"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



domingo, 16 de março de 2025

“ENTÃO CONHECEREMOS, SE PROSSEGUIRMOS EM CONHECER O SENHOR"


“ENTÃO CONHECEREMOS, SE PROSSEGUIRMOS EM CONHECER O SENHOR"

 Então conheceremos, se prosseguirmos em conhecer o SENHOR: sua saída está preparada como a manhã; e ele virá a nós como a última e a primeira chuva sobre a terra” (Oséias 6.3).

Neste versículo, os fiéis prosseguem o que eu anteriormente discuti, assegurando-se da esperança de salvação: nem é coisa para se maravilhar que o Profeta detenha-se mais completamente sobre este tópico; pois sabemos quão inclinados somos a acalentar dúvida. Não há nada mais custoso, em especial quando Deus exibe a nós sinais de sua ira, do que nos recobrarmos para que nos persuadamos realmente de que ele é nosso médico quando ele parece visitar nossos pecados. Neste caso, então, devemos lutar seriamente, pois nada pode ser feito sem labor. Por isso, os fiéis ora dizem: Conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR. Eles demonstram, pois, por tais palavras, que não tinham receio, mas que a luz surgiria depois da escuridão; pois este é o sentido das palavras: Saberemos então, eles dizem; isto é: “Ainda que agora haja trevas horríveis por todos os lados, contudo, o Senhor manifestará a nós sua bondade, mesmo que ela não apareça de imediato”. Eles, por conseguinte, adicionam: E prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR. Percebemos agora o teor das palavras.

Ora, essa passagem nos ensina que, quando Deus oculta sua face, agiremos tolamente se alimentarmos nossa incredulidade; ao contrário, devemos, como eu já disse, combater essa destrutiva moléstia, visto como Satanás nada mais busca senão nos afundar no desespero. Esse seu ardil, então, deve ser conhecido por nós, como Paulo nos faz lembrar, (2Co 2.11); e aqui o Espírito Santo nos supre de armas, pelas quais podemos rechaçar esta tentação satânica: “O quê? Vejas que Deus está irado contigo; nem é de qualquer valia a ti aventurar-se a ir até ele, pois todo acesso está cerrado”. Isso é o que Satanás nos sugere, quando estamos cônscios de nossos pecados. O que deve ser feito? O Profeta aqui propõe um remédio: Conheceremos; “Embora agora estejamos mergulhados em densas trevas, embora lá nunca brilhe sobre nós nem mesmo uma centelha de luz, todavia saberemos (como Isaías diz, “eu esperarei no SENHOR, que esconde sua face de Jacó”) que este é o verdadeiro exercício da nossa fé quando erguemos nossos olhos à luz que aparenta estar apagada, e quando, nas trevas da morte, nós, no entanto, continuamos a prometer a nós mesmos vida, como somos aqui instruídos: Nós conheceremos então; além disso, prosseguiremos após o conhecimento do SENHOR; embora Deus desvie sua face, e, por assim dizer, de propósito duplique a escuridão, e todo conhecimento de sua graça esteja, no modo de dizer, extinto, não obstante, prosseguiremos após tal conhecimento; ou seja, nenhum obstáculo impedir-nos-á de pelejar, e nossos esforços por fim darão caminho àquela graça que dá a impressão de estar inteiramente excluída de nós”.

Alguns dão esta tradução: Conheceremos, e prosseguiremos para conhecer o SENHOR, e deste modo explicam a passagem — que os israelitas não auferiram semelhante benefício da lei de Moisés, mas que ainda esperavam a doutrina mais completa que Cristo trouxe em sua vinda. Eles, então, acham que essa é uma profecia que diz respeito a tal doutrina, que está agora exposta a nós, em seu brilho pleno, pelo Evangelho, porque Deus se manifestou em seu Filho como numa imagem vivente. Contudo, essa é uma interpretação por demais rebuscada; e nos é suficiente mantermo-nos próximo do desígnio do Profeta. Ele deveras apresenta os piedosos falando assim por esta razão — porque havia necessidade de grande e forte empenho, para que eles pudessem se alçar à esperança de salvação; pois o exílio não era para ser de um dia, mas de setenta anos. Logo, quando uma tão pesada provação aguardava os religiosos, o Profeta desejava aqui prepará-los para a laboriosa batalha: Então conheceremos, e seguiremos para conhecer o SENHOR.

Depois, ele diz: Como a manhã chegará para nós sua saída — uma símile a mais apropriada; pois, aqui, os fiéis evocam à mente a sucessão contínua de dias e noites. Não admira que Deus nos convide a esperar por sua graça, a vista da qual está, todavia, ocultada de nós; pois, a não ser que tenhamos aprendido por longa experiência, quem poderia esperar por luz repentina quando prepondera a escuridão da noite? Não acharíamos que a terra está inteiramente privada de luz? Mas, ao ver que a aurora subitamente brilha, pondo termo às trevas da noite e dispersando-a, que maravilha é esta, que o Senhor resplandeça além de nossa expectativa? Sua saída, pois, será como a manhã.

Ele, aqui, chama uma nova manifestação de a saída de Deus, isto é, quando esse mostra que atende seu povo com mercê, quando mostra que está atento ao pacto que fez com Abraão; pois, conquanto o povo estivesse exilado de seu país, Deus não parecia, como dissemos, considerá-lo mais; ou melhor, o julgamento da carne apenas sugeria isto, que Deus estava muitíssimo distante de seu povo. Ele, então, denomina-a a saída de Deus, quando esse se mostrar propício aos cativos e restaurá-los totalmente; então virá a saída de Deus, e será como a manhã. Vemos pois agora que ele os confirma pela ordem da natureza, como Paulo confirma, quando ralha a descrença daqueles para quem uma ressurreição futura se afigurava incrível, porque ultrapassava os pensamentos da carne; “Ó néscio!”, ele diz, “não vês tu que o que semeamos primeiro apodrece e depois germina? Deus ora põe diante de ti, numa semente que se apodrece, um emblema da ressurreição futura”. Assim também aqui, visto que a luz diariamente surge a nós, e a manhã brilha depois das trevas da noite, o que então o Senhor não efetuará por si mesmo, ele que opera tão poderosamente pelas coisas materiais? Quando tornar manifesto seu pleno poder, o que, pensamos, ele fará? Não sobreexcederá muito mais a todos os pensamentos da nossa carne? Vemos agora por que tal comparação foi adicionada.

