"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



terça-feira, 7 de abril de 2026

“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”


“MAL ACABARA ISAQUE DE ABENÇOAR A JACÓ”

“Mal acabara Isaque de abençoar a Jacó, tendo este saído da presença de Isaque, seu pai, chega Esaú, seu irmão, da sua caçada” (Gn 27:30).

Aqui se acrescenta a maneira como Esaú foi rejeitado, cuja circunstância era favorável para confirmar a bênção sobre Jacó; porque, se Esaú não fosse rejeitado, poderia parecer que ele não foi privado daquela honra que a natureza lhe conferiu; agora, porém, Isaque declara que, o que fizera, em virtude de seu ofício patriarcal, não podia deixar de ser confirmado. De fato, aqui fica evidente, outra vez, que a primogenitura que Jacó obtivera, à custa de seu irmão, se fizera sua por um dom gratuito; pois se compararmos as obras dos gêmeos, Esaú obedece a seu pai, traz-lhe o produto de sua caçada, prepara-lhe a refeição obtida por seu próprio labor, e nada fala senão a verdade; em suma, nada encontramos em Esaú que não seja digno de louvor. Jacó nunca deixa seu lar, substitui uma caça por um cabrito, dissimula por meio de muitas mentiras, nada traz que propriamente o recomende, mas em muitas coisas merece repreensão. Por isso devemos reconhecer que a causa desse evento não deve remontar-se às boas obras, senão que está oculta no eterno conselho de Deus. Contudo, Esaú não é injustamente reprovado, porque os que não são governados pelo Espírito de Deus nada podem receber de boa consciência. Diante disso, devemos apenas manter firmemente que, uma vez que a condição de todos é igual, se alguém for preferido a outro, isso não deve ao seu próprio mérito, mas porque o Senhor graciosamente o elegera.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”


“MALDITO SEJA O QUE TE AMALDIÇOAR”

“Deus te dê do orvalho do céu, e da exuberância da terra, e fartura de trigo e de mosto. Sirvam-te povos, e nações te reverenciem; sê senhor de teus irmãos, e os filhos de tua mãe se encurvem a ti; maldito seja o que te amaldiçoar, e abençoado o que te abençoar” (Gn 27:28-29).

Aqui, Isaque não parece desejar e implorar outra coisa para seu filho senão o que é terreno; pois este é o cerne de suas palavras: que tudo vá bem com o seu filho aqui neste mundo, que ele ajunte o abundante produto da terra, que ele desfrute de grande paz e resplandeça em honra acima dos demais. Não há menção do reino celestial; e disso tem-se suscitado o que os homens sem erudição e pouco afeitos à verdadeira piedade têm imaginado: que esses santos Patriarcas eram abençoados pelo Senhor somente no que diz respeito a esta frágil e transitória vida. Muitas passagens, porém, evidenciam algo muito diferente. E, quanto ao fato de Isaque limitar-se aqui aos favores terrenos de Deus, a explicação é simples; pois o Senhor, outrora, não punha a esperança da herança futura claramente diante dos olhos dos Patriarcas (como agora nos chama e nos eleva diretamente para o céu), mas os guiava por um caminho sinuoso. Assim ele lhes designou a terra de Canaã como um espelho e penhor da herança celestial.

Em todos esses atos de bondade, o Senhor lhes deu sinais de seu favor paterno, não com o propósito de contentá-los com as riquezas desta terra, de modo que negligenciassem o céu, ou seguissem uma sombra meramente vazia, como alguns tolamente presumem, mas para que, sendo auxiliados, pudessem, pouco a pouco, subir ao céu. Porque, visto que Cristo, as primícias dos que ressuscitarão é o autor da eterna e incorruptível vida, ainda não havia sido manifestado, seu reino espiritual era, dessa maneira, prefigurado por meio de sombras, até que chegasse a plenitude do tempo; e, como todas as promessas de Deus estavam envolvidas e, em certo sentido, revestidas de símbolos, assim a fé dos santos Patriarcas absorvia a mesma medida, e fazia seus avanços rumo ao céu por meio desses rudimentos terrenos. Portanto, embora Isaque tornasse proeminente os favores temporais de Deus, nada está mais distante de sua mente do que limitar a esperança de seu filho a esse mundo; ele o elevaria à mesma altura a que ele mesmo ansiava. Alguma prova disso pode ser extraída de suas próprias palavras, pois este é o ponto primordial que ele designa ao domínio das nações. Mas qual é a origem da esperança de tal honra, senão da certeza de que sua descendência fora eleita pelo Senhor e, de fato, com essa convicção, de que o direito ao reino permaneceria apenas com um de seus filhos? Enquanto isso, seja suficiente nos apegarmos a este princípio: que o santo homem, quando implora para seu filho um próspero curso de vida, deseja que Deus, em cujo paternal favor reside nossa firme e eterna felicidade, possa ser-lhe propício.

Maldito seja o que te amaldiçoar. É preciso ter em mente o que eu já disse antes, a saber, que esses não são meros desejos, tais como os pais costumam pronunciar em favor de seus filhos, mas que as promessas de Deus estão inclusas neles; pois Isaque é o intérprete autorizado de Deus e o instrumento empregado pelo Espírito Santo; e, portanto, como instrumento de Deus eficazmente pronuncia maldição sobre aqueles que se opuserem ao bem-estar de seu filho. Essa, pois, é a confirmação da promessa, pela qual Deus, quando recebe os fiéis sob sua proteção, declara que será inimigo de seus inimigos. Todo o poder da bênção é direcionado a este ponto: que Deus provará ser para seu servo Jacó um bondoso pai em todas as coisas, de modo que o preservará e o defenderá com seu poder, e assegurará sua salvação diante de toda sorte de inimigos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 2 de abril de 2026

“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”


“JURA QUE NÃO NOS FARÁS MAL”

“Jura que não nos farás mal, como também não te havemos tocado, e como te fizemos somente o bem, e te deixamos ir em paz. Tu és agora o abençoado do SENHOR” (Gn 26:29).

