"SER CRISTÃO É TER MENTE E CORAÇÃO DE CRISTO".



quinta-feira, 2 de novembro de 2023

CD Boas Palavras - Pr. Josué Rodrigues

CD Boas Palavras - Pr. Josué Rodrigues

“De boas palavras transborda o meu coração. Ao Rei consagro o que compus; a minha língua é como a pena de habilidoso escritor” (Sl 45.1)


Deus nos abençoe!

“GRAÇA A VÓS OUTROS E PAZ”


“GRAÇA A VÓS OUTROS E PAZ”

“Graça a vós outros e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do [nosso] Senhor Jesus Cristo, o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados, para nos desarraigar deste mundo perverso, segundo a vontade de nosso Deus e Pai, a quem seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém!” (Gl 1.3-5).

Graça a vós e paz. Essa forma de saudação ocorre em outras epístolas. Sou da opinião de que o apóstolo Paulo deseja que os gálatas desfrutem da amizade com Deus e, com ela, de todas as boas coisas. Pois todo o gênero de prosperidade nos emana do favor de Deus. Paulo apresenta suas orações tanto a Cristo quando ao Pai, porquanto fora de Cristo não pode haver nem graça e nem qualquer bom êxito.

O apóstolo começa enaltecendo a graça de Cristo, com o fim de chamar os gálatas de volta para ele e para perseverar nele. Porque, se porventura tivessem realmente apreciado esta bênção redentiva, jamais se haveriam desviado para observâncias estranhas. Aquele que conhece a Cristo certamente se apegará a ele, o abraçará com ambos os braços, se sentirá completamente acolhido nele e nada desejará além dele. O melhor antídoto para purificar nossas mentes de qualquer gênero de erro ou superstição é guardar na lembrança o que Cristo representa para nós e o fato de que ele nos tem conduzido.

As palavras - “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados” - são muito importantes. O que Paulo desejava dizer aos gálatas, francamente, é que a expiação dos pecados e a perfeita justiça não devem ser buscadas em qualquer outra fonte além de Cristo. Pois ele se ofereceu ao Pai em sacrifício. E, ele foi uma oferenda tal que não devemos tentar equipará-la com quaisquer outras satisfações. Tão gloriosa é esta redenção, que devemos olhar para ela fascinados e maravilhados. Além do mais, o que Paulo aqui atribui a Cristo, em outras partes da Escritura é referido a Deus, o Pai. E tal coisa se adequa bem a ambos; pois, de um lado, o Pai, por seu eterno propósito, decretou esta expiação, e nela deu tal prova de seu amor para conosco que não poupou ao seu Unigênito Filho, mas o entregou por todos nós. E Cristo, por outro lado, se ofereceu em sacrifício para reconciliar-nos com Deus. Daqui, segue-se que sua morte é a satisfação pelos [nossos] pecados.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“APÓSTOLO, NÃO DA PARTE DE HOMENS”

 

“APÓSTOLO, NÃO DA PARTE DE HOMENS”

“Paulo, apóstolo, não da parte de homens, nem por intermédio de homem algum, mas por Jesus Cristo e por Deus Pai, que o ressuscitou dentre os mortos” (Gl  1.1).

Em suas saudações, o apóstolo Paulo tinha por costume reivindicar o título de apóstolo com o fim de corroborar seu ensino com a autoridade inerente ao seu ofício. Essa autoridade depende, não do critério ou opinião de homens, mas exclusivamente da vocação divina. Devemos notar que ele diz que não fora chamado da parte de homens, nem por intermédio de homem algum. Com isso, ele não pretendia excluir inteiramente a vocação da Igreja, mas simplesmente mostrar que seu apostolado repousava numa escolha prévia e mais excelente.