Depois, ele nos descreve o efeito dessa manifestação: Ele virá a nós, ele diz, como a chuva, como a última chuva, uma chuva para a terra. Essa comparação demonstra que, tão logo se digna a olhar para o seu povo, o semblante de Deus será como a chuva que irriga a terra. Quando a terra fica seca depois de prolongado calor e prolongada seca, ela parece ser incapaz de produzir fruto; mas a chuva lhe restaura a sua umidade e vigor. Assim, pois, o Profeta, na pessoa do fiel, reforça mesmo aqui a esperança de uma completa restauração. Ele virá a nós como a chuva, como a chuva tardia.

Os hebreus chamam a última chuva, pela qual o trigo ficava sazonado, de serôdia. E parece que o Profeta queria dizer chuva primaveril. Mas o sentido é claramente este, que, embora os israelitas houvessem se tornado tão secos que não tivessem mais qualquer vitalidade, todavia, haveria tanta virtude na graça divina quanto na chuva, que frutifica a terra quando essa parece ser estéril. Porém, quando, ao fim, ele acrescenta uma chuva à terra, eu não duvido de que ele tivesse em vista a chuva da estação, que é agradável e aceitável à terra, ou àquela de que a terra realmente carece; pois uma pancada violenta não pode ser chamada propriamente uma chuva para a terra, por destrutiva e prejudicial que é.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564). 

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

“SEMEAI PARA VÓS MESMOS EM JUSTIÇA”


“SEMEAI PARA VÓS MESMOS EM JUSTIÇA”

“Semeai para vós mesmos em justiça, colhei em misericórdia; quebrai em pedaços o vosso solo de terra devoluta; pois é tempo de procurar o SENHOR, até que ele venha e faça chover justiça sobre vós” (Os 10.12).

O profeta Oséias, aqui, exorta os israelitas ao arrependimento; conquanto não pareça uma simples e mera exortação, antes, um protesto; como se o Senhor houvesse dito que ele, até ali, em vão lidava com o povo de Israel, pois que esse sempre continuara obstinado. Pois se segue, imediatamente - “Vós arastes maldade, vós colhestes iniquidade; vós comestes o fruto das mentiras; porque tu confiaste em teu caminho, na multidão dos teus homens poderosos” (v.13).

A razão, pela qual eu cuidei que o Profeta não exortava simplesmente o povo, antes, acusava-o de inflexibilidade por não melhorar, apesar de várias vezes admoestado, é aqui encontrada. Ele, então, relata o quanto Deus, anteriormente, fizera para restaurar o povo a uma mente sã; pois isso tinha sido seu ensino constante: Semeai para vós mesmos retidão, colhei, em proporção, bondade, ou, consoante à proporção de brandura; arai uma lavoura para si próprios; é a época de buscar ao Senhor. Então, conquanto o povo ouvisse tais palavras todo dia, e tivesse seus ouvidos quase ensurdecidos por elas, todavia, ele não mudava para melhor, nem se tornava maleável; pelo contrário, com um propósito fixo, por assim dizer, eles lavravam, diz ele, impiedade, eles colhiam iniquidade; por conseguinte, eles comiam mesmo o fruto da falsidade, pois curtiam justos castigos, ou, saciavam-se de falsidade e traição. Compreendemos, agora, o que o Profeta quis dizer: procederei às particularidades.

Semeai para vós mesmos retidão. Ele revela que a salvação desse povo não havia sido negligenciada por Deus; pois experimentara se ele povo era curável. O remédio era que esse conheceria que Deus apaziguava-se para com ele ao se devotar, ele povo, à justiça. O Senhor oferecia sua mercê: “Retornai unicamente para mim; pois, assim que a semente da justiça for semeada por vós, a ceifa será preparada, um galardão será guardado para vós; vós, então, segareis frutos em consonância com a vossa bondade”.

Não obstante, se alguém perguntar se está no poder dos homens semear justiça, a resposta é pronta, e é esta: que o Profeta não explica aqui quão longe a habilidade dos homens se estende, mas requer o que eles devem fazer. De onde é que tantas maldições muitas vezes nos oprimem, senão por o produto ser similar à semente que espalhamos? Ou seja, Deus retribui a nós o que merecemos.

Isso, pois, é o que o Profeta mostra, quando diz: “Semeai para vós mesmos retidão”: ele demonstra que era culpa deles se o Senhor não os acalentava amável, generosa e paternalmente: era porque a impiedade deles não o permitia.

E o Profeta somente fala das obrigações da segunda tábua da lei, como também os Profetas falam, quando exortam os homens à penitência: eles, com frequência, principiam pela segunda tábua, porque a perversidade do homem, relativamente a essa, é mais palpável, e podem, por esse meio, ser mais facilmente declarados culpados.

Porém, o que ele acrescenta a seguir, lavrar a lavoura, não está, reconheço, em seu lugar adequado; mas não há nada incoerente nisso: pois, depois de havê-los exortado a arar, ele acrescenta que eles eram como campos incultos e desertos, de modo que não era direito semear a semente antes que houvessem sido preparados. O Profeta devia, então, de acordo com a ordem da natureza, ter começado com lavoura; mas ele simplesmente disse o que desejava transmitir, que os israelitas não recebiam os frutos desejados porque tinham semeado apenas injustiça. Caso eles, agora, desejassem ser tratados com mais amabilidade, ele indica o remédio, que é semear justiça. Se era assim, que eles já estavam cheios de impiedade, ele revela que eles eram como um campo recoberto de sarças e espinheiros. Por isso, quando um campo fica sem ser cultivado por muito tempo, espinhos, cardos e outras ervas daninhas crescem ali; uma dupla aragem será necessária, e esse duplo trabalho é chamado de Novação; e Jeremias fala da mesma coisa, quando mostra que o povo se endurecera em sua imoralidade, e que esse não podia produzir qualquer fruto até que os espinheiros fossem arrancados pelas raízes e o povo houvesse sido libertado dos vícios em que se tornara firme; por isso, ele diz: “Lavrai outra vez vosso chão sulcado” (Jr 4.3.)

