"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quarta-feira, 13 de agosto de 2025

“TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO”


“TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO”

“Acaso, não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo” (1Co 6.19,20).

O apóstolo Paulo usa mais dois argumentos para abstermo-nos da imundícia. O primeiro consiste em que “os nossos corpos são templos do Espírito Santo”; e o segundo consiste em que não vivemos sob nossa própria jurisdição, visto que o Senhor nos adquiriu para ele mesmo como sua propriedade particular. Há uma associação de ênfase no uso do termo “templo”, pois, visto que o Espírito de Deus não pode permanecer num ambiente impuro, tornamo-nos sua residência somente quando nos consagramos como seus santuários. Que grande honra nos confere Deus em querer habitar em nós! Portanto, que vivamos em pleno temor a fim de não o expulsarmos, e ele, por sua vez, nos abandone, irado contra os nossos atos sacrílegos.

E que não sois de vós mesmos? Este é o segundo argumento, a saber: que não estamos sob nossa própria autoridade, vivendo segundo o nosso bel-prazer. A razão que ele apresenta em prol disto é que o Senhor já pagou o preço de nossa redenção, e nos adquiriu para ele mesmo. Paulo se expressa em termos similares em Romanos 14.9: “Porque foi para isto que Cristo morreu e ressuscitou, para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos”.

Então, a palavra “preço” pode ser considerada de duas formas, a saber: Podemos entendê-la num sentido literal, como quando falamos normalmente de algo como tendo um “valor de custo”, visto que desejamos deixar bem claro que não o obtemos de graça. O outro significado é aquele substituído por “caro”, “alto preço”, quando geralmente descrevemos as coisas que nos custam um valor muito elevado. Em minha opinião, não há dúvida de que o segundo é mais satisfatório. O apóstolo Pedro escreve em termos similares: “Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa maneira de viver...mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (1Pe 1.18,19). Eis o sentido: que a redenção nos mantenha constrangidos, e mantenha a licenciosidade de nossa carne sob a pressão do freio da obediência.

“Glorificai a Deus no vosso corpo”. Dessa conclusão torna-se evidente que os coríntios presumiam que podiam fazer o que bem lhes agradasse com respeito às questões externas, as quais tinha de ser limitadas e refreadas. O apóstolo Paulo, pois, fornece os meios de correção, aqui, onde ele os avisa de que o corpo, bem como a alma, estão sujeitos a Deus, e, portanto, é justo que ambos sirvam à sua glória. É como se dissesse: “Na verdade, a mente de um crente deve ser pura diante de Deus, mas também assim deve ser no tocante à sua conduta externa, a qual é vista pelos homens; esta deve estar em submissão, visto que a autoridade sobre ambos pertence a Deus, que redimiu a ambos”. Com o mesmo propósito em vista, ele assevera no versículo 19 que não é apenas nossa mente, mas também nosso corpo, ambos são templos do Espírito Santo, de modo que não tenhamos ilusão de que podemos inocentar-nos diante dele, pois só podemos fazer isso quando nos dedicamos ao seu serviço, total e sinceramente, para que venhamos também direcionar as ações externas de nossas vidas segundo [os parâmetros de] sua Palavra.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

domingo, 10 de agosto de 2025

Opwekking 896 - Reikhalzend

AVIVAMENTO - 896 


Reikhalzend - Ansiosamente

Aguardamos ansiosamente as nuvens,
Até que apareças em glória às nações.
Como o relâmpago ilumina o céu,
Assim virá o Filho do Homem, e eis que...

A criação se ajoelha.
O céu se alegra.
Sua noiva se levanta.
Sua igreja testifica.

Refrão:

Rei Jesus, nome supremo,
Tu mereces o lugar de honra.
Toda a glória, todo o louvor,
Toda a honra ao Filho de Deus.

Com as mãos erguidas, desinibidas,
Abrimos espaço para Ti, cheios de anseio.
Como os anjos ao redor do teu trono,
Clamamos em alta voz:

Toda a glória ao Filho de Deus.

A criação se ajoelha.
O céu se alegra.
Sua noiva se levanta.
Sua igreja testifica.

(Refrão)

Ponte (2x):

Vozes se unem,
Corações clamam:
Não há ninguém como Tu, ninguém como Tu.
O céu toca a terra,
Se um nome permanecer.
Não há ninguém como Tu, ninguém como Tu.

(Refrão)

Toda a glória ao Filho de Deus.

