce à imagem de Deus, portanto sua semelhança: “E revestindo-se do novo homem, que é renovado no conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”. Cl 3.10; Rm 8.29; 2Co 3.18.

2.3. Leva seu nome. 1Jo 3.1; Ap 2.17; 3.12.

2.4. Torna-se objeto de seu amor especial: “Para que o mundo conheça que tu me enviaste, e eles me têm amado, como tu me amaste”. Jo 17.23; Rm 5.5-8.

2.5. Torna-se habitação do Espírito de seu Filho (G 4.6), que forma em nós um espírito filial ou um espírito que nos faz filhos de Deus - obedientes (1Pe 1.13; 2Jo 6), livres do senso de culpa, da escravidão legal e do medo da morte (Rm 8.15-21; Gl 5.1; Hb 2.15) e elevados com santa ousadia e com dignidade real (Hb 10.19,22; 1Pe 2.9;4.14).

2.6. Representa proteção, consolação e suprimentos abundantes. Sl 125.2; Is 66.13; Lc 12.27-32; Jo 14.18; 1Co 3.21-23; 2Co 1.4.

2.7. Representa disciplina paternal para nosso bem, inclusive aflições espirituais e temporais. Sl 51.11,12; Hb 12.5-11.

2.8. Garante a herança das riquezas da glória de nosso Pai, como “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.17; Tg 2.5; 1Pe 1.14; 3.7), inclusive a exaltação de nossos corpos em comunhão com o Senhor. Rm 8,23; Fp 3.21.

“Pela fé, Abel ofereceu a Deus mais excelente sacrifício do que Caim; pelo qual obteve testemunho de ser justo, tendo a aprovação de Deus quanto às suas ofertas. Por meio dela, também mesmo depois de morto, ainda fala” (Hb 11.4; Gn 4.4).

“Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai” (Rm 8.15).

Deus nos abençoe!

A.A.Hodge (1823-1886).

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sexta-feira, 8 de novembro de 2024

“A BOA, AGRADÁVEL E PERFEITA VONTADE DE DEUS”


“A BOA, AGRADÁVEL E PERFEITA VONTADE DE DEUS” 

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

Eis aqui o propósito pelo qual devemos revestir-nos de uma nova mente, a saber: para que renunciemos aos nossos próprios conselhos e desejos, bem como aos de todos os homens, e para que nos voltemos exclusiva e totalmente para a vontade de Deus. O conhecimento da vontade de Deus equivale à verdadeira e genuína sabedoria. Ora, se a renovação de nossa mente é indispensável para o propósito de se provar qual é a vontade de Deus, então faz-se evidente quão hostil é a mente humana em relação a Deus.

Os qualificativos acima adicionados pelo apóstolo Paulo são usados para enaltecer a vontade de Deus, a fim de podermos buscar o conhecimento de Deus com muito mais avidez. Naturalmente que, se é verdade que devemos reprimir toda e qualquer obstinação de nossa parte, devemos, em contrapartida, celebrar o genuíno louvor à justiça e à perfeição da vontade de Deus. O mundo se sente persuadido de que as obras que ele tem engendrado são boas. O apóstolo exclama que boas e justas são só as obras determinadas por Deus e ordenadas em seus mandamentos. O mundo se deleita com suas próprias invenções e as proclama. O apóstolo afirma que a única coisa que de fato agrada a Deus é aquilo que ele ordenou. O mundo, com o fim de encontrar a perfeição, foge da Palavra de Deus e se refugia em suas invenções. O apóstolo declara que a perfeição se encontra na vontade de Deus, e mostra que se alguém transgride este limite, o mesmo está sendo iludido por falsas imaginações.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“E NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE SÉCULO”


“E NÃO VOS CONFORMEIS COM ESTE SÉCULO”
 

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).

Ainda que o termo século [mundo] traga em si muitos significados, aqui significa o caráter e a conduta do ser humano. E é em relação a este sentido que o apóstolo Paulo, com sobejas razões, nos proíbe a nos conformarmos. Visto que o mundo todo jaz no maligno [1Jo 5.19], então devemos despir-nos de tudo quanto pertence à natureza humana, se verdadeiramente anelamos por revestir-nos de Cristo. Para remover qualquer dúvida, ele explica o seu significado a partir do aposto, ou seja: nos convoca a deixarmo-nos transformar pela renovação de nossa mente.