Paulo também declara que os Autores de seu apostolado foram Deus o Pai e Jesus Cristo. Cristo é evocado em primeiro, porque seu papel é enviar, e o nosso é sermos embaixadores dele. Mas, para tornar a afirmação mais completa, o Pai é também mencionado, como se quisesse dizer: “Se porventura existe alguém para quem a majestade de Cristo é inteiramente insuficiente, então que o mesmo saiba que meu ofício foi também recebido de Deus o Pai”.

A sua menção da ressurreição de Cristo por Deus o Pai é pertinente a este contexto, porquanto esse é o princípio do reino de Cristo. Censuravam Paulo por ele não ter tratado com Cristo face a face enquanto ele estivera na terra. Mas o apóstolo afirma o contrário, dizendo que, assim como Cristo fora glorificado por sua ressurreição, assim também ele igualmente exerce seu poder no governo de sua Igreja. A vocação de Paulo, pois, tem ainda mais honra do que se Cristo, quando ainda era um mortal, o houvera ordenado. E este fato merece atenção. Pois Paulo insinua que seus detratores estavam de fato atacando maliciosamente o maravilhoso poder de Deus que fora demonstrado na ressurreição de Cristo. Pois o mesmo Pai celestial que ressuscitara a Cristo dentre os mortos também designara a Paulo como arauto dessa sua portentosa obra.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“EIS QUE VOS DIGO UM MISTÉRIO”


EIS QUE VOS DIGO UM MISTÉRIO”

“Isto afirmo, irmãos, que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção. Eis que vos digo um mistério: nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos” (1Co 15.50,51).

Ao chegar a este ponto, o argumento do apóstolo Paulo consistiu de duas partes. Ele demonstrou, antes de tudo, que haverá ressureição dos mortos; e, em segundo lugar, qual será a natureza da ressurreição. Mas agora ele prossegue apresentando uma descrição mais completa de como ela se dará, chamando sua descrição de mistério, visto que não havia a mesma clareza sobre esta, como no caso dos outros aspetos, na ausência, até aqui, de qualquer revelação de Deus sobre o assunto. Paulo procede assim a fim de levá-los a prestar mais atenção ao que tem a dizer. Ao fazer uso do termo “mistério”, ele está a adverti-los de que estão se tornando familiarizados com algo sobre o qual não só não sabem nada, mas também que deve ser considerado como parte dos segredos celestiais de Deus.

Nem todos dormiremos. Não há variante nos manuscritos gregos, mas há três redações diferentes no latim. A primeira é: “Na verdade todos morreremos, mas nem todos seremos transformados”. A segunda é: “Na verdade todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados”. A terceira é: “Certamente, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados”. Minha conjectura é que estas diferenças são oriundas do fato de que alguns revisores, sendo um tanto obtusos, e achando a redação genuína um tanto inconsistente, tomaram a iniciativa de substituí-la pela que entendiam se a mais provável. Porque, em face da dificuldade, parecia-lhes inconveniente que “nem todos morreremos”, quando Hebreus 9.27 afirma que “aos homens está determinado morrerem uma vez”. Portanto, o alteraram para que significasse “nem todos seremos transformados”, e ainda que “todos ressuscitaremos”, ou “todos morreremos”, e ser transformados, para eles, significa a glória que somente os filhos de Deus receberão. Porém, à luz do contexto, podemos decidir qual é a redação genuína.

O propósito de Paulo é explicar o que já havia dito, ou seja, que seremos feitos semelhantes a Cristo, porque “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus”. Mas isto suscita a seguinte pergunta: qual, pois, será o destino daqueles que estiverem vivos quando o Dia do Senhor chegar? Paulo responde que, embora não morram, não obstante serão todos renovados, para que a mortalidade e a corrupção sejam destruídas. Notemos, porém, que ele está falando somente dos crentes; porque, ainda que haverá ressurreição, e até mesmo transformação dos incrédulos, todavia, diante do fato de que são passados em silêncio aqui, devemos entender tudo o que ficou dito como aplicando-se exclusivamente aos eleitos. Agora percebemos o quanto esta frase se ajusta à precedente, porque, havendo dito que levaremos a imagem de Cristo, ele agora esclarece que tal se dará quando formos transformados, para que o que é mortal seja absorvido pela vida, e também mostra que não se fará nenhuma diferença nesta transformação, que a vinda de Cristo alcançará alguns que ainda estarão vivos naquele tempo.