Mt 24:29-30, At 7:55-56
Letra e música: Sander Nijbroek e Sarah Ben Hamida


Deus nos abençoe!

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

“VENDO A NUDEZ DO PAI, FÊ-LO SABER, FORA”


“VENDO A NUDEZ DO PAI, FÊ-LO SABER, FORA”

“Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos (Gn 9.20-22).

Essa circunstância é acrescentada para agravar a dor de Noé, pois ele é ridicularizado por seu próprio filho. Por isso, devemos manter sempre na memória que essa punição lhe foi divinamente infligida, em parte porque sua falha não era de caráter leve, em parte para que Deus, em sua pessoa, apresentasse uma lição de temperança a todas as épocas. Em si, a embriaguez tem como recompensa o seguinte fato: que aqueles que apagam de si mesmos a imagem de seu Pai celestial se tornam motivo de riso para seus próprios filhos. Pois certamente, tanto quanto possível, os ébrios subvertem seu próprio entendimento e se privam ao máximo da razão, a ponto de degenerar-se em animais irracionais. E recordemo-nos que, se o Senhor se vingou tão seriamente de uma única transgressão do santo homem, ele certamente será o vingador não menos severo contra os que vivem diariamente embriagados; e disso temos exemplos suficientemente numerosos diante de nossos olhos.

Enquanto isso, por rir-se desdenhosamente de seu pai, Cam revela seu próprio caráter depravado e maligno. Bem sabemos que os pais, depois de Deus, devem ser profundamente reverenciados; e, se não houvesse nem livros, nem sermões, a própria natureza nos inculca constantemente essa lição. O consenso popular concorda que a piedade para com os pais é a mãe de todas as virtudes. Portanto, Cam teria sido de uma disposição excessivamente ímpia, perversa e depravada; posto que ele não somente tomou gosto pelo opróbrio do pai, mas também se dispôs a lhe expor a seus irmãos. E isso não se constitui uma leve ocasião de ofensa; primeiro, que Noé, o ministro da salvação aos homens e o principal restaurador do mundo, em extrema velhice, ficou embriagado em sua casa; e, segundo, que o ímpio e perverso Cam tivesse saído do santuário de Deus. Este selecionou oito almas para ser uma santa semente, totalmente purificada de toda e qualquer corrupção, para renovação da Igreja; mas o filho de Noé mostra quão necessário é que os homens sejam refreados por Deus, por mais que sejam exaltados por privilégios.

A impiedade de Cam nos prova quão profunda é a raiz da perversidade nos homens; e que ela produz continuamente seus brotos, exceto onde o poder do Espírito prevalece sobre ela. Mas se, no sagrado santuário de Deus, no meio de tão exíguo número, se preservou um diabo, não nos maravilhemos se hoje, na Igreja, contendo uma multidão muito maior de pessoas, os maus se acham misturados com os bons. Não hão qualquer dúvida de que a mente de Sem e Jafé foi gravemente ferida quando perceberam em seu próprio irmão tão grande escárnio, e, por outro lado, seu pai vergonhosamente prostrado ali no chão. Que loucura vil foi vista no príncipe do novo mundo! E o santo patriarca da Igreja não podia surpreendê-los menos do que eles tivessem visto a própria arca quebrada, lançada em pedaços, partida e destruída. Entretanto, sua magnanimidade vence também o motivo desse escândalo, e o esconde por sua modéstia.

Somente Cam se apodera avidamente da oportunidade para ridicularizar e injuriar a seu pai; exatamente como os homens perversos estão acostumados a aproveitar as ofensas dos outros, as quais podem servir de pretexto para entregarem-se ao pecado. E sua idade o torna menos desculpável, porquanto não era um jovem lascivo que, por sua irrefletida gargalhada, se deixasse trair por sua própria insensatez, visto que sua idade já passava dos 100 anos. Portanto é provável que ele perversamente tenha insultado dessa maneira a seu pai querendo conquistar para si a licença para pecar impunimente. Hoje vemos muitos agirem assim, os quais, com muito empenho espionam as falhas de pessoas santas e piedosas com o objetivo de, sem qualquer pudor, se entregarem a toda e qualquer iniquidade; inclusive tomam as falhas de outras pessoas como ocasião de endurecimento para assim menosprezarem a Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

sábado, 2 de agosto de 2025

“ELA SERÁ SALVA ATRAVÉS DE SUA MISSÃO DE MÃE”


“ELA SERÁ SALVA ATRAVÉS DE SUA MISSÃO DE MÃE”

“Mas ela será salva através de sua missão de mãe, se perseverar na fé, e amor, e na santificação, com toda sobriedade” (1Tm 2.15).