“Mas transformai-vos pela renovação da vossa mente”. Temos de observar ainda, aqui, qual a renovação que se nos exige. Não é aquela que se restringe somente à carne, ou seja: a renovação da daquela parte inferior da alma; ao contrário, e a renovação da mente, que é a nossa parte mais excelente, e à qual os filósofos atribuem a preeminência. Eles a chamam de, o princípio regulador, e afirmam que a razão é a rainha de suprema sabedoria. Entretanto, o apóstolo a arranca de seu trono e a reduz a nada, ensinando-nos que a nossa mente tem de ser renovada. Ainda quando muitos de nós nos exaltemos, as palavras de Cristo continuam sendo verdadeiras, ou seja: que o homem como um todo tem de nascer de novo se porventura deseja entrar no reino de Deus; porquanto, tanto na mente quanto no coração, todos nós estamos inteiramente alienados da justiça divina.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 31 de outubro de 2024

“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE III


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE III

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

“O vosso culto racional”. Em minha opinião, esta cláusula foi adicionada para imprimir à exortação precedente uma melhor explicação e confirmação. É como se Paulo dissesse: “Apresentai-vos como sacrifício [oferecido] a Deus, se realmente tencionais cultuá-lo; porquanto este é o modo correto de servir a Deus. E se porventura vos apartardes dele, então vos revelareis como falsos adoradores”. E se Deus só é corretamente adorado à medida que regulamos nossas ações pelo prisma de seus mandamentos, então de nada nos valerão todas as demais formas de culto que porventura engendrarmos, as quais ele com toda razão abomina, visto que põe a obediência acima de qualquer sacrifício. O ser humano deleita-se com suas próprias invenções e (como diz o apóstolo em outro lugar) com suas vãs exibições de sabedoria; mas aprendemos o que o Juiz celestial declara em oposição a tudo isso, quando nos fala por boca do apóstolo. Ao denominar o culto que Deus ordena de racional, ele repudia tudo quanto contrarie as normas de sua Palavra, como sendo mero esforço insensato, insípido e inconsequente.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE II


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE II

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

“Que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”. O conhecimento de que somos agora consagrados ao Senhor é, portanto, o ponto de partida do genuíno percurso em direção à vida de boas obras. Segue-se daqui que nos é mister cessar de viver para nós mesmos, a fim de podermos devotar todas as ações de nossa vida ao culto divino.

Há, pois, duas questões a serem ponderadas aqui. A primeira é que pertencemos ao Senhor; e a segunda é que devemos, por esta mesma razão, ser santos, porquanto seria uma afronta à santidade do Senhor oferecer-lhe algo que não haja sido antes consagrado. Desta pressuposição segue-se, ao mesmo tempo, que devemos meditar sobre a santidade que deve permear todas as áreas e toda a extensão de nossa vida. Segue-se também, deste mesmo fato, que seria uma espécie de sacrilégio reincidirmos na impureza, pois tal coisa seria pura e simplesmente profanar o que já havia sido santificado.

A linguagem do apóstolo Paulo sofre uma grande mudança. Primeiramente, ele afirma que o nosso corpo deve ser oferecido a Deus em forma de sacrifício. Com isto ele pretende ensinar que não mais nos pertencemos, senão que passamos a pertencer inteiramente a Deus. Contudo, isto não pode acontecer sem primeiro não renunciarmos ou negarmos a nós mesmos. Ele, pois, declara, através dos adjetivos que adiciona, que gênero de sacrifício é este. Ao qualificá-lo de vivo, sua intenção é que somos sacrificados ao Senhor a fim de que nossa vida anterior seja destruída em nós, e que sejamos ressuscitados para uma nova vida. Pelo termo santo ele aponta, como já mencionamos, para a genuína natureza de um ato sacrificial. Porque a vítima do sacrifício só é agradável e aceitável a Deus quando é previamente santificada. O terceiro adjetivo [aceitável] nos lembra que nossa vida só é corretamente ordenada quando regulamos este auto-sacrifício de acordo com a vontade de Deus. Este elemento não nos traz algum consolo supérfluo, pois ele nos instrui que nossos labores são agradáveis e aceitáveis a Deus quando nos devotamos à retidão e à santidade.