E é tempo de buscar o SENHOR, até que ele venha. Aqui, o Profeta oferece uma esperança de perdão ao povo, para encorajá-lo a arrepender-se: pois sabemos que, quando os homens são chamados de volta para Deus, ficam entorpecidos, e mesmo abatidos em suas mentes, até serem assegurados de que Deus ser-lhes-á propício; e isso é o que tratamos mais plenamente noutra parte. Agora, o Profeta trata da mesma verdade, que é o tempo de buscar o Senhor. Ele, de fato, usa a palavra que denota uma época tempestiva. É, então, o tempo de procurar ao Senhor; como se ele dissesse: “O caminho de salvação não está ainda fechado para vós; pois o Senhor convida-vos para ele mesmo, e, de si próprio, está inclinado à misericórdia”. Isso é uma coisa. Entretanto, somos, ao mesmo tempo, ensinados de que não deve haver tardança; pois tal morosidade custar-lhes-á caro, se desprezarem um tão amável convite de Deus e prosseguirem em sua obstinação. Então, é o tempo para buscar a Deus; como também Isaías diz: “Buscai ao SENHOR enquanto ele pode ser encontrado, procurai-o enquanto está perto: Eis agora o tempo do bom prazer; eis, agora o dia da salvação” (Is 55.6). Assim, também aqui, o Profeta atesta que Israel trataria facilmente com Deus se retornasse ao caminho reto; mas que, se continuasse obstinadamente em seus pecados, período não seria perpétuo; pois a porta seria fechada, e o povo debalde clamaria, após haver negligenciado esse oportuno convite e abusado da paciência divina.

É o tempo, pois, diz, de procurar o SENHOR, até que ele venha. Essa última oração é uma confirmação da primeira; pois o Profeta declara aqui, explicitamente, que não seria labor inútil para Israel começar a buscar a Deus — “Ele virá a vós”. Ao mesmo tempo, ele alerta-os para não serem por demais precipitados em suas expectativas; pois, ainda que Deus os recebesse em mercê, ele, todavia, não os livraria já de todos os castigos ou males. Devemos, então, pacientemente esperar até que o fruto da reconciliação apareça. Desse modo, vemos que os dois pontos são aqui sabiamente manejados pelo Profeta; pois ele queria que Israel se apressasse com profundo interesse, não protelasse muito o tempo de arrependimento e, também, permanecesse sossegado, caso Deus não se revelasse incontinente, propício, nem exibisse sinais de seu favor; o Profeta desejava, nesse caso, que o povo fosse paciente.

E chova justiça sobre vós. A palavra “chova” quer dizer, na verdade, “ensinar”, e também “arremessar”; porém, como a palavra é derivada desses verbos, como é bem sabido, significa a chuva, eu não posso explicá-la aqui de outra maneira que não “ele choverá justiça sobre vós”. O que, verdadeiramente, podia significar o ensino da justiça? Pois o Profeta alude à seara; e o povo podia dizer: “Estamos assegurados de provisão, se buscarmos a Deus?” “Decerto”, diz ele; “ele virá; ele virá a vós, e choverá justiça, ou o fruto da justiça, sobre vós”. Em resumo, o Profeta indica aqui que, sempre que Deus é buscado em sinceridade e de coração pelos pecadores, ele sai para encontrá-los, revelando-se amável e compassivo. Mas, como ele havia falado de arar e semear, o fruto ou a colheita devia ser ora citado; para que oferecesse, portanto, uma promessa de que aqueles que tinham semeado justiça não perderiam seu dispêndio e fadiga, ele diz que o Senhor choverá sobre vós o fruto da justiça.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564). 

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.

sexta-feira, 14 de março de 2025

DE ZEGEN

DE ZEGEN - A BÊNÇÃO

O Senhor te abençoa e protege.
Ele brilha sua luz radiante misericordiosamente sobre você.
O Senhor te vê e te guarda; Ele dá paz.
Amém. Amém. Amém.

Parte 1:
Que sua bondade o envolva, até mil gerações;
também seus filhos e suas filhas e seus filhos e suas filhas.

Parte 2:
O próprio Senhor irá adiante de você.
Ele te cerca, Ele te cerca.
Ao seu redor e dentro de você: Ele está com você.

Parte 3:
De manhã, à noite, quando você sai, quando você chega em casa,
em suas lágrimas, em sua alegria:
Ele está com você.

Parte 4:
Ele está com você.
Que Sua bondade o envolva…
O próprio Senhor irá adiante de você...
De manhã, à noite…
Ele está com você…

Números 6:22-27

“O QUARTO MANDAMENTO”

“O QUARTO MANDAMENTO”

Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” [Êx 20.8-11].

1. TEOR E APLICAÇÃO DO QUARTO MANDAMENTO

O fim deste mandamento é que, mortos para nossos próprios interesses e obras, meditemos no Reino de Deus e a essa meditação nos apliquemos com os meios por ele estabelecidos. Contudo, uma vez que tem este mandamento uma consideração peculiar e distinta dos outros, requer ele ordem de exposição um pouco diferente. Costumam os antigos chamá-lo um mandamento prefigurativo, porque contém a observância externa de um dia, a qual foi abolida, com as demais figuras, na vinda de Cristo, o que certamente é por eles dito com verdade, mas ferem a questão apenas pela metade. Por isso tem-se de buscar uma exposição mais profunda e levar em consideração três causas pelas quais, a mim me parece ficar patente, eles têm observado este mandamento. Primeira, pois o celeste Legislador quis que sob o descanso do dia sétimo prefigurasse ao povo de Israel um repouso espiritual, pelo qual devem os fiéis descansar de suas próprias atividades para que deixem Deus neles operar. Segunda, quis ele que um dia fosse estabelecido no qual se reunissem para ouvir a lei e realizar os atos de culto, ou, pelo menos, o qual consagrassem particularmente à meditação de suas obras, de sorte que, por esta rememoração, fossem exercitados à piedade. Terceira, ordenou um dia de repouso no qual se concedesse aos servos e aos que vivem sob o domínio de outros para que tivessem alguma relaxação de seu labor.