Mas ainda temos que encontrar uma solução para o problema de que “está determinado que todos os homens morram”; e de fato esta não é uma tarefa difícil. Visto que a transformação não pode acontecer sem a destruição da natureza que existia previamente, e tal transformação é corretamente considerada como uma espécie de morte; porém, visto que não há separação entre a alma e corpo, esta não deve ser imaginada como sendo uma morte ordinária. Será morte no sentido em que nossa natureza corruptível será destruída; não será adormecimento, visto que a alma não se separará do corpo; mas haverá uma súbita transição de nossa natureza corruptível para a bem-aventurada imortalidade.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quinta-feira, 19 de outubro de 2023

“CONSIDERAI-VOS MORTOS PARA O PECADO”


“CONSIDERAI-VOS MORTOS PARA O PECADO”

“Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus” (Rm 6.11).

O apóstolo Paulo agora adiciona a definição de sua analogia. Ele aplica as duas afirmações concernentes ao fato de Cristo morrer para o pecado uma vez por todas e viver eternamente para Deus (v.10), e nos instrui em como devemos agora morrer enquanto vivemos, ou seja: pela renúncia do pecado. Entretanto, ele não omite a outra parte da analogia, isto é, como vamos viver depois de termos uma vez para sempre abraçado a graça de Cristo mediante a fé. Embora a mortificação de nossa carne esteja apenas começando em nós, todavia a vida de pecado está destruída por este mesmo expediente, de modo que a nossa renovação espiritual, a qual é de caráter divino, venha a continuar para sempre. Se Cristo por fim não destruísse o pecado em nós, então sua graça seria carente de estabilidade e continuidade.

Portanto, o significado desta passagem é o seguinte: “Eis a posição que deves assumir, em teu caso: Assim como Cristo, uma vez por todas, morreu para destruir o pecado, também deves morrer uma vez por todas a fim de que, no futuro, cesses de pecar. De fato, deves progredir diariamente na mortificação de tua carne, a qual já teve início em ti, até que o pecado seja de vez erradicado. Assim como Cristo ressuscitou para uma vida incorruptível, também deves ser regenerado pela graça de Deus, a fim de seres guiado por toda a tua vida em santidade e justiça, visto que o poder do Espírito Santo, por meio do qual foste renovado, é eterno, e florescerá para sempre”.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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quarta-feira, 18 de outubro de 2023

“QUANTO A VIVER, VIVE PARA DEUS”


“QUANTO A VIVER, VIVE PARA DEUS”

“Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus” (Rm 6.10).

Quer leiamos com Deus ou em Deus, o sentido permanece o mesmo. O apóstolo Paulo está mostrando que Cristo agora possui, no reino imortal e incorruptível de Deus, uma vida não mais sujeita à mortalidade. Um tipo desta vida imortal evidencia-se na regeneração dos piedosos. Devemos reter em nossa mente, aqui, a palavra semelhança. Paulo não diz que vivemos no céu, como Cristo vive, mas ele faz com que a nova vida que vivemos na terra, em consequência de nossa regeneração, seja igual à sua vida celestial. Sua afirmação de que morremos para o pecado em consequência do exemplo de Cristo, não significa que nossa morte seja exatamente como a dele, pois morremos para o pecado quando o pecado morre em nós. No caso de Cristo, existe uma diferença, pois foi através de sua morte que ele destruiu o pecado. O apóstolo declarou anteriormente que cremos que seremos participantes da vida de Cristo (v.8). A palavra crer claramente mostra que ele está falando da graça de Cristo. Estivesse ele apenas nos advertindo em relação ao nosso dever, então terá expressado assim: “Visto que morremos com Cristo, devemos, então, viver uma vida semelhante à dele”. O verbo crer denota que o apóstolo está aqui tratando da doutrina da , que é encontrada nas promessas, como se dissesse: “Os crentes devem estar seguros de que sua mortificação na carne, através dos benefícios de Cristo, é tal que ele mesmo manterá a novidade de vida deles até ao fim”. O tempo futuro do verbo viver não se refere à ressurreição final, mas simplesmente denota o curso contínuo de nossa vida em Cristo, enquanto formos peregrinos na terra.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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"PARA SEMPRE MORREU PARA O PECADO”