A debilidade de sua natureza feminina torna a mulher mais tímida e arredia, e o que Paulo tem afirmado presume-se que perturba e confunde até mesmo os espíritos mais viris. E assim o apóstolo modifica o que dissera, adicionando uma consolação; pois o Espírito de Deus não nos acusa nem nos repreende com o fim de cobrir-nos de humilhação e em seguida triunfar-se sobre nós. Ao contrário, ao humilhar-nos em sua presença, uma vez mais nos põe de pé. Isso, como já disse, poderia reduzir as mulheres ao desespero, ouvindo elas que toda a ruína da raça humana lhes é atribuída. Então, que juízo divino será esse que lhes sobrevirá? – pergunta essa que torna todas ainda mais debilitadas diante da ininterrupta consciência de que sua submissão é um emblema sempre presente da ira divina. Daí Paulo, procurando confortá-las e tornar-lhes sua condição suportável, lembrar-lhes que, embora sofram o castigo temporário, a esperança da salvação permanece diante de seus olhos. O efeito positivo desta consolação é duplo e merece nota. Primeiramente, ao colocar diante delas a esperança de salvação, são preservadas do desespero e do medo ante a lembrança de sua culpa; e, em segundo lugar, acostumam-se a suportar com equanimidade e serenidade a imposição de viverem em servidão a seus esposos, de modo a submeter-se-lhes voluntariamente, ao recordarem que obediência desse gênero é igualmente saudável a elas e agradável a Deus. Se esta passagem for torcida para apoiar a justificação pelas obras, como alguns costumam fazer, a solução é fácil. Visto que o apóstolo não esteja tratando, aqui, da causa da salvação, suas palavras não podem e não devem ser usadas para apontar o caminho pelo qual Deus nos guia àquela salvação que ele, por sua graça, nos destinou

É possível que os críticos mordazes achem ridículo que um apóstolo de Cristo não só exorte as mulheres a que deem atenção a maternidade, mas lance isso sobre elas como uma pia e santa obra, indo ainda mais longe dizendo que, com isso, elas poderão obter a salvação. Vemos também a maneira como ele repreende os hipócritas que queriam parecer mais santos do que os demais homens, os quais difamavam o leito conjugal. Mas não é difícil responder a esses ímpios zombadores. Pois, em primeiro lugar, o apóstolo Paulo está tratando, aqui, não meramente de se dar à luz filhos, e, sim, dos muitos e severos sofrimentos que tinham que suportar, tanto em dar à luz filhos quanto em criá-los. Em segundo lugar, seja o que for que os hipócritas ou os sábios do mundo pensem, Deus se deleita mais com a mulher que considera a condição que ele lhe destinou como uma vocação e se sujeita a ela, não recusando o fastio por alimentação, a indisposição, as dificuldades, ou, ainda pior, a temível angústia associada ao parto, ou, algo que exibisse suas grandes e heróicas virtudes, mas que, ao mesmo tempo, se recusasse a aceitar a vocação a elas concedida por Deus. A isso podemos adicionar que nenhuma consolação podia ser mais apropriada ou mais eficaz do que demonstrar que na punição propriamente dita estão os meios (por assim dizer) de assegurar-se a salvação.

Se perseverar na fé. A Vulgata traduz, “em dar à luz filhos, se porventura continuarem na fé”, e esta cláusula era geralmente considerada como uma referência a filhos. Mas Paulo usa uma única palavra para “dar à luz filhos”. E assim a fé deve aplicar-se à mulher. O fato de o substantivo ser singular e o verbo, plural, não implica dificuldade alguma, pois quando um substantivo indeterminado se refere a toda uma classe, ele tem a mesma função de um substantivo coletivo, de modo que a mudança de número no verbo é facilmente admissível.

Demais, para evitar-se a insinuação de que toda virtude feminina está envolvida pelos deveres do matrimônio, o apóstolo imediatamente acrescenta uma lista de grandes virtudes pelas quais as mulheres piedosas devem sobressair-se, para que se distingam das mulheres irreligiosas. Mesmo o dar à luz só é um ato de obediência a Deus quando procede da e do amor. A estes ele adiciona a santificação, a qual inclui toda aquela pureza da vida que convém às mulheres cristãs. Finalmente vem a sobriedade, a qual ele mencionou um pouco antes, ao tratar do vestuário, mas agora a estende a outras partes da vida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“E ADÃO NÃO FOI SEDUZIDO”


“ADÃO NÃO FOI SEDUZIDO”

“E Adão não foi seduzido, e sim, a mulher, a qual, sendo seduzida, caiu em transgressão” (1Tm 2.14).