2. A IMPORTÂNCIA DO SÁBADO E SEU SENTIDO ESPIRITUAL

Contudo, somos ensinados em muitas passagens que essa prefiguração do descanso espiritual teve o lugar principal no sábado. Com efeito, de quase nenhum mandamento mais severamente o Senhor exige obediência. Quando, nos profetas, quer dar a entender que toda a religião está subvertida, queixa-se Deus de que seus sábados foram profanados, violados, não observados, não santificados, como se, posta de lado esta deferência, nada mais restasse em que pudesse ser honrado [Is 56.2; Jr 17.21-23, 27; Êx 20.12, 13; 22.8; 23.38]. A observância cumula-lhe os mais sublimados encômios, donde também os fiéis, entre os demais oráculos, estimavam sobremaneira a revelação do sábado. Pois assim falam os levitas em Neemias [9.14], na assembleia solene: “Deste a conhecer a nossos pais teu santo sábado; mandamentos, e cerimônias, e a lei lhes deste pela mão de Moisés.” Vês como o sábado é tido de singular dignidade entre todos os mandamentos da lei. Estes preceitos todos servem para exaltar a dignidade do mistério, que é mui esplendidamente expresso por Moisés e Ezequiel. Assim tens no Êxodo [31.13, 14, 16, 17a]: “Vede que guardeis meu sábado, porque é um sinal entre mim e vós, em vossas gerações, para que saibais que Eu sou o Senhor, que vos santifico. Guardai o sábado, pois ele é santo para vós.” “Guardem o sábado os filhos de Israel, e o celebrem em suas gerações; é um pacto sempiterno entre mim e os filhos de Israel, e um sinal perpétuo.” Ora, ainda mais destacadamente o reitera Ezequiel, cuja suma, entretanto, é esta: que o sábado fosse por sinal pelo qual Israel pudesse conhecer que Deus lhe era o santificador [Ez 20.12]. Se nossa santificação se patenteia na mortificação da própria vontade, então mui adequada correspondência se oferece do sinal externo com a própria realidade interior. Importa que nos desativemos totalmente, para que Deus opere em nós, abrindo mão de nossa vontade, resignando o coração, de seus apetites abdicando toda a carne. Enfim, impõe-se abster-nos de todas as atividades de nosso próprio entendimento, para que, tendo a Deus operando em nós [Hb 13.21], nele descansemos, como também o ensina o Apóstolo [Hb 4.9].

3. O SENTIDO TIPOLÓGICO DO SÉTIMO DIA

A observância de um dia dentre cada sete representava aos judeus esta cessação perpétua de atividades, a qual, para que fosse cultivada com religiosidade maior, o Senhor a recomendou com seu próprio exemplo. Pois é de não somenos valia para aquecer o zelo do homem que saiba estar trilhando à imitação do Criador. Se alguém procura algum sentido secreto no número sete, uma vez que na Escritura este é o número da perfeição, não sem causa foi ele escolhido para expressar perpetuidade. Ao que também confirma isto: que Moisés põe termo à descrição da sucessão de dias e noites com o dia em que narra haver o Senhor descansado de suas obras. Pode-se também apresentar outro significado provável do número, isto é, que o Senhor assim indicou que o sábado nunca haverá de ser absoluto até que tenha chegado o último dia. Pois aqui começamos nosso bem-aventurado descanso nele, descanso em que fazemos diariamente novos progressos. Mas, porque ainda incessante é a luta com a carne, não se haverá de consumar antes que se cumpra aquele vaticínio de Isaías [66.23], enquanto a lua nova for continuada por lua nova, sábado por sábado, até quando, na verdade, Deus vier a ser tudo em todas as coisas [1Co 15.28]. Portanto, pode parecer que, mediante o sétimo dia, o Senhor tenha delineado a seu povo a perfeição futura de seu sábado no Último Dia, a fim de que, pela incessante meditação do sábado, a esta perfeição aspirasse por toda a vida.

4. CRISTO, O PLENO CUMPRIMENTO DO SÁBADO

Se a alguém desagrada esta interpretação do número como sendo por demais sutil, nada impeço a que a tome em termos mais simples, a saber: que o Senhor estabeleceu um dia determinado em que o povo se exercitasse, sob a direção da lei, a meditar na incessabilidade do descanso espiritual; que Deus designou o sétimo dia, ou porque previa ser o mesmo suficiente para isso, ou para que, proposta uma imitação de seu exemplo, melhor estimulasse o povo, ou, na realidade, o exortasse a não atentar para o sábado com outro propósito senão que o conformasse a seu Criador. Ora, pouco interessa que interpretação se adote, desde que subsista o mistério que principalmente se delineia: o referente ao perpétuo descanso de nossos labores. A contemplar isto, os Profetas reiteradamente revocavam os judeus, para que não pensassem haver-se desincumbido da obrigação do sábado com a simples cessação física do trabalho. Além das passagens já referidas, assim tens em Isaías [58.13, 14]: “Se apartares do sábado teu pé, para que não faças tua vontade em meu santo dia, e ao sábado chamares deleitoso e o dia santo do Senhor glorioso, e o glorificares, não seguindo teus caminhos e não fazendo tua vontade, de sorte que fales tua palavra, então te deleitarás no Senhor” etc. Mas, não há dúvida de que pela vinda do Senhor Jesus Cristo o que era aqui cerimonial foi abolido. Pois ele é a verdade, por cuja presença se desvanecem todas as figuras; o corpo, a cuja visão são deixadas para trás as sombras. Ele é, digo-o, o verdadeiro cumprimento do sábado. Com ele, sepultados através do batismo, fomos enxertados na participação de sua morte, para que, participantes de sua ressurreição, andemos em novidade de vida [Rm 6.4]. Por isso, escreve o Apóstolo em outro lugar que o sábado tem sido uma sombra da realidade futura, e que o corpo, isto é, a sólida substância da verdade, que bem explicou naquela passagem, está em Cristo [Cl 2.17]. Esta não consiste em apenas um dia, mas em todo o curso de nossa vida, até que, inteiramente mortos para nós mesmos, nos enchamos da vida de Deus. Portanto, que esteja longe dos cristãos a observância supersticiosa de dias.