Uma consciência acusadora os leva a desejarem manter Isaque obrigado diante deles e, por isso, exigem dele um juramento de que não os ferirá. Pois sabiam que Isaque poderia vingar-se com justiça pelos sofrimentos que suportara; mas eles dissimulam e inclusive se vangloriam de seus próprios atos de bondade. De fato, a princípio, a benevolência do rei foi algo notável, pois não só entreteve Isaque com hospitalidade, mas o tratou com peculiar honra; entretanto, não manteve essa atitude até o fim. Mas de acordo com o costume dos homens, eles dissimulam seus erros utilizando-se de todos os artifícios e meios que possam inventar. Mas, caso tenhamos cometido alguma ofensa, devemos antes confessar sinceramente nosso erro, em vez de negá-lo, para que não fira mais profundamente a mente daqueles a quem temos ofendido. Entretanto, Isaque, visto que já havia ferido suficientemente a consciência deles, não os pressiona mais. Pois os estranhos não devem ser tratados por nós como familiares, porém, se não tirarem proveito, que sejam deixados ao juízo de Deus. Portanto, embora Isaque não arrancasse deles uma confissão justa, para que não pensassem que Isaque nutria alguma hostilidade contra eles, não se recusa a fazer uma aliança com eles. Assim aprendemos de seu exemplo que, se porventura alguém se afastar de nós, que não seja rejeitado caso nos ofereça outra vez sua amizade. Pois se somos ordenados a seguir a paz, mesmo quando ela parece fugir de nós, então não devemos nos esquivar quando nossos inimigos voluntariamente buscarem reconciliação; especialmente se houver alguma esperança de uma reconciliação futura, embora o verdadeiro arrependimento ainda não seja visível. E Isaque lhes oferece uma festa, não apenas para promover a paz, mas também com o intuito de mostrar que ele, esquecendo-se de toda ofensa, se torna amigo deles.

Tu és agora o abençoado do SENHOR. Normalmente essa expressão é explicada no sentido de que eles buscavam o favor de Isaque com bajulações, exatamente como algumas pessoas costumam bajular quando querem um favor; no entanto, eu, ao contrário, creio que essa expressão foi acrescentada em um sentido diferente. Isaque havia se queixado das injúrias deles por haverem-no expulsado por inveja; eles respondem que não havia razão para que restasse a menor sombra de pesar na mente de Isaque, visto que o Senhor o tratara de modo tão bondoso e precisamente conforme seu próprio desejo, como se quisessem dizer: “o que ainda queres? Não te contentas com o teu atual êxito? Admitimos que não temos cumprido com o dever de hospitalidade para contigo; contudo a bênção de Deus é abundantemente suficiente para apagar a lembrança daquele tempo”. Mas, talvez, por essas palavras, eles novamente estejam dizendo que estão agindo de boa-fé para com ele, porque ele está sob a proteção de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”


“VIMOS CLARAMENTE QUE O SENHOR É CONTIGO”

“Eles responderam: Vimos claramente que o SENHOR é contigo; então, dissemos: Haja agora juramento entre nós e ti, e façamos aliança contigo” (Gn 26:28).

Por esse argumento, eles provam que desejavam fazer um acordo com Isaque, não um acordo fraudulento, mas de boa-fé, porque reconhecem o favor de Deus para com ele. Pois era necessário se livrar dessa suspeita, visto que agora se apresentavam de modo tão gentil a alguém contra o qual previamente faziam injustificável oposição. Essa confissão deles, contudo, contém uma instrução proveitosa. Os homens profanos, ao chamarem alguém, cujas atividades são todas bem-sucedidas e prósperas, o bendito do Senhor, dão testemunho de que Deus é o autor de todas as boas dádivas, e que somente dele flui toda prosperidade. Excessivamente vil, pois seria ingratidão se, quando Deus age bondosamente para conosco, ignoramos seus benefícios. Além disso, os homens profanos consideram a amizade de alguém a quem Deus favorece como algo desejável, levando em conta que não há melhor ou mais santa recomendação do que o amor de Deus. Perversamente cegos, pois, são aqueles que só negligenciam aos que Deus declara lhe serem queridos, mas iniquamente os perturbam. O Senhor proclama que está pronto para executar vingança contra alguém que porventura faça injúria àqueles a quem ele toma sob sua proteção; mas a maioria, indiferente a essa mui terrível denúncia, ainda perversamente aflige os bons e simples. Contudo, vemos aqui que o senso natural proclamava aos incrédulos o que raramente reconhecemos aquilo que é dito pela boca do próprio Deus. Entretanto, é surpreendente que tivessem medo de um homem inofensivo, e exigissem dele um juramento de que lhes não causaria nenhum dano. Deveriam ter concluído, à luz do favor que Deus lhe demonstrava, que ele era um homem justo, e por isso ele não representava nenhum perigo; contudo, pelo fato de formarem sua convicção a respeito de seu caráter a partir do caráter e conduta deles, também põem em dúvida sua integridade. Tal perturbação geralmente inquieta os incrédulos, de modo que são inconsistentes consigo mesmos; ou ao menos, vacilam e são atormentados por sentimentos conflitantes, e ficam sem estabilidade e constância. Pois aqueles princípios do reto juízo, que fluem de dentro de si, logo são sufocados pelos afetos depravados. Por isso, justamente aquilo que é concebido por eles se desvanece; ou, pelo menos, é corrompido e não produz bons frutos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”


“POIS ME ODIAIS E ME EXPULSASTES DO VOSSO MEIO”

“Disse-lhes Isaque: Por que viestes a mim, pois me odiais e me expulsastes do vosso meio?” (Gn 26:27).

Isaque não só se queixa das injúrias recebidas, mas protesta que no futuro não pode ter confiança neles, já que descobrira que da parte deles havia uma disposição tão hostil para com ele. Essa passagem nos ensina que é lícito aos fiéis apresentar queixa de seus inimigos, a fim de que, se possível, relembrá-los de seu propósito de fazer injúria, e refrear sua força, fraude e atos de injustiça. Pois a liberdade não é inconsistente com a paciência; tampouco Deus exige de seu próprio povo que suportem silenciosamente toda injúria que porventura lhes seja infligida, mas tão somente refreiem sua mente e contenham suas mãos de vingança. Ora, se a mente deles é pura e bem regulada, a sua língua não será virulenta em reprovar as faltas dos outros; mas o seu único propósito será restringir os perversos por um senso de vergonha, por causa da iniquidade. Pois onde não há esperança de tirar proveito das lamúrias, é melhor cultivar a paz mediante o silêncio, a menos que, talvez, o propósito será tornar indesculpáveis os que se deleitam na perversidade. De fato, devemos nos precaver sempre para que, movida por um desejo de vingança, nossa língua não irrompa em reprimendas; e, no dizer de Salomão, “O ódio excita contendas” (Pv 10.12).