O apóstolo Paulo está se referindo à punição infligida sobre a mulher: “Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio a dores darás à luz filhos; o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará” (Gn 3.16). Uma vez que o conselho que ela dera fora fatal, era justo que ela aprendesse a depender do poder e da vontade de outrem. Já que ela seduzira o homem a desviar-se do mandamento de Deus, era justo que se visse privada de toda a sua liberdade e estivesse sujeita ao jugo. Além do mais, o apóstolo não baseia seu argumento simplesmente ou meramente na causa da transgressão, mas na sentença pronunciada por Deus sobre ela. Não obstante, pode-se concluir que haja contradição envolvida na afirmação, tanto que a submissão da mulher era o castigo por sua transgressão, como também que a mesma lhe foi imposta desde a criação, pois desse fato seguir-se-á que ela foi destinada à servidão mesmo antes de pecar. Minha resposta é que não há razão para deduzir-se que a obediência não lhe teria sido uma condição natural desde o princípio, enquanto que a servidão foi uma última condição resultante de seu pecado, de modo que a submissão se tornou menos voluntária do que a tivera antes.

Demais, alguns têm encontrado nesta passagem justificativa para o ponto de vista de que Adão não caiu por seu próprio erro, senão que apenas foi vencido pelas fascinações de sua esposa. Acreditam que somente a mulher foi enganada pela astúcia da serpente, ao crer que ela e seu esposo seriam como deuses. Mas Adão não ficou tão persuadido, e provou o fruto só para satisfazer o capricho de sua esposa. Tal ponto de vista, porém, é fácil de refutar, porque, se Adão não houvera crido na mentira de Satanás, Deus não o teria repreendido, dizendo: “Eis que o homem é como um de nós” (Gn 3.22). Há outros argumentos que deixo de mencionar, porque não há necessidade de se fazer extensa refutação de um erro, quando o mesmo repousa sobre a mera conjectura. Com essas palavras o apóstolo Paulo não quer dizer que Adão não fora envolvido na mesma ilusão diabólica, senão que a causa e fonte de sua transgressão vieram de Eva.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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sexta-feira, 1 de agosto de 2025

“O NONO MANDAMENTO”


“O NONO MANDAMENTO”

“Não serás testemunha falsa contra teu próximo” [Êx 20.16].  

TEOR E APLICAÇÃO DO NONO MANDAMENTO

Seu propósito: visto que Deus, que é a verdade, abomina a mentira, entre nós se deve cultivar a verdade sem dissimulação. Portanto, a suma é esta: que não prejudiquemos o nome de alguém ou com calúnias e incriminações falsas, ou mentindo façamos dano a seu patrimônio; enfim, não façamos mal a quem quer que seja, pelo desenfreamento da maledicência e da mordacidade. A esta proibição está ligada a injunção a que prestemos a cada um, até onde for viável, fiel assistência na afirmação da verdade, para que se proteja a integridade tanto de seu nome, quanto de suas coisas.

É como se o Senhor quisesse expressar o sentido de seu mandamento nestas palavras: “Não darás guarida a palavra mentirosa, nem unirás tua mão para que, com o ímpio, pronuncies falso testemunho” [Êx 23.1]. De igual modo: “Distanciar-te-ás da falsidade” [Êx 23.7]. Em outro lugar, também, nos adverte contra a mentira não só neste aspecto, dizendo que não sejamos detratores e difamadores no meio do povo [Lv 19.16], mas nem mesmo engane alguém a seu irmão [Lv 19.11], pois acautela contra um e outro em mandamentos específicos. Com efeito, não há dúvida de que, como nos mandamentos precedentes Deus reprimiu a maldade, a impudência, a avareza, assim aqui reprime a falsidade, da qual são duas as facetas, as quais já assinalamos anteriormente. Pois, ou ofendemos a reputação do próximo pela malignidade e pela perversidade de difamar, ou, mentindo, às vezes até injuriando, o privamos dos proventos.