5. AINDA QUE CANCELADO, HÁ NO SÁBADO ASPECTOS VIGENTES

Com efeito, por isso é que nas velhas sombras não se devem numerar as duas causas posteriores que se enfeixam neste mandamento; ao contrário, convêm elas, igualmente, em todos os séculos, ainda que o sábado esteja cancelado, entre nós, não obstante, ainda tem lugar isto: primeiro, que nos congreguemos em dias determinados para ouvir a Palavra, para partir o pão místico, para as orações públicas; segundo, para que se dê aos servos e aos operários relaxação de seu labor. Paira além de dúvida que, na preceituação do sábado, o Senhor teve em mira a ambas. Sobejo testemunho tem a primeira, mesmo que seja só no uso dos judeus. A segunda gravou-a Moisés no Deuteronômio, nestas palavras: “Para que descanse teu servo, e tua serva, assim como também tu; lembra-te de que também tu mesmo foste servo no Egito” [Dt 5.14, 15]. De igual modo, no Êxodo: “Para que descanse teu boi e teu jumento e tome alento o filho de tua serva” [Êx 23.l2]. Quem há de negar que uma e outra nos convém, exatamente como convinha aos judeus? Reuniões de Igreja nos são preceituadas pela Palavra de Deus, e sua necessidade nos é suficientemente assinalada pela própria experiência da vida. Como se podem elas realizar, a não ser que tenham sido promulgadas e tenham seus dias estabelecidos? Segundo a postulação do Apóstolo [1Co 14.40], todas as coisas entre nós devem ser feitas decentemente e com ordem. Tão longe, porém, está de que se possa conservar a decência e a ordem, a não ser mediante esta organização e regularidade, as quais, se se desfazem, sobre a Igreja pairam mui presente perturbação e ruína. Pois se a mesma necessidade pesa sobre nós, em socorro da qual o Senhor constituíra o sábado para os judeus, ninguém alegue que ele não nos diz respeito. Ora, nosso providentíssimo e indulgentíssimo Pai quis prover à nossa necessidade, não menos que à dos judeus. Por que, dirás, não nos congregamos antes diariamente, de sorte que, dessa forma, se ponha termo à distinção de dias? Prouvera que, de fato, isto se nos concedesse! E, por certo, a sabedoria espiritual era digna de que se lhe reservasse diariamente alguma porçãozinha do tempo. Mas, se pela fraqueza de muitos não se pode conseguir que se realizem reuniões diárias, e a norma da caridade não permite deles exigir mais, por que não obedeçamos à norma que nos foi imposta pela vontade de Deus?

6. O ESPÍRITO E FUNÇÃO DA OBSERVÂNCIA DO DOMINGO

Sou compelido a estender-me um pouco mais aqui, porque alguns espíritos inquietos estão hoje a causar tumulto por causa do Dia do Senhor. Acusam o povo cristão de ser nutrido no judaísmo, porquanto retém certa observância de dias. Eu, porém, respondo que estes dias são por nós observados aquém do judaísmo, porque nesta matéria diferimos dos judeus por larga diferença. Pois, não o celebramos como uma cerimônia revestida com a mais estrita religiosidade, pela qual pensamos representar-se um mistério espiritual. Pelo contrário, tomamo-lo como um remédio necessário para reter-se ordem na Igreja. Ademais, Paulo ensina que os cristãos não devem ser julgados por sua observância, uma vez ser ela mera sombra da realidade futura [Cl 2.16, 17]. Por isso, arreceia-se de que haja trabalhado em vão entre os gálatas, porque ainda observavam dias [G1 4.10, 11]. E aos romanos declara ser supersticioso se alguém julga entre dia e dia [Rm 14.5]. Quem, entretanto, exceto estes desvairados somente, não vê que observância o Apóstolo tinha em mente? Pois, aqueles a quem se dirigia não contemplavam neste propósito a ordem política e eclesiástica; antes, como retivessem os sábados e dias de guarda como sombras das coisas espirituais, obscureciam em extensão correspondente a glória de Cristo e a luz do evangelho. Abstinham-se dos labores manuais não por outra razão senão para que fossem embaraços aos sacros estudos e meditações; e assim, com uma certa devoção, sonhavam que, ao observá-lo, estavam a rememorar mistérios dantes recomendados. Contra esta antagônica distinção de dias, digo-o, investe o Apóstolo, não contra a legítima opção que serve à paz da sociedade cristã. Com efeito, nas igrejas por ele estabelecidas, o sábado era mantido para este propósito. Ora, prescreve ele esse dia aos coríntios, para que se coletem ofertas a fim de serem socorridos os irmãos hierosolimitanos [1Co 16.2]. Se porventura se teme superstição, muito mais perigo havia nos dias de guarda judaicos, nos dias do Senhor, do que agora observam os cristãos. Pois, visto que para suprimir-se a superstição se impunha isto, foi abolido o dia sagrado observado pelos judeus; e como era necessário para se conservarem o decoro, a ordem e a paz na Igreja, designou-se outro dia, o domingo para este fim.