Pelo termo corpo ele não quer dizer simplesmente nosso corpo físico, composto de pele, músculos e ossos, mas aquela plenitude existencial da qual nos compomos. Paulo usou este termo, por sinédoque, para denotar toda a nossa personalidade, pois os membros do corpo são os instrumentos pelos quais praticamos nossas ações. Ele também requer de nós integridade, não só do corpo, mas também da alma e do espírito, como lemos em 1 Tessalonicenses 5.23. Ao convidar-nos a apresentarmos os nossos corpos, ele está fazendo alusão aos sacrifícios mosaicos, os quais eram apresentados no altar como na própria presença de Deus. Outrossim, ele está também fazendo uma extraordinária referência à prontidão que devemos demonstrar ao recebermos os mandamentos de Deus, para que os cumpramos sem detença.

Deduzimos deste fato, que todos aqueles que não se propõem a cultuar a Deus, simplesmente fracassam e se extraviam por caminhos que levam a uma miserável condição. Agora também entendemos que tipo de sacrifício o apóstolo recomenda a Igreja Cristã. Visto que nos reconciliamos com Deus, em Cristo, através de seu verdadeiro sacrifício, somos, todos nós, por sua graça, feitos sacerdotes com o fim de podermos consagrar-nos a ele como sacrifício vivo e tributar-lhe toda glória por tudo que temos e somos. Não resta mais nenhum sacrifício expiatório para se oferecer, e não se pode fazer tal coisa sem trazer grande desonra para a cruz de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE I


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - PARTE I

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

Sabemos muito bem como os devassos alegremente se apegam a tudo quanto a Escritura proclama concernente à bondade infinita de Deus, e isso com o propósito de desfrutarem ao máximo da carne. Os hipócritas, em contrapartida, maliciosamente obscurecem seu conhecimento da bondade divina, tanto quanto podem, como se a graça de Deus extinguisse sua busca por uma vida de piedade e lhes abrisse uma ampla porta a fim de viverem ousadamente em pecado. A súplica do apóstolo Paulo nos ensina que os homens jamais adorarão a Deus com sinceridade de coração, nem se despertarão para o temor e obediência a Deus com suficiente zelo, enquanto não entenderem consistentemente, quanto são devedores para com a misericórdia de divina. As seitas e os hereges consideram como sendo suficiente se conseguem infundir algum gênero de obediência forçada através do medo. Paulo, contudo, com o fim de subjugar-nos a Deus, não por meio de um temor servil, mas através de um amor voluntário e anelante por justiça, nos atrai com suavidade para aquela graça na qual consiste nossa salvação. Ao mesmo tempo, ele reprova nossa ingratidão se porventura, depois de experimentarmos a ação bondosa e liberal de nosso Pai celestial, não pusermos todo o nosso empenho em total dedicação a ele.

A ênfase de Paulo, ao exortar-nos como faz, é de todas a mais poderosa, e ele mesmo excede a todos na glorificação da graça de Deus. O coração que não se deixa incendiar pela doutrina da graça, e não arde de amor por Deus, cuja bondade para com ele é infinitamente profusa, deve ser de aço [e não de carne]. Onde, pois, estão aqueles para quem todas as exortações que visem a uma vida honrada não têm razão de ser, já que a salvação do homem depende tão-somente da graça divina? Para estes, uma mente piedosa não é formada para obedecer a Deus por meio de preceitos ou sanções, e nem ainda por meio de meditações sérias sobre a benevolência divina em seu favor.

Podemos observar, ao mesmo tempo, a candidez do coração do apóstolo, visto ter ele preferido tratar com os crentes em termos de admoestações e súplicas fraternais do que em termos de ordenanças estritas. Ele sabia muito bem que desta forma iria alcançar mais resultado entre aqueles que se dispuseram a ser instruídos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - INTRODUÇÃO


“ROGO-VOS, POIS, IRMÃOS” - INTRODUÇÃO

“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (Rm 12.1).

O apóstolo Paulo considerou até aqui aquelas questões que lhe eram indispensáveis como ponto de partida para o soerguimento do reino de Deus. Nossa busca pela justiça deve deter-se somente em Deus; a contemplação de nossa salvação deve estar voltada para sua misericórdia; e a soma de todas as nossas bênçãos é posta diante de nós e nos é diariamente oferecida em Cristo - e em nenhum outro! Ele agora avança em direção da regulamentação de nossas ações morais, seguindo um arcabouço bem ordenado. Visto que a alma é regenerada para uma vida [de natureza] celestial, por meio daquele conhecimento salvífico de Deus e de Cristo; e nossa própria vida é formada e regulada por preceitos e exortações santos, revelar entusiasmo pela ordenação de nossa vida seria em vão se primeiro não demonstrarmos que a origem de toda a justiça do homem deve ser encontrada só em Deus e em Cristo. Isto é o que significa levantar os homens dentre os mortos.