Nenhuma diferença, porém, faz se penses que a referência aqui é a um testemunho solene e tribunalício, ou a um testemunho comum, que é pronunciado em conversas privadas. Porquando se deve recorrer sempre a isto: em cada gênero de transgressões que se propõe uma espécie por paradigma, à qual se apliquem as demais, contudo é, acima de tudo, escolhida aquela em que seja especialmente conspícua a sordidez da transgressão. Entretanto, convém estendê-lo, mais geralmente, às calúnias e detrações perversas com que se estigmatiza iniquamente o próximo, visto que a falsidade de testemunho forense nunca deixa de envolver perjúrio. Quanto aos perjúrios, porém, até onde profanam e violam o nome de Deus, foi suficientemente considerado na porção referente ao terceiro mandamento.

Consequentemente, a legítima observância do mandamento consiste em que, ao declarar a verdade, a língua serve, ou à boa fama, ou aos interesses do próximo. A equidade lhe é mais do que evidente. Ora, se mais precioso do que quaisquer tesouros é o bom nome [Pv 22.1], com detrimento nada menor é um homem despojado da integridade do nome do que de suas riquezas. Mas, ao pilhar-se-lhe o patrimônio, por vezes não se alcança menos pelo falso testemunho do que pela rapacidade das mãos.

A MALEDICÊNCIA E A MORDACIDADE SÃO VIOLAÇÕES DO NONO MANDAMENTO

E, contudo, é de admirar com quão indolente despreocupação, a cada passo, se peca nesta matéria, de tal sorte que raríssimos se acham os que não padeçam notoriamente desta enfermidade. A tal ponto nos deleitamos, por um como que envenenado prazer, seja em procurar descobrir, seja em divulgar as faltas alheias! Nem pensemos ser uma desculpa procedente, se muitas vezes não estamos a mentir. Ora, Aquele que proíbe que seja deturpado pela mentira o nome de um irmão, quer também que se conserve ele ilibado, quanto seja exequível em consonância com a verdade. Porquanto, se de alguma maneira precavenha ele apenas contra a mentira, com isso mesmo, entretanto, acena que ele lhe é objeto de atenção. Com efeito, isto deve nos bastar para que se preserve íntegra ao próximo a reputação: que merece ela consideração da parte de Deus. 

Isso posto, sem a menor dúvida aqui se condena a maledicência. Todavia, por maledicência entendemos não a censura que se faz no empenho de punir faltas; não a acusação ou denúncia judicial, mediante a qual se busca remédio ao mal; não a repreensão pública, que visa a incutir terror a outros pecadores; não a informação em relação àqueles de cuja segurança é de interesse que sejam avisados, para que não incorram em perigo pela falta de conhecimento; ao contrário, é a odiosa incriminação que nasce da maldade e da incontinência de difamar. 

Porque também até este ponto se estende este mandamento: que não afetemos falsa urbanidade e embebida de amargos sarcasmos, mediante os quais, sob a aparência do espirituoso, com mordacidade se trazem à baila os defeitos dos outros, como costumam fazer alguns que procuram granjear o louvor de seus gracejos com a vergonha, e até mesmo o pranto de outros, quando, por vezes, não levemente, infamam os irmãos através de petulância dessa espécie. Ora, se volvermos os olhos para o Legislador, que não tem menos domínio sobre os ouvidos e o coração do que sobre a língua, compreenderemos, sem lugar a dúvidas, que neste mandamento se proíbe não menos ouvir e crer com chistes e acusações, do que proferi-las e ser seus autores. Pois é ridículo se alguém pensa que Deus abomina a doença da maledicência na língua e não desaprova a doença da malignidade na mente. 

Portanto, se há em nós o verdadeiro temor e amor de Deus, diligenciemos, até onde for viável e conveniente, e quanto o admite a caridade, para que não ofereçamos, seja a língua, sejam os ouvidos, a expressões maledicentes e sarcásticas, e não abandonemos, sem razão, a mente a sinuosas suspeitas; pelo contrário, fiéis intérpretes das palavras e atos de todos, conservemos-lhes sinceramente ilibada a honorabilidade, tanto no juízo, quanto nos ouvidos, quanto na língua.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 31 de julho de 2025

“O OITAVO MANDAMENTO”


“O OITAVO MANDAMENTO”

“Não cometerás furto” [Êx 20.15].

TEOR E APLICAÇÃO DO OITAVO MANDAMENTO

Propósito: uma vez que a injustiça é uma abominação a Deus, que se dê a cada um o que é seu. Portanto, a síntese deste mandamento será que somos proibidos de cobiçar as coisas alheias e, consequentemente, se nos ordena fazer sincero esforço em conservar a cada um seus próprios bens. Pois, deve-se assim refletir: que a cada um vem aquilo que possui, não por contingência fortuita, mas em virtude da dispensação do Supremo Senhor de todas as coisas. Portanto, não se pode, mediante maldosas artimanhas, defraudar as posses de quem quer que seja sem que se cometa violação da divina dispensação.