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 27 de março de 2026

“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”


“QUALQUER QUE TOCAR A ESTE HOMEM”

“E deu esta ordem a todo o povo: Qualquer que tocar a este homem ou à sua mulher certamente morrerá” (Gn 26:11).

Ao denunciar a punição capital contra quem prejudicasse a esse estrangeiro, podemos presumir que Abimeleque promulgou esse edito como um privilégio especial; pois não é comum vingar-se tão rigidamente de todo tipo de injúria. Qual é, pois, a origem dessa disposição da parte do rei de preferir Isaque a todos os habitantes nativos do pais, e quase tratá-lo como igual, senão que alguma porção da majestade divina brilhou nele, a qual lhe assegurou esse decreto de reverência? Também para ajudar seu servo em sua fraqueza, Deus inclinou a mente do rei pagão, de todas as formas, para mostrar-lhe favor. E não há dúvida de que sua modéstia geral induziu o rei a protegê-lo tão cuidadosamente; pois ele, percebendo que Isaque era um homem tímido, que chegara ao ponto de preservar sua própria vida pela ruína de sua esposa, sentiu-se ainda mais disposto a dar-lhe sua assistência em seus perigos, a fim de que pudesse viver em segurança sob seu próprio governo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUE É ISSO QUE NOS FIZESTE?”


“QUE É ISSO QUE NOS FIZESTE?”

“Disse Abimeleque: Que é isso que nos fizeste? Facilmente algum do povo teria abusado de tua mulher, e tu, atraído sobre nós grave delito” (Gn 26:10).

O Senhor não castiga Isaque como merecia, talvez porque ele não fosse completamente dotado de paciência como o fora seu pai; e, portanto, para que a apreensão de sua esposa não o desanimasse, Deus misericordiosamente a previne. Entretanto, para que a censura produzisse uma vergonha mais profunda, Deus constitui um pagão como seu mestre e seu reprovador. Podemos acrescentar que Abimeleque reprova sua estultícia não tanto com a intenção de injuriá-lo quanto de repreendê-lo. Entretanto, teria ferido profundamente a alma do santo homem, quando percebeu que sua ofensa era repulsiva ao juízo, inclusive dos cegos.

Portanto, recordemos bem que devemos andar na luz que Deus nos tem acendido, para que até mesmo os incrédulos, que vivem envolto pelas trevas da ignorância, não reprovem nosso entorpecimento. E, certamente, quando negligenciamos a obediência à voz de Deus, merecemos ser enviados aos bois e aos asnos para deles recebermos instrução. Na verdade, Abimeleque não investiga nem perscruta toda ofensa de Isaque, mas apenas menciona uma parte dela. Isaque, porém, quando assim brandamente admoestado por uma única palavra, deveria ter condenado a si mesmo, visto que, em vez de confiar a si mesmo e a sua esposa aos cuidados de Deus, o qual prometeu ser o guardião de ambos, recorreu, por sua própria incredulidade, a uma solução ilícita. Pois a fé tem a seguinte característica: ela nos mantém dentro dos limites divinamente prescritos, para que nada tentemos, exceto com a autoridade ou permissão de Deus. Consequentemente, a fé de Isaque oscilou quando se afastou de seu dever de marido.

Além disso, das palavras de Abimeleque, deduzimos que todas as nações têm inscrito em sua mente o senso de que a violação do santo matrimônio é um crime digno da vingança divina e, consequentemente, traz em si o medo do juízo divino. Pois embora a mente dos homens seja obscurecida por densas nuvens, de modo que são frequentemente enganadas, Deus tem feito com que permaneça algum poder de distinção entre o certo e o errado, de modo que cada um suporte a sua própria condenação, e que todos sejam considerados indesculpáveis. Se, pois, Deus intima inclusive os incrédulos ao seu tribunal, e não permite que escapem à justa condenação, quão horrível é aquela punição que nos aguarda, se tentarmos extirpar, por nossa própria fraqueza, aquele conhecimento que Deus gravou em nossa própria consciência.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 25 de março de 2026

“OLHANDO DA JANELA”


“OLHANDO DA JANELA”

“Ora, tendo Isaque permanecido ali por muito tempo, Abimeleque, rei dos filisteus, olhando da janela, viu que Isaque acariciava a Rebeca, sua mulher. Então, Abimeleque chamou a Isaque e lhe disse: É evidente que ela é tua esposa; como, pois, disseste: É minha irmã? Respondeu-lhe Isaque: Porque eu dizia: para que eu não morra por causa dela” (Gn 26:8,9).

De fato, a paciência de Deus é admirável, não apenas porque perdoa de modo condescendente o duplo erro de seu servo, mas também porque estende sua mão e evita de modo maravilhoso, pela aplicação de um remédio imediato, o mal que ele traria sobre si mesmo. Deus não permitiu – o que duas vezes ocorrera a Abraão – que sua esposa fosse arrancada de seus braços; porém, instigou a um rei pagão para corrigir, com brandura e sem causar-lhe qualquer tribulação, sua insensatez. Mas, embora Deus ponha diante dos nossos olhos tal exemplo de sua bondade, para que os fiéis, se em algum tempo porventura venha a cair, possam esperar confiantemente encontrar-se com um Deus amável e propício, contudo, devemos nos precaver da autoconfiança, quando observamos que a santa mulher, que naquele momento era a única mãe da Igreja sobre a terra, estava isenta de desonra por um privilégio especial. Entretanto, podemos presumir, com base no julgamento de Abimeleque, quão santa e pura havia sido a conduta de Isaque, em quem não podia recair sequer uma suspeita de mal; e, além disso, quão maior integridade florescia naquele tempo do que no nosso. Pois, por que ele não condenou a Isaque como culpado de fornicação, visto ser provável que algum crime se insinuava, quando, negou que ela era sua esposa? E por isso não tenho dúvida de que a religião de Isaque e a integridade de sua vida, eram suficientes para defender seu caráter.