Esta é a principal diferença entre o evangelho e a filosofia. Ainda que os filósofos abordem temas esplendidamente de cunho moral, com inusitada habilidade, no entanto todo o ornamento que sobressai de seus preceitos nada é senão uma bela superestrutura sem um sólido fundamento; porque ao omitir princípios, eles não fazem outra coisa senão propor uma doutrina mutilada, como um corpo sem cabeça. Este é exatamente o mesmo método de doutrinamento entre os católicos romanos. Embora falem incidentalmente sobre a fé em Cristo e da graça do Espírito Santo, é plenamente evidente que se avizinham mais dos filósofos pagãos do que de Cristo e seus discípulos.

Como os filósofos, antes de legislarem sobre moralidade, discutem o propósito da bondade e inquirem acerca das fontes das virtudes, das quais, por fim, extraem e derivam todos os deveres, assim Paulo estabelece, aqui, o princípio do qual fluem todas as partes que compõem a santidade, ou seja: que somos redimidos pelo Senhor com o propósito de consagrar-lhe a nós mesmos e a todos os nossos membros.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

“LOUCURA DA PREGAÇÃO”


“LOUCURA DA PREGAÇÃO”

“Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação” (1Co 1.21).

O apóstolo Paulo faz uma concessão ao chamar o evangelho de loucura da pregação, pois esta é precisamente a luz da qual o evangelho é considerado por aqueles “sábios insensatos” que, intoxicados por falsa confiança, não temem sujeitar a inviolável verdade de Deus à sua própria e medíocre censoria. E, além do mais, não há dúvida de que a razão não acha nada mais absurdo do que a notícia de que Deus se tornou um homem mortal; que a vida está sujeita à morte; que a justiça foi escondida sob a semelhança de pecado; que a fonte de bênção ficou sujeita à maldição; que por estes meios os homens podem ser redimidos da morte e feitos partícipes da bendita imortalidade; que podem voltar a ter a posse da vida; que, sendo o pecado abolido, a justiça volta a reinar; que a morte e a maldição podem ser sorvidas. Não obstante, sabemos que o evangelho é, por enquanto, a sabedoria oculta que ultrapassa os céus e suas altitudes, e diante do qual até mesmo os anjos ficam pasmos. Esta é uma passagem excelente, e dela podemos nitidamente ver quão profunda é a obtusidade da moente humana que, cercada de luz, nada percebe. Pois é uma grande verdade que este mundo é semelhante a um teatro no qual o Senhor exibe diante de nós um surpreendente espetáculo de sua glória. Entretanto, quando tais cenas se descortinam diante de nossos olhos, nos achamos completamente cegos, não porque a revelação seja obscura, mas porque somos “alienados no entendimento” (Cl 1.21), significando que não só a vontade, mas também o poder para estas atividades, nos são falhos, todavia é só pelos olhos da fé que chegamos a contemplá-lo, tendo em mente que recebemos só uma leve noção de sua natureza divina, mas o bastante para pôr-nos na posição de seres indesculpáveis (Rm 1.20).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NÃO TORNOU DEUS LOUCA A SABEDORIA DO MUNDO?”


“NÃO TORNOU DEUS LOUCA A SABEDORIA DO MUNDO?”

“Onde está o sábio? Onde, o escriba? Onde, o inquiridor deste século? Porventura, não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?” (1Co 1.20).