“PARA SEMPRE MORREU PARA O PECADO”

“Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus” (Rm 6.10).

O apóstolo Paulo afirmara que, em consequência do exemplo de Cristo, ficamos para sempre livres do jugo da morte (2Tm 1.10). Ele agora aplica sua afirmação, declarando que não estamos mais sujeitos à tirania do pecado. Ele prova isto a partir da causa final da morte de Cristo, pois ele morreu com o fim de destruir o pecado. Devemos notar também a referência a Cristo nesta forma de expressão. Paulo não afirma estar morto para o pecado com o propósito de não mais cometê-lo - como diríamos em nosso próprio caso -, mas porque ele morreu em relação ao pecado, de modo que, ao constituir-se um resgate, ele aniquilou o poder do pecado. O apóstolo diz que Cristo morreu uma única vez [Hb 10.14], não só porque tenha ele santificado os crentes para sempre pela redenção eterna que conquistou por sua única oferta, e porque consumou a purificação dos pecados deles por meio de seu sangue, mas também com o propósito de estabelecer a semelhança comum entre nós e o Redentor. Ainda que a morte espiritual faça contínuo progresso dentro de nós, todavia pode-se propriamente dizer que morremos uma vez, a saber: quando Cristo nos reconcilia com seu Pai por meio de seu sangue, e também nos regenera concomitantemente pelo poder de seu Espírito,

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“QUEM MORREU ESTÁ JUSTIFICADO DO PECADO”


“QUEM MORREU ESTÁ JUSTIFICADO DO PECADO”

“Porquanto quem morreu está justificado do pecado” (Rm 6.7).

Este é um argumento derivado da natureza inerente ou efeito da morte. Se a morte destrói todas as ações da vida, então nós, que já morremos para o pecado, devemos cessar com aquelas ações que o pecado exerce durante a trajetória de sua existência [terrena]. O termo justificado, aqui, significa libertado ou recuperado da escravidão. Assim como o prisioneiro que é absolvido da sentença do juiz, se vê livre de vínculo de sua acusação, também a morte, livrando-nos desta presente vida, nos faz livres de todas as nossas responsabilidades.

Além do mais, embora este seja um exemplo que não pode ser encontrado em parte alguma entre os homens, contudo não há razão para considerar esta afirmação como uma especulação fútil, nem razão para desespero por não nos acharmos no número daqueles que crucificaram completamente sua carne. Esta obra divina não se completou no momento em que teve início em nós, mas se desenvolve gradualmente, e diariamente avança um pouco mais até chegar à sua plena consolidação. Podemos sumariar este ensino do apóstolo Paulo da seguinte forma: “Se porventura és cristão, então deves revelar em ti mesmo pelo menos um sinal de tua comunhão na morte de Cristo; e o fruto disto consiste em que tua carne será crucificada juntamente com todos os desejos dela. Não deves presumir, contudo, que esta comunhão não é real só porque ainda encontras em ti traços de carnalidade em plena atividade. Mas é forçoso que continuamente encontres também traços de crescimento em tua comunhão na morte de Cristo, até que alcances o alvo final”. Já é suficiente que o crente sinta que sua carne está sendo continuamente mortificada, e ela não avança mais enquanto o Espírito Santo tem sob seu controle o miserável reinado exercido por ela [carne]. Há ainda outra comunhão na morte de Cristo, da qual o apóstolo fala com frequência, como em 2Co 4.10-18, a saber: o suportar a cruz, ação esta seguida de nossa participação na vida eterna.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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terça-feira, 17 de outubro de 2023

“SENHOR TANTO DE MORTOS COMO DE VIVOS”


“SENHOR TANTO DE MORTOS COMO DE VIVOS”

“Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (Rm 14.9).