Por esse exemplo, somos ensinados a cultivar de tal modo a retidão ao longo de toda nossa vida, que os homens não sejam capazes de suspeitar algo perverso e desonroso de nossa parte, pois não há nada que nos vindique mais completamente do estigma de infâmia do que uma vida vivida com modéstia e temperança. Entretanto, devemos acrescentar o que eu já mencionei anteriormente: que naquele tempo as concupiscências não eram tão comuns e tão profundamente fomentadas, a ponto de uma suspeita desfavorável surgir na mente do rei no tocante a um peregrino de caráter honesto. Portanto, ele facilmente se convence de que Rebeca era esposa, e não prostituta. O senso de castidade daquela época se evidencia ainda mais com base nisto: que Abimeleque toma a familiaridade afetiva de Isaque com Rebeca como uma evidência de sua vida conjugal. Pois Moisés não fala sobre relação conjugal, mas sobre algumas atitudes que eram demasiadamente íntimas, que eram uma prova ou de licenciosidade dissoluta ou de amor conjugal. Hoje, porém, a licenciosidade avançou tanto para além de todos os limites, que o marido é obrigado a ouvir em silêncio sobre a conduta dissoluta da esposa com estranhos.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“A RESPEITO DE SUA MULHER, DISSE: É MINHA IRMÔ


“A RESPEITO DE SUA MULHER, DISSE: É MINHA IRMÔ

“Perguntando-lhe os homens daquele lugar a respeito de sua mulher, disse: É minha irmã; pois temia dizer: É minha mulher; para que, dizia ele consigo, os homens do lugar não me matem por amor de Rebeca, porque era formosa de aparência” (Gn 26:7).

Moisés relata que Isaque foi tentado da mesma maneira que seu pai Abraão, isto é, pelo fato de a sua esposa ter sido tirada dele; e, sem dúvida, ele foi conduzido de tal modo pelo exemplo de seu pai que, sendo instruído pela semelhança das circunstâncias, veio a juntar-se com ele em sua fé. Contudo, nesse ponto, ele deveria antes ter evitado do que imitado à falha de seu pai; pois, sem dúvida, ele se lembrava perfeitamente bem de que a castidade de sua mãe fora duas vezes posta em grande perigo; e, embora ela fosse maravilhosamente resgatada pela mão de Deus, ela e seu marido, respectivamente, pagaram o preço de sua desconfiança. Por isso a negligência de Isaque é indesculpável, porque ele agora tropeça na mesma pedra. Ele não nega sua esposa de forma expressa; porém, deve ser culpado, em primeiro lugar, porque, querendo preservar sua esposa, recorre a uma evasiva não muito distante de uma mentira; e, segundo, porque, ao fazer isso, ele à expõe a prostituição. No entanto, agrava ainda mais seu erro, principalmente (como eu já disse) em não recorrer às advertências dos exemplos domésticos, porém, voluntariamente, lança sua esposa em manifesto perigo. Assim, fica evidente quão grande é a propensão de nossa natureza à dúvida, e quão facilmente ela se mostra destituída de sabedoria nas situações de perplexidade. Visto, pois, que vivemos cercados por todos os lados de muitos perigos, devemos rogar ao Senhor que nos fortaleça por seu Espírito, para que nossa mente não desfaleça e não se dissolva no temor e tremor; de outro modo, seremos frequente e inutilmente envolvidos em ações das quais logo nos arrependeremos, porém, tarde demais para remediar o mal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“NÃO DESÇAS AO EGITO”


“NÃO DESÇAS AO EGITO”

“Apareceu-lhe o SENHOR e disse: Não desças ao Egito. Fica na terra que eu te disser” (Gn 26:2).

Não tenho dúvida de que aqui é apresentada uma razão por que Isaque foi para o país de Gerar e não para o Egito: talvez isso lhe fosse mais conveniente; Moisés, porém ensina que ele foi impedido por um oráculo celestial, de modo que não lhe foi deixada uma livre escolha. É possível que aqui se indague por que o Senhor proibira Isaque de descer ao Egito, se havia permitido isso a seu pai. Embora Moisés não revele a razão temos a liberdade de presumir que a jornada teria sido muito mais perigosa ao filho. Certamente o Senhor também poderia ter dotado Isaque com o poder de seu Espírito, como fizera a seu pai Abraão, de modo que a abundância e as delícias do Egito não o teriam corrompido com suas fascinações; visto porém, que ele governa a seu povo fiel com tal moderação, que não corrige todas as suas falhas de uma só vez e os torna inteiramente puros, ele os ajuda em suas enfermidades e antecipa, com remédios adequados, aqueles males pelos quais podem ser enredados. Portanto, visto que ele bem sabia que havia em Isaque mais fragilidade do que houve em Abraão, assim preferiu não o expor ao perigo; pois ele é fiel e não permitirá que seu próprio povo seja tentado além do que é capaz de suportar [1Co 10.13]. Ora, como devemos deixar-nos persuadir de que, por mais árdua que sejam as tentações que nos sobrevêm, o socorro divino jamais deixará de renovar nossa força; assim, em vez disso, devemos precaver-nos de não nos precipitarmos de cabeça nos perigos, mas que cada um de nós se deixe admoestar por sua própria debilidade e prosseguir cautelosamente e cheio de temor.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SOBREVINDO FOME À TERRA”


“SOBREVINDO FOME À TERRA”

“Sobrevindo fome à terra, além da primeira havida nos dias de Abraão, foi Isaque a Gerar, avistar-se com Abimeleque, rei dos filisteus (Gn 26:1).

Vemos que Isaque foi provado por uma tentação semelhante àquela pela qual Abraão, seu pai, passara duas vezes. Já expliquei anteriormente quão severo e violento foi esse fato. A condição, na qual a vontade de Deus colocava seus servos, como estrangeiros e peregrinos na terra que lhe havia prometido, parecia muito incômoda e difícil, porém, parece ainda mais absurdo que ele lhes permitia subsistir (se podemos falar assim) nesse tipo de vida errante, incerta e instável, ao ponto de quase serem consumidos pela fome. Quem não diria que Deus não se esquecera de si mesmo, quando nem mesmo supria seus próprios filhos – em quem recebera em seu especial cuidado e reponsabilidade – com um pouco de comida? Deus, assim, provava os santos Patriarcas, para que fôssemos instruídos, pelo exemplo dele, a não sermos frouxos e covardes diante das tentações.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 20 de março de 2026

“O ANJO DO SENHOR”


“O ANJO DO SENHOR”

“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra” (Sl 34:7).