Por sabedoria, o apóstolo Paulo quer dizer, aqui, tudo quanto o homem pode compreender, não só por sua própria habilidade mental e natural, mas também pelo auxílio da experiência, escolaridade e conhecimento das artes. Pois ele contrasta sabedoria do mundo com a sabedoria do Espírito. Segue-se que, qualquer conhecimento que uma pessoa venha a possuir, sem a iluminação do Espírito Santo, está incluído na sabedoria deste mundo. Ele afirma que Deus tornou ridículo tudo isso, ou o condenou como loucura. Devemos entender que isso é feito de duas maneiras. Pois qualquer conhecimento ou entendimento que uma pessoa possua não tem o menor valor se não repousar na verdadeira sabedoria; e não é de mais valor apreender o ensino do que os olhos de um cego para distinguir as cores. Deve-se prestar cuidadosa atenção a ambas as questões, ou seja: (1) que o conhecimento de todas as ciências não passa de fumaça quando separada da ciência celestial de Cristo; e (2) que o homem, com toda a sua astúcia, é tão estúpido para entender por si mesmo os mistérios de Deus, como o asno é incapaz de entender a harmonia musical. Paulo mostra a disposição para o orgulho devorador daqueles que se gloriam na sabedoria deste mundo, de modo a desprezarem Cristo e toda a instrução relativa à salvação, imaginando que são felizes se aderirem às coisas deste mundo. Também se referia à arrogância daqueles que, confiando em sua própria capacidade, procuram adentrar o céu.

Responde-se, ao mesmo tempo, à indagação como pode Paulo lançar por terra, desta forma, todo gênero de conhecimento que existe fora de Cristo, e calcar aos pés, por assim dizer, o que se sabe ser o principal dom de Deus neste mundo. Pois, o que é mais nobre do que a razão humana, por meio da qual nos situamos muito acima de todos os animais? Quão sumamente merecedoras de honra são as ciências liberais, as quais refinam o homem de tal forma que o fazem verdadeiramente humanos! Além disso, que imenso número de excelentes produtos elas produzem! Quem não atribuiria o mais excelente encômio à habilidade estadista, por meio da qual estados, impérios e reinos são mantidos? - para não dizer nada mais acerca de outras coisas?

A minha posição diante desta pergunta é a seguinte. É evidente que Paulo não condena sumariamente, seja o discernimento dos homens, seja a sabedoria adquirida pela prática e experiência, seja o aprimoramento da mente através da cultura; mas o que ele afirma é que todas essas coisas são inúteis para a obtenção da sabedoria espiritual. E é certamente loucura para quem quer que seja presumir que pode subir ao céu, confiando em sua própria perspicácia ou com o auxílio da cultura; em outras palavras: pretender investigar os mistérios secretos do reino de Deus, ou forçar caminho para o conhecimento dos mesmos, pois eles se acham ocultos à percepção humana. Portanto, tomemos nota do fato de que devemos limitar-nos às circunstâncias do presente caso, ou seja, que Paulo, aqui, ensina acerca da futilidade da sabedoria deste mundo, porque ela permanece no nível deste mundo, e de forma alguma pode alcançar o céu. É também verdade, num outro sentido, que fora de Cristo cada ramo do conhecimento humano é fútil, e o homem que se acha bem estabelecido em cada aspecto da cultura, mas que prossegue igualmente ignorante de Deus, não possui nada. Além do mais, deve-se também dizer, com todas as letras, que estes excelentes dons divinos - perspicácia, judiciosidade, ciências liberais, conhecimento de línguas - são todos, de uma forma ou de outra, corruptíveis, sempre que caem nas mãos dos ímpios.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“LOUCURA PARA OS QUE PERECEM”


“LOUCURA PARA OS QUE PERECEM”

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (1Co 1.18).

O apóstolo Paulo, na primeira cláusula faz uma concessão. Porque, visto que é fácil objetar que o evangelho é considerado com desdém, em toda parte, se ele se faz conhecido de uma forma desnuda e insignificante, Paulo espontaneamente o admite. Porém, quando ele acrescenta que esse é o ponto de vista daqueles que estão a perecer, significa que pouquíssimo valor deve ser posto em sua opinião. Pois quem iria querer condenar o evangelho para a sua perdição? Portanto, esta expressão deve ser entendida como segue: “A pregação da Cruz é considerada loucura por aqueles que estão a perecer, justamente porque não possui ela qualquer atratividade de sabedoria humana que a recomende. Seja como for, em nossa opinião, contudo, a sabedoria de Deus está irradiando-se dela [a pregação da Cruz]”. Paulo, contudo, indiretamente está a censurar o mau juízo dos coríntios, que eram facilmente cativados por meio de palavras sedutoras de mestres megalomaníacos, e ainda olhavam desdenhosamente para o apóstolo de Deus, o qual era dotado com o poder de Deus para a salvação deles, e procediam assim simplesmente porque ele se devotara à pregação de Cristo.

“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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