Com o fim de provar que devemos viver e morrer para o Senhor, o apóstolo Paulo disse que, quer vivamos quer morramos, estamos no poder de Cristo. Ele agora mostra como corretamente Cristo envia este poder sobre nós, visto que nos adquirira por um preço muitíssimo elevado. Ao suportar a morte para que fôssemos salvos, ele adquiriu para si mesmo um domínio que jamais poderá ser destruído pela morte; e, ao ressuscitar, ele tomou posse de toda a nossa vida como sua propriedade particular. Por sua morte e ressurreição, portanto, ele nos capacitou para servir a glória de seu nome tanto na morte quanto na vida. O termo ressurgiu significa que um novo estado de vida foi conquistado por ele em sua ressurreição. E visto que a vida que ele agora vive não está sujeita a mudança, então este domínio que ele exerce sobre nós é igualmente eterno.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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“VIVAMOS OU MORRAMOS, SOMOS DO SENHOR”


VIVAMOS OU MORRAMOS, SOMOS DO SENHOR”

“Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.7,8).

Não é necessário que fiquemos surpresos pelo fato de as ações pessoais de nossa vida devam estar relacionadas com o Senhor, visto que a vida mesma deve ser totalmente devotada à sua glória. A vida de um cristão só está propriamente ordenada quando ela visa à vontade divina como seu objetivo máximo. Mas se todas as nossas ações não se acham relacionadas com sua vontade, é completamente errôneo evitar fazer algo que consideramos desagradá-lo, quando, deveras, o que somos não nos convence de que o agradamos.

Se vivemos, para o Senhor vivemos. Isto, aqui, não tem o mesmo sentido de Romanos 6.11, ou seja: vivos para Deus em Cristo Jesus, por meio de seu Espírito, mas significa ser conformado à sua vontade e prazer, bem como para ordenar todas as coisas para sua glória. Nem devemos somente viver para o Senhor, mas também morrer para o Senhor, ou seja: tanto nossa morte quanto nossa vida devem ser entregues à sua vontade. O apóstolo Paulo nos apresenta a melhor das razões para isto, ou seja: quer, pois, vivamos quer morramos, somos do Senhor. Deduz-se daqui que Deus detém o poder sobre nossa vida e nossa morte. A aplicabilidade desta doutrina é muitíssimo ampla. Deus reivindica tal poder sobre a vida e a morte, para que cada um de nós suporte sua própria condição na vida como um jugo a ele imposto por Deus. É precisamente para isso que Deus designa a cada pessoa sua posição e curso na vida. E assim somos não só proibidos de tentar fazer algo precipitadamente, sem uma ordem expressa de Deus, mas somos também convocados a exercer paciência em todo sofrimento e perda. Se, pois, de vez em quando a carne se desvencilha diante da adversidade, lembremo-nos de que aquele que não é livre para dispor de si mesmo perverte a lei e a ordem se porventura não depende da vontade de seu Senhor. Assim também descobrimos a regra pela qual aprendemos a viver e a morrer, ou seja: se ele fortalece nossa vida em meio a contínua luta e desfalecimento, não devemos ansiar pela morte antes do tempo. Contudo, se porventura de súbito nos chama no vigor de nossa vida, então que estejamos sempre prontos para nossa partida.

Deus nos abençoe!

João Calvino (1509-1564).

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