Neste ponto o salmista Davi argumenta em termos gerais sobre o favor paternal de Deus para com todos os piedosos; e visto que a vida humana se expõe a inumeráveis perigos, ao mesmo tempo ele nos ensina que Deus é capaz de livrá-las deles. Especialmente os fiéis, que são como ovelhas no meio de lobos, como se vivessem sitiados de todas as formas pela morte, são constantemente acossados pelo medo de que alguma sorte de perigo se aproxime. Davi, pois, afirma que os servos de Deus são protegidos e defendidos pelos anjos. O propósito do salmista é mostrar que, embora os fiéis se veem expostos a muitos perigos, não obstante podem descansar seguros de que Deus será o fiel guardião de sua vida. Mas para confirmá-los o máximo possível nesta esperança, ao mesmo tempo ele acrescenta, e não sem razão, que aqueles a quem Deus preserva em segurança, ele os defende mediante o poder e ministério dos anjos. O poder de Deus seria, aliás, por si só suficiente para alcançar tal objetivo, mas em sua mercê para com nossa enfermidade ele se digna em empregar anjos como seus ministros. Tal fato serve muitíssimo para a confirmação de nossa fé, sabendo nós que Deus possui inumeráveis legiões de anjos que estão sempre disponíveis para seu serviço, sempre que se lhe apraz nos socorrer. Muito mais que isso, os anjos também, que são chamados principados e potestades, estão sempre atentos na preservação de nossa vida, porque sabem que este dever lhes é confiado. Aliás, Deus é designado com propriedade o muro de sua Igreja e todo gênero de fortaleza e seu lugar de defesa. Mas, à guisa de acomodação, na medida e extensão de nosso presente estado de imperfeição, ele manifesta a presença de seu poder para ajudar-nos pela instrumentalidade de seus anjos. Além do mais, o que o salmista aqui diz de um anjo, no singular, deve aplicar-se a todos os demais anjos; pois se distinguem pelo título geral, “espíritos ministradores, enviados para ministrarem aos que serão os herdeiros da salvação” [Hb 1.14], e as Escrituras, em outras passagens, nos ensinam que, sempre que a Deus apraz, e sempre que ele sabe ser para o benefício deles, muitos anjos são designados para que cuidem de cada um dentre seu povo [2Rs 6.15; SI 91.11; Lc 16.22], A suma, pois, do que ficou dito é que, por maior que seja o número de nossos inimigos e dos perigos pelos quais nos vemos cercados, não obstante os anjos de Deus, armados de invencível poder, velam constantemente por nós e se postam de todos os lados com o fim de socorrer-nos e de livrar-nos de todo mal.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“BUSQUEI O SENHOR, E ELE ME ACOLHEU”


“BUSQUEI O SENHOR, E ELE ME ACOLHEU”

“Busquei o SENHOR, e ele me acolheu; livrou-me de todos os meus temores” (Sl 34:4).

Neste ponto o salmista Davi explica mais claramente e de forma mais plena o que dissera acerca do regozijo. Em primeiro lugar, ele nos diz que suas orações haviam sido ouvidas. Isto ele aplica a todos os piedosos que, encorajados por testemunho tão precioso, poderiam estimular-se à oração. O que está implícito em buscar a Deus é evidente à luz da cláusula que se segue. Em alguns lugares ela deve ser entendida num sentido distinto, a saber, submeter a mente, em solícita aplicação, ao serviço de Deus e manter todos os pensamentos voltados para ele. Aqui ela simplesmente significa recorrer a ele em busca de auxílio; pois imediatamente se segue que Deus lhe respondeu; e dele corretamente se diz responder à oração e súplica. Pela expressão, meus temores, o salmista quer dizer, tomando o efeito pela causa, os perigos que dolorosamente inquietaram sua mente; contudo, sem dúvida ele confessa que fora terrificado e agitado pelos temores. Ele não olhava para seus perigos com uma mente serena e tranquila, como se os visse a certa distância e de uma posição cômoda e elevada, mas, sendo seriamente atormentado com inúmeras preocupações, podia com razão falar de seus temores e terrores. Ainda mais, pelo uso do plural, ele mostra que fora grandemente terrificado não só de uma maneira, mas que fora destroçado por uma variedade de angústias. Por um lado, ele viu uma morte cruel à sua espreita; enquanto que, por outro lado, sua mente poderia ter sido dominada pelo medo de que Aquis o enviasse a Saul para seu contentamento, como os ímpios costumam divertir-se às custas dos filhos de Deus. E visto que ele já fora uma vez detectado e traído, poderia muito bem concluir, mesmo se escapasse, que os assassinos de aluguel de Saul o cercariam de todos os lados. O ódio profundo que Aquis nutria contra ele, tanto pela morte de Golias quanto pela destruição de seu próprio exército, poderia dar origem a tantos temores; especialmente considerando que seu inimigo poderia instantaneamente descarregar sua vingança sobre ele, e que nutria boas razões para crer que sua crueldade era de tal vulto que não seria amenizada sujeitando-o a alguma forma branda de morte. Devemos observar isto particularmente, a fim de que, se em algum tempo formos terrificados pelos perigos que nos cercam, não sejamos impedidos por nossa timidez excessiva de invocar a Deus. Mesmo Davi, que se sabe ter suplantado a outros em heroísmo e bravura, não possuía um tal coração de ferro ao ponto de repelir os temores e sustos, senão que às vezes se sentia profundamente inquieto e esmagado pelo medo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 18 de março de 2026

“CELEBRAI COM JÚBILO AO SENHOR”


“CELEBRAI COM JÚBILO AO SENHOR”

“Celebrai com júbilo ao SENHOR, todas as terras. Servi ao SENHOR com alegria, apresentai-vos diante dele com cântico” (Sl 100:1,2).

Ao convidar a todos os habitantes da terra indiscriminadamente a louvarem ao SENHOR, tudo indica que, no espírito profético do salmista, a referência seja ao período em que a Igreja seria congregada dentre as diferentes nações. Daí ordenar ele [v.2] que Deus seja servido com alegria, notificando que sua bondade para com seu povo é tão imensa que lhes fornece bases profusas para se regozijarem. Isso é melhor expresso no terceiro versículo, no qual ele primeiro repreende a presunção daqueles homens que impiamente se revoltaram contra o verdadeiro Deus, tanto em modelar para si muitos deuses, quanto em inventar várias formas de cultuá-lo. E visto que uma multidão de deuses destrói e substitui o verdadeiro conhecimento do Deus único e obscurece sua glória, o profeta, com grande propriedade, convoca todos os homens a repensarem e a cessarem de usurpar a Deus da honra devida a seu nome; e, ao mesmo tempo, a expressarem sua loucura nisto: não contentes com o único Deus, se tornaram fúteis em suas imaginações. Porque, quanto mais se veem constrangidos a confessar com os lábios que Deus existe, o Criador de céu e terra, não obstante de quando em quando tentam despojá-lo gradualmente de sua glória; e assim a Deidade é, na máxima extensão do poder deles, reduzido a mera nulidade. Visto, pois, restringir os homens na prática do culto divino em sua pureza ser algo em extremo difícil, o profeta, não destituído de razão, lembra o mundo de sua costumeira vaidade e o ordena a reconhecer a Deus como tal. Pois devemos atentar bem para esta breve definição do conhecimento dele, a saber: que sua glória seja intocavelmente preservada, e que nenhuma divindade se lhe oponha com o intuito de obscurecer a glória de seu nome. Saiba-se, pois, que o genuíno culto de Deus não pode ser preservado em toda sua integridade enquanto a vil profanação de sua glória, que é a inseparável acompanhante da superstição, não for completamente erradicada.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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domingo, 15 de março de 2026