São, porém, muitas as modalidades de furtos. Uma está na violência: quando os bens alheios são roubados mediante qualquer forma de força ou abuso predatório. Outra está na maldosa impostura: quando são eles subtraídos fraudulentamente. Outra está numa sutileza mais velada: quando são surrupiados sob a aparência de justiça. Outra, em afagos: quando são despojados sob o pretexto de doação. Contudo, não insistamos demais em catalogar modalidades de furtos. Reconheçamos que se devem ter por furtos todos os artifícios em virtude dos quais passam para nós as posses e riquezas do próximo, quando se desviam da sinceridade do afeto ante o desejo de enganar ou lesar de qualquer modo. Ainda quando os homens as obtenham em uma disputa judicial, por Deus, entretanto, não são estimadas diferentemente de furtos.

Com efeito, Deus vê os longos embustes com os quais o homem matreiro procura embaraçar o espírito mais simples, até que o atraia, afinal, a suas malhas; Deus vê as leis duras e desumanas com as quais o mais poderoso oprime e prostra o fraco; Deus vê os engodos com os quais o mais astuto isca o incauto como que com anzóis, todos os quais escapam ao julgamento humano, nem vêm à cogitação. Esta injustiça não tem lugar somente em matéria de dinheiro, ou em questões de rendimentos, ou em relação a terras, mas ainda em referência ao direito de cada um, pois defraudamos o próximo de seus bens, se deixamos de cumprir os deveres que para com ele somos obrigados. Se, ocioso, um administrador ou mordomo devora o capital de seu senhor, nem está preocupado com o cuidado de seu patrimônio; se ou esbanja indebitamente os cabedais a si confiados, ou os dissipa desregradamente; se um criado tem em zombaria ao patrão; se lhe divulga os segredos; se de qualquer forma lhe trai, seja a vida, sejam os bens; se, por outro lado, um senhor oprime desumanamente à família; em crime de furto se faz culpado diante de Deus. Pois, quem não perfaz o que, em função de sua vocação, deve aos outros, não só retém o alheio, mas até dele se apropria.

A REAL OBSERVÂNCIA DESTE OITAVO MANDAMENTO

Portanto, desta forma obedeceremos devidamente ao mandamento: se, contentes com nossa sorte, diligenciarmos por não obter nenhum outro ganho, senão o honesto e legítimo; se não visarmos a enriquecer-nos com injustiça, nem nos propusermos a arruinar o próximo em seus haveres, para que nosso patrimônio cresça; se não pugnarmos por acumular riquezas brutais e espremidas do sangue de outros; se não amontoarmos imoderadamente, de toda parte, por meios lícitos e ilícitos, aquilo com que ou nos sacie a avareza ou satisfaça à prodigalidade. Ao contrário, porém, seja-nos este o perpétuo escopo: até onde possível, mediante conselho e assistência, a todos ajudemos fielmente a conservarem o que é seu. Entretanto, se tivermos de nos haver com pérfidos e enganadores, estejamos preparados antes a ceder algo do que é nosso do que com eles contendermos. Não só isto. Mas, aqueles a quem houvermos de ver premidos pelas dificuldades das coisas, compartilhemos-lhes das necessidades e com nossa abundância supramos-lhes a falta de recursos. Finalmente, atente cada um, não importa até onde, por dever de ofício, obrigado para com outros e de boa fé, a pagar o que lhes deve.

Por essa razão, tenha o povo em honra a todos que lhe são constituídos em autoridade, suporte-lhes de bom grado o domínio, obedeça-lhes às leis e determinações, a nada se furtando que possa fazer para o agrado de Deus. Por outro lado, sustenham esses o cuidado de seus súditos, conservem a paz pública, sejam por proteção aos bons, reprimam os maus. De tal modo administrem a tudo como se tivessem de prestar conta de sua função a Deus, o Juiz Supremo. Os ministros das igrejas devotem-se fielmente ao ministério da palavra, nem adulterem o ensino da salvação; ao contrário, transmitam-no ao povo de Deus, puro e incontaminado. Instruam-no não só pelo ensino, mas também pelo exemplo de vida. Enfim, exerçam sua autoridade como os bons pastores sobre suas ovelhas. Por sua vez, receba-os o povo por mensageiros e apóstolos de Deus, renda-lhes essa honra de que o Mestre Supremo os fez dignos, proveja-lhes aquelas coisas que lhes são necessárias à vida.