7. O GENUÍNO SENTIDO DO DOMINGO

Contudo, não foi sem alguma razão que os antigos escolheram o dia do domingo para pô-lo no lugar do sábado. Ora, como na ressurreição do Senhor está o fim e cumprimento daquele verdadeiro descanso que o antigo sábado prefigurava, os cristãos são advertidos pelo próprio dia que pôs termo às sombras a não se apegarem ao cerimonial envolto em sombras. Nem a tal ponto, contudo, me prendo ao número sete que obrigue a Igreja à sua servidão, pois nem haverei de condenar as igrejas que tenham outros dias solenes para suas reuniões, desde que se guardem da superstição. Isto ocorrerá, se se mantiver a observância da disciplina e da ordem bem regulada. A síntese do mandamento é: como aos judeus a verdade era comunicada sob prefiguração, assim ela, em primeiro lugar, nos é outorgada sem sombras, para que por toda a vida observemos um perpétuo sabatismo de nossos labores, a fim de que o Senhor em nós opere por seu Espírito; em segundo lugar, para que cada um, individualmente, sempre que disponha de lazer, se exercite diligentemente na piedosa reflexão das obras de Deus. Então, ainda, para que todos a um tempo observemos a legítima ordem da Igreja, constituída para ouvir-se a Palavra, para a administração dos sacramentos, para as orações públicas. Em terceiro lugar, para que não oprimamos desumanamente os que nos estão sujeitos. E assim se desvanecem-se as mentiras dos falsos profetas, os quais, em séculos transatos, imbuíram o povo de uma opinião judaica, asseverando que nada mais foi cancelado senão o que era cerimonial neste mandamento, com isto entendem em seu linguajar a fixação do dia sétimo, mas remanescer o que é moral, isto é, a observância de um dia na semana. Com efeito, isto outra coisa não é senão mudar o dia por despeito aos judeus e reter em mente a mesma santidade do dia, uma vez que ainda nos permanece nos dias sentido de mistério igual ao que tinha lugar entre os judeus. E de fato vemos que proveito tem fruído com tal doutrina, pois quantos deles se apegam às estipulações superam três vezes aos judeus em sua crassa e carnal superstição de sabatismo, de sorte que as reprimendas que lemos em Isaías [1.13-15; 58.13] nada menos lhes convêm hoje que àqueles a quem o Profeta increpava em seu tempo. Contudo, importa manter-se, principalmente, o ensino geral: para que a religião não pereça ou venha definhar entre nós, devem ser realizadas diligentemente as reuniões sagradas e deve dar-se atenção aos meios externos que servem para fomentar o culto divino.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564). 

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quinta-feira, 13 de março de 2025

“O PRÓXIMO É TODA E QUALQUER CRIATURA HUMANA”


“O PRÓXIMO É TODA E QUALQUER CRIATURA HUMANA”

“Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” [Mt 22.36-40].

Já demonstramos que Cristo, na parábola do samaritano [Lc 10.29-37], sob o termo próximo inclui cada indivíduo, até o mais distanciado, não havendo razão para limitarmos o preceito do amor ao próximo às pessoas mais achegadas a nós. Não estou negando que quanto mais intimamente ligada nos é uma pessoa, tanto mais especialmente é nosso dever assisti-la. Pois assim impõe o princípio de humanidade: quanto mais íntimos são os laços de parentesco ou amizade que ligam as pessoas, tanto mais devem os homens ajudar-se entre si. E isto com nenhuma ofensa de Deus, por cuja providência somos, de certo modo, a isto compelidos.

Afirmo, porém, que se deve abraçar com um só afeto de caridade a todo gênero humano, sem qualquer exceção, porquanto aqui não há nenhuma distinção de bárbaro ou grego, de digno ou indigno, de amigo ou inimigo, visto que devem ser considerados em Deus, não em si mesmos, consideração esta da qual, quando nos desviamos, não surpreende que nos emaranhemos em muitos erros. Consequentemente, se apraz manter a verdadeira linha do amar, devem-se voltar os olhos, em primeiro plano, não para o homem, cuja visão mais frequentemente engendraria ódio que amor, mas para Deus, que manda que o amor que lhe deferimos seja difundido em relação a todos os seres humanos, de sorte que seja este o perpétuo fundamento: seja quem for o homem, deve ele, no entanto, ser amado, já que Deus é amado.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário. 

“O DÉCIMO MANDAMENTO”


“O DÉCIMO MANDAMENTO”

“Não cobiçarás a casa de teu próximo, não cobiçarás a mulher de teu próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma de teu próximo” [Êx 20.17].

O propósito deste mandamento é: visto que Deus quer que a alma toda seja possuída do afeto do amor, de nossas disposições se deve alijar todo desejo contrário à caridade. Portanto, a síntese será que não se nos insinue qualquer pensamento que nos mova o espírito com uma concupiscência danosa e tendente ao detrimento de outrem. A que corresponde o preceito oposto, que tudo quanto concebemos, deliberamos, queremos, intentamos, seja isto associado com o bem e proveito do próximo.

Aqui, porém, segundo parece, surge-nos grande e perplexiva dificuldade. Ora, se com verdade dissemos anteriormente que sob os termos fornicação e furto se coibiam o desejo de fornicar e a intenção de prejudicar e enganar, pode parecer ter sido supérfluo que depois se nos proibisse, em separado, a cobiça dos bens alheios. No entanto, facilmente nos desatará este nó ante a distinção entre intenção e cobiça. Porque, a intenção, como já falamos sobre os mandamentos anteriores, é o consenso deliberado da vontade, quando a concupiscência subjugou a mente; a cobiça pode existir aquém de tal deliberação e assentimento, quando a mente é apenas espicaçada e afagada de objetos vãos e pervertidos.