“FOI ELE QUEM NOS FEZ”


“FOI ELE QUEM NOS FEZ”

“Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele quem nos fez, e dele somos; somos o seu povo e rebanho do seu pastoreio” (Sl 100:3).

Dizer que Deus nos fez é uma verdade geralmente bem reconhecida; porém não é comum atentar para a ingratidão tão natural entre os homens, de que raramente um entre uma centena seriamente reconhece que ele mantém sua existência como Deus, embora, quando quase não é expressa, não negam que foram criados a partir do nada; todavia, cada um faz de si mesmo um deus e virtualmente se adora, quando atribui a seu próprio poder o que Deus declara pertencer-lhe exclusivamente. Além do mais, é preciso ter em mente que o salmista aqui não está falando da criação em geral, mas daquela regeneração espiritual por meio da qual ele cria de novo sua imagem em seus eleitos. Os crentes são as pessoas sobre quem o salmista aqui declara ser obra da mão de Deus, não que fossem feitos homens no ventre de sua própria mãe, porém no sentido que Paulo expressa em Efésios 2.10, chamando-os feitura de Deus, porque são criados para as boas obras as quais de antemão Deus preparou para que andassem nelas. E de fato isso concorda melhor com o contexto subsequente. Pois quando ele diz: Somos seu povo e rebanho do seu pastoreio, evidentemente a referência é àquela graça inusitada que levou Deus a separar seus filhos como sua herança, a fim de que pudesse, por assim dizer, alimentá-los debaixo de suas asas, o que é um privilégio muito mais excelente do que ser meramente nascidos como seres humanos. Qualquer pessoa estaria, porventura, disposta a vangloriar-se de ter sido transformada em um novo ser, sem sentir aversão ante a vil tentativa de roubar a Deus daquilo que lhe pertence? Nem devemos atribuir esse nascimento espiritual a nossos pais terrenos, como se por seu próprio poder nos gerassem: pois o que poderia produzir uma semente corrompida? Não obstante, a maioria dos homens não hesita reivindicar para si todo o louvor da vida espiritual. O que mais querem declarar os arautos do livre-arbítrio, senão dizer-nos que, por nosso próprio empenho, nós mesmos, filhos de Adão, nos tornamos filhos de Deus? Em oposição a isso o profeta, ao chamar-nos povo de Deus, nos informa que provém de sua própria boa vontade o fato de sermos espiritualmente regenerados. E ao denominar-nos ovelhas do seu pastoreio, ele nos dá a conhecer que, através da mesma graça que uma vez nos foi comunicada, continuamos a salvos e intocáveis até o fim.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 13 de março de 2026

“SE O HOMEM NÃO SE CONVERTER”


“SE O HOMEM NÃO SE CONVERTER”

“Se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto; para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas” (Sl 7:12,13).

Estes versículos são geralmente explicados de duas formas. A primeira significa que, se os inimigos de Davi perseverassem em seus maliciosos propósitos contra ele, é anunciada contra eles a vingança merecida por sua perversa obstinação. Consequentemente, na segunda cláusula, ele preenche com a palavra Deus: Se ele [o homem] não se converter, [Deus] afiará sua espada, como se quisesse dizer: Se meu inimigo não se arrepender, ele, finalmente, sentirá que Deus está completamente armado com o propósito de sustentar e defender os justos. Se porventura for tomado nesse sentido, o versículo seguinte [v.14] deverá ser considerado como que uma afirmação da causa que levou Deus a equipar-se assim, ou seja, porque os ímpios, ao conceberem todo gênero de dano, ao esforçar-se por dar à luz a perversidade e, finalmente, dar à luz o engano e a falsidade, fazem seu assalto direto à pessoa de Deus e abertamente fazem-lhe guerra. Em minha opinião, porém, os que leem esses dois versículos [vs.12,13] como uma só oração contínua apresentam uma interpretação mais precisa. Davi, não tenho dúvida, ao relacionar as tremendas tentativas de seus inimigos contra ele, tentava com isso ilustrar de forma mais proeminente a graça de Deus; pois quando esses homens maliciosos, fortalecidos por poderosas forças militares, e fartamente supridos de armaduras, furiosamente se precipitaram sobre ele numa firme expectativa de destruí-lo, quem não diria que tudo estava contra ele?

Saul, porém, é a pessoa de quem Davi particularmente fala, e portanto ele diz: “para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas. O que está implícito é que Saul tinha muitos agentes em prontidão, os quais diligentemente empregariam extremo esforço em busca da destruição de Davi. O desígnio do profeta, portanto, era manifestar a grandeza da graça divina, ao mostrar a grandeza do perigo do qual havia sido por Deus libertado. Além do mais, quando ele diz aqui: se ele não se converter, conversão não significa arrependimento e regeneração no inimigo de Davi, mas somente uma mudança de vontade e propósito, como se dissesse: “Está no poder de meu inimigo fazer tudo o que sua fantasia lhe sugira”. Portanto, parece por demais evidente quão maravilhosa foi a mudança que subitamente se mostrou contrária a toda expectativa.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 10 de março de 2026

“DEUS É O MEU ESCUDO”


“DEUS É O MEU ESCUDO”

“Deus é o meu escudo; ele salva os retos de coração. Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias” (Sl 7:10,11).