Dediquem-se os pais a alimentar, a orientar, a ensinar os filhos como a si confiados por Deus, nem lhes exasperem o ânimo pela crueldade, com isso os alienando de si; ao contrário, incentivem-nos e os abracem com a brandura e complacência que lhes convém à pessoa. Como também os filhos lhes prestem a devida obediência, como anteriormente foi dito. Reverenciem os jovens a idade senil, como o Senhor quis que essa idade seja digna de honra. Também, com sua prudência e pela experiência que os excelem, assistam os idosos à insuficiência da juventude, não perturbando-os com recriminações ásperas e estridentes; pelo contrário, moderem a severidade pela afabilidade e singeleza.

Que os empregados, diligentes e com mansidão, se mostrem obedientes aos patrões, não fazendo isso em aparência, mas de coração, como que servindo ao próprio Deus. Os patrões também não se conduzam como rabugentos e intratáveis para com os empregados, não os pressionem com excessiva aspereza, nem os tratem insolentemente. Antes, pelo contrário, reconheçam que eles são seus irmãos e seus conservos sob o Senhor Celeste, a quem devem amar mutuamente e tratar humanamente.

Enfim, que cada um considere, segundo seu estado e vocação, o que deve a seu próximo e se conduza convenientemente. Além disso, a mente deve sempre polarizar-nos com o Legislador, para que saibamos que esta norma é estabelecida para nosso espírito assim como para nossas mãos, a fim de que se esforcem em não somente assegurar, mas também promover, o bem-estar e vantagens dos outros.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

“O SÉTIMO MANDAMENTO”


“O SÉTIMO MANDAMENTO”

“Não cometerás adultério” [Êx 20.14].

TEOR E APLICAÇÃO DO SÉTIMO MANDAMENTO

Seu propósito: visto que Deus ama a castidade e a pureza, importa que nos mantenhamos distância de toda impureza. A suma, portanto, é que não nos poluamos com qualquer imundície ou libidinosa incontinência. A isto corresponde o preceito afirmativo: que dirijamos todas as partes de nossa vida casta e continentemente. De uma maneira mais expressa proíbe a fornicação, à qual tende toda sorte de luxúria, a fim de que, pela natureza e desonestidade que consigo leva – que é mais acentuada e palpável nela, enquanto desonra o próprio corpo –, nos incite a detestar todo gênero de luxúria.

Porquanto o ser humano foi criado com esta lei: que não viva uma vida solitária, ao contrário usufrua de um recurso que é seu por direito. Depois disso, pela maldição do pecado, se viu mais atrelado a esta necessidade. Neste aspecto, de acordo com nossa necessidade, o Senhor nos socorreu quando instituiu o matrimônio, cuja união, consumada por sua autoridade, também santificou com sua bênção. Donde se deduz que diante dele não só é maldita toda e qualquer outra união fora do matrimônio, como também essa própria união conjugal foi ordenada como um remédio indispensável para que não nos atiremos a desenfreada concupiscência.

Portanto, não sejamos complacentes conosco mesmos, quando ouvirmos que um homem não pode coabitar com uma mulher fora do matrimônio, sem a maldição de Deus.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

domingo, 27 de julho de 2025

“O SEXTO MANDAMENTO”


“O SEXTO MANDAMENTO”

“Não matarás” [Êx 20.13].

TEOR E APLICAÇÃO DO SEXTO MANDAMENTO

A finalidade do mandamento é: Visto que o Senhor vinculou o gênero humano como que por uma unidade precisa, a cada um deve ser delegada a preservação de todos. Em suma, é-nos, portanto, proibida toda violência e brutalidade, e, de um modo geral, toda e qualquer ação deletéria pela qual venha a sofrer dano o corpo do próximo. Consequentemente, inculca-se-nos aplicá-lo fielmente, se algo em nosso poder é de valia para proteger a vida do próximo, buscar o que lhe contribui para a tranquilidade, sermos vigilantes em desviar dele as coisas nocivas, dar-lhe ajuda, caso esteja em alguma situação de perigo.