Portanto, da mesma forma que até aqui o Senhor ordenou que a norma da caridade presida a nossas vontades, a nossos esforços, a nossas ações, assim agora ordena sejam conduzidos à mesma norma os pensamentos de nossa mente, para que não haja nenhum pensamento corrupto e pervertido, que incite a mente em outra direção. Da mesma forma que proibiu que a mente fosse inclinada e induzida à ira, ao ódio, à fornicação, à rapina, à mentira, assim proíbe agora que ela seja sequer incitada a essas transgressões.

Ser cristão debaixo da lei da graça não é vaguear desenfreadamente sem lei, mas estar enxertado em Cristo, por cuja graça está liberado da maldição da lei e por cujo Espírito tem a lei gravada no coração.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 12 de março de 2025

“QUE O VOSSO AMOR AUMENTE MAIS E MAIS”


“QUE O VOSSO AMOR AUMENTE MAIS E MAIS”

“E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a percepção, para aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo" (Fp 1.9,10).

O apóstolo Paulo volta à oração, mencionada rapidamente. Nesse sentido, ele declara a suma daquelas coisas que rogara a Deus em favor deles, para que também aprendessem a orar seguindo o seu exemplo, e para que aspirassem àqueles dons. Pois as verdadeiras conquistas dos cristãos são quando fazem progresso em conhecimento discernimento, e em seguida em amor. Porque, quanto maior for a competência que adquirirmos no conhecimento, tanto mais deve crescer nosso amor. Nesse caso, o significado seria: “Para que vosso amor aumente em conformidade com a medida do conhecimento”. Todo conhecimento significa o que é pleno e completo - não um conhecimento de todas as coisas.

Para aprovardes as coisas excelentes. Temos aqui uma definição de sabedoria cristã - conhecer o que é vantajoso e conveniente -, não torturar a mente com sutilezas vazias e com especulações. Pois o Senhor não deseja que seu povo crente se empregue futilmente em aprender o que é de proveito nenhum.

E serdes sinceros. Esta é a vantagem que derivamos do conhecimento: não que cada um possa habilmente levar em conta seus próprios interesses, mas sim que vivamos em consciência pura diante de Deus.

E inculpáveis. Crisóstomo explica o termo em um sentido ativo - que, visto que Paulo desejava que eles fossem puros e íntegros diante de Deus, assim agora deseja que eles vivam uma vida honrosa diante dos homens, para que não prejudiquem seus semelhantes mediante algum exemplo negativo. Não rejeito esta exposição; em minha opinião, contudo, a significação passiva se ajusta melhor ao contexto. Pois Paulo lhes deseja sabedoria com isto em vista: para que, com passos firmes, seguissem em frente em sua vocação até o Dia de Cristo; como, em contrapartida, ocorre através da ignorância que frequentemente resvalamos nossos pés, tropeçamos e recuamos. Cada um de nós sabe muito bem, pela própria experiência, que Satanás, de tempo em tempo, lança em nosso caminho pedras de tropeço, com vistas ou a deter totalmente nosso curso ou a obstruí-lo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 11 de março de 2025

“QUER POR PRETEXTO, QUER POR VERDADE”


“QUER POR PRETEXTO, QUER POR VERDADE”

“Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp 1.18).

Aqueles que realmente amam a Cristo reconhecem que lhes seria uma desgraça se não se associassem com o apóstolo Paulo, como seus companheiros, enquanto mantinham a causa do evangelho; e devemos agir da mesma maneira, procurando oferecer auxílio, até onde isso seja possível, aos servos de Cristo quando se veem em dificuldades. Observe novamente esta expressão - incumbidos da defesa do evangelho (v.16). Porque, visto que Cristo nos confere tão grande honra, que desculpa teríamos se fôssemos traidores de sua causa; ou, o que se poderá esperar se a trairmos por meio de nosso silêncio, senão que ele, por sua vez, abandonará nossa causa, ele que é nosso único Advogado, Patrono, junto ao Pai? [1Jo 2.1].

Visto que a disposição perversa daqueles de quem Paulo falava poderia diminuir a aceitação da doutrina, ele diz que isto deve ser tido como importante: que eles, não obstante, promoviam a causa do evangelho, não importa qual seja sua disposição. Pois Deus às vezes realiza uma obra admirável por meio de instrumentos perversos e depravados. Consequentemente, ele diz que se alegra com um resultado feliz dessa natureza; porque ele contendia por esta única coisa: ver o reino de Cristo se expandir; justamente como nós, ao ouvirmos o que aquele cão imundo, Petrus Carolus, espalhava a mão cheia as sementes da doutrina pura em Avignon e em outros lugares, demos graças a Deus por ele ter feito uso da mais libertina e indigna vilania para sua própria glória; e neste dia nos alegramos no fato de o evangelho avançar através de muitos que, apesar disso, têm outros propósitos em vista. Mas, ainda que Paulo se regozijasse no avanço do evangelho, contudo, embora tivesse o problema em mãos, ele nunca ordenou tais pessoas como ministros. Devemos, pois, regozijar-nos se Deus realiza algo que é bom pela instrumentalidade dos perversos; mas nem por isso devemos ou pôr tais pessoas no ministério, ou considerá-las como ministros legítimos de Cristo.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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segunda-feira, 10 de março de 2025

“DAR-TE-EI AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS”


DAR-TE-EI AS CHAVES DO REINO DOS CÉUS”

“Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus” (Mt 16.19).

O que devemos compreender quando lemos a promessa que nosso Senhor Jesus fez a Pedro: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus”? Teriam conferido a Pedro o direito de admitir almas no céu? Tal ideia é ilógica, porque esse ofício é uma prerrogativa especial do próprio Jesus Cristo (Ap 1.18). Será, então, que Pedro deveria ter a primazia ou superioridade sobre os demais apóstolos? Não há a menor prova que tal dignidade tivesse sido atribuída a essas palavras de Jesus, na época neo-testamentária; nem há prova de que Pedro tivesse qualquer autoridade ou dignidade superior aos demais apóstolos.

Parece-nos que o verdadeiro sentido dessa promessa feita por Cristo é que Pedro teria o privilégio especial de abrir, pela primeira vez, a porta da salvação tanto aos judeus como aos gentios. E isso cumpriu-se à risca quando ele anunciou o evangelho aos judeus, no dia de Pentecoste, e quando visitou o gentio Cornélio em sua casa (At 2.14-41; 10.1-48).

Em cada ocasião Pedro utilizou as “chaves” e abriu completamente a porta da fé. E, ao que tudo indica, Pedro tinha plena consciência disso, pois afirmou: “Deus me escolheu dentre vós para que, por meu intermédio, ouvissem os gentios a palavra do evangelho e cressem” (At 15.7).

E mais, o que devemos entender quando lemos: “o que ligares na terra, terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra, terá sido desligado nos céus”? Teria o apóstolo recebido algum poder de perdoar pecados e absolver os pecadores? Tal noção tão-somente deprecia o ofício especial de Jesus Cristo como nosso grande Sumo Sacerdote. Jamais encontramos Pedro, ou qualquer outro apóstolo, exercendo algum poder de perdoar pecados. Eles sempre encaminhavam as pessoas a Cristo, para o perdão.

O verdadeiro significado dessa promessa parece ser que Pedro e os demais apóstolos seriam especialmente comissionados para ensinar o caminho da salvação, com autoridade. Assim como os sacerdotes do Velho Testamento declaravam autoritativamente quem havia sido curado da lepra, também os apóstolos foram nomeados para declarar e pronunciar com autoridade, quem havia sido perdoado de seus pecados. Além disso, eles seriam especialmente inspirados para estabelecer regras e regulamentos para orientação da igreja. Algumas coisas deviam ser “ligadas”, ou proibidas, e outras deviam ser “desligadas”, ou permitidas. A decisão do concílio de Jerusalém, de que os gentios não precisavam ser circuncidados, foi um exemplo do exercício desse poder (At 15.19). Mas essa foi uma comissão especialmente restrita aos apóstolos. Eles não tiveram sucessores, essa tarefa começou e terminou com eles.

Deus nos abençoe!

J.C.Ryle (1816-1900).

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terça-feira, 4 de março de 2025

“TANTO O QUERER COMO O REALIZAR”


“TANTO O QUERER COMO O REALIZAR”

“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13).

Este é o verdadeiro mecanismo que lança por terra toda arrogância - é a espada que põe fim a todo orgulho, quando aprendemos que somos meramente nada, e nada podemos fazer, a não ser pela graça de Deus somente. Quero dizer a graça supernatural que procede do espírito de regeneração. Pois, considerados como meros homens, “só existimos, vivemos e nos movemos em Deus” [At 17.28]. Aqui, porém, Paulo raciocina quanto a um tipo de movimento diferente daquele universal. Observemos agora quanto ele atribui a Deus e quanto ele deixa para nós.

Há, em qualquer ação, dois departamentos principais - a inclinação e o poder de execução. Ele atribui totalmente a Deus ambos esses elementos; o que mais nos resta como base de vangloria? Nem mesmo há alguma razão para se duvidar de que esta divisão tem a mesma força como se Paulo expressasse tudo numa única palavra; pois a inclinação é a obra; a realização dela é o topo do edifício levado à completação. Ele, pois, disse muito mais do que se tivesse dito que Deus é o Autor do “começo” e do “fim”. Pois, nesse caso, os sofistas teriam alegado, astuciosamente, que o “meio” foi deixado aos homens. Mas como é possível que descubram aquilo que, em algum grau, cabe somente a nós [realizar]? Trabalham arduamente em suas escolas a fim de conciliar o livre-arbítrio com a graça de Deus - [livre-arbítrio], quero dizer, como o concebem - a ponto de poder surgir por força própria e que tem um poder peculiar e distinto pelo qual ele pode cooperar com a graça de Deus. Não rejeito o nome, e sim a coisa em si. Para que o livre--arbítrio se harmonize com a graça, eles os separam de tal maneira que Deus restaura em nós uma livre escolha, para que tenhamos em nosso próprio poder o querer corretamente. E assim eles reconhecem haver recebido de Deus o poder de querer corretamente, porém designam ao homem uma inclinação boa. Entretanto, Paulo declara que esta é uma obra de Deus, sem qualquer reserva. Pois ele não diz que nossos corações são simplesmente convertidos ou despertados, ou que a falta de firmeza de [alguém com] boa vontade é auxiliada, mas que uma inclinação positiva é uma obra inteiramente de Deus.

Ora, na calúnia que eles apresentam contra nós - de que enxergamos os homens como pedras quando ensinamos que nada possuem de bom, exceto o que procede da mais pura graça, agem de maneira despudorada. Pois reconhecemos que temos da natureza uma inclinação, porém, visto ser ela depravada em decorrência do pecado, ela só começa a ser boa quando é renovada por Deus. Tampouco dizemos que uma pessoa faz algo bom sem o querer, porém ele só faz isso quando sua inclinação é regulada pelo Espírito de Deus. Daí, no que diz respeito a este ponto, vemos que todo o louvor é atribuído a Deus, e que o que os sofistas nos ensinam é frívolo - que a graça nos é oferecida e posta, por assim dizer, em nosso meio para que a abracemos se a quisermos. Porque, se Deus não operasse em nós eficazmente, não se poderia dizer que ele produz em nós uma inclinação positiva ou boa. Quanto ao segundo departamento, devemos adotar o mesmo ponto de vista. “Deus”, diz ele, “é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar.” Portanto, ele leva à perfeição aquelas disposições piedosas que já implantou em nós, para que não sejamos improdutivos, segundo promete por meio de Ezequiel: “Para que andem em meus estatutos, e guardem minhas ordenanças e as cumpram; e eles serão meu povo e eu serei seu Deus” [Ez 11.20]. Disto inferimos que a perseverança também provém de seu dom gratuito.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

*Visite a Igreja Presbiteriana Silva Jardim - Curitiba(PR).
Av. Silva Jardim, 4155 – Seminário.