Não é fascinante que Davi às vezes misture meditações às suas orações para, com isso, inspirar-se com uma confiança muito mais profunda? É possível que nos apresentemos a Deus em oração com grande entusiasmo; mas nosso fervor, se não estiver associado a uma nova força, imediatamente decai ou começa a arrefecer-se. Davi, portanto, a fim de prosseguir em oração com a mesma ardorosa devoção e afeição com que começara, traz à sua lembrança algumas das mais populares verdades da religião, e com esse expediente nutre e revigora sua fé. Declara que, como Deus salva os retos de coração, ele se sente perfeitamente a salvo sob a proteção divina. Daí se deduz que ele contava com o testemunho de uma consciência aprovada. Portanto, como ele não diz simplesmente, os justos, e, sim, os retos de coração, parece que tinha os olhos postos naquela sondagem interior da mente e do coração mencionado no versículo precedente.

Deus é justo juiz. Como Saul e seus cúmplices haviam sido, movidos pelas notícias caluniosas, até então bem sucedidos em seus perversos desígnios de causar, em termos gerais, prejuízos a Davi, de modo a ser condenado por quase todo o povo, o santo homem se apoia nesta única consideração, a saber: seja qual for a confusão nas coisas relativas ao mundo, Deus, não obstante, pode discernir com perfeita facilidade entre os justos e os perversos. Davi, pois, apela dos falsos juízos humanos àquele que jamais se deixa enganar. Pode-se, contudo, perguntar: Como é possível o salmista representar Deus a julgar diariamente, quando o vemos com frequência delongando o juízo por tempo sem conta? Os escritos sagrados, com sobejas razões, celebram a longanimidade divina; mas, embora exercite Deus sua paciência, e não execute imediatamente seus juízos, todavia, como não passa um momento sequer, nem mesmo um dia, sem que se forneça a mais clara evidência de que ele discerne entre os justos e os perversos, não obstante a confusão reinante no mundo, é certo que ele jamais cessa de exercer a função de Juiz. Todos quantos se derem ao trabalho de abrir seus olhos para contemplarem o governo do mundo, verão distintamente que a paciência de Deus é muito diferente de aprovação ou conivência. Seguramente, pois, seu próprio povo, confiadamente, a ele recorrerá a cada dia.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 9 de março de 2026

“SENHOR, NÃO ME REPREENDAS NA TUA IRA”


“SENHOR, NÃO ME REPREENDAS NA TUA IRA”

“SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados” (Sl 6:1,2).

Ao clamar veementemente a Deus, que usasse de misericórdia para com ele, daqui se manifesta ainda mais nitidamente que, pelos termos ira e furor, Davi não pretendia insinuar crueldade ou severidade indevida, mas somente o juízo tal como Deus executa sobre os réprobos, a quem não poupa usando de misericórdia como faz a seus próprios filhos. Se porventura se houvera queixado de ser mui injusta e severamente castigado, ele agora haveria apenas adicionado algo a este resultado: Contém-te, para que, ao castigar-me, não excedas a medida de minha ofensa. Ao valer-se, pois, exclusivamente da compaixão de Deus, Davi demonstra que nada deseja além de não ser tratado segundo a estrita justiça ou segundo merecia. Com o fim de induzir a Deus a exercer sua perdoadora misericórdia para com ele, declara que está acabado: Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado. Como disse antes, ele evoca sua fraqueza, não porque estivesse enfermo, mas porque se sentia fulminado e perturbado por algo que lhe havia sucedido. E como sabemos que o propósito de Deus, ao infligir-nos algum castigo, consiste em humilhar-nos, então, quando somos reprimidos sob sua vara, a porta se abre para que sua misericórdia nos alcance. Além disso, visto que sua peculiar função é curar os enfermos, erguer os caídos, amparar os fracos e, finalmente, comunicar vida aos mortos, esta, por si mesma, é uma razão suficiente para buscarmos seu favor quando nos acharmos mergulhados em nossas aflições.

Após Davi haver protestado que colocara sua esperança de salvação exclusivamente na misericórdia de Deus, e haver tristemente demonstrado o quanto se encontrava degradado, ele acrescenta que isso havia prejudicado sua saúde física, e ora pela restauração dessa bênção: Sara-me, SENHOR. E esta é a ordem que devemos observar, a saber: que saibamos que todas as bênçãos que pedimos a Deus emanam da fonte de sua graciosa bondade, e que então somos, e somente então, libertados das calamidades e castigos, ou seja, quando ele usar de misericórdia em nosso favor.

Porque os meus ossos estão abalados. Isso confirma a observação que acabo de fazer, ou seja: da própria miséria de suas aflições, Davi entreteve a esperança de algum lenitivo; pois Deus, quanto mais vê o infeliz oprimido e à mercê da destruição, tanto mais se prontifica a socorrê-lo. Ele atribui abalo a seus ossos, não porque sejam dotados de emoção, mas porque a veemência de sua tristeza era tal que afetara todo seu corpo. Ele não fala de sua carne, a qual é a mais tenra e a mais suscetível parte do sistema corporal; menciona, porém, seus ossos, com isso insinuando que as partes mais resistentes de sua estrutura foram feitas para tremerem de medo. A seguir [v.3] assinala a causa disso, dizendo: Também a minha alma está profundamente perturbada, como se quisesse dizer: Tão severa e íntima é a angústia de meu coração, que afeta e esvai as energias de cada parte de meu corpo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sábado, 7 de março de 2026

LOUVOR: QUEM O MEU DEUS É

LOUVOR: QUEM O MEU DEUS É

“O inimigo quer me ver cair no chão,
Mas a tua graça me sustenta.
Eu dobro os joelhos e clamo ao Senhor,
Pois o teu poder cura a minha dor.
Pela tua palavra eu sigo com fé,
Pois eu sei muito bem quem o meu Deus é”.

Deus nos abençoe!


ÉÉN HEER

ÉÉN HEER – UM SÓ SENHOR

"Um só Senhor. Um só Nome. Um só Deus que está acima de tudo".

Deus nos abençoe!

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

“POIS TU, SENHOR, ABENÇOAS O JUSTO”

“POIS TU, SENHOR, ABENÇOAS O JUSTO”

“Pois tu, SENHOR, abençoas o justo e, como escudo, o cercas da tua benevolência” (Sl 5:12).

Pois tu, SENHOR, abençoas o justo. O salmista Davi confirma neste ponto a sentença conclusiva do versículo precedente, isto é, que todos os servos de Deus em geral buscarão apoio para sua fé com base no que ele experimentou, pois ele, partindo de um só exemplo, poderia moldar nosso juízo sobre a imutabilidade e perpetuidade da graça divina para com todos os santos. Também, por esse meio ele nos ensina que não existe alegria genuína e eficaz senão aquela que nasce do senso do amor paternal de Deus. A palavra abençoar, em hebraico (quando falamos dela como um ato humano), significa desejar felicidade e prosperidade a alguém e orar por ele; quando, porém, é expressa como um ato divino, significa o mesmo que fazer uma pessoa prosperar, ou enriquecê-la abundantemente com todas as coisas boas; porque, visto que o favor de Deus é eficaz, sua bênção, por natureza, produz em abundância tudo quanto é bom. O título justo não se restringe a uma pessoa em particular, mas significa todos os servos de Deus em geral. Aqueles, contudo, que na Escritura são chamados justos, não são assim chamados em razão do mérito de seus feitos, mas porque têm fome e sede de justiça; pois, como Deus os tem recebido em seu favor, não lhes imputando seus pecados, ele aceita seus sinceros esforços como perfeita justiça.

O que se segue tem a mesma importância que a cláusula precedente: Tu o cercas da tua benevolência, ou, melhor, como com um escudo. O que o salmista quer dizer é o seguinte: o fiel será completamente defendido de todos os lados, visto que Deus, de forma alguma, os privará de sua graça, a qual é para eles uma fortaleza inexpugnável, e a mantém em perfeita segurança. O verbo cercar, que o salmista emprega, às vezes denota em hebraico ornamento ou glória, mas, visto que aí se adiciona a similitude de um escudo, não tenho dúvida de que ele o usa metaforicamente no sentido de fortificar ou cercar. O significado, pois, é que, por maiores e variados sejam os perigos que cercam os justos, não obstante eles escaparão e se salvarão, porque Deus lhes é favorável.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“REGOZIJEM-SE TODOS OS QUE CONFIAM EM TI”


“REGOZIJEM-SE TODOS OS QUE CONFIAM EM TI”

“Mas regozijem-se todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome” (Sl 5:11).

Mas regozijem-se todos os que confiam em ti. Fará pouca diferença ao sentido se lermos estas palavras no tempo futuro — Regozijarão todos... — ou no modo optativo – Regozijem-se todos... Pois em ambos os modos o significado do salmista será o mesmo; isto é, se Deus o livrar, o fruto desse livramento será comum a todos os santos; como se dissesse: Senhor, se tu me socorreres, a benevolência que me conferires não se restringirá a mim somente, mas se estenderá a todos os teus servos; pois isso servirá para confirmar mais a fé deles, e os levará a louvar teu nome com mais fervor. Portanto, a fim de induzir a Deus a conceder-lhe seu livramento, ele emprega como argumento o fim ou efeito que deveria produzir, contanto que incitasse a todos os santos a exercitar grande confiança em Deus e a encorajá-los a render-lhe louvores e ações de graças. Esta passagem nos ensina que seríamos ingratos para com Deus caso não extraíssemos ânimo e conforto de todas as bênçãos que ele confere a nosso próximo, visto que, por esse meio, ele testifica que estará sempre disposto a derramar sua munificência sobre todos os santos em geral. Consequentemente, acrescenta-se a razão de tal alegria: porque o Senhor os cobrirá ou os protegerá. Tão logo Deus conceda algumas bênçãos a alguns dos fiéis, os demais, como já afirmei antes, devem concluir que ele se mostrará beneficente para com eles também. Esta passagem também nos ensina que a genuína alegria não procede de alguma outra fonte senão só da proteção divina. Podemos ficar expostos a mil mortes, mas essa única consideração deve ser-nos plenamente suficiente, ou seja, que somos envolvidos e defendidos pela mão divina. E esse será o caso se porventura as sombras ilusórias deste mundo não nos fascinarem tanto que nos excitem a buscar nelas refúgio. É mister que notemos também em particular a afirmação de que aqueles que confiam no Senhor amam seu nome. Lembrarmo-nos de Deus e enchermos nossos corações com sua alegria, ou, antes, deixarmo-nos arrebatar por seu amor, depois de levar-nos a fazer prova de sua munificência, deve ser-nos algo de extremo lenitivo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“SENHOR, GUIA-ME NA TUA JUSTIÇA”


“SENHOR, GUIA-ME NA TUA JUSTIÇA”

“SENHOR, guia-me na tua justiça, por causa dos meus adversários; endireita diante de mim o teu  caminho (Sl 5:8).

SENHOR, guia-me na tua justiça. Há quem explique essas palavras da seguinte forma: Mostra-me o que é certo e faz-me totalmente devotado à prática daquela justiça que adorna teu caráter; e faze assim por causa de meus adversários; pois os santos, impelidos pela perversa prática e fraudulentas artes dos ímpios, correm o risco de desviar-se do caminho reto.

Esse significado é inquestionavelmente piedoso e proveitoso. A outra interpretação, porém, é mais adequada, a qual visualiza as palavras como uma oração para que Deus guie seu servo em segurança por entre as armadilhas de seus inimigos e lhe abra uma via de escape, mesmo quando parecesse a todos que fora apanhado e cercado de todos os lados. A justiça de Deus, portanto, nesta passagem, como em muitas outras, deve ser entendida como sendo sua fidelidade e misericórdia demonstradas na defesa e preservação de seu povo. Consequentemente, na tua justiça, significa o mesmo que por tua justiça ou segundo tua justiça. Davi, aspirando ter a Deus como guia de seus passos, se anima na esperança de obter o que pedira, uma vez que Deus é justo; como se dissesse: Senhor, já que és justo, defende-me com teu auxílio, para que eu escape das ímpias tramas de meus inimigos. Da mesma importância é a última cláusula do versículo, onde ele ora para que o caminho de Deus fosse endireitado diante de seu rosto, em outras palavras, para que fosse libertado pelo poder de Deus dos infortúnios com que se via completamente cercado, e dos quais, segundo o juízo da carne, ele jamais esperava encontrar uma via de escape. E assim ele reconhece quão impossível lhe era evitar cair nas malhas de seus inimigos, a menos que Deus lhe desse sabedoria e lhe abrisse uma via por onde não existia passagem. Cabe-nos, à luz de seu exemplo, fazer o mesmo; de modo que, desconfiando de nós mesmos quando os conselhos fracassam e prevalecem a malícia e a perversidade de nossos inimigos, recorramos imediatamente a Deus, em cujas mãos estão os escapes da morte.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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