Se tens em lembrança que Deus está assim a falar como o Legislador, pondera, ao mesmo tempo, que por esta norma ele quer regular-te a alma. Pois seria algo contrário à razão que esse que esquadrinha as próprias cogitações do coração humano e nelas particularmente se detém, nada mais instruísse à verdadeira justiça senão o corpo. Portanto, por esta lei não só se proíbe o homicídio do coração, mas também se prescreve a disposição interior de conservar-se a vida de um irmão. A mão, de fato, perpetra o homicídio; concebe-o, porém, a mente, enquanto é impregnada pela ira e pelo ódio. Vê se te possas irar contra um irmão sem que ardas em desejo de ir à forra. Se não te podes contra ele irar, então nem mesmo odiá-lo, uma vez que o ódio outra coisa não é senão ira inveterada. Ainda que o dissimules e através de vãos subterfúgios tentes desembaraçar-te dele, onde está a ira ou o ódio, aí está a disposição maléfica. Se persistes em evasivas, já foi pronunciado pela boca do Espírito que é homicida aquele que em seu coração odeia ao irmão [1Jo 3.15]; já foi pronunciado pela boca do Senhor Jesus Cristo que é passível a juízo aquele que se ira contra seu irmão, que é passível ao tribunal aquele que sem motivo insultá-lo; que é passível ao inferno de fogo aquele que tenha dito: idiota [Mt 5.22].

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.

“O TERCEIRO MANDAMENTO”

“O TERCEIRO MANDAMENTO”

“Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão” [Êx 20.7].

TEOR E APLICAÇÃO DO TERCEIRO MANDAMENTO

A finalidade do mandamento é que Deus quer que a majestade de seu nome nos seja sacrossanta. Logo, a suma será que não a profanemos tratando-o com menosprezo e irreverentemente. A esta injunção restritiva corresponde, em paralelo, o preceito positivo de que nos empenhemos e preocupemos em buscá-la com religiosa reverência. Dessa forma, assim nos convém estar dispostos no pensar e no falar que nada pensemos ou falemos acerca do próprio Deus e de seus mistérios, a não ser reverentemente e com muita sobriedade, de sorte que, em estimando-lhe as obras, nada concebamos a não ser o que lhe é honroso.

Estes três pontos, insisto, importa observar não negligentemente: primeiro, que tudo quanto a mente concebe a seu respeito, tudo quanto a língua profere, saiba sua excelência e corresponda à sagrada sublimidade de seu nome, afinal, seja adequado a enaltecer-lhe a magnificência. Segundo, não abusemos, temerária e pervertidamente, de sua santa Palavra e de seus venerandos mistérios, seja a serviço da ambição, seja a serviço da avareza, seja a serviço de nossos divertimentos. Pelo contrário, uma vez que trazem impressa em si a dignidade de seu nome, tenham sempre entre nós sua honra e apreço. Finalmente, não lhe difamemos ou desacreditemos as obras, como contra ele costumam injuriosamente vociferar homens miseráveis; ao contrário, tudo quanto rememoramos como feito por ele, celebremo-lo com os louvores de sabedoria, de justiça e de bondade.

Nisto consiste santificar o nome de Deus. Quando se procede de outra maneira, de vão e ímpio abuso se polui ele, porque é subtraído do uso legítimo a que unicamente fora consagrado, e, ainda que em nada mais seja despojado, entretanto de sua dignidade se torna desprezível aos poucos. Ora, se tanto há de mal nesta temerária propensão de abusar improcedentemente do nome divino, muito mais nisto, se a nefários usos se confere, como aqueles que o fazem servir às superstições da necromancia, às imprecações execráveis, aos exorcismos ilícitos e a outros ímpios encantamentos.

Mas, neste mandamento se tem em conta, acima de tudo, o juramento, em que é sobremodo detestável o uso pervertido do nome divino, para que daí melhor nos atemorizemos de toda profanação dele, sob qualquer forma. Entretanto, aqui se trata antes do culto de Deus e da reverência de seu nome, contudo não da equidade que se deve cultivar entre os homens, daí se evidencia que, em seguida, condenará na segunda tábua o perjúrio e o falso testemunho, com que é agravada a sociedade humana. Ora, seria supérflua repetição se este mandamento tratasse do dever da caridade. Já a própria divisão dos mandamentos também postula isto, porque, como já se disse, não sem razão Deus atribui duas tábuas à sua lei. Donde se conclui que Deus está aqui reivindicando para si este seu direito e preservando a santidade de seu nome, não, porém, a ensinar o que os homens devam aos homens.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana do Brasil - Curitiba